sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A luta solitária dos autarcas italianos contra a máfia


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Destaques - Internacional
Escrito por Agências  em 07 Outubro 2016
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No ano passado, a cada 18 horas, um responsável de cargos públicos era ameaçado por grupos mafiosos e, nas últimas quatro décadas, 132 governantes locais foram assassinados na Itália.
Fogo posto, animais mortos ou balas enviadas por correio estão entre os métodos usados para fazer chegar ameaças a 479 responsáveis públicos em 2015, mais um terço do que no ano anterior, de acordo com o observatório parlamentar antimáfia e anticorrupção Avviso Pubblico.
Francesca De Vito, presidente da Câmara de Calimera, encontrou um envelope com duas balas, em frente ao edifício da autarquia.
Benedetto Zoccola usou escutas para conseguir pôr na cadeia um chefe da máfia. Como vingança, a máfia colocou-lhe uma bomba na janela do seu escritório no ano passado. Ele estava a menos de um metro da janela quando a bomba explodiu, ficando com danos permanentes a nível de audição.
Zoccola, vice-presidente da Câmara de Mondragone, Norte de Nápoles, foi diagnosticado com transtorno de stress pós-traumático e diz sentir-se frequentemente isolado e deprimido.
"Posso contar os meus amigos pelos dedos da minha mão", disse Zoccola, de 34 anos, à Reuters. "Às vezes estou tão em baixo que não me apetece viver."
O autarca recebeu inúmeras ameaças de morte, as últimas ao longo do último mês, tendo passado os últimos três anos da sua vida sob vigilância 24 horas por dia.
Para ajudar pessoas como ele foi criada uma rede para unir os responsáveis públicos que fazem frente à máfia. O grupo Avviso Pubblico, ou seja, Aviso Público, oferece, na maioria dos casos, apoio moral aos governantes que lutam contra o crime organizado nas suas cidades.
A Cosa Nostra, na Sicília, a "Ndrangheta, na Calábria, a Camorra, na Campânia, dominam as economias das regiões, muitas vezes com a conivência de responsáveis públicos corruptos. No século XXI estes grupos mafiosos estenderam os seus tentáculos ao Norte de Itália. Desde 1991, 212 governos locais foram dissolvidos por terem sido infiltrados pela máfia. No mês passado, o governo central italiano demitiu a administração local de Corleone, na Sicília, cenário de O Padrinho de Mario Puzo e berço de dois dos mais temidos líderes da Cosa Nostra.
O Senado italiano aprovou em Junho uma lei que daria à polícia e aos magistrados ferramentas para travar a ameaça, mas a legislação ainda tem de ser aprovada pela câmara baixa do Parlamento.
Em Junho, 200 governantes locais que integram o Avviso Pubblico receberam o apoio da população e de dirigentes nacionais numa marcha em Polistena, na Calábria, berço da "Ndrangheta. O grupo, que os investigadores dizem dominar o tráfico de droga na Europa, é quem mais ameaças fez neste ano.
O presidente da Câmara de Polistena, Michele Tripodi, recebeu em Março uma bala por correio. E Rosario Rocca, autarca de Benestare, viu o carro incendiado pela "Ndrangheta depois de afirmar sobre a sua cidade: "O Estado está ausente." Os autarcas do Norte também começaram a ser ameaçados. Roberto Monta, presidente da Câmara de Grugliasco, encontrou cinco balas no para-brisas do carro. Em Polistena, Zoccola reuniu-se pela primeira vez com os outros autarcas ameaçados. "Desde que os conheci, já não me sinto tão só", confessou.

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