domingo, 9 de outubro de 2016

Argumentos que não posso mais ouvir


Não é por mal, mas há alguns argumentos que já não consigo ouvir. Não ajudam a entender os assuntos ou a clarificar as coisas em relação às quais não estamos de acordo. Refiro-me à discussão despoletada pela minha rejeição da petição para mudar o nome do Aeroporto Internacional de Maputo (que já foi de “Mavalane” e até estava bem assim). Compreendo que algumas pessoas não se sintam bem com a minha reacção, sobretudo tendo em conta que está em causa uma figura incontornável da nossa história política sobre a qual, entre muitos factos, existem também muitos mitos. Vou expor os argumentos que me incomodam para ver se a discussão é mais útil para todos nós.

Antes de o fazer, porém, volto a dizer algo que sempre disse em todos os momentos que critiquei esta idolatria de Samora Machel. Ele foi um homem extraordinário e teve um papel fundamental no processo de libertação de Moçambique. Ele e a sua geração, não importam as suas falhas e excessos, ocupam por mérito próprio um lugar especial no nosso panteão. Mais uma vez: as reticências que tenho não põem em causa os feitos históricos destes indivíduos. Contextualizam-nos. E já agora, o facto de ser fã confesso de Guebas não tem nada a ver com a minha apreciação da figura de Samora Machel simplesmente porque Guebas, Chissano e todos os outros fizeram parte do regime representado por Samora e, nem devia ser necessário dizer isto, porque a admiração que tenho por seja quem for nunca me impediu de criticar o que não considero bom. Digo isto porque volta e meia sou confrontado com exigências de pessoas que nunca, em toda a sua actuação no Facebook ou fora, foram capazes de ser equilibrados no seu posicionamento a também criticar não-sei-quem-mais.

Mais um reparo antes de abordar a lista dos argumentos que me incomodam. Muita gente, por sinal jovem, costuma reagir a estas discussões dizendo que não sabe como foram os tempos em discussão, que não aprendeu na escola, que não há livros sobre a matéria, que depende dos e confia nos relatos dos mais velhos. Isto já deixou de ser irritante para ser vergonhoso. Se você não se informou sobre um assunto, porque cargas de água pensa que está habilitado a se posicionar? Se não ouviu versões diferentes, e as avaliou, como é que pode ter uma opinião sobre um assunto? E se o assunto o interessa ao ponto de achar que pode intervir numa discussão, porque não se informa primeiro? Se para formar opinião depende do que lhe ensinaram (ou não) na escola, porque anda por aqui a nos fazer perder o nosso tempo? Discuta lá na escola! E não é desculpa dizer que não há nada escrito. Se não há nada escrito (que até nem é verdade), não emita opinião. Fique calado ou faça perguntas!

O primeiro argumento que me incomoda é o do contexto. Naquele tempo as coisas eram assim, não podemos ser anacrónicos na avaliação de pessoas que agiram naquele tempo e contexto, diz-se por aí. Não podemos usar os padrões morais e éticos de hoje para julgar o que pessoas fizeram num contexto em que as coisas que hoje nos incomodam não incomodavam a ninguém na altura. Este é um argumento horrível. Como no tempo colonial era normal castigar o africano, nós hoje não podemos julgar os colonialistas. Como era normal escravizar africanos, infligi-los maus tratos nas plantações, nós hoje não temos o direito de criticar isso. Foi o contexto. Isto não faz sentido. A questão aqui não é o anacronismo. A questão é a posição de princípio que cada um de nós defende. Se eu defendo o princípio segundo o qual o respeito pela pessoa humana é fundamental, nao posso aceitar como normal e justificado que alguém, independentemente das circunstâncias, tenha violado esse princípio. Não posso dizer “Hitler foi boa pessoa porque construiu auto-estradas, pena ter massacrado os judeus, mas bom, era o tempo”. Isso é falta de retidão ética, não é ser sensível ao contexto.

Está ligado a este primeiro argumento um outro, segundo o qual o que foi feito naquela altura era o único que poderia ter sido feito naquele contexto. Este argumento é apresentado de várias maneiras. Uma consiste em dizer que tendo o governo da altura recebido apoio duma das partes do conflito da guerra-fria, tinha que fazer a sua vontade; outra consiste em dizer que a necessidade de defender a soberania do país dos ataques dos seus inimigos internos e externos tornava esse modo de actuação necessário; uma outra apela ainda aos níveis de literacia para dizer que os moçambicanos na altura não reuniam as condições necessárias para saberem usufruir de formas mais civilizadas de tratamento pelo seu próprio governo. Nem sei porque tenho de mostrar o que está errado com este argumento. Juro palavra de honra que não sei. A questão, independentemente do contexto, é se aceitamos as práticas ou não. Se o marido volta à casa bêbado que nem uma esponja, bate na mulher e quebra-lhe as costelas, ela não vai reagir dizendo, “coitado, estava bêbado, não sabia o que estava a fazer, é assim que se comportam pessoas quando estão bêbadas”. Nem ela, nem nós vamos dizer isso. Vamos continuar a condenar o acto e se formos pessoas de princípios vamos dizer que um marido que não é capaz de resistir a essas circunstâncias, não pode ser bom marido. Numa discussão com gente racional esse seria o ponto final. Mas na Pérola do Índico ainda é preciso acrescentar que nenhuma destas coisas foi dita pelo próprio Machel. Alguém que o quer defender arrola estes argumentos para proteger os sentimentos que nutre por ele. Cada uma das maneiras apresentadas seria fácil de refutar com dados concretos.

O terceiro argumento é algo complicado porque tem duas ramificações. Ele consiste na ideia segundo a qual Samora Machel teria sido um homem íntegro, incorruptível e hostil aos corruptos. Desse argumento conclui-se, por um lado, que o que faz dele um ídolo a seguir é o facto de alguns dos seus companheiros de então se terem transformado em grandes corruptos e, por outro lado, que isso documenta o seu compromisso com a causa do povo. Mais confusão lógica do que isto não é possível. Primeiro, alguns dos grandes déspostas deste mundo tiveram esse tipo de qualidades: Salazar e Hitler, só para mencionar dois. Com isto não quero dizer que por causa disso mesmo não devemos admirar o facto de Samora ter sido assim. Não. Por acaso, até já ouvi de fonte que com ele trabalhou que ele nem vivia do seu salário. Ele pedia para que se depositasse o seu salário numa conta do banco de solidariedade! Mas lá está. Ele não vivia numa palhota, não andava a pé, descalço e esfarrapado, os seus filhos não iam à pé à escola, não estudavam apenas dentro do país, etc. Ele vivia dentro dum sistema político que fazia de Moçambique sua propriedade quase privada.

E não só. Como alguns dos seus companheiros de então viraram corruptos (conforme se diz) é igualmente plausível que ele também, nestas novas circunstâncias, virasse corrupto. Ninguém sabe. Insistir que por tudo quanto ele foi em vida dificilmente se tornaria corrupto é fazer um apelo à ignorância. De resto, uma boa parte do que chamamos corrupção encontra a sua lógica numa atitude típica da Frelimo gloriosa de pensar que o que é bom para si é bom para todo o país. Não sei como Machel poderia escapar a essa lógica sem deixar de ser ele. Mas, repito, pura especulação. A pior parte do argumento é, contudo, aquela que parte do princípio de que por ele não ter sido corrupto no sentido corrente do termo ele era pelo bem-estar do povo. Não sei onde as pessoas vão buscar esta ligação. Parece-me igualmente plausível supor que ele não fosse corrupto por causa do seu compromisso com o marxismo, mas esse compromisso – atenção por favor – não significa necessariamente que ele era pelo bem-estar do povo. A não ser que a gente parta do princípio de que só marxistas é que são pelo bem do povo, algo que alguns indignados profissionais parecem acreditar religiosamente. Uma pessoa pode ser marxista por gostar do poder e por querer ditar a vida dos outros.

O quarto argumento é demagógico. Como ele fez coisas das quais muitos de nós beneficiamos, ele foi necessariamente boa pessoa. Sem o querer comparar com Hitler, é como dizer que pelo facto de ele ter melhorado a vida dos alemães, estes não podem condenar o que ele fez aos judeus – ou o facto de ter empurrado o país à guerra – porque beneficiaram. Não faz sentido. Eu próprio reconheço que devo a minha nacionalidade (moçambicana) e a possibilidade de estudar às opções tomadas pela Frelimo. Mas nada disso me impede de criticar o que não foi bom, nem de me distanciar daqueles aspectos da sua actuação que entram em conflito com os meus princípios. Não tenho como devolver a minha nacionalidade ou os meus estudos para recomeçar sem nenhuma dívida com Samora. Na verdade, distanciando-me dos excessos honro os ideais pelos quais Samora e tantos outros lutaram e morreram. Nenhum desses ideais consistiu na falta de respeito à pessoa humana, na privação de liberdade, no medo, na obediência cega, tudo, coisas que vivemos no tempo da Frelimo gloriosa.

O último argumento (por enquanto) é circular. Diz-se que devemos resgatar Samora para moralizar a sociedade (ou para dar uma visão ao país). Aquilo que deve ser descrito, analisado e discutido é dado por adquirido, nomeadamente se ele de facto tinha essa moral ou essa visão. Havia um projecto de transformação socialista do país que excluiu muitos moçambicanos, impôs a visão dum grupo sobre o resto do país, justificou a violação sistemática de direitos humanos e não teve nenhuma resposta convincente à rebelião financiada a partir do exterior, mas que se aproveitou do descontentamento interno. Era uma visão sem dúvidas. Era também uma moral, uma moral assente na legitimidade dos fins que justificam qualquer meio e na supremacia natural dum projecto político determinado por um grupo de pessoas sem a participação da maioria do povo. É essa visão e essa moral que queremos resgatar? As pessoas que falam de visão e moral sabem do que estão a falar? Ou só papagueiam coisas? Tudo que ouvi Samora Machel a dizer (ou tudo o que li da sua lavra) era hostil ao tipo de sistema político e económico que temos agora. Resgatá-lo significa fazer o quê mesmo? Fico puto da vida quando vejo este tipo de coisas a serem tratadas com ar grave e solene em conferências em universidades públicas. Este pessoal é mesmo sério? Tenho-me perguntado.

Para fechar. Muitos não se sentem bem com a crítica a Samora por duas razões distintas. Uns celebram Samora para se distanciarem dos actuais governantes. Outros celebram-no por fidelidade ao partido Frelimo. Quem critica Samora atenta contra estas duas motivações. Para cada uma delas tenho resposta. Primeiro, se a minha crítica for coerente e fundada, ela não precisa de celebrar coisas problemáticas para fazer sentido. Ela tem que ser coerente. Só ganha coerência se estiver a falar para algum princípio claro que toda a gente pode reconhecer independentemente do seu posicionamento político. Não preciso dum Samora mítico para criticar o que Guebuza fez mal. Segundo, a fidelidade a um partido não se manifesta por uma atitude acrítica. Se alguém milita num partido, ou simpatiza com ele (que é o meu caso em relação à Frelimo), fá-lo por observação de algum princípio ou dum conjunto de princípios. Esses princípios são o meu elo de ligação com o partido. A minha fidelidade para com o partido depende da sua capacidade de estar à altura desses princípios. Devo criticá-lo se não estiver. E se não pode estar, vou retirar o meu apoio.

Simpatizo com a Frelimo por tudo quanto ela significou para o projecto de nação moçambicana. Não consigo reconhecer nos outros partidos moçambicanos (com a ligeira excepçao do MDM, infelizmente refém dos seus medos em relação à Renamo e ressentimentos em relação à Frelimo) o mesmo compromisso. Reconhecer que este partido teve um período negro da sua história não é rejeitar o projecto que ele continua a representar. É reafirmar esse projecto. E esse projecto não se reafirma celebrando Samora Machel, pois para mim como simpatizante da Frelimo a fase da história que ele representa é simplesmente um grande embaraço e uma vergonha. O projecto reafirma-se com o distanciamento crítico sem negar a esses actores o lugar que merecem na nossa história.

Fico com dó das pessoas que colocam fotos desse sujeito nos seus perfis. A história do país não lhes diz patavina.


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15 comentários
Comentários

Juma Aiuba Pois eh! Ai esta. Ser orgulhosamente moçambicano eh religião. Tem tabus e pecados imperdoáveis. E Samora parece eh o Cristo. Você eh obrigado a esquecer e a não questionar o chamboco e os fuzilamentos públicos para garantir o paraíso. So olho!

Elisio Macamo cristo, deus, fiel e papa, tudo ao mesmo tempo.


Noe Nhancale Nos vivemos num país tão sofrido que precisa de idolos para servir de bálsamo, julgo que Samora e idolatrado mais pelo demérito dos seus sucessores que seus próprios méritos!


Elisio Macamo não concordo. que demérito? moçambique esteve melhor naquela altura do que agora? come on! com bichas, guerra, censura, etc.? ainda se dissesse que ele é idolatrado por preguiça de articular melhor a crítica aos sucessores... mas demérito? francamente.

Lito Elio O que ninguém quer dizer mas todo o mundo sabe é que Samora Machel é idolatrado não pelos feitos mas pelos valores que defendia. Agora há que entender que as perspetivas de quem o idólatra não são necessariamente as mesmas de quem o diaboliza. Provavelmente a perspetiva do Sr. Professor é material e a dos outros, os que são a favor desse culto a personalidade de Samora seja em termos dos valores imateriais

Elisio Macamo que valores defendia ele?

Lito Elio A honestidade do servidor público que se manifestava em forma da sua aparente alergia à corrupção, a igualidade de oportunidades (Com a massificação do acesso à educação, aos serviços da saude, e até o sistema de abastecimento de alimentos em tempos crise fosse uma forma de dar oportunidades aqueles de outra forma não a teriam. São só alguns exemplos

Elisio Macamo francamente. será por isso que transformou o tesouro público na fonte inesgotável de financiamento de ideias extravagantes do partido? será por isso que essa igualdade de oportunidades se manifestava através da submissão da vontade individual aos desígnios duma minoria que sabia o que era bom para os outros? será por isso que os dirigentes tinham lojas especiais onde tinham de tudo? será por isso que se reservava o direito de insultar a quem quisesse? será por isso que re-introduziu o chamboco colonial? será por isso que mandou executar em praça pública? será por isso que permitiu que o seu número dois mandasse prender jovens na rua na famosa "operação tira camisa" na beira? sinceramente, não sei de que valores fala e de que machel fala. que respeito pode um líder ter pelo povo quando só o aceita como fazendo parte do povo se se submeter à sua vontade? outras coisas.

Lito Elio Mas a leitura que alguns fazem agora é comparativa. Quando dizem que no tempo de Samora isto não acontecia, querem com isso dizer que as leis são aprovadas mas não são implementadas. Quando introduziu o chamboco, medida acertada ou não, ela foi implementada por todo o país, Quando foi introduzida a alfabetização de adultos, todos iam a escola ou alfabetização, O mesmo aconteceu com outras medidas que se revelaram descartadas mais tarde mas que foram acatadas, quer dizer, a autoridade do estado se fazia sentir. Há situações que concorrem para este estado de coisas Professor. Hoje em dia, até parece que cada aldeia é um estado. Cada um que tem poder articula esse poder com os seus para benefício próprio. As acções do estado em vários momentos são descontinuadas, as leis aprovadas mas não implementadas. As pessoas estão preocupadas com a autoridade do estado que está em parampas. Sabe as pessoas estão preocupadas com a sua segurança, com sua saúde, a educação do filho, o emprego, o resto, elas acreditam que podem fazer. Ora se o estado não garante a segurAnça, se há uma aparente impunidade, Se as leis já não são para ser cumpridas ou para ser implementadas, então, Samora que aprovava leis que fazia cumprir e até os pais podiam contar com essas leis para ajudar na educação dos filhos, então esse Samora era melhor que todos os vieram a seguir que constroem mas é apenas para, ao que parece aos olhos do povão, para tirar proveito em benefício próprio dessas obras. Talvez seja por isso que as pessoas acham agora Samora foi melhor Presidente

Elisio Macamo não sei o que lhe responder, sinceramente. está a dizer que não importa o conteúdo duma lei desde que seja cumprida? é isso? não confunde abuso de poder com cumprimento? se de facto as leis eram cumpridas porque acha que o presidente tinha necessidade de fazer ofensiva política organizacional? porque acha que volta e meia alguém roubava fundos públicos e se escapulia? faz alguma distinção entre estado autoritário e estado democrático? está com saudades do autoritarismo, é isso? fico sem palavras para responder, honestamente.

Elisio Macamo e porque não fala em seu nome, não no nome das "pessoas"? eu falo em meu nome, em nome dos valores que defendo e que me impedem de ver qualquer mérito naquilo que esse sujeito fez da independência. ainda hoje estamos a colher da semente podre lançada nessa altura.

Lito Elio Professor, não sei porque está a personalizar o debate. Eu entrei aqui porque achei que devia dar o meu ponto de vista sobre o porquê de certas pessoas encontrar em Samora Machel um exemplo de líder de que o estado precisa daí tentar imortalizá-lo de todas as formas. Ha-de compreender melhor do que eu prestigiado professor, que sendo este espaço, O do debate, uma das faces da liberdade de manifestação que o estado de direito preconiza, busca-se encontrar respostas para as inquietações sem no entanto partir-se do princípio de que alguma opinião, vinda de quem vem, transita para verdade absoluta. Não me parece que se está a discutir o estado de direito aqui, entendi que se trata de discutir uma personalidade política que no seu tempo, dadas certas circunstancias, influenciou a forma de ser e de estar a política doméstica e ao que tudo indica ainda influencia. Porquê?

Elisio Macamo não sei o que quer dizer com personalizar. a minha questão é de saber porque considera samora útil hoje, não o que pensa que os outros pensam. os motivos que deu não colam, pelo menos se aceitar o que contrapuz. prefere um país autoritário? onde se executa em público? onde quem, como eu, que critica o chefe seria re-educado? se não tem resposta para isso não tem explicação para a idolatria desse sujeito. ninguém falou de verdade absoluta tanto mais que estamos interessados em apurar as razões que explicam a nossa atitude em relação à pessoa em questão.

Lito Elio Reitero que a abordagem que faço não é pessoal, tento encontrar uma explicação para este fenómeno de idolatria para com o Presidente Samora Machel. Eu não sou e nunca fui a favor do totalitarismo ou qualquer outra forma de ditadura. Mas para compreender o porquê do surgimento de idólatras de Samora caro professor não se pode descurar um conjunto de aspectos que me parece são de ter em conta se se quer analisar com isenção essa figura política que não passa despercebida para quem quer que seja. A título de exemplo, não será importante perceber se a conjuntura política Internacional de então não terá sido determinante para as opções políticas do falecido chefe do estado? A situação política na região terá ou não propiciado as condições para um clima de conflito em que a vigilância era o mecanismo mais notório do ambiente de desconfiança que se instalou no país durante a sua governação? Notar que destaca-se a figura de Samora como se de um corpo estranho ao governo que liderou se tratasse, talvez por ser o lider. Fala-se do seu humanismo apesar de se saber das arbitrariedades que caracterizaram boa parte da sua governação, Destaca-se a sua liderança consirando-a visionária atendendo as temáticas abordadas nos seus discursos. Na verdade, me parece que o que sobreviveu na memória curta do povo é o discurso que evidencia o lado humano desta figura e como as pessoas procuram referências, uma reserva moral...

Elisio Macamo não concordo consigo. uma coisa é tentar entender, outra é justificar. ao fazer isso, coloca-se como advogado dum povo que não lhe deu numa procuração para falar em seu nome. a mim interessa o seu posicionamento em relação a esta figura. a mim interessa saber se vistas as várias razões que pode haver para celebrar essa figura, elas fazem sentido ou não. por isso, pergunto-lhe: qual é a sua opinião em relação a esta figura? o que podemos resgatar com utilidade para hoje? só isso. se houver algo, vamos discutir isso. se não houver, não interessa imputar nada às pessoas porque seja quais forem as razões, não interessam. sobre o que escreveu sobre o contexto leia, por favor, o meu outro post sobre a mesma temática para eu não ter de repetir os argumentos. explique-me o seu fascínio por samora e vamos conversar.

Elisio Macamo aliás, trata-se do mesmo post.


Mussá Roots É melhor perguntar, questionar para aprender...do que armar-se em sábio e discutír assuntos com argumentos desiquilibrados, e assumír posições com base em alicerces frágeis...só porque quer falar.

Nem é apenas o problema de ser jovem e não saber da história, pois até os que vivenciaram aqueles tempos, posicionam-se de forma desiquilibrada muítas vezes, uns "idolatrando-o" , outros "diabolizando-o" esses poucos por sinal...

Elisio Macamo há quem idolatra, há quem diaboliza e ainda quem critica. são três coisas diferentes.

Mussá Roots E qual das 3 é a útil para o debate? Parece me a "crítica" no verdadeiro sentído, por exigír algum equilíbrio, pois não profe...porém para criticar deve se conhecer a fundo, e para se saber/conhecer, estuda se, e pergunta-se...é isto que estou tentando dizer profe...

Por ex, eu posso questionar o profe, socorrendo-me das posições dos argumentos dos que idolatram sem assumír aquela posição pessoalmente...

Elisio Macamo dizer que devemos resgatar a visão de samora para os desafios de hoje é idolatrar porque o que ele fez entra em contradição com o que queremos ser hoje. dizer que ele foi sanguinário, por isso não vale nada, é diabolizar porque é evidente que ele não foi só isso. dizer que antes de idolatrarmos devemos verificar se o que ele fez é congruente com os princípios que defendemos é assumir uma posição crítica porque isso convida ao debate e à reflexão. é esta terceira posição que eu defendo. há gente que repete de forma nauseabunda que ele foi sempre guiado pelo bem do povo e eu questiono isso. não vejo nada, pelo menos no período a seguir à independência, que documente esse compromisso com o bem-estar do povo. vejo um compromisso com uma ideologia. não é a mesma coisa.

Mussá Roots Percebo...acredítar e engajar-se na defesa de uma ideologia não é necessariamente estar em compromisso com o bem estar do povo...

E mesmo que se diga ou justifique que, ele comprometeu-se com essa ideologia, acreditando que a mesma era a via para o bem estar do povo, automaticamente...questionariamos se a esse mesmo povo, foi lhe dado a possibilidade de optar, de escolher se pretendía viver sob esta ou aquela ideologia?

Ko Yuon Kakakaka... Um dia ele falou so no meu ouvido "querem me matar. Mas nao vao conseguir. Eles, os filhos, netos e tetranetos deles continuarei a os governar. Irao sempre discutir por mim e eles vao se matar por quererem me matar"
Samora Machel
(na noite daquele diooo)

João Barros Professor, desculpe, quando recusa linearmente a contextualização fico perplexo! O bêbado solteiro pode virar um bom esposo e pai de filhos, ou não. Depois, muitos destes aspectos carregam bastante subjectividade e pouca ou nenhuma objectividade. Não se está aqui numa discussão de algo exacto em termos de ciência; penso eu!

Elisio Macamo francamente, João Barros, francamente.

Elisio Macamo se hitler depois do holocausto virasse bom político o holocausto não teria acontecido? fala sério.

João Barros Penso que o Professor está a falar e juntar muita coisa ao mesmo tempo! Então, não posso contextualizar a Teoria de Crescimento de Adam Smith ou de Solow? Não posso dizer o porquê num determinado período o desenvolvimento se média através do PIB/per capita e hoje temos o IDH, e mesmo assim não é conclusivo? Temos de dizer que Malthus não observou nenhum contexto e que era simplesmente louco? É pelos se..., que continuamos no se!

Elisio Macamo não percebi. não percebi mesmo. sou um simples sociólogo...

João Barros Professor, o que pretendo dizer é que os factos não aparecem por acaso; eles são observáveis num determinado período e contextos. A melhor lei na Suécia pode ser a pior em Moçambique! A ciência não surge acabada! Negar o contexto é recusar a evolução da própria ciência, é recusar a história e, quanto a mim é recusar a própria ciência!

Elisio Macamo mas quem nega o contexto? o único que digo é que o contexto não pode justificar o que é mau, caso contrário não terias como condenar a escravatura, o colonialismo, o apartheid e, já agora, os excessos da frelimo de samora... estamos no âmbito da lógica.

João Barros Concordo plenamente, o que eu refiro é o facto de alguns desses "males" de Samora, obviamente, não sendo aplaudidos por todos, o contexto, quer interno quer o externo, criou condições para tal. Repare que o maldoso do Samora morreu em 1986 e, a guerra continua até hoje; vários acordos foram assinados para o seu termino e nada! Eu, pessoalmente, coloquei esta questão frontalmente a viúva de Samora Machel na conferência que ela concedeu no ISRI: perguntei "dra. Graça Machel - diga nos, o Presidente Samora não cometeu erros? Ela olhou para mim e disse: cometeu, como esposo, pai e estadista, era humano mas, quanto o parar da guerra em 1984, já estava tudo preparado na RAS e, no último minuto a Renamo recuou! 1984, Machel morreu em 1986; 2016, a guerra continua!

Elisio Macamo pois, o que essa senhora disse nessa conferência, com todo respeito, foi "bullshit". revelou o mesmo tipo de incompreensão que muitos têm em relação a estes assuntos. o acordo de pretória não foi assinado porque samora ser reconhecido como presidente de todos os moçambicanos e exigia apenas a "reintegração" do mnr. ela infelizmente os mesmos níveis de perplexidade que nos impedem de perceber porque o entendimento de política que o seu marido tinha é parcialmente responsável pelos problemas de hoje.

João Barros Fico por aqui, também sei desistir quando não vamos a lado nenhum; continuemos nas trincheiras! Mas, como não sou Sociólogo, olho as coisas de forma diferente!

Télio Chamuço O Professor Elisio Macamo é um "fenómeno"!!
👌👌👏👏👏👏👏

Elisio Macamo sem ser do benfica...

Clovis Macave As posicoes trazidas pelo professor estao a escandalizar fanaticos...este resgate aos ideias do Samora, lembram me algumas das excentricidades do facismo alemao: "eu nao tenho consciencia, a minha consciencia eh Hitler'.

Dino Nhangac Os argumentos são muito bons da forma como coloca e defende. Pessoalmente, não sou dos tempos em que se viveu Samora, aprendi com os livros e com os mais velhos somente a parte que devia vir ao povo "o lado bom dele e das suas ações", e assim aprendi a gostar dele e de suas falas. Não sou da opinião de vivermos agarados ao passado quando o presente requer mudanças. E muitos dos que estão tentando resgatar vivem dessa forma descrita pelo seu texto professor. Aprendi

Elisio Macamo e qual foi esse lado bom, só por curiosidade?

Cri Essencia Por via da logica, sendo Samora Machel recordado e "votado" pela maioria dos mocambicanos como tendo sido um grande estadista, nao vejo logica em postar 3/4 posts em dois dias, nao apenas a manifestar a sua irritacao em relacao ao nosso amor por ele como tambem a compara-lo com lideres como Hitler, pela milesima vez. Que alemao hoje defende as accoes de Hitler sem que seja extremista? A logica da maioria dos mocambicanos 'e a de que, apesar da sua falta de santidade, Machel foi um bom estadista. Voce nao ha-de ser o unico sociologo com "logica" que temos, nao 'e logico?

Elisio Macamo sabe, este espaço é meu. por isso, o que escrevo, quantas vezes e como decido eu próprio. não parto do princípio que toda a gente concorde com as minhas opções, por isso aceito discussões. só que discussões são apenas possíveis com argumentos. quem não tem aparentemente argumentos, o que parece ser o seu caso, e prefere ser mal-educada, não é bem vindo aqui. portanto, se quiser continuar neste convívio respeite pelo menos isso. se não quiser, saia.

Cri Essencia Sabe, elaborei no seu trigesimo post sobre o assunto e vou subscrevendo a todas as opinioes convergentes com a minha postadas neste tipo de post da sua autoria, por gente igualmente mal-educada ou sem logica nenhuma.

Elisio Macamo com licença, sim? vou retirá-la da minha lista.

Cri Essencia Tenha a bondade, Professor.

Elisio Macamo já está.

Leonel Filimao Nhancale Belas palavras

Vicente Manjate De facto, nenhum contexto deve ser usado para justificar as atrocidades, sejam militares, sociais, económicas ou culturais, impostas por um determinado regime ou partido. Quando um determinado dirigente, partido ou regime é lembrado e querido em virtude do ódio que nutrimos pelos outros, então, fica claro que não idolatramos a nenhum deles pois, nenhum deles teve um impacto suficientemente positivo para ser dedicado tanta atenção e admiração. Será arrepiante ouvir que destas matanças que nos são impostas hoje, sairam heróis e vilões idolatrados. Quando uma sociedade inteira converge em se reflectir em ídolos das atrocidades, começo a perceber o quanto ainda nos vai custar encontrar um rumo para o desenvolvimento. Talvez eu também tenha uma dose de culpa nisso pois, no desporto, sou adepto de clubes falhados (Maxaquene, Sporting e Arsenal) e mesmo assim, posso inventar fundamentos racionais, embora incoerentes, para esta inglória obsessão. Elisio Macamo, veja que, por odiar o barulho dos benfiquistas (malta Télio Chamuço e Rildo Rafael, principalmente), barulho que nunca me fez mal, na verdade, cheguei a apoiar o Nápoles e acreditei que era porque o Maradona jogou lá. É o mesmo que acontece com Samora Machel e os seus sucessores, incluindo Afonso Dlhakama, principal resultado da governação daquele meu conterrâneo.

Elisio Macamo obrigado. este comentário é um bâlsamo depois de ler um outro... sim, há um certo masoquismo e sadismo em cada um de nós. por acaso, também torci pelo nápolis, mas depois..

Filipe Ribas Elisio Macamo! Apenas vou acrescentar um argumento fatal: kfc, hambúrguer. Assim funciona hoje, aqui, o pensamento oferecido ao debate.

Elisio Macamo pois, hahaha, tudo padronizado.

Xavier Jorge Uamba Li atentamente o texto mas devo ler novamente. Este texto está doce.

Júlio Mutisse Eu acho importante o contexto mano Elisio. Quando se fala em corrupção zero ou crime zero na época samoriana e a necessidade de resgata—lo para repor aquele estado de coisas como não falar do contexto? 
Como não falar dos controles que um dia tivemos com os chefes das 10 casas, chefes de quarteirão, milicianos e outros agentes omnipresentes no modelo de ontem quase opressores?
Como não dizer que com a abertura ao Ocidente e suas instituições iniciada antes de 19 de Outubro de 1986 a pretensão era buscar parcerias para o fortalecimento/financiamento do Estado face a crise do bloco socialista, então teremos que concluir que Samora Machel teria se adaptado aos programas de reabilitação económica implementados em Moçambique e, inclusive, a abertura económica que instituições do género preconizam, com consequente adopção para mais ou menos das medidas adoptadas com a CRM de 1990, abrindo espaço para o aumento da competição entre os indivíduos que traria, necessariamente, novos desafios em matérias governativas. Considerando este factor, não é de estranhar que Samora tivesse que enfrentar, nos dias de hoje, maior criminalidade e corrupção, fenómenos que, a meu ver, independem da sua personalidade e perfil tendo, isso sim, a ver com o relaxamento da pressão colectivista da sociedade e mais incentivos à iniciativa e promoção do individuo?

Elisio Macamo Júlio, estamos a usar o termo "contexto" com sentido diferente. eu não considero o contexto menos importante. o que digo é que o contexto não pode ser usado para justificar atrocidades ou nada que os nossos princípios não aceitem. só isso. o meu argumento é contra quem diz que como naquela altura estávamos numa situação política diferente, devemos passar esponja por cima da violação da dignidade humana. foi por isso que disse que a ser assim, então os crimes do regime colonial também estariam desculpados por causa do contexto. agora, em relação ao sentido em que falas de contexto entendo o que queres dizer, mas não tenho a certeza se concordo contigo nos detalhes. mais uma vez, o problema pode ser semântico. não sei o que as pessoas querem dizer quando falam de corrupção zero naquela altura. esse não era o caso. agora, que o poder estava contra a corrupção, lá isso é verdade (é o mesmo hoje!). não era só samora, todos eles. digo isto para sugerir que se samora fosse vivo hoje e partindo do princípio de que os seus colegas de então que não eram corruptos viraram corruptos hoje, ele também teria ficado como eles. não vejo porque as pessoas não consideram esta hipótese tanto mais que há uma forte linha de continuidade na lógica por detrás daquilo que nós hoje chamamos de corrupção. essa lógica consiste na ideia de que o enriquecimento de verdadeiros patriotas é melhor do que o enriquecimento de fantoches (a gente não precisa de concordar com isto, mas se a gente quer perceber estes assuntos precisa de trabalhar com este tipo de hipóteses). essa é a mesma lógica que vingou nos tempos de samora excepto que na altura não era o enriquecimento individual, mas sim o uso irresponsável dos recursos do estado para aquilo que eles viam como sendo os interesses patrióticos. a crise económica fez muito para inviabilizar o projecto político de então, mas a forma irresponsável como se fez uso dos recursos do estado também. e isso continua nos dias de hoje. o partido, que não desaprendeu, continua a pensar que pode "requisitar" tudo e não pagar (guebuza ainda tentou introduzir alguma disciplina nisto, mas não conseguiu porque ele também era refém dessa cultura - é só ver o esbanjamento de recursos com as presidências abertas que eu na altura critiquei...). portanto, quando alguém me fala dum santo limpinho fico sem saber se estou perante um interlocutor sério. a resposta já vai longa, por isso é melhor parar embora ainda gostasse de comentar essa lenda da viragem para o ocidente...

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