segunda-feira, 20 de junho de 2016

Ao fim de mil anos, a Igreja Ortodoxa volta a reunir-se em concílio


Quatro dos 14 patriarcados faltaram ao encontro na ilha de Creta. Há quem lhe chame o Concílio daselfie
Padres ortodoxos assistem à liturgia na igreja de Heraklion, em Creta COSTAS METAXAKIS/AFP
Levou 55 anos a preparar e o último encontro deste género foi no ano de 787 (leu bem, 787). O grande Concílio Ortodoxo, que ontem arrancou em Creta, é por isso uma reunião com raríssimos precedentes. Mas algumas ausências – como a da igreja russa – ameaçam enfraquecer o que seria à partida um encontro histórico, trazendo ao de cima antigas rivalidades políticas e territoriais.
O ponto de partida do concílio foi dado com a “divina liturgia” que contou com o patriarca Bartolomeu de Constantinopla, considerado o “primeiro entre iguais” – um título apenas honorífico uma vez que a religião ortodoxa não tem uma autoridade comum para conduzir os seus mais de 250 milhões de fiéis. “Este grande concílio sagrado vai transmitir a mensagem de unidade”, afirmou Bartolomeu em Creta.
A escolha de palavras é curiosa porque vem contrariar todas as interpretações que têm sido feitas nos últimos dias à volta deste momento. É que se há alguma certeza antecipada é a de que a fotografia de família vai ficar incompleta, na expressão da AFP. Os trabalhos, que duram até 26 de Junho, não vão contar com a presença de quatro dos 14 patriarcados que compõem a Igreja Ortodoxa. E um dos ausentes é nada mais nada menos que o poderoso patriarca “de toda a Rússia” Kirill.
O primeiro a anunciar que não estaria presente foi o patriarcado da Bulgária, apontando desacordos sobre a agenda e plano de distribuição dos 500 participantes. A seguir vieram as igrejas da Sérvia, Geórgia e Antioquia. E todas essas ausências foram o pretexto avançado por Moscovo, que deu o golpe de misericórdia. “Todas as igrejas devem participar… e só nesse caso é que as decisões desta assembleia serão legítimas”, afirmou Hilario Alfeyev, bispo da igreja russa, para justificar a não comparência.
Apesar de Bartolomeu ser “o primeiro entre iguais”, a igreja de Istambul que lidera tem apenas três mil seguidores e poucos recursos. Já a de Kirill não tem apenas um terço de todos os fiéis, como é também a que possui maior poder económico. Permitir ao patriarca de Constantinopla promover uma maior aproximação das confissões ortodoxas aumentaria um poder que o chefe russo não pretende ver reforçado.
Esta rivalidade “tem sido há anos um dos conflitos mais sérios do Oriente Cristão”, escreveu o analista italiano Sandro Magister citado pelo Guardian. “Kirill pretende na verdade retirar a Bartolomeu o seu estatuto exclusivo de principal representante da ortodoxia de que goza, em parte devido às excelentes relações que mantém com a igreja de Roma e o Papa”.
Um blogue da Economist ressalva que “Moscovo tem razões geopolíticas para evitar a ruptura com Constantinopla. Muitos ucranianos querem a bênção do patriarca Bartolomeu a uma igreja ortodoxa ucraniana independente; Moscovo, que actualmente controla a maior estrutura eclesiástica da Ucrânia, detestaria isso”. Quando se deu o colapso da União Soviética, o patriarcado de Moscovo tinha paróquias mais activas na Ucrânia do que na Rússia, escreve a revista na edição desta semana. Depois da independência ucraniana, foi proclamado um “patriarcado de Kiev”, mas este não recebeu reconhecimento internacional.

O concílio da selfie

Para a elaboração de textos deste encontro, foi escolhida a regra do consenso, favorecendo os mais pequenos denominadores comuns, refere a AFP. E o que vai ser discutido? “Haverá apenas seis pontos na ordem do dia e pelo menos metade parecerão menores aos olhos do mundo”, refere o historiador Antoine Arjakovski, para quem a Igreja Ortodoxa está “bastante doente”.
Um exemplo: o documento sobre “a missão da Igreja Ortodoxa no mundo contemporâneo” não é credível, comenta Arjakovski. “Condena qualquer guerra, mas a igreja russa aceitou a anexação da Crimeia!” Também estarão na agenda temas como a juventude ou a família.
“Às vezes dizemos que o verdadeiro ponto da agenda é a fotografia de grupo”, comenta o especialista em ortodoxia Jean-François Colisomo, que fala num “concílio selfie”. “Mas se o concílio acontece, parabéns a Bartolomeu: não podemos pedir muito mais a um mundo ortodoxo a sair dos escombros”, afirma, referindo-se a uma região eslava pós-comunista e a um Médio Oriente instável.
O último grande concílio a reunir as hierarquias ortodoxas foi o do cisma de 1054 entre Roma e Constantinopla. Mas é preciso recuar até 787 para um encontro sobre questões de doutrina e disciplina como o que agora está a acontecer. Desde então fizeram-se algumas reuniões, mas nenhuma com esta escala, refere o Guardian.
Não é por acaso que foi programado para começar nesta data. Domingo é dia de Pentecostes, quando, 50 dias depois da ressurreição de Cristo, o Espírito Santo desce sobre os apóstolos, dando-lhes alento para pregar a palavra de Jesus. Por isso, este é considerado o dia do nascimento da igreja.
Ninguém espera que venha a mudar a sua posição milenar sobre o resto da cristandade: a de que esta é a única verdadeira igreja. Aliás, a palavra “igreja” nem faz parte do vocabulário ortodoxo quando se refere a outras que não a sua.

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