segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Sobre o dia da vitória e tempos de abandono

Sobre o dia da vitória e tempos de abandono

Enviar por E-mailVersão para impressãoPDF
CARTA A MUITOS AMIGOS
No próximo dia 7 celebramos o Dia da Vitória!
Em 7 de Setembro de 1974 assinamos dois acordos:
1.     O reconhecimento do nosso direito à independência total e completa a 25 de Junho de 1975.
2.     Incluía-se neste acordo a formação de um Governo de Transição que tomou posse a 20 de Setembro com Joaquim Chissano como Primeiro-Ministro e Victor Crespo enquanto Alto-Comissário da República Portuguesa até 25 de Junho.
3.     Em separado e simultâneo assinou-se o acordo de Cessar-Fogo que a pedido da parte portuguesa permaneceu secreto, até que um antigo Primeiro-Ministro, Vasco Gonçalves o publicou nas suas memórias. Nós nunca o difundimos respeitando o compromisso. O que dizia o acordo para que a parte portuguesa solicitasse o sigilo total?
a.   Que a parte portuguesa devia-nos entregar todo o armamento e munições, com excepção das armas pessoais dos militares, incluindo pois na entrega a artilharia, os aviões de transporte, as embarcações navais ou lacustres e as bases; foi cumprido.
b.   A troca de prisioneiros de guerra.
c.   A FRELIMO entregou a lista completa de todos os capturados e libertados, a grande maioria já entregues à Cruz Vermelha, só restavam perto de 200 homens que se haviam rendido em Namatil ou Omar.
d.   Jamais um só prisioneiro havia falecido entre nós e caso houve que estando feridos os nossos camaradas deram sangue para os salvar.
e.   Segundo o afirmado em Lusaca e depois confirmado quando Jorge Rebelo entregou os prisioneiros à parte portuguesa, os nossos havia a PIDE recebido e liquidado. Não nos entregaram um só detido.
f.    Crime de Guerra segundo as convenções internacionais, mas jamais a parte portuguesa ou o TPI se preocupou com o assunto. Estamos habituados a isso, pois TPI só detém, julga e condena os africanos e sérvios.  
Há que dizer a verdade e bem real: jamais um só elemento da PIDE ou das Forças Armadas em Portugal ou noutro sítio foi detido e julgado pelos massacres de Mueda, Wyriamu, Inhaminga.
Faz uns anos no Porto, mostraram-me onde habitava o Inspector Sabino que comandara o massacre de Wyriamu.
Todos os criminosos de guerra em Portugal recebiam pensões pelos serviços prestados ao Estado. Nenhum elemento da PIDE ou militar foi preso, julgado ou condenado pelos crimes cometidos, incluindo contra cidadãos e os próprios portugueses lá na terra.
Os rodesianos em Mkumbura no Sul de Tete, Nyazónia na zona leste de Manica e outros locais dentro de Moçambique cometeram crimes de guerra e massacres. Em Nyazónia foram apoiados por André Matsangaíssa integrado no grupo dos Selous Scouts de Smith, que o comandava. Primeira aula de democracia?
Jamais um só rodesiano ou servidor do apartheid foi solicitado pelo TPI ou detido, julgado ou condenado solicitado pela instância internacional ou nos seus países de origem ou onde residem. Estes os tristes factos.
Assinados os Acordos a 7 de Setembro de 1974 de imediato grupos ultra colonialistas invadiram as instalações da Rádio Clube de Moçambique na então capital e cidade de Lourenço Marques e fizeram apelos à insurreição contra os Acordos. Urias Simango a eles se juntou. As Forças Armadas portuguesas não tardarem a por termo ao desacato.
Face ao fracasso, de imediato os Flechas com Óscar Carvalho e os GE e GEP com Orlando Cristina juntaram-se a Smith na Rodésia e postos sob o comando dos Selous Scouts.
Aqui está a origem da dita África Livre, depois MNR e finalmente RENAMO.
Ignorar os factos e a História faz parte das amnésias deliberadas para negar a verdade e o mundo real, fazerem-se politiquices e outras historietas. Isto faz parte do intolerável, especialmente para uma comunicação social que se quer honrada.
Sim, celebramos a nossa vitória na luta armada de libertação contra os colonialistas portugueses, tal como festejamos a vitória de Angola, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de São Tomé, Timor-Leste, o fim da ocupação de Goa, a queda dos regimes racistas e primitivos na Namíbia, Zimbabué, África do Sul. Vitórias sempre e sim.
Verdade que vários países que mencionei e incluindo o nosso se o arranque foi excelente o que hoje testemunhamos magoa-nos, a dissolução da Guiné-Bissau, a luta de clãs em São Tomé, o que ocorre em Angola, as pilhagens e o terrorismo em Moçambique negam todo o combate dos nossos povos, os sacrifícios oferecidos pela causa e semeiam desgraça para os povos.
Estas infâmias jamais fizeram parte da agenda pela qual entregamos a nossa juventude e vidas, todos queríamos países a funcionarem e competência e honradez nas direcções.
Mas… O combate não se esgotou, as novas gerações encontram os desafios que devem enfrentar e vencer.
Publicaram-se livros sobre os murais de Maputo que surgiram após a libertação nacional. Maravilhas que todos apreciavam pelas nossas ruas.
Todos apagados. Salvaram-se os murais da Praça dos Heróis, e em frente ao Clube Naval essa obra-prima de Mestre Naguib.
A Praça dos Heróis, o que não se vê em qualquer outra parte do mundo, perante a indiferença da edilidade e dos deputados da cidade e da Assembleia da República, está rodeada de barraquinhas e bebedeiras. As plantas da ribanceira tapam uma boa parte do mural de Naguib. Numa cidade que bem conheço um reputado artista quis oferecer um mural, aceitaram, mas tão logo o então edil anulou a decisão e, creio que a cobro de alguns trocos lá meteram uma publicidade qualquer.
Vejam como estão os nossos cemitérios. Sujos, capim por toda a parte. Jazigos arrombados e servindo de morada para os sem abrigo, vagabundos. Roubam os vasos de flores e até as flores para revenderem aos incautos.
Desenterram caixões para pilharem a roupa dos mortos e órgãos e membros das pessoas. Um albino, mesmo morto e enterrado, torna-se alvo dos criminosos que levam partes do seu corpo para os curandeiros ou feiticeiros.
Aconselham-nos a retalhar a roupa dos defuntos para que não a roubem.
Não se paga aos guardas e pessoal que trabalha nos cemitérios? Nenhum edil ou governante não visita a campa dos seus e não testemunha estes factos escandalosos?
Como toda a gente sinto-me magoado. Edis, dirigentes protejam depois de mortos os nossos entes queridos, obrigado se o fizerem.
P.S. Que volte a reinar a paz e honradez na Colômbia após 52 anos de conflitos. Que continue a luta contra os barões da droga lá, para que aqui também estejamos protegidos. Que o nosso pretenso democrata local siga o exemplo, queremos paz, honradez e competência. Um abraço para isso.
SV

Sem comentários:

Windows Live Messenger + Facebook