sexta-feira, 17 de junho de 2016

Um continente complexo

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CARTA A MUITOS AMIGOS

A África é o nosso continente natal. A Humanidade descende dos nossos ancestrais que, do sul e leste caminharam para o Norte, estendendo-se depois para a Ásia, Europa e para as Américas, quando o Estreito de Behring ainda não separava o extremo da Ásia do Norte da América.
Diversas civilizações a chinesa, a indiana, o Médio Oriente, a Indonésia aqui aportaram muitos séculos antes dos europeus. O Islão aqui apareceu um bom meio milénio antes do cristianismo. As grandes armadas chinesas cá vieram comerciar e subiram o Zambeze em busca de ouro, marfim. Para a Índia e Médio Oriente vendiam-se escravos.
Com escassas forças a Europa ocupou a África.
Portugal não mobilizou sequer cinco mil homens para ocupar a nossa terra.
A Europa explorou as nossas divisões e ganâncias. Organizava um chefe para lutar contra o seu vizinho e assim assenhorar-se das terras, do ouro, das pessoas que venderiam como escravos. Divisões e ganâncias escancararam as portas aos inimigos.
Todos sofreram e o chefe conquistador de hoje, tão logo se via conquistado por outro para tal estimulado pela potência europeia.
Ficamos desumanos.
De tal modo que a Conferência de Berlim mediando as rivalidades europeias decidiu doar em 1877 ao Rei dos Belgas Leopoldo II o Congo dito belga como propriedade pessoal que, sem ironia, o denominou Estado Livre do Congo e, posteriormente, em 1908 legou o território e as gentes ao seu reino devido às numerosas denúncias públicas da exploração desenfreada da população e de diversos massacres.
Verdade, a colonização de Leopoldo e da Bélgica não se mostrou melhor nem pior daquilo que ocorreu nos demais territórios ocupados pelos alemães, franceses, espanhóis, franceses, ingleses e portugueses.
No caso da África do Norte, em particular na Argélia porque se queria lá implantar colonos houve grande violência para ocupar as terras, tal como na África do Sul, Rodésia do Sul e Quénia. Na nossa zona testemunhou-se a expulsão das populações para zonas inóspitas para se implantarem colonos nas boas terras. Os ingleses só queriam bancos, fábricas, minas, para os boers vencidos na guerra entregavam-se as terras férteis.
As campanhas anti-esclavagistas na Europa travaram o comércio de escravos e a guerra civil nos Estados Unidos pôs termo à escravatura. Mas o racismo persiste. Veja-se o Brasil, por exemplo. Quantos deputados, senadores, governadores e presidentes de municípios não brancos, quantos embaixadores e generais? Nas telenovelas brasileiras que por cá difundem incultura o não branco aparece como muleque, babá, jardineiro, vagabundo. Comparem os seriados brasileiros com os americanos onde negros e mulatos, latino americanos surgem como chefes, comandantes, generais, embaixadores, dirigentes.
A vinda de colonos portugueses para Angola e Moçambique ocorreu posteriormente bem entrado o século XX e sobretudo durante o período do chamado Estado Novo, sob a ditadura de Salazar.
Em São Tomé mandavam os latifundiários portugueses nas roças e angolanos e moçambicanos para lá se viam deportados, aí morriam e ficavam enterrados em covas anónimas. Houve parentes meus que lá desapareceram.
À Guiné-Bissau Portugal não ligava e até ao fim do colonialismo. Fez uma lá uma guerra para provar o princípio salazarista do Minho a Timor tudo Portugal.
Muitos problemas assolam a África independente, colónia apenas resta o disputado Saará Ocidental.
Do Norte a Sul diversas calamidades tombam sobre os africanos. Umas provocadas pela natureza e outras pelos homens, os dirigentes gananciosos que se querem donos de países e das gentes.
1.   De um modo geral os antigos colonizadores não perderam a sua natureza predadora e hoje transnacionais dominam países, governos não apenas em África como no Ocidente.
2.   Numerosos governantes africanos embora dirigindo repúblicas consideram-se monarcas absolutos, raros os países em que existem limites de mandato para Chefes de Estado, em nenhum se fixa limites para deputados, senadores etc. Sequer limites de idade e testemunham-se infelizmente já casos de senilidade.
3.   Por morte ou renúncia governantes querem transmitir o poder a filhos e esposas, como se o país fosse um curral ou machamba ou casa que se podem herdar porque o titular faleceu.
4.   Perseguem-se detêm-se antecessores e opositores.
5.   Amordaça-se a opinião, tecem-se louvores e hossanas a quem está no poder, como se todos vivêssemos na Coreia do Norte.
6.   Pilha-se o Estado e os bens do país, investe-se no estrangeiro e deposita-se em contas secretas em off shores.
Esta uma triste realidade que todos testemunhamos. Na nossa região apenas da Tanzânia, Namíbia e Botswana não ecoam escândalos e pilhagens.
Depois há o terrorismo.
Não ouço, não vejo, nem leio que na Nigéria e outros países vítimas do Boko Haram, que na Líbia, Egipto, Síria, Iraque, Afeganistão e Paquistão exista um conflito político-militar. Não falam desse tipo de conflito na França e Bélgica e outros países em que ocorreram atentados. Diz-se e correctamente que há acções e grupos terroristas.
Só em Moçambique teima-se em utilizar o termo conflito político-militar e todos se abstêm de denunciar o terrorismo, que assassina inocentes, destrói veículos, escolas, postos de saúde, etc.
Outros males nos assolam na nossa terra e nos vizinhos. A superstição, as falas mansas ou não de curandeiros e outros aldrabões exploradores de crenças e da ignorância.
Os albinos tornaram-se um alvo da patifaria.
Na minha terra, faz poucas semanas, desenterraram no cemitério uma pessoa de respeito que falecera em Agosto de 2015. Cortaram os braços e pernas e levaram, porque se tratava de um finado albino.
Felicito os tribunais de Pemba e Nampula que condenaram os autores destes crimes de rapto e assassinato de albinos a 30 e 40 anos de prisão.
Além dos autores dos assassinatos e mutilações dos pobres cidadãos e crianças albinas, há que ainda com mais severidade condenar os compradores de órgãos e os feiticeiros ou curandeiros que requerem este tipo de atrocidades. Estes os verdadeiros autores morais e os que incitam à barbárie.
Gostaria que a direcção da AMETRAMO se dissociasse e condenasse publicamente estes actos selvagens, que difundissem junto de todos os seus membros e à população o repúdio da infâmia.
A ignorância, a superstição, a mentira e a ganância ainda minam a nossa sociedade. Contra estes males, a Luta Continua!
P.S. Quando há atentados terroristas em Paris ou Bruxelas, na Nigéria, na Líbia, no Egipto, no Iraque, Síria, Paquistão nenhuma comunicação social fala de conflito político-militar. Actos similares na nossa terra são tratados na comunicação social como conflito político-militar.Brincamos com palavras e dão-nos rebuçados em vez de comida. Por favor, honestidade!
SV
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Sobre a nossa juventude, crianças e desporto

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CARTA A MUITOS AMIGOS
Faleceram nestes dias recentes um grande árbitro nacional, Garrincha e Mohamed Aly (Cassius Clay), antigo campeão mundial de boxe nos pesos pesados. Evocá-los leva-nos a pensar em que fase em Moçambique está no referente ao apoio ao desporto para as nossas crianças, jovens e adultos.
Garrincha pela competência, probidade alcandorou-se para o nível dos melhores árbitros do nosso continente, respeitado dentro e fora das fronteiras, elogiado pela CAF que o convocava diversas vezes.
Que sirva de exemplo e modelo para os mais jovens e que aprendam bem as regras e a honradez para arbitrarem em todas as modalidades desportivas, que também os convoquem para fora das nossas fronteiras.
Três grandes atletas afro-americanos marcaram o século XX: Jesse Owen, Joe Louis e Mohamed Ali.
Nos jogos olímpicos de Munique em 1936 Jesse Owen brilhou, ganhou várias medalhas de ouro nas modalidades de corrida. Humilhado Hitler abandonou a tribuna para não entregar as medalhas a um negro!
Depois do seu regresso triunfal aos Estados Unidos, porque um amigo lhe oferecera um carro, que nunca teve, arrancaram-lhe as medalhas porque os atletas porque amadores nada podiam receber pelos seus feitos. Anos depois devolveram-lhe as medalhas, mas há que dizer que faz muito que o amadorismo desapareceu até nos jogos olímpicos.
Havia um grande campeão de box alemão, que muito Hitler cuidava como prova da superioridade da raça ariana: Max Schmmeling.
Em 1938 veio disputar com Joe Louis o título de campeão do mundo de pesos pesados.
A propaganda hitleriana e racista à partida dava-o como vencedor.
Ainda os espectadores mais atrasados estavam a sentar-se quando logo e no primeiro round Joe Luis desferiu um golpe poderoso que pôs o alemão em KO, vitória por KO no primeiro round!
Imaginem a raiva dos racistas e de Hitler.
O nosso grande Craveirinha escreveu um poema magnífico sobre a vitória de Joe Louis, vitória também contra os preconceitos racistas.
Na segunda metade do século XX surge Cassius Clay, mais conhecido depois da sua conversão ao Islão como Mohamed Aly.
Mobilizado pelas forças armadas americana para combater na guerra suja do Vietname,Cassius Clay recusou servir, afirmando que não ia matar fora do seu país gentes inocentes, quando na sua terra se assassinava e discriminava o negro americano. Preso, retiraram-lhe o título e anos depois veio a reconquistá-lo.
Arrependidas as autoridades americanas puseram-no a acender a chama Olímpica nos jogos de verão nos Estados Unidos. Tremia, a doença de Parkinson já o afectava seriamente e veio a tornar-se a causa da sua morte recente. Triste imagem para arrependimento.
Como vai a nossa terra?
Há um Ministério da Cultura e Turismo. Que tarefas o Ministério cumpre, como responde aos imperativos de formar as novas gerações moçambicanas? Quanto gasta para funcionários e para o resto?
Há promessas de recuperação da Casa do Algarve onde torturaram e assassinaram tantos patriotas.
Regressado do Ibo um amigo mostrou-me fotos dos imensos arquivos abandonados na fortaleza, onde de tempos a tempos entram uns fulanos para sacarem algumas folhas de papel dos documentos para embrulharem couves e cenouras.
Temos um Ministério da Educação e faço perguntas.
Como estão as bibliotecas nas províncias, nas escolas secundárias e técnicas e os laboratórios? Quem cuida desse capital para formar as novas gerações? Apenas existe o problema da falta de carteiras? Os nossos programas e manuais de literatura quantos autores cabo-verdianos, são-tomenses, angolanos e moçambicanos, brasileiros e africanos existem? Comparem com o número de autores portugueses. Moçambique, Angola, Brasil até receberam vários prémios Camões, a África nóbeis.
Faz dias entrei numa livraria para comprar algo a ofertar a uma criança que completava 6 anos.
Esvaziei a minha carteira, 850Mt, vamos dizer mais de 14 USD. Quantas pessoas podem gastar esse valor?
Houve um tempo após a independência em que o livro estava acessível até para pessoas no salário mínimo! Hoje só para as classes médias bem altas, o que fazer?
Na capital do país onde levar uma criança para brincar num escorrega, baloiço, caixa de areia? Em que bairro existe isso? Fora de Maputo há alguma coisa? Onde brincam as crianças, na rua e sarjetas!
Na minha terra natal o parque em que eu e outras crianças brincávamos, desapareceu.
Um edil suspeito de negociatas entregou a alguém que lá fingiu montar um restaurante e depois tudo abandonou: Ganharam as crianças ou o tal edil? Quem averiguou ou tomou medidas?
 Falemos do desporto.
Há um Ministério da Juventude e Desportos. Que tarefas o Ministério cumpre, como responde aos imperativos de formar as novas gerações moçambicanas? Quanto gasta para funcionários e para o resto?
Ganhámos campeonatos africanos no basquete, mundiais no hóquei, recebemos medalhas de ouro e prata em diversas modalidades.
Nos bairros e quarteirões havia tabelas para o basquete e voley, existiam ringues de patinagem pelo país, pistas para o atletismo, campos de basquete e voley. Onde há hoje?
Praticantes de marcha e corrida denunciam o abandono do Repinga e sua transformação em parque de estacionamento. O Presidente Nyusi bloqueou que se fizesse do Parque dos Continuadores um local para construção de prédios.
A nossa Lurdes Mutola construía a seu custo a pista. A edilidade que o permitiu derrubou os eucaliptos na baixa que impediam a sua transformação num pantanal. Como está o Centro Mário Coluna na Namaacha pago pela FIFA?
Que escândalos se passam com as Federações? Não pediram uma auditoria às contas da Federação de hóquei porque existem suspeitas de desvios dos fundos dos patrocínios?
Não existem lá campanhas de cunho bem racista contra candidatos que se opõem à continuação do elenco actual da direcção no hóquei e que jamais praticou essa ou outra modalidade? Não se paga a A e B e até antigos praticantes para defenderem o indefensável?
Não se gasta mais em acompanhantes e amigalhaços nas deslocações ao exterior do que com os atletas?
Queremos voltar a brilhar no desporto. Queremos que as nossas crianças e jovens pratiquem desportos e venham a fazer brilhar as cores da nossa bandeira. Numa época em que se condena o despesismo para quê tantos Ministérios houve um tempo em que um fazia tudo. Diminua-se! 

P.S. Passa-se uma só semana sem mortandades em acidentes de viação, naufrágios? Porque razão Maputo decidiu construir uma ponte faraónica e não comprar barcos para Catembe e Inhaca?
SV

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