domingo, 16 de outubro de 2016

A professora



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XIPIKIRI
A professora bamboleou o equador até ao quadro. O pano leve da bata branca esvoaçou. Estendeu o braço delicado, um pau de giz prolongava-lhe os dedos. Rodou o pulso sobre o quadro de fundo preto, a caligrafia redonda enrolou-se. A bata abanava ao ritmo da escrita. Escreveu a data e depois: “Sumário: Aparelho Reprodutor...”
“... Feminino”, deduzi, impelido pelos instintos da idade. Estava na idade de espreitar o mundo pelos buracos da fechadura de modo que, aquele tema assim, abertamente, sem os parêntesis da recriminação, sem as fronteiras do pudor, encabulava-me. Meu gesto secou sobre o caderno. Parei de escrever, congelado, como um computador sem memória.
A professora, de giz na mão e apagador noutra, pôs-se a desenhar ao mesmo tempo que limpava o quadro, com uma técnica multitask, parecia um limpa-brisas de gestos largos, que vai molhando o vidro à medida que limpa. Trocou o giz branco por outras cores que iam tornando o desenho mais legível. Primeiro fez uma forma fusa, muito feminina. Depois arredondou. Depois começou a florear. Depois fez-lhe umas trompas e o desenho foi crescendo. Mais do que um desenho bonito, era um mapa com muita biologia. Mas não se parecia em nada com o que eu vira pelos buracos das fechaduras.
Olhei de soslaio para os lados, tentando, nas colegas mais próximas, um raio X fortuito que ajudasse a interpretar o desenho. Percebendo a minha distração a professora chamou-me, com secura do giz na voz e a régua disciplinadora de cinquenta centímetros por perto. Recompus-me na carteira. Eu gostava quando a professora me chamava à atenção. Às vezes fingia-me distraído para ela me chamar à atenção. Outras vezes eu errava de propósito as respostas só para ela segurar na minha mão e, com o pó de giz nos dedos, acariciar-me algumas reguadas. Havia um édipo tal que eu parava de escrever e ficava quieto, ela interrompia a explicação, bamboleava a bata branca com cheiro à pó de giz, colocava a mão na minha testa e perguntava: “dói a cabeça?”
O desenho estava terminado, deduzi, porque ela começou a fazer aqueles riscos que preparam o desenho para receber a legenda. Escreveu os nomes estranhos daqueles órgãos. Nenhum se assemelhava aos calões que eu conhecia. A professora, segurava o pau de giz com a delicadeza que lembrava a minha mãe a segurar a colher de pau.
– Schhh!!! Silêncio.
No final do desenho pousou o giz como a minha mãe pousava a colher de pau para se entreter nos temperos. Virou-se, disse o “schhhh!” disciplinador e começou a explicar, com gestos redondos: “Vamos estudar o  Órgão reprodutor das plantas. Isto é uma flor...”. Apontava para a legenda no quadro, com a régua de cinquenta centímetros e repetíamos: “androceu, gineceu, estame, pecíolo, pétala, sépala...”
Senti um misto de alívio e decepção ao perceber que o desenho não era aquilo e sim uma flor. Aquele tema seria constrangedor mas era apetecível. No fundo deu no mesmo porque afinal as mulheres carregam consigo uma flor. Desde aquela aula comecei a olhar para as elas com os mesmos olhos de mel que a abelha olha para um jardim.  
“Atenção meninos”. A professora corrigia sempre as nossas matreirices. Ela ensinava muitas coisas. Foi ela quem me ensinou a desenhar, educar o risco, promover-lhe à caligrafia e chamar-lhe à pontuação para disciplinar as frases. Que a primeira máquina de calcular é contar os dedos da mão. Foram dela os puxões que me tornaram as orelhas elásticas e ouvido atento. De braço em riste, com o pau de giz a prolongar-lhe os dedos, eu podia jurar que aquela estátua que segura uma chama, em Nova Yorque, era imitação da professora.
“Prestem atenção, meninos”. A professora não era aquela estátua mas merecia uma bem grande, no final duma avenida larga ou no centro duma praça redonda, com muito chão, que as pessoas circulassem e a vida acontecesse, que despoletasse um mercado expontâneo e uma terminal de chapa onde o cobrador possa rasgar a cidade a gritar pelo destino: “Praça dos Professores” desfraldando a voz ao vento, como uma bandeira com muita história.

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