domingo, 8 de maio de 2016

Resistência ao golpe começa sob fogo cerrado e a esquerda divaga

A resistência pacífica ao golpe de Estado, nas manifestações de estudantes, partidos da esquerda e movimentos sociais, tende a ser pulverizada no rochedo da violência que, desde sempre, se impõe nos governos de orientação fascista

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro
O Senado da República assentou, nesta sexta-feira, mais uma etapa no golpe de Estado em curso no Brasil. Os segmentos políticos ligados à extrema direita, na Casa, apresentaram suas armas e um contingente três vezes maior do que o número de aliados na resistência, contrários à ruptura do regime democrático prestes a se consolidar. No dia 11, quarta-feira da semana que vem, cairá a presidenta Dilma Rousseff, com o voto da maioria dos senadores em um processo marcado, desde o início, pela sanha golpista.
Governo que se iniciará, semana que vem, carece de votos e representatividade
Governo que se iniciará, com o golpe de Estado, semana que vem, carece de votos e representatividade
Na véspera, a decisão tardia do Supremo Tribunal Federal (STF) no afastamento do então presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tentou emprestar aos líderes do golpe o estandarte roto da moralidade. Em nada alterou o destino da República na direção do período abissal de 180 dias que significará, na prática, a vitória insidiosa dos preceitos capitalistas – os mais selvagens – e uma derrota sem quartel para a esquerda brasileira.
Ao longo dos próximos seis meses, é fácil antever, não restará a salvo um direito civil sequer, ou a menor conquista social alcançada nos últimos 50 anos. A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), ‘flexibilizada’ de acordo com os padrões da Confederação Nacional da Indústria (CNI), leva o país de volta à era pré-Vargas. Ao mesmo tempo que a privatização de patrimônio público, com sua execução segundo os planos deste aparentemente inevitável governo Michel Temer, assume dimensão maior do que os escândalos privatistas do período tucano de Fernando Henrique Cardoso (FHC). O alvo, agora, é a Petrobras.
A resistência pacífica ao golpe de Estado, nas manifestações de estudantes, partidos da esquerda e movimentos sociais, tende a ser pulverizada no rochedo da violência que, desde sempre, se impõe nos governos de orientação fascista, a exemplo desse que começará, na semana que vem. Sejam os jovens corajosos, ainda inexperientes, ou os adultos já experimentados na luta contra a exceção, todos se veem diante do novo desafio, o de resistir ao assalto perpetrado contra os trabalhadores e o legado desta nação.
Fica óbvio, diante do poderio exercido pela mídia conservadora na tarefa de iludir os brasileiros mais crédulos, que a resistência vive sob ameaça de um verdadeiro massacre. A batalha, doravante, ocorrerá em um deserto de ideais, sem a proteção do Estado democrático e de Direito, sob saraivadas de mentiras e o fogo de barreira dos agentes econômicos, prontos a marginalizar toda e qualquer ação contrária ao interesses golpistas. A perseguição aos jornalistas, blogueiros e midiativistas já se iniciou, com o garrote implacável dos processos judiciais e a supressão de todo e qualquer apoio financeiro. Querem vencer pela asfixia, antes de soltar os cães da matilha judicial.
Se o panorama se apresenta sombrio para os dias que se seguem, as perspectivas de um quadro ainda mais obscuro se adiantam na República de Curitiba, onde tentam encarcerar o líder petista Luiz Inácio Lula da Silva, na tentativa de levar para além de 2018 o domínio da sedição. As investigações da Operação Lava Jato, céleres na prisão de José Dirceu, mas lerdas na punição a Eduardo Cunha e seus asseclas, terão meses inteiros para ampliar o ambiente de ódio contra o PT e a esquerda, com ataques em série ao partido e aos seus próceres.
A História é cíclica, nesse Brasil dominado. Até encontrarem, novamente, o caminho para um Estado mais justo e igualitário, as forças progressistas passarão por um duro período de luto pela oportunidade perdida. A este, seguir-se-á um tempo de escaramuças internas e inúmeros embates nas críticas e autocríticas entre quem participou, ou não, de 13 anos do PT no poder. Enquanto a esquerda divaga, o patrimonialismo e a exploração desenfreada caminharão de parelha, sob o beneplácito do Palácio do Planalto, imerso nas trevas do fundamentalismo e da arrogância.
Digam-me que este é apenas um pesadelo, distante da realidade ora em marcha. Caso contrário, já na semana que vem, uma camarilha sem voto, sem legitimidade, passará a controlar os destinos de um país inteiro, sob o olhar estupefato de uma nação insone.
Difícil dormir com um barulho desses.
Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.

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