quinta-feira, 2 de junho de 2016

Isabel dos Santos “chega” ao BCP pela porta da Sonangol

SONANGOL


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A empresária e filha do presidente angolano vai liderar o conselho de administração da petrolífera angolana. A Sonangol é o maior acionista do Millennium BCP.
TIAGO PETINGA/LUSA
Isabel dos Santos, filha do presidente José Eduardo dos Santos, foi nomeada presidente do conselho de administração da Sonangol. A nomeação foi conhecida através de um despacho do Presidente da República e coloca a empresária angolana na liderança da petrolífera, que ocupa a posição de maior acionista do Millennium BCP, com perto de 18% do capital.
Com esta nomeação, a empresária angolana ganha capacidade de intervenção nas decisões da Sonangol sobre o futuro do BCP. A petrolífera angolana tem vários representantes no conselho de administração do banco português, designadamente via gestores ligados Banco Português do Atlântico (BPA), instituição onde a Sonangol é a principal acionista, e ao grupo InterOceânico, do qual é acionista Carlos Silva, presidente do BPA de Angola e vice-presidente do BCP. Também António Monteiro, presidente não executivo do BCP, tem ligações à InterOceânico.
A nomeação de Isabel dos Santos para a liderança do maior acionista do BCP surge pouco tempo depois de notícias que davam conta dointeresse da empresária angolana no maior banco privado português, num cenário de saída do BPI, onde é hoje a segunda principal acionista. Segundo o semanário Expresso, este movimento teria até sido bem acolhido pelo primeiro-ministro António Costa no quadro das conversas patrocinadas pelo governo para resolver o impasse acionista no BPI.
A favor do investimento angolano na banca nacional, estão os argumentos daqueles que receiam o fenómeno da “espanholização” da banca e que defendem a necessidade de atrair capital de outras nacionalidades para equilibrar o fortalecimento dos grupos espanhóis no mercado português, que passará pela tomada de controlo do BPI pelo CaixaBank, mas também pela entrada na corrida à compra do Novo Banco. Tal como o BCP, também o Santander e o BPI pediraminformação no quadro do processo de venda da instituição liderada por Eduardo Stock da Cunha, de acordo com o Jornal de Negócios,
Mas um investimento de Isabel dos Santos no BCP com uma participação acionista qualificada teria de passar no crivo do Banco Central Europeu, instituição que tem hoje a competência para validar investidores relevantes nos bancos europeus que são considerados sistémicos nos seus mercados. E o reforço de capital angolano, uma geografia considerada exótica, protagonizada por um investidor que é uma pessoa politicamente exposta, como a filha do presidente de Angola, poderia suscitar reservas. Esta avaliação do BCE não se coloca contudo para investidores que já são acionistas de bancos europeus como é o caso da Sonangol.
A chegada de Isabel dos Santos à petrolífera angolana coincide também com um período de transição para a banca portuguesa e para o BCP que mostrou vontade de concorrer ao Novo Banco.
Por outro lado, o maior banco privado português tem estado debaixo de uma forte pressão na bolsa de Lisboa com as ações a derraparem para um mínimo histórico, devido a receios de que o banco liderado por Nuno Amado vá precisar de fazer um aumento de capital, para cumprir os novos rácios, mas também para apresentar uma proposta para o Novo Banco.
Isabel dos Santos assume o cargo de administradora não executiva e presidente da companhia de petróleos angolana. A empresa já foi gerida por Manuel Vicente, atual número dois de José Eduardo dos Santos, e era presidida por Francisco de Lemos J. Maria. De acordo com o Jornal Novo, Paulino Fernando de Carvalho Jerónimo vai ser o presidente da comissão executiva da petrolífera angolana e os restantes gestores são César Paxi, Eunice de Carvalho, Edson dos Santos, Manuel de Lemos, João Saraiva dos Santos e Jorge de Abreu.

As prioridades de Isabel dos Santos na Sonangol

Numa declaração emitida nesta quinta-feira, Isabel dos Santos refere que “a redução de custos, bem como o aumento dos lucros e da competitividade, são hoje prioridades estratégicas obrigatórias”, embora reconheça que “alcançar os resultados pretendidos é uma tarefa difícil e complexa”: a “gestão da crise faz parte da agenda de todas as empresas do setor”.
A empresária acrescenta que “a Sonangol enfrenta esta conjuntura”, marcada por uma quebra “acentuada e prolongada” do preço do petróleo, e “toma a iniciativa de encarar a mudança e marcar uma nova era”. A equipa de gestão a que Isabel dos Santos vai presidir “terá como principal objetivo a implementação do novo modelo para o setor petrolífero angolano e a execução de um Programa de Transformação”.
Isabel dos Santos já estava envolvida na reestruturação da Sonangol, a maior empresa angolana que enfrenta dificuldades financeiras por causa da desvalorização do petróleo. A empresária e a petrolífera estatal angolana têm também negócios conjuntos como a participação na Galp Energia, via Amorim Energia.
Prioridades? A empresária identifica cinco: “Diminuir os custos de produção e otimizar os recursos, tendo em vista aumentar a competitividade internacional do setor petrolífero angolano; aumentar a rentabilidade da empresa e os dividendos para o acionista Estado; assegurar a transparência na gestão e a aplicação de standards internacionais de reporte e de governança; melhorar a relação com os fornecedores e com os restantes parceiros do setor, numa perspetiva de médio e longo prazo e promover a responsabilidade com a comunidade reconhecendo o papel chave da Sonangol EP na sociedade angolana”.
O Boston Consulting Group (BCG), a PwC e a Vieira de Almeida & Associados, um dos mais importantes escritórios de advocacia de negócios em Portugal, vão ser os consultores no processo de reestruturação que vai ser operado na Sonangol.
A quebra dos preços do petróleo nos mercados internacionais tem criado graves dificuldades à economia angolana desde o segundo semestre de 2014 e, também, à Sonangol. Em novembro de 2015, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previa um “aumento significativo” da dívida pública angolana, especialmente através da petrolífera estatal, esta com um peso equivalente a 14,7% do Produto Interno Bruto (PIB).

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