domingo, 8 de maio de 2016

Ex-PM de Angola pergunta se Portugal deve "angolanizar" justiça

O antigo primeiro-ministro angolano Marcolino Moco considerou hoje à agência Lusa que a declaração "mirabolante" do ex-vice-primeiro-ministro português Paulo Portas sobre o risco de "judicialização" das relações luso-angolanas constitui uma vontade de "angolanizar a justiça" portuguesa.

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Numa entrevista, em Lisboa, Marcolino Moco salientou que essa é a "tradução" que faz das palavras proferidas por Paulo Portas ainda na qualidade de governante português durante um período tenso nas relações luso-angolanas e que envolviam investigações de atos alegadamente ilícitos de altas personalidades de Angola.
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"Nunca se perguntou de onde saiu tanto dinheiro para uma família comprar bancos, outros setores estratégicos de Portugal. Isso era importante saber", disse, aludindo à recente diretiva do Banco Central Europeu (BCE), que exigiu a Lisboa menor exposição financeira a capitais angolanos.
"Há pouco tempo, ouvimos aquela palavra mirabolante de Paulo Portas, que disse que «Portugal não deve judicializar a relação» (com Angola), o que eu traduzo por «Portugal deve angolanizar a sua justiça». Quando vierem para Portugal assuntos relacionados com Angola, Portugal abandona a sua regra de diamante, que é a de separação do poder político e judicial", comentou Marcolino Moco.
Para o também primeiro secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP, 1996/2000), os grandes empresários angolanos, "que são poucos", são "muito próximos do presidente (de Angola, José Eduardo dos Santos) e até parentes", dando como exemplo o caso de Isabel dos Santos, filha do chefe de Estado.
"Fala-se todos os dias na Isabel (dos Santos), que agora tem o nome de «Princesa», e percebemos bem a questão de que estou a falar. Há uma certa animosidade, e como tudo isso é acompanhado por um poder efetivo desta classe tão restrita em Angola", sustentou.
Segundo Marcolino Moco, há uma "manipulação de conceitos" em torno das relações luso-angolanas, sobretudo por parte de Luanda, que "politiza" problemas que existem entre pessoas e empresas, lembrando que, há alguns anos, "alertou" para a "permissão" portuguesa de vender setores estratégicos a empresários angolanos.
"Já tinha alertado que essa permissão de Portugal de vender setores estratégicos a «angolanos» - por que não são uma classe empresarial verdadeira, são homens e mulheres do poder, que se eternizam no poder -, havia de custar a Portugal. Acho que não me enganei, porque é justamente isso que está a acontecer hoje", referiu.
"Perguntei, então, se a UE (União Europeia) não tinha uma forma de ajudar Portugal a livrar-se desta situação que iria criar problemas. Ninguém me ouviu na altura. Era a altura do entusiasmo, do maná, mas nunca entendi que se chamasse crescimento económico à valorização, que tinha sempre de ser temporária, de um produto único para um país. Nunca entendi", sublinhou Marcolino Moco.
O "milagre económico" de Angola era, porém, a frase mais destacada de então, acrescentou, o que permitiu que as coisas chegassem ao ponto de qualquer problema de negócios ser logo elevado ao nível de relações entre Estados.
"O que é mais curioso, algo masoquista, é que alguma elite portuguesa acha que deve ser assim. Que os tais «angolanos» devem exigir tudo o quiserem perante Portugal, como se Portugal tivesse alguma culpa", argumentou.
"Agora estamos nesta situação e parece que Portugal já começa a sentir que a relação com África não pode continuar com esta relação do tipo «chico-esperteza», mas sim numa base de respeito para os povos", concluiu.

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