quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Estamos a tornar-nos Sudão do Sul


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Canal de Opinião por Adelino Timóteo
Na noite de transição para o 5 de Setembro, em que se celebrava o acordo de paz no país, estava eu certo de que iria acordar num país mergulhado em guerra entre o Governo e a guerrilha. Todavia, até então, não me ocorrera que o país em que eu passaria a noite de transição era um outro Estado africano quase falido.
Naquela noite horrível, eu estava num país que vai já no seu sétimo acordo de paz. Naquela noite de calor infernal, o meu estado de inquietação era total, pois acabava de me informar de que, além daquela guerrilha, o Governo combatia outros pequenos grupos de dissidentes, que se tinham desmembrado da guerrilha e tornaram-se senhores de armas, combatendo contra os principais beligerantes, para reivindicarem os seus interesses grupais.
Naquela noite, eu transpirava aos sulcos pelo corpo todo, acossado, por todos os lados, pelos bandos que se combatiam entre si. Naquela noite, eu escondi-me atrás de um jornal, pois não havia quase um edifício de pé, onde eu pudesse pernoitar, lá naquele lugar em que me encontrava. O meu estado era de agonia e perplexidade total. Naquela noite, lembrava-me que, durante o dia, conversara com algumas pessoas, que me pediram que contasse tudo. Da desgraça que acompanhava o país desde a sua Independência. Que contasse tudo sobre as matanças a que a população está sujeita e dos menores que são forçados a integrarem as facções. Que contasse sobre os milhares de vítimas, entre elas mulheres e raparigas violadas. Que contasse sobre o espectro da impunidade reinante.
Naquela noite, esclareceram-me que o único culpado daquela guerra era o Governo, que tinha criado artificialmente o conflito, pois culpara, à maneira muito clássica, o líder do grupo rebelde de tentativa de golpe de Estado, como uma forma de isolá-lo, para depois abatê-lo. Naquela noite, eu fui pensando nas coincidências electivas, nas iniludíveis aparências.
Golpes de Estado eleitorais, manipulação de instituições com funções jurídicas e parlamentares. Fui pensando na sina dos líderes dos grupos opositores, mas em concreto da parte do grupo rebelde, parceiro dos sete acordos de paz, do lugar em que eu passava aquela noite. À semelhança de outros, mais uma vez viu-se humilhado. Perseguido, fugiu para parte “segura”.
Em resultado disso, o Estado submergiu-se numa confrontação, gerando um ciclo de caos e mortes de centenas de civis inocentes.
Naquela noite, eu fiquei a pensar nas questões adicionais à volta daquela guerra: o tribalismo, a fome, o extremismo político, o oportunismo de esquerda, o saque do erário público, a compra de armas em supermercados de armamentos, que acabam caindo nas mãos dos grupos rebeldes.
Naquela noite, as sincronias eram evidentes: o presidente do país era de etnia diferente em relação à do seu mais temível rival.
Naquela noite ainda, enquanto bombardeavam, escondi-me atrás do jornal, que veiculara o sobredito. Não conseguia movimentar-me. Os pés não respondiam ao comando do cérebro.
E para a minha desgraça!
Pus-me a pensar no novo ciclo de conversações para terminar o conflito.
Naquela noite de transição, afinal eu encontrava-me a passar no Sudão, mas acordei em Moçambique.
Tudo era tão similar e tão conectado, que me apercebi que tinha sofrido um pesadelo.
Estamos num ciclo em que a alternativa à paz é a guerra.
A guerra. A guerra. A guerra...
Estamos a tornar-nos Sudão do Sul. (Adelino Timóteo)
CANALMOZ – 22.09.2016

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