sábado, 7 de maio de 2016

Peregrinos rezam pela paz

A necessidade da preservação da paz e unidade nacional, fim das hostilidades militares, bem como o perdão da dívida soberana do Estado moçambicano, constitui o principal pedido dos peregrinos que escalaram semana finda o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Namaacha por ocasião da peregrinação jubilar que este ano tem como lema: “Com Maria, contemplemos a misericórdia de Deus”.
O Santuário da Namaacha
acolhe hoje o início
das celebrações do 99º
aniversário das aparições
de Nossa Senhora
de Fátima, na Cova de Iria, em
Fátima, Portugal, aos três pastorinhos,
designadamente, Lúcia,
Francisco e Jacinta a 13 de Maio
de 1917, em plena segunda guerra
mundial.
Para assinalar a data, milhares
de fiéis católicos escalaram
o Santuário tendo na sua
bagagem, para além de pedidos
pessoais, os colectivos, nomeadamente,
o restabelecimento da
paz efectiva com o fim da tensão
militar e o perdão da dívida soberana
do Estado moçambicano.
Isabel Mário Chone, da Paróquia
de São Francisco Xavier
de Benfica, disse à nossa Reportagem
que peregrinou para
pedir a “Virgem Maria” para que
interceda no sentido de os moçambicanos
se reencontrarem
na perseguição dos mesmos objectivos
que passam pelo perdão
e reconciliação.
“A questão da paz é a principal
preocupação de todos
nós uma vez que não estamos
sossegados. Vivemos na incerteza,
quando viajamos de
um ponto para o outro e nas
cidades há muita criminalidade,
como por exemplo, raptos
entre outros males. A outra
questão é que há fome porque
Deus zangou connosco, pelo
que rogamos ao Pai Celestial
para que perdoe os nossos
males e o Governo consiga
liquidar as dívidas e se não
conseguir que os doadores
nos perdoem”, disse Isabel
Chone, para quem a guerra retarda
o desenvolvimento do país.
Por sua vez, Percina Sitoe,
da Paróquia de São Gabriel da
Matola, diz que valeu a pena peregrinar
para agradecer a Deus
pelas bênçãos recebidas após os
pedidos feito à Maria em edições
anteriores que preferiu não as
revelar por ser um sigilo.
Para ela, é imperioso que os
moçambicanos, sobretudo os
líderes políticos, voltem à mesa
das negociações para o restabelecimento
da paz no país. “A
questão da paz é crucial, porque
estamos a ouvir nas províncias
do Centro que as pessoas
estão a morrer devido à
guerra”.
Acrescentou que resolvida
a questão do conflito, os outros
problemas como por exemplo,
a seca e fome nas comunidades
poderão ser resolvidas a breve
trecho. “Também é necessário
esclarecer a problemática das
dívidas para ver se os parceiros
de cooperação reconsideram
a sua decisão de cortar
a ajuda financeira ao nosso
país”, disse Percina Sitoe
O peregrino Joaquim Carlos,
de São Gabriel, disse ao nosso
jornal que peregrinou pela décima
primeira vez com o propósito
de conquistar algo importante
para sua vida e da família.
Para ele, tendo sido decretado
2016 como sendo Ano da Misericórdia
pelo Papa Francisco, é
preciso encarar as dificuldades
que o país atravessa com humildade
e coragem de maneiras a
resolver as diferenças.
“Particularmente os nossos
dirigentes devem perceber
que o conflito armado e
a seca que dilacera milhares
dos nossos compatriotas é
de carácter preocupante, pelo
que eles devem criar mecanismos
para ponderação e sendo
Ano da Misericórdia, o apelo
é no sentido de mais uma vez
os nossos líderes sentarem à
mesa e buscar a razão. Portanto,
os problemas estão nas
nossas mãos e como igreja temos
o papel de ajudar os nossos
irmãos políticos a se reconciliar”,
disse Joaquim Carlos, sublinhando que as pessoas
devem se encontrar com Deus
para perceber até que ponto as
suas ambições e ganância pelo
poder podem destruir a unidade
nacional.
Por sua vez, Evlis Miguel, da
Paróquia de Sagrada Família da
Machava, diz que os moçambicanos
devem ser humildes e saber
resolver as situações que forem
a acontecer durante o processo
da construção do Estado moçambicano.
“Os dirigentes devem
dialogar insistentemente
até encontrar a solução para
as diferenças, porque a guerra
não nos leva a lado nenhum
a não ser destruir o tecido social
e humano. Em relação à
divida, é necessário acreditar
que os credores vão reconsiderar
a sua posição”, disse
Evlis Miguel que se mostra optimista
na solução das crises que
o país atravessa.
SANTUÁRIO COM AS
DIFICULDADES DE SEMPRE
A falta de água, sanitários,
balneários bem como alojamento
condigno ainda constitui
um bico-de-obra para milhares de peregrinos que anualmente
escalam o Santuário de Nossa
Senhora de Fátima, no distrito
da Namaacha, província de Maputo,
a cerca de 80 quilómetros
da capital do país.
Este ano, o problema foi
agudizado pela escassez da chuva
que se regista na região sul.
Entretanto, mesmo com essa
dificuldade, os fiéis católicos
cumpriram o seu ritual que é
escalar o Santuário para rogar a
“Virgem Maria”, de modo a responder
às suas súplicas, entre
elas, emprego, sossego familiar,
ingresso na universidade, fim
da tensão militar, entre outros
aspectos.
As celebrações deste ano tiveram
que ser antecipadas em
virtude de no próximo domingo,
o primeiro após 13 de Maio, ser
Domingo de Pentecostes (festa
da descida do Espírito Santo Munisobre
os Apóstolos) que servirá
para a tomada de posse dos
corpos directivos de todas as
paróquias da Arquidiocese de
Maputo, saídos das eleições havidas
ano passado.
Outro aspecto a destacar é
que por o evento decorrer no
Ano Jubilar da Misericórdia, os
peregrinos terão que passar pela “Porta Santa”, conforme
recomendação do Sumo Pontífice
que orientou todas as arquidioceses
no sentido de celebrar
esse gesto sem que os católicos
passem pelo Vaticano, em Roma.
Para participar neste evento,milhares de peregrinos, na sua
maioria jovens e adultos, cerca
de dois mil, partiram a pé, na última
quinta-feira das cidades de
Maputo e Matola e os primeiros
começaram a chegar na vila da
Namaacha a partir das 14 horas
da sexta-feira.
Chegados ao local, os peregrinos
debateram-se com os
mesmos problemas de sempre:
muito tempo de espera para
massagens com banhos quentes,
falta de dormitórios, uma vez
que as salas e as tendas improvisadas
foram insuficientes para
alojar àquela multidão.
A agudizar a situação, ontem,
às primeiras horas, os peregrinos
foram fustigados por
uma chuva intensa e que caiu ao
longo do dia, mas que para eles
foi uma bênção e lavagens dos
maus espíritos.
Nessa linha do pensamento e
revigorados com a força da Virgem
Maria, os peregrinos não se
desviaram do objectivo que lhes
levou a escalar àquele lugar de oração, tendo permanecido horas
a fio ao relento expostos à
chuva, frio, mas cientes de que
o sacrifício consentido não seria
inútil.
Entretanto, o padre João Jonasse,
porta-voz da equipa organizadora
do evento deste ano,
disse ao nosso jornal que estavam
criadas as mínimas condições
para acolher os peregrinos
à medida do possível.
Segundo explicou, a organização
criou equipas móveis de
assistência e quatro postos fixos,
nomeadamente, em Boane,
Mandevo, cruzamento de Goba e
no próprio Santuário, aonde os
peregrinos receberam cuidados
médicos se fosse o caso, água,
chá entre outro tipo de apoio.
Por seu turno, Jorge Tinga,
presidente do Conselho Municipal da Namaacha, disse que a
edilidade garantiu a segurança
e cerca de 45 mil litros de água
e que os balneários estariam a
cargo de uma entidade privada
que iria cobrar um valor simbólico
para o seu uso. Acrescentou
que a vila ainda não dispõe de
instalações para acolher os fiéis
a não ser alguns hotéis que estão
longe de responder a demanda.
Aprovado projecto da Casa do Peregrino
O bispo auxiliar da arquidiocese de
Maputo, Dom João Carlos Nunes, garantiu
ao nosso jornal que as condições de alojamento
e acolhimento dos peregrinos irão
melhorar nos próximos anos com a aprovação
do projecto da restauração do Santuário
que inclui entre outros aspectos, a
construção da Casa do Peregrino, Basílica
e outro tipo de infra-estruturas propícias
para as orações, para não falar de espaços
para outros serviços de assistência aos
peregrinos.
Segundo João Carlos, a fase que segue
é a divulgação deste projecto para o seu
conhecimento a nível nacional assim como
externo no sentido de angariar financiamento
e apoios para a sua implementação.
Ainda de acordo com aquele prelado,
no global são necessários cerca de 4 milhões
de dólares para a sua execução, razão
pela qual a igreja não descarta a possibilidade
de a sua implementação ser faseada
à medida que vão chegando os apoios.
Mais de 45 mil fiéis na celebração eucarística
Para hoje (domingo) está programada
uma celebração eucarística a ser presidida
pelo bispo auxiliar da Arquidiocese Diocese
de Maputo, Dom João Carlos Nunes, que irá
convidar o seu rebanho a fazer uma reflexão
em torno das melhores formas de convivência
saudável e harmoniosa tal como o fez a
“Virgem Maria” na sua aparição em Fátima.
Com efeito, várias são as actividades
programadas de entre as quais destacam-
-se a bênção com o Santíssimo Sacramento,
solene celebração eucarística que
encerra a peregrinação, seguida pela procissão
de adeus.
Entretanto, ontem foi a vez da chegada
dos fiéis que se deslocaram ao Santuário
com recurso aos transportes semi-colectivos
de passageiros, carros particulares, o
que em algum momento tornou intransitável
a Estrada Nacional Número 2 (EN-2) que dá
acesso à vila fronteiriça da Namaacha.
Fotos de Jerónimo Muianga

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