domingo, 16 de outubro de 2016

Alimentação é a primeira arma contra doenças

Alimentação é a primeira arma contra doenças

– Felisbela Gaspar, directora do Instituto de Medicina Tradicional e autora da obra
Moçambique é um país rico em alimentos principalmente em vegetais e frutas, contudo, o índice de desnutrição crónica continua elevado. Este facto levou a que o Ministério da Saúde, através do Instituto de Medicina Tradicional, editasse a primeira pesquisa sobre essa matéria intitulada: Monografia de Plantas Alimentares e Medicinais em Moçambique, que promete orientar para uma alimentação saudável.
Algumas fórmulas foram avançadas ao domingo por Felisbela Gaspar, autora da obra e directora do Instituto de Medicina Tradicional, que defende que uma alimentação equilibrada constitui 50 por cento de tratamento de qualquer problema de saúde.
Pode nos falar da importância deste livro?
Fizemos o livro para educar a comunidade sobre como ter uma alimentação saudável. Muitas pessoas pensam que comer bem é comer todos dias bifes, ovos e óleo, mas isso é prejudicial a nossa saúde. Comer bem significa ter uma alimentação equilibrada. Temos muito bons alimentos nos mercados e machambas e não damos valor. Muitas vezes, as pessoas comem tseque, por exemplo, alegadamente por pobreza, isto porque não conhecem o seu valor nutricional. Então, damos a informação sobre a propriedade química dos alimentos, no que diz respeito às vitaminas, minerais, proteínas, aminoácidos e referimo-nos a sua importância medicinal.
E para por aí?
Não. Trazemos também o modo de confecção, ou seja a receita, pois muitas vezes não fazemos a melhor combinação para maior benefício nutricional. Por exemplo, pouco se sabe sobre o valor nutricional das folhas de beterraba, mas elas são ricas em ferro do que o próprio tubérculo. Muita gente deita fora as folhas por ignorância.
Como confecionamos as folhas de beterraba?
É simples. Prepara-se da mesma forma que se prepara um refogado de espinafre. O refogado de folhas de beterraba é muito saboroso e, o mais importante, previne e trata a anemia.
Que frutas podem ser consideradas imprescindíveis à mesa pelo valor medicinal?
Estamos a entrar para a época da manga que possui muito valor nutritivo. Ela contém carbohidratos, ferros, fósforos, cálcio, potássio, magnésio, zinco, complexo B. Possui, igualmente, taninos que são princípios amargos que funcionam para o tratamento de muitos problemas de saúde; ajuda a melhorar os problemas de bronquites, controlar a tensão arterial, e o sumo ajuda a suprir a falta de vitamina C.
E as folhas?
As folhas jovens da mangueira, quando feita uma infusão (Uma infusão é um processo para a fabricação de bebidas, em geral, pela imersão de uma substância aromática em água quente ou a ferver), ajudam na limpeza do nosso sistema respiratório e na cura da tosse. Outra fruta que não devia faltar é a banana. É milagrosa. Tem propriedades medicinais desde a bananeira até à própria fruta. O caule ajuda no tratamento de diarreias, inflamações, infecções pulmonares e contusões. A banana ajuda na melhoria da hipertensão. Para as crianças as papas feitas a base de banana são bastante nutritivas.
Nos últimos tempos temos assistido a um crescimento de doenças cardiovasculares devido ao stress a que as pessoas estão sujeitas.O livro olhou para este facto?
Sim. Procuramos responder a todas as preocupações de saúde que temos na nossa realidade. Temos ainda muitas receitas de chás para aliviar a carga do stress. Por exemplo, com a casca da laranja faz-se um bom calmante, ajuda a ter sono tranquilo. O chá de alface e o chabalacate são outros calmantes e têm propriedades diuréticas (fazem urinar). Estes são também recomendados para os hipertensos.
Na nossa medicina tradicional é habitual o uso de raízes de plantas para tratamentos. O que é que o livro nos traz sobre isto?
É difícil recomendarmos as raízes ou os troncos porque carecem de mais estudo.
Mas posso adiantar que algumas propriedades de raízes se misturadas com outras têm tido um bom resultado. Tal é o caso de infusão de folhas de laranjeira, limoeiro, abacateiro e eucaliptos que quando misturadas podem tratar gripes, através do bafo.
TRABALHAR
COM AS COMUNIDADES
Entendemos que as comunidades são o público-alvo da sua pesquisa. De que forma se está a trabalhar para conseguir bons resultados?
Pretendemos treinar os responsáveis provinciais do Instituto de Medicina Tradicional, em coordenação com o Programa Nacional de Nutrição, e potenciar os nossos colegas para trabalharem na componente sociocultural das comunidades, de forma a rever algumas proibições no consumo de certos alimentos a crianças e mulheres. Queremos desmistificar esta realidade trabalhando com aqueles que têm voz nas comunidades como os líderes comunitários, religiosos, matronas e outras figuras de grande influência. Pretendemos acabar com alguns mitos e tabus em relação ao consumo de certos alimentos.
Por exemplo…
Para algumas comunidades, a mulher grávida não pode comer banana porque a criança pode nascer com deficiência ou o parto pode ser difícil. A cana-de-açúcar também é proibida. Porém, a mulher grávida deve cuidar da sua gestação, tomando suplementos como o ácido fólico, sal ferroso que são encontrados em alimentos proibidos. Então, isto demonstra que  em vários locais não falta comida, mas sim as regras culturais é que vetam o seu consumo.
Texto de Luísa Jorge
luisa.jorge@snoticicas.co.mz

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