segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Faleceu João Domingos, um idoso que sabia tocar viola e conhecia a cura da Sida (1933 - 2016)


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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Redação  em 12 Setembro 2016
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Foto de ArquivoA música moçambicana perdeu na madrugada deste sábado(10) um dos seus grandes intérpretes e compositores: João Domingos. Faleceu na capital da Inglaterra, na companhia de uma das suas filhas, para onde se havia deslocado para tratamento médico depois de ter sido acometido por dois acidentes vasculares cerebrais(AVC). O @Verdade recupera uma cavaqueira publicada por ocasião do seu octogésimo aniversário na qual revelou a sua infância em Inharrime, na meridional província de Inhambane, onde nasceu a 13 de Maio de 1933, e onde contou que “ninguém inventou a Marrabenta”, o ritmo musical surgiu num bar dos Comorianos no bairro da Mafalala, e ainda revelou que a Rumba é originária de Moçambique.
Durante a II Guerra Mundial – a mesma época em que decorre a história dos neflins (Gen. 6.4), que vou desenvolver num espaço apropriado –, em Inharrime surgiu um surto de sarna que infectou o povo. A situação foi preocupante de tal sorte que as pessoas se dirigiam ao hospital em massa. No Posto de Saúde de Inharrime apareceram dois homens que, morando em localidades diferentes, possuíam o mesmo aspecto doentio. O problema é que a sua doença não manifestava a maioria dos sintomas da sarna – o que a tornava diferente daquela.
Depois de observá-los, o médico ficou intrigado. Que doença é esta? Um machangana de nome Francisco Cuna explicou-lhe que a enfermidade – uma doença venérea secular – não era sarna. E sugeriu-lhe que separasse os homens e lhes perguntasse sobre as suas práticas sexuais. Para Cuna estava-se diante de um mal centenário e curável na medicina tradicional. O médico procedeu segundo a orientação e apurou que o primeiro homem se relacionou, sexualmente, com uma vaca, enquanto o segundo abusou duma cabra. A esse envolvimento sexual entre humanos e animais chama-se zoofilia. Entretanto, como no decurso da II Guerra Mundial o Anjo da Morte – um médico alemão que usava humanos como cobaias – já havia inventando o bismuto, uma injecção muito eficaz, na mesma época do surgimento da penicilina, ele entendeu que se podiam utilizar aqueles fármacos para tratar enfermidades daquela natureza. Em contra-senso, Francisco Cuna entendia que o método da medicina convencional era ineficaz. Para si, a doença daqueles homens devia ser tratada seguindo- se as regras da medicina tradicional. Até porque, em Manjacaze, de onde lhe chegavam vários ecos sobre o assunto, curava-se o mal.
Ora, como o médico se mostrou incrédulo no que estava a ser dito, Francisco Cuna sugeriu que ficasse com um dos doentes, a tratá-lo, e liberasse o outro para ser assistido segundo a medicina tradicional. O terapeuta concordou e escolheu o doente menos grave para permanecer no hospital. Dez meses depois, o doente morreu. Em resultado disso, o médico chamou Cuna a fim de saber sobre o estado clínico do outro enfermo. Surpreendeu-se quando soube de que estava curado, tendo inclusive aparecido – na recordação de Cuna ao médico – no hospital a solicitar que lhe admitissem como empregado. O médico ficou intrigado: “Como é que o curou?”
A resposta de Cuna foi interrogativa: “Doutor, o senhor nunca viu um leão a comer capim?” Para o iátrico isso só acontecia – única e exclusivamente – se os animais carnívoros estivessem doentes. No âmbito desse quadro, Cuna explicou que é assim que os animais se curam. E ele havia sarado o enfermo usando as ervas de que os animais se alimentavam no seu processo terapêutico.
Mais adiante, acordaram que Francisco Cuna fosse ao matagal a fim de buscar as ervas curativas. Infelizmente, por puro azar, nesse dia o idoso, que estava descalço, pisou uma garrafa quebrada que o feriu, tendo contraído tétano. E morreu no hospital, antes de lhes entregar as ervas e raízes medicinais. O pior é que o jovem a quem sarou não sabia que tipo de vegetação é que lhe havia sido ministrado, muito menos o local onde foi encontrado.
É nesse sentido que eu sempre tenho dito a vários médicos que a SIDA – que também é uma doença milenar – tem cura. É verdade que ela foi descoberta em 1980, mas, conforme os americanos reportam, nos tempos da escravatura, essa enfermidade já existia em São Tomé e Príncipe.
Como é que se pode fazer para encontrar a sua cura? É preciso que se injecte a doença num cão – devendo deixá-lo no mato – e segui-lo a fim de se perceber como é que se comportará. Que ervas irá consumir para se tratar? A SIDA tem cura. Se fizerem conforme oriento irão descobri-la. O problema é que as pessoas pensam que eu sou um idoso que só sabe tocar viola e, consequentemente, não acatam o que digo.
Eu sou cego
Foto de ArquivoEm relação a este assunto, vale a pena começar por falar sobre a história do dízimo – algo reinventado pelo Bispo Macedo. Afinal, no primeiro século, Jesus Cristo já o havia instituído para nos livrar do pecado. É verdade que, naquela altura, se fazia de um modo peculiar.
Na época só se ofertava o dízimo uma vez por ano. Por isso, nesse intervalo do tempo, a pessoa juntava a décima parte da sua produção a fim de comprar alguns produtos que levava à Igreja para comer com a sua família. Como é óbvio, se a pessoa fosse pedreiro não juntava pedras. O que restava ficava na Igreja como mantimento. Então, quando eu era um miúdo de seis anos, fui a uma sessão religiosa em que se ofertava o dízimo. Encontrei um evangelista que curava lepra e cegueira, entre outros milagres. Por causa do seu dom, ele era procurado por pessoas de várias confissões religiosas.
Em resultado disso, em Inharrime, a Igreja Cristã passou a ter pouca credibilidade e adesão. Os crentes preferiam deslocar-se até às zonas recônditas para encontrar o referido evangelista. Foi esse senhor que fez o milagre de me curar a vista. É que falando com toda a franqueza – clinicamente – eu sou cego. Se eu for convosco à oftalmologia para fazer os testes pode-se concluir que sou invisual, não obstante estar a ver. Como é que surge a minha cegueira? A pergunta é um ponto de partida para se compreender uma série de peripécias.
Na minha infância, em Inharrime não havia luz eléctrica. Num final do ano, fui a uma festa na casa de alguns brancos. Fiquei de braços cruzados para que me oferecessem alguns restos de comida. De repente apareceu um casal com dois filhos que se sentaram, exactamente, a cinco metros de onde eu me encontrava. Eles puxaram uma mala preta, no interior da qual tiraram um pequeno objecto pirotécnico que, depois de ter sido aceso, criou feixes luminosos impressionantes. Assustados, eu e alguns amigos – que nunca tínhamos visto algo similar – fugimos.
Entretanto, ao constatarmos que as pessoas estavam a aplaudir – em jeito de celebração – retornámos ao local. O sujeito tirou outro objecto pirotécnico grande, acendeu e atirou-o exactamente na minha direcção. Como eu era bom de futebol, chutei-o de tal sorte que caiu numa mesa e explodiu. Tudo o que se encontrava sobre a mesa começou a arder. Em resultado disso, imediatamente, fugi. Acredito que se alguém me seguisse – mesmo o melhor velocista do mundo – não me encontraria. Percorri mais de um quilómetro, do local até à minha casa, em menos de cinco minutos.
No dia seguinte, tinha de ir comprar pão – imaginem em que lugar? – ao lado de onde sucedeu o episódio. Tive de dar uma volta enorme para contornar o local a fim de chegar à Padaria Aziz. Primeiro, espreitei e constatei que não havia perigo nenhum – comprei o pão e voltei.
Entretanto, nas proximidades do local havia algumas pedras de construção civil dentro das quais havia um foguete. Animado, peguei o objecto e escondi-o até chegar à casa. Conservei-o num lugar bem secreto – atrás da palhota – à espera de um dia em que estivesse sozinho para explodi-lo.
No outro dia, fiquei com o ‘macambúzio’ – o nome que se dá ao rapaz que é pastor – porque a minha mãe e o meu tio tinham ido trabalhar. Recuperei o objecto. Enterrei-o um pouquinho, acendi-o e fiquei à espera que explodisse – o que não aconteceu imediatamente. A coisa queimou mas não explodiu. Por estupidez da minha parte, peguei o objecto, acendi-o novamente e comecei a soprá-lo até que acabou por explodir no meu rosto.
Nunca pensei que o mundo tivesse tantas estrelas como vi naquela circunstância. Vi milhares! A verdade é que a partir daquele dia – com cara de Rabicó – fiquei cego. Fui ao hospital para tratar a cegueira, sem êxito nenhum. A minha mãe recordou-se do senhor ‘muvanguele’, o evangelista, com quem fomos ter 16 dias depois. Ele fez pachos quentes de umas folhas – bem cheirosas – e orientou que se colocasse barro no meu rosto, devendo tirá-lo no dia seguinte de manhã. E, assim, recuperei a visão.
E a PIDE matou-o
Como é que aquele evangelizador curava as pessoas? Onde ele obteve aqueles conhecimentos? Em conversa com a minha mãe, confessou que não era ele que curava as pessoas. Existia uma dimensão que intervinha.
Quando retornou a Moçambique da África do Sul – onde ia trabalhar nas minas – em certa ocasião, deparou com duas cabeças de gado caprino que devia apascentar. Num dos dias da sua actividade, narra ele que viu uma pessoa – vestida, completamente, de branco – que o chamou. Pensando que fosse o Padre Augusto de Mucumbia – mas não era – aproximou-se. Ao olhá-lo nos olhos, desmaiou. Nesse instante, foi-lhe dada a ordem de se deslocar até a sua casa onde devia edificar uma barraca aberta – com o fundo fechado – e colocar algumas pedras.
Depois disso, devia apetrechar o local com uns bancos, como quisesse, antes de retornar ao local do encontro. Foi-lhe dado um candelabro que devia colocar sobre as pedras e acendê-lo. Instruiu-se-lhe no sentido de curar as pessoas – o que significa que os milagres que ele fazia tinham a ver com as instruções que, durante as noites, recebia continuamente sempre que as populações lhe apresentavam problemas.
Em Inharrime não havia igreja. Os crentes iam fazer a missa numa escola rudimentar. Entretanto, por causa da acção do senhor ‘muvanguele’, a Igreja Católica de Mucumbia começou a perder os crentes. Em resultado disso, o pessoal da PIDE decidiu prender o evangelista. Eles levaram-no à Administração. O problema é que o administrador, o secretário, os intérpretes, incluindo os demais dirigentes não concordaram com a acção da PIDE.
A PIDE arranjou dois sipaios para julgá-lo. Eles arrancaram-lhe o candelabro e agrediram-no ao mesmo tempo que lhe perguntavam as razões que o moviam a fazer os milagres. Mas, assim que dissesse que ele era inspirado por Deus, a situação complicava-se. Agrediam-no mais e mais, até que acabaram por matá-lo.
Nós, os miúdos, estávamos na escola, mas acompanhámos a azáfama. Quando eu retornei a casa, a minha mãe disse-me que haviam assassinado o senhor ‘muvanguele’. Os homens da PIDE enviaram um carro da funerária para levar o seu cadáver amarrado. Vi-o nessa manhã, antes de ser levado para a cadeia, mas, quando lá chegaram, o corpo havia desaparecido.
Assustados com o facto, os cangalheiros saíram a correr para informar os homens da PIDE sobre o sucedido, ao que aqueles disseram que não havia nenhum problema porque tinham o seu candelabro. Colocaram o candelabro sobre a mesa e, escondidos, aguardaram que o evangelista aparecesse a fim de prendê-lo. Na verdade, fizeram o plano de matá-lo a tiros. Mas o que aconteceu é que, sem explicação racional nenhuma, o candelabro desapareceu.
Quando se apercebeu do sucedido, o agente da PIDE ficou apavorado, fugiu e começou a queimar várias partes do corpo até tombar. Os outros polícias ficaram carbonizados. Tempos depois, veio um avião buscá-los a fim de serem assistidos na Europa. Enfim, são histórias desta natureza que aconteceram comigo sobre as quais penso que nem vale a pena falar.
“Killer man” viveu 234 anos e matou milhares
Nhamugovela – “o killer man” – é um dos homens mais misteriosos que apareceu em Inharrime e ninguém sabe de onde. Ele fazia almoços e jantares. Entretanto, a dado momento, eu comecei a adoecer e a delirar. Corriam os anos da II Guerra Mundial. O problema é que em tais delírios eu dizia coisas – sem pés nem cabeça – que aconteciam.
No outro dia, disse que havia um navio mercantil holandês que ia ser afundado por um submarino alemão. As pessoas estranharam a mensagem. Mas, a verdade é que, no dia seguinte, esse episódio sucedeu em Inharrime, na praia de Závora, por volta de 1940. A Royal Air Force – Força Aérea Britânica – atacou, aproveitando-se da situação. Numa outra situação, novamente, sonhei que o submarino ia ser atacado pela RAF e que ia afundar. Isso aconteceu e a partir daí as pessoas começaram a dar crédito aos meus delírios.
No entanto, nas vésperas de um dia de final do ano, eu sonhei que Nhamugovela ia matar o senhor Passos, a sua esposa e a sua vizinha. Depois do crime, ele lavaria as suas roupas no rio, ao mesmo tempo que ia utilizar um balde para introduzir as vísceras. E é isso o que ele fazia várias vezes.
Rapidamente, a minha mãe foi ter com o irmão do senhor Passos para falar sobre o meu sonho. Depois disso, juntos, fomos à procura de um sipaio com o qual nos dirigimos ao rio. Infelizmente, quando chegámos, Nhamugovela já havia lavado as roupas com as quais cometeu o crime e, no interior do balde, vimos as vísceras. Ele já havia assassinado as suas três vítimas.
Prenderam-no tendo-o levado para a cadeia, onde – antes de encarcerá-lo – o chicotearem nas mãos com um material metálico. No entanto, ele não sentia a dor. Sempre que lhe batiam quem sofria era a mulher do administrador de Inharrime. No seu julgamento, manteve-se indiferente. Coincidentemente, naqueles anos, em Inharrime, apareceu um agente da Interpol à procura de um tal “killer man”. Fez uma descrição a partir da qual se compreendeu que se tratava de Nhamugovela.
O agente da Interpol ordenou para que servissem ao assassino uma comida com muito sal, até ficar enjoado, a fim de torturá-lo. No entanto, mesmo procedendo- se de tal modo, ele não sentia dor. Em resultado disso, despiram-no e – em volta da sua cintura – encontraram um fio com dois frasquinhos nas extremidades. Cortaram os fios e os recipientes caíram. Quando os abriram, no local instalou-se uma enorme nuvem vermelha.
Desta vez, ao torturarem-no, Nhamugovela começou a chorar e o seu corpo minguou de tal sorte que só ficou um esqueleto pequenino, com a pele colada aos ossos. O agente da Interpol ficou seguro de que ele era o “killer man”. Cortou uma porção da sua pele da mão, e levou-a para a Inglaterra para se fazer a avaliação da sua idade, tendo-se apurado que ele tinha 234 anos. Começou a matar as pessoas a partir da região da Abissínia, na Etiópia. Por isso, estava a ser procurado há dois séculos.
Eu não sei como é que a Interpol descobriu as artimanhas de Nhamugovela, o facto é que já estava à sua procura há vários anos. Infelizmente, quando o descobriram em Inharrime não havia jornais. Por essa razão, o registo destes acontecimentos só pode ser pesquisado no Posto Administrativo de Inharrime. Deve haver algum registo. Acredito que o “killer man” tinha alguns problemas espirituais que o moviam a protagonizar actos macabros. Anualmente, ele assassinava as pessoas a fim de lhes tirar as vísceras com as quais fazia banquetes. Por vezes, ofertava-as ao administrador como carne de caça.
História da Marrabenta
Por mera coincidência, no tempo colonial, apareceu em Lourenço Marques um magaíssa, nome que se dá ao moçambicano que trabalha nas minas na África do Sul. Nessa altura, existia a Witwatersrand Native Labour Association, Wenela, instituição que recrutava mão-de-obra para a Terra do Rand.
Foto de ArquivoO referido sujeito, cujo nome é desconhecido, permaneceu na Wenela, onde aguardava os seus bens que haviam ficado retidos no país vizinho. Durante a sua estada, foi-lhe assegurada toda a assistência logística. Ora, como naquela época a maior parte da região que, hoje, constitui a cidade de Maputo era uma mata desabitada, ele resolveu deslocar-se até o bairro da Mafalala.
Nesse subúrbio, na altura, havia prostíbulos e bares, um dos quais, o mais famoso – porque possuía o melhor conjunto musical de Lourenço Marques –, e que era bem equipado em termos de instrumentos musicais, pertencia aos Comorianos. Por lá também actuava Daíco, um guitarrista autodidacta genial. A qualidade das suas performances assemelhavam- se às de Django Reinhardt, um artista francês que tinha um defeito na mão direita, tocando a guitarra com a mão esquerda.
No Bar dos Comorianos, artistas como Daíco, Pacheco, Chico Albazine e Ricardo da Silva constituíam o conjunto musical local. O espaço era maravilhoso e tocavam-se ritmos musicais como Magika – que tem origem na província de Gaza –, Dzukuta e Makhara – provenientes de Inhambane, existindo desde antes de 1900 –, Xipfapfapfa – muito praticada em Matutuine, Katembe, Matola, Infulene, Boquisso e Marracuene –, incluindo Pop, Rock, Swing, Rumba, Tango, Samba, entre outros estilos de música estrangeira.
Mas também existia o senhor Napita, o músico mais fraco do conjunto, originário da província de Gaza. No entanto, ele tinha a guitarra mais afinada e soava bem. Eles tocavam, mas não tinham a consciência do estilo musical que produziam. Numa dessas ocasiões, na presença do magaíssa, no conjunto musical do Bar dos Comorianos, Napita tocou a sua guitarra de tal sorte que os presentes o aplaudiram. Instantes depois, rebentou-se uma corda da viola.
O magaíssa gostou do que escutou, mas não sabia como chamar àquela música – até porque ela não tinha nome. Por isso, certa vez, pediu aos artistas que lhe tocassem a música que rebentava em troca de cervejas. Ora, tomar cerveja de graça, num dos bares mais célebres do bairro da Mafalala, era uma prática muito rara para os músicos. Por isso, responderam favorável e satisfatoriamente. Os eventos aconteciam, constantemente, aos sábados, à noite, e aos domingos, à tarde.
A maior parte dos membros do conjunto musical – Daíco, Ricardo e Pacheco – era constituída por desempregados. Em resultado disso, passavam quase todo o dia no Bar dos Comorianos. O pior é que eles não podiam comprar uma cerveja. Sucedeu que certo dia, de repente, eles viram o magaíssa e acharam que – porque o Rebenta acabava de chegar – podiam tocar música para ganhar algumas cervejas. Mas como não conheciam o seu nome, chamaram-no do modo seguinte: “Marrabenta Hinga Buya, Venha Cá Marrabenta”.
A partir daí a adjectivação daquele ritmo como o que rebenta, bem como a substantivação do magaíssa como Marrabenta tornaram-se rotineiras, virando tradição. As pessoas nunca mais pararam de dizer Marrabenta, embora o género musical não existisse ainda. Desconhece-se, porém, quem inseriu o prefixo Ma no verbo Rebenta.
Mas foi assim que se criou a palavra Marrabenta – a partir da qual se passou a designar um ritmo musical. Ora, é muito interessante notar que em Quelimane existe um ritmo musical chamado Utxekeliwa muito parecido com a Marrabenta. A única diferença é a forma como as senhoras dançam, fazendo movimentos circulatórios.
Entretanto, com o passar do tempo, os ritmos que se tocavam mudaram de nome. Deixaram de ser Xipfapfapfa, Dzukuta, Magika e passaram a chamar-se Marrabenta só por causa da história desse magaíssa. E, assim, por mera casualidade, surgiu o nome. No entanto, dizer que se desconhece a pessoa que inventou a maneira de dançar a Marrabenta é pura mentira.
Dilon Djindji é mentiroso
Nós não devemos entrar em alarme quando Dilon Djindji afirma que é o rei da Marrabenta. Isso é o de menos. No entanto, é inadmissível que – porque isso é um grande erro – ele diga que inventou a Marrabenta. Isso é uma mentira pura. Ninguém inventou a Marrabenta.
Aliás, muito recentemente, no âmbito das investigações do ARPAC, um jornalista perguntou-lhe sobre a mesma história. Ele elaborou um conto – sem pés nem cabeça – de acordo com o qual persuadia as raparigas a serem suas namoradas, dizendo “menina namora comigo senão eu vou-lhe rebentar o focinho”. É uma cena risível – que é uma mentira, como também o é o facto de dizer que inventou as danças da Marrabenta.
Dilon é tão vaidoso de tal sorte que acabou por menosprezar o Conjunto Djambo. É aí onde se encontra o contra- senso das suas palavras porque quem o levou ao palco, em Maputo, são os membros do Conjunto Djambo, em 1965, a fim de actuar no Centro Associativo dos Negros da Província de Lourenço Marques. Na sua primeira actuação, com o medo de enfrentar o público, Dilon Djindji escondeu-se atrás do palco, usando uma cortina.
Quando foi reconduzido ao palco, por Domingos Mabombo, ele fez uma actuação brilhante que lhe valeu aplausos do público. Entretanto, numa mentira manifesta, ele afirma que começou a tocar em 1940. Mas isso não pode ser verdade porque, nesse ano, ele devia ter uns 13 anos. Dilon Djindji introduziu-se na música de acordo com o que narro. Ele tocava Xipfapfapfa e não Marrabenta.
Para agravar as suas mentiras, o autor de Podina dissemina na comunicação social que possui mais de 80 músicas, quando, na verdade, ele não tem mais de quatro ou cinco composições. De 1965 até hoje, ainda não ouvi as suas novas músicas.
Ele repete as mesmas obras nos concertos. Mesmo as músicas que ele canta hoje – sobre Maria Tereza e Podina – não são Marrabenta. Trata-se de Xipfapfapfa. Ele fundamenta a sua mentira alegando que é o artista moçambicano – que canta Marrabenta – mais conhecido fora do país. Os factos mandam-nos dizer que ele começou a ser popularizado há poucos anos, graças ao Projecto Mabulu de que fez parte, antes, nunca tinha viajado com a finalidade de fazer concertos na Europa. Por exemplo, mesmo aqui em Moçambique, ele não é conhecido na província de Inhambane. E nunca pôs os pés em Tete. Se por lá sabem que existe um artista chamado Dilon Djindji é algo actual, resultante do fenómeno da televisão.
Não pode ser verdade – como afirma Dilon Djindji – que o Conjunto Djambo não tem grande popularidade fora de Moçambique, porque esse é o único grupo moçambicano cuja música, Elisa Gomara Saia, se toca em vários países como, por exemplo, a América, o Brasil, incluindo a Rússia. Ela foi composta pela bailarina Rosa Tembe, tendo-se tornado popularíssima.
Dilon Djindji é uma pessoa que possui o descaramento de afirmar que ensinou Fani Mpfumo a cantar Marrabenta. Ora, Fani é o maior compositor moçambicano da Marrabenta de todos os tempos até a actualidade.
Perguntem-lhe se está disposto a enfrentar um detector de mentiras. É que, para mim, uma forma de acabar com as inverdades de Dilon Djindji é colocá- -lo a falar perto de um detector de mentiras. O instrumento irá explodir com tantas falsidades ditas.
Por exemplo, eu aprecio-lhe como músico, mas detesto-o como mentiroso. Porque mente demais. Ou seja, Dilon é um artista da minha geração. Por isso, eu não discordo da sua opinião quando afirma que Fani Mpfumo cantou que em Marracuene havia um rei da Marrabenta, e que se referia a ele. O problema é que Fani não disse que estava a falar de si como nos impinge.
Por essa razão, quando Dilon fala – sobretudo acerca da sua relação paternal com a Marrabenta – nem vale a pena levá-lo em consideração. Ele faz uma manifestação típica de um vaidoso. Como se sabe, a vaidade é a aflição do espírito.
A dança e outros ritmos
No mesmo período, também existiu um bailarino de nome Jaime Paixão, ou simplesmente Zagueta, que praticava várias danças com perfeição. Fazia o que Michael Jackson fez, no bailado, de forma genial. Além do mais, possuía uma dama com quem dançava.
As pessoas dançavam a Rumba e a Magika agarradas, mas, contrariamente, Zagueta e a sua dama bailavam separados, deslizando de um lado para o outro. Foi nessas circunstâncias que se criou a maneira como se dança a Marrabenta. Infelizmente, com o passar do tempo, desapareceram as coreografias feitas para a Rumba, o Dzukuta, a Magika e o Xipfapfapfa.
Os norte-americanos quando o viram a dançar, vieram a Moçambique filmar Zagueta a praticar sapateados. Algum tempo depois, enviaram uma revista, dos Estados Unidos, em que o consideravam um dos quatro melhores bailarinos do mundo, a seguir a Mikey Rooney, o terceiro. Gene Kelly, era tido como o segundo, e Frad Astaire o primeiro. Todas estas peripécias, incluindo a história do magaíssa e a confusão que originou o nome Marrabenta, sucederam-se até o período anterior a 1940. Quando eu cheguei a Lourenço Marques, em 1953, já se conhecia a Marrabenta como tal.
O Unce
É um ritmo de música tradicional que, na verdade, era um ritual praticado em cerimónias familiares como casamentos e lobolos. O Unce é originário de Zanzibar e chegou a Lourenço Marques através de Juma Mulindi que mais adiante ensinou a sua prática a Juma Mukatchita.
Todas as composições desse género – incluindo algumas, actualmente, interpretadas por Wazimbo – foram criadas por Mulindi, não obstante o facto de, quando ele encontrou a morte, Juma Mucaxita ter disseminado o facto de que era o autor das músicas.
A Rumba é nossa
Foto de ArquivoNos dias actuais, as pessoas pensam e afirmam – porque não conhecem a verdade – que a Rumba é música cubana. Mas ela é originária de Moçambique.
Por volta de 1905, os portugueses começaram a praticar o Xibalo, a escravatura, no país. Eles prendiam os moçambicanos transportando-os, nos barcos negreiros, como escravos a fim de trabalharem nos canaviais de São Tomé e Príncipe. De lá, eram transferidos para Cuba e para outros países. Com eles levaram um ritmo musical que se chamava Gumba, ou Gumba-Gumba.
Quando esses escravos chegaram a Cuba, as suas músicas, cantadas em Ronga, foram traduzidas para a língua local. E no lugar de se chamarem Gumba passaram a ser Rumba. Ou seja, na palavra Gumba substituíram o G pelo R, criando-se a Rumba – mas não conseguiram mudar o ritmo da música. O que pretendo explicar é que, da mesma forma que os brasileiros, no lugar de chamar Semba, designam Samba à música angolana, os cubanos chamaram Rumba à nossa Gumba.
Outras referências dos anos 60
Ao longo de 1960, também houve vários e brilhantes criadores da Marrabenta como, por exemplo, Francisco Mahecuane e Alexandre Jafete – que se podem intitular verdadeiros tocadores do género como o fazia Fani Mpfumo – e o compositor Eusébio Johane Ntamele. Entretanto, o maior compositor da Marrabenta – que eu conheci quando tinha oito anos – chama-se Ossumany Valgy.
Foi Ossumany Valgy que me falou sobre a história da Gumba que se tornou Rumba em Cuba, quando a cidade de Lourenço Marques era um presídio, que funcionava na altura em que a urbe se chamava Delagoa Bay. Nas proximidades da Malanga. Esse compositor era membro do Conjunto Zandamela que se chamava Orquestra. Eles tinham uma bateria a qual chamavam jazz, dois banjos, um bandolim e duas violas. No entanto, Ossumany Valgy tocava maracas que se chamavam guizos.
Ao ver-lhe a tocar o seu instrumento fiquei extasiado. Era muito bonito. Uma maravilha! Eles dançavam Makhara. De qualquer modo, é preciso esclarecer que a componente erótica da Makhara é algo muito actual. Como se sabe, muitas vezes, nos dias actuais, vemos crianças na televisão bailando de forma sensual. O que elas fazem não tem nada a ver com a dança.
Por exemplo, a cantora moçambicana Neyma Alfredo possui uma música muito bonita – em que canta “a Marrabenta anima a Neyma” – o problema, uma pena, é que tal obra não é Marrabenta, é Fena. Trata-se de um ritual em que os homens dançam imitando os movimentos de um macaco. Além do mais, ela não é a culpada. O problema é das pessoas que dizem que Neyma é a diva da Marrabenta.
Por exemplo, recentemente, Dilon Djindji e Roberto Chitsondzo propalam, por aí, que não se pode cantar a Marrabenta em português. Mas isso é um problema deles. Uma espécie de dor do cotovelo, por causa do sucesso que Stewart Sukuma – que canta em português – possui. Diria que o errado que há nesse artista é dizer que a Marrabenta “é nosso samba”. A Marrabenta é um ritmo e não uma língua. Por isso, pode-se cantar em qualquer idioma.

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