segunda-feira, 6 de junho de 2016

A dívida soberana foi um negócio da família Guebuza, oficiais do SISE, MINT e MND @Verdade e Canal de Moçambique

Quando o escândalo da EMATUM rebentou, pouco tempo depois a imprensa internacional, principalmente os franceses, os ingleses e os norte-americanos informaram que o negócio não envolvia apenas barcos. Havia facturas de compra de armamento que foram misturadas com os barcos para evitar questionamentos. Mais tarde, viria a saber-se que a Empresa Moçambicana de Atum, a Proindicus e a Mozambique Magement Asset (MAM) criaram relações incestuosas quer com o Ministério do Interior, com o Ministério da Defesa, e conseguiram comprar armamento usando na sua estrutura accionista os Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE). O que não se sabia até aqui é que quem esteve à frente do expediente da compra de armamento é o filho do ex-Presidente da República Armando Guebuza, Mussumbuluko Guebuza, conhecido como “Shushu” no seu círculo familiar.
Através das suas duas empresas, a “Msumbiji Investiments” (usa a conta 44717836102 domiciliada no Standard Chartered Bank em Hong Kong) e a “Timabes AG” (registada no Liechtenstein onde é titular da conta 10.359180_0.100.USD no Valartis Bank), Mussumbuluko Guebuza importou uma considerável quantidade de armas num processo em que também está envolvido o director-geral do SISE, Gregório Leão, o então ministro do Interior, Alberto Mondlane, e ex-ministro da Defesa, Filipe Jacinto Nyusi.
Através de uma fonte directamente envolvida no negócio, a investigação do “Canal de Moçambique” e do jornal “@ Verdade” teve acesso a várias imagens de reuniões entre Mussumbuluko Guebuza e os fornecedores de armamento.
Uma das principais reuniões realizou-se em Maio 2014 nas instalações da “Israel Weapon Industries” (abreviadamente designada como IWI). Na referida reunião, Mussumbuluko Guebuza está acompanhado por um oficial superior do SISE, identificado pelo único nome de Agy, que foi indicado por Gregório Leão para acompanhar o filho do “Chefe” no processo. Após um breve teste do armamento, a IWI emitiu um certificado de qualificação em nome de Mussumbuluko Guebuza. Quem intermediou o contacto de Mussumbuluko e os israelitas é um cidadão da Bielorrússia identificado pelo nome de Alex que, de resto, participou em quase todo o processo.

A IWI é um fabricante israelita de diferentes tipos de armas: pistolas, espingardas, tanques. Segundo apurou a investigação do “Canal de Moçambique” e do “@Verdade”, a IWI forneceu a Mussumbuluko Guebuza vários modelos de armas, com destaque para armas de assalto TAVOR, X 95, ACE e GALIL, incluindo pistolas conhecidas como modelo “Jericho”. Nas imagens a que o “Canal de Moçambique” e o “@ Verdade” tiveram acesso, Mussumbuluko Guebuza aprecia e depois experimenta nos estaleiros da IWI uma arma X 95. No certificado emitido pela IWI, Mussumbuluko está apto para manejar rifles X95 NEGEU e pistolas “Jericho”.
Treinos em Boane e na Namaacha
Segundo apurou a nossa investigação, depois dos pagamentos, as armas chegaram a Moçambique em Setembro e Outubro de 2014, na altura das eleições. Não vieram só as armas. O contrato previa que os peritos israelitas da academia IWI (uma academia de instrução militar da referida empresa) viessem a Moçambique instruir os beneficiários das armas.

E foi de facto o que aconteceu. Em Outubro e Novembro, dois especialistas israelitas da IWI, cujos nomes não conseguimos apurar, estiveram em Boane e na Namaacha a instruir agentes da Casa Militar (elementos do Ministério do Interior e da Defesa), os famosos “boinas vermelhas”, sobre como usar os novos “assault rifles” e as pistolas. É basicamente uma formação de franco-atiradores, ou seja, “snipers”. As sessões de instrução tinham um convidado especial: Mussumbuluku Guebuza, que também ia aprendendo. Em várias imagens na posse do “Canal de Moçambique”, Mussubuluko aparece empunhando armas pesadas e pistolas, intercalando com agentes da Casa Militar, que também treinam tiro ao alvo. No “website” da IWI, a empresa define a sua academia como sendo uma das melhores do mundo. “A competência central da academia IWI é baseada nos seus instrutores, que são veteranos das Forças de Defesa de Israel (IDF, sigla em inglês), unidades de elite da Polícia ou de várias agências de inteligência”, lê-se na descrição da academia publicada na internet.
As suspeitas de Dhlakama
Acredita-se que os atiradores que por duas vezes tentaram assassinar Afonso Dhlakama no ano passado tenham recebido tal formação ministrada pelos instrutores da IWI. Aliás, o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, denunciou no princípio deste ano a formação de “snipers” para liquidar membros da oposição. Dhlakama falou do envolvimento de coreanos na operação. Um facto é que a “holding”-mãe de que a IWI faz parte é coreana e denomina-se “SK Group”.
Conflito de interesses

O Estado moçambicano pode evocar questões de segurança para justificar a compra de armamento sem concurso público, ou seja, recorrendo ao ajuste directo, tal como preconiza a alínea f) do nº 3 do Artigo 9 da Lei do “Procurement”. Mas não terá como justificar o uso das empresas do filho de Guebuza para aquisição das armas, por se estar numa clara situação de conflito de interesses, pois o negócio beneficiou um familiar directo (filho) do servidor público (Presidente da República) com poder de decisão sobre a matéria.
Nem Mussumbuluko nem o então Chefe da Casa Militar
O “Canal de Moçambique” e o @Verdade tentaram, sem sucesso, obter as explicações de Mussumbuluko Guebuza sobre a enorme e variada quantidade de armas que por si foram negociadas. Tentámos igualmente ouvir o então Chefe da Casa Militar, Jorge Gune, mas todas as nossas tentativas redundaram em fracasso. A equipa de investigação que conduziu este trabalho sabe que o general Jorge Gune foi recentemente nomeado embaixador de Moçambique no Malawi, e para o seu lugar foi nomeado o contra-almirante Joaquim Mangrasse.



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