domingo, 22 de maio de 2016

Chissano pede perdão para Uria Simango (Recordando) 2014

DIRECTOR: Serôdio Towo | Segunda-Feira, 20 de Janeiro de 2014 | Edição nº: 63 | Ano: 02 | Tiragem: 7500 exemplares PREÇO 30,00 MT Dossiers Factos SAI ÀS SEGUNDAS TIDO COMO TRAIDOR DA PÁTRIA Edson Macuácua e Alice Mabota em guerra Aniversário de Guebuza em turbulência Pág. 09 Chissano pede perdão para Uria Simango2
SEGUNDA-FEIRA, 20 DE JANEIRO DE 2014
EDITORIAL
Crescimento exige mudanças e dinamismo!
Estamos no início das actividades do ano 2014 época que traçamos como sendo de consolidação do nosso, vosso jornal Dossiers & Factos.
A consolidação do jornal deve ou precisa de um acompanhamento que passa necessariamente por um trabalho cada vez mais e melhor visando fazer chegar ao nosso público leitor informação credível, de e com qualidade necessária.
É dentro deste contexto que passado aproximada­mente um ano e três meses de existência, decidimos dar uma viragem naquilo que é a imagem do jornal, procurando melhorar a qualidade gráfica.
Assim, procurámos uma nova empresa para as im­pressões semanais do jornal para que o nosso produto final seja de uma qualidade competitiva e dê prazer aos seus fazedores, assim como aos destinatários últimos, no caso, os leitores.
Desde o lançamento do Dossiers & Factos em Se­tembro de 2012, as nossas atenções estiveram viradas para a introdução do produto no mercado nacional de comunicação social, consolidar a marca e conquistar espaço devido no panorama dos mídia. Esta missão incluía claro, mostrar e habituar os nossos leitores a linha editorial do nosso semanário.
Reconhecemos e sentimos com muita preocupação que os nossos leitores em algum momento viram-se obrigados a forçar a vista para enxergar as letras de alguns artigos nossos, assim como a fazer um exercício mental para perceber algumas passagens, devido a má qualidade de impressão gráfica.
Esta situação que aliás, veio a repetir-se na nossa edição passada, para além de ferir os nossos estima­dos leitores, colaboradores e clientes, também criava dissabores à própria equipa de trabalho.
Depois de despenderem as suas energias com vista a assegurar a produção de um jornal de qualidade, os repórteres e a restante equipa deste jornal foram brindados por uma impressão muito má.
Contudo, é da nossa responsabilidade endereçar aos estimados leitores, colaboradores e clientes, um sincero pedido de desculpas pelo constrangimento.
A melhoria da qualidade de impressão do Dossiers & Factos para nós revela-se como um dos desafios que nos propusemos a seguir, assim como enfrentar ao longo do caminho que decidimos trilhar. Nesta em­preitada não damos lugar à ilusão, pois estamos bem cientes das dificuldades que nos esperam derivadas, na sua maioria, da própria natureza do mercado.
Humildemente como sempre, continuamos a contar com a vossa contribuição. Estamos abertos a críticas, análises e observações tal como o fizeram desde prin­cípio.
Porque não só precisamos de mudar a imagem do jornal através da qualidade de impressão, este sema­nário conheceu também, certas alterações em termos de paginação e distribuição da informação.
Num futuro próximo, novos temas serão incorpo­rados neste jornal tudo na perspetiva de oferecer ao estimado leitor mais informação e com cada vez mais qualidade.
Esperamos que com o nosso trabalho melhorado estaremos a levar ao público um jornal de qualidade e desta forma contribuir para a dura missão de informar, formar e educar a sociedade. Esperamos que através deste nosso esforço, contribuamos para o desenvolvi­mento são e harmonioso desta bela Nação. A melhoria da qualidade gráfica do Dossiers & Factos significa um verdadeiro crescimento, factor que exige de nós, mudanças e dinamismo.
FICHA TÉCNICA
PROPRIEDADE DA
S.T. PROJECTOS E
COMUNICAÇÃO, LDA
DIRECÇÃO: Serôdio Towo (Director-Geral)
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SEGUNDA-FEIRA, 20 DE JANEIRO DE 2014
DESTAQUE
CHISSANO EM ENTREVISTA AFIRMA:
“Não era só a Mondlane que
queriam matar”
Mas, ciente de que os homens, filhos de Deus, cometem pecados muito graves, peço a Deus
que o perdoe e que a sua alma descanse em paz
Tal como o fizemos na nossa edição da semana passada, no âmbito da publicação de dossiers que retratam acontecimentos que marcaram a história do País, na presente edição trazemos depoimentos de Joaquim Alberto Chissano, outra figura emblemática e incontornável desta odisseia que levou o país à indepen­dência nacional do jugo colonial português. Chissano, é uma das pessoas que trabalhou com Eduardo Mondlane, fundador da FRELIMO, até à sua morte a 3 de Fevereiro de 1969. Foi secretário do então Presi­dente da FRELIMO e responsável pela segurança, na altura da Luta de Libertação Nacional. Esta entrevista foi extraída do livro “Memórias da Revolução 1962-1974”, uma colectânea de entrevistas com diversas personalidades. De referir que, até finais do mês de Fevereiro próximo, mês dos heróis moçambicanos, o Dossiers & Factos, dedicará páginas de entrevistas a alguns heróis da pátria.
Nachingwea (N): Senhor Presidente, bem-vindo ao es­paço de memórias do jornal Nachingwea. Em primeiro lugar, gostaríamos de sa­ber como foi a sua infância.


Joaquim Chissano (JC): Nasci em Maleice, a 17 km da sede do distrito de Chibu­to, província de Gaza, onde o meu pai era professor na Mis­são Católica local. Mais tarde ele foi à procura de melhores condições de trabalho na vila de João Belo, actual cidade de Xai-Xai. Quando chegou a altura de eu ir a escola, ele levou-me para lá. Fiz a escola primária numa escola oficial. Quando ainda estava na pri­meira classe, ele foi transferido para o Posto Administrativo de Chongoene, situado a 17 km de Xai-Xai, como intérprete. Dei­xou-nos a mim e o meu irmão mais velho, ao cuidado de uma família amiga, que eram seus compadres. Nessa época, eu passava as férias em Xai-Xai, Chongoene ou Maleice. Numa dessas férias, em Chongoene, quando andava na 4ª classe, em 1950, o meu pai mostrou-me um jornal onde se falava de um português de cor (negra) que tinha ido a Portugal para fazer estudos superiores e que antes tinha sido expulso da África do Sul, e que já estava nos EUA.
O meu pai deu-me o jor­nal para ler e interpretar, e ficou comigo até a madruga­da para que eu percebesse o valor daquele homem negro.
N: Quem era esse homem que lhe tinha impressionado bastante?
JC: Esse homem era não mais, nem menos que Eduardo Mondlane. Portanto, comecei a ouvir o nome de Eduardo Mon­dlane nessa idade dos 11 anos. Depois de terminar a escola pri­mária, vim para cá, ex-Louren­ço Marques, para fazer o liceu.
Durante o tempo em que estive no liceu, eu era o único negro e tive contacto com os outros estudantes negros que andavam nos colégios priva­dos e na Escola Técnica (co­mercial e industrial) e alguns deles eram da Igreja Presbite­riana, que chamávamos Mis­são Suíça. Foi nesse contexto que me integrei no Núcleo dos Estudantes Secundários Afri­canos de Moçambique (NE­SAM), de que tive conheci­mento através de um tal Caifaz Muzima, estudante do Colégio Pedro Nunes. No Núcleo, fi­quei a saber que o seu fun­dador tinha sido o tal homem negro, Eduardo Mondlane.
N: Em que momento come­ça a ouvir a falar de Mondla­ne no processo de libertação?
JC: Enquanto eu esta­va em Portugal a estudar, desencadeia-se a luta de li­bertação de Angola, a 4 de Fevereiro de 1961. Nessa mesma altura, Eduardo Mon­dlane, então funcionário da ONU, prepara-se para vir a Moçambique de visita.
Depois dessa visita, retor­nou aos EUA e, a partir de lá, estabeleceu contacto indirecto connosco, através de organi­zações religiosas da Suíça e da Franca, o que culminou com a sua participação na organi­zação da fuga dos estudantes das colónias portuguesas para a França. Ele foi determinan­te para a saída de todos nós. Disseram-me que inicialmen­te, aquela organização preten­dia tirar apenas os estudantes do grupo protestante. Mas Mondlane, claro do que pre­tendia, disse “não, está errado, todos devem sair”. Foi assim que sai, não sendo protestan­te, consegui sair com eles.
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DESTAQUE
Mondlane foi desconfiado como funcionário da CIA
N: Em Paris, o que é que ele vos transmitiu? Falou-vos da preparação da luta armada?
JC: Em Paris, Mondlane que­ria falar connosco todos, portanto, incluindo os de outras naciona­lidades. Mas houve os que não queriam ser contactados por ele, julgando que por ter uma mulher branca americana, podia estar ao serviço da CIA, com o fim de es­piar e desviá-los do seu objectivo de aderir a luta. Portanto, quando ele chegou, uma grande parte dos estudantes das outras colónias abandonou o lar onde nós está­vamos. Uma grande parte dos angolanos, por exemplo, excep­to os protestantes, foram para o Gana para se encontrarem com o MPLA. Contudo, nós os moçam­bicanos, não saímos, porque que­ríamos estabelecer contacto com o nosso Movimento de Libertação. Queríamos saber o que devería­mos fazer para participar na liber­tação do nosso País. Já tínhamos conseguido o contacto com Mar­celino dos Santos que em respos­ta ao nosso pedido, veio a Paris donde partiu para Dar-es-salaam. Embora a luta armada fosse uma possibilidade, Mondlane ainda pensava em insistir nas outras for­mas de luta. Não foi por acaso que não quis que de entre os Departa­mentos da FRELIMO, houvesse um Departamento de guerra ou um Departamento que se chamas­se militar. Ele quis, pelo contrário, que tivéssemos um Departamen­to de Defesa e Segurança, pois não só iríamos a luta armada se guerra nos fosse imposta pelo colonialismo, como aconteceu.
N: Que argumentos concre­tos trazia Eduardo Mondlane?
JC: Trazia bolsas de estudo para quem quisesse continuar a es­tudar, porque ele acreditava que tí­nhamos que estar preparados para fazer uma luta eficaz e tomarmos a direcção do País quando alcançás­semos a independência. É assim que ele expõe a questão de fundo, a necessidade da Unidade Nacio­nal. Já havia alguns movimentos de libertação, a UDENAMO, UNAMI, e a MANU. Foi daí que tomámos a decisão de que nós, es­tudantes moçambicanos, no exte­rior, não devíamos aderir a um ou ao outro movimento, mas antes de­víamos tudo fazer para unificá-los. Tínhamos tirado lições da divisão das forças libertadoras em Angola (MPLA e UPA), uma divisão que se reflectia na divisão entre os es­tudantes que estavam connosco. Eduardo Mondlane trazia o mes­mo sentimento e encorajou-nos a seguir esse caminho juntamente com ele. Decidimos que só haverí­amos de aderir a uma frente unida.
N: Como é que pensavam conseguir a unidade?
JC: Na sequência desta cons­tatação, eu fui enviado pelos meus colegas a Dar-es-salaam para persuadir os dois movimen­tos a unirem-se. Fui para lá nas férias da Páscoa de 1962. Depois dessa missão em Dar-es-Salaam, fui encontrar-me com Mondlane nos EUA. Mais tarde ele passou de novo por Paris, já a caminho de Dar-es-salaam. Foi nessa oca­sião que se criou a FRELIMO de uma maneira oficial, a 25 de Junho de 1962, já que tinha havi­do um anúncio prematuro da sua criação por parte dos dirigentes da UDENAMO e da MANU, apenas para poderem ser admiti­dos numa conferência Pan-Afri­cana que ia realizar-se no Gana.
N: Depois da missão em Dar­-es-salaam, foi avistar-se com Mondlane nos EUA…
JC: Pois, fui ter com ele nos EUA e retornei à França, de onde fui chamado a Dar-es-salaam, em meados de Setembro de 1963, onde me encontrei com Eduardo Mondlane de novo. Ele recebeu­-me com uma reunião do Comi­té Central. Na sequência dessa reunião, ele incumbiu-me a ser assistente na condução do Depar­tamento de Educação de que ele era Secretário e foi no exercício daquela função que entendi me­lhor a sua grande preocupação em utilizar a Educação com uma das armas mais importantes na luta pela independência nacional. Ele tinha em conta que tínhamos de participar na luta diplomática e política, e que mesmo na luta armada, era preciso termos pes­soas com certa formação acadé­mica. E não foi por acaso que ele e sua esposa fizeram contactos nos EUA para angariar fundos para a construção da primeira es­cola secundária da FRELIMO.
N: Por quê o processo de união levou muito tempo para se consolidar?
JC: Os Moçambicanos não se conheciam, conheciam muito mal o seu próprio País, mas tinham um denominador comum: o sentimen­to que tinham de serem oprimidos pelo mesmo colonialista. Portan­to, quando se falava de colonia­lista sabia-se quem era. Portanto, a noção de Moçambique foi sendo introduzida a muitos moçambica­nos pelo próprio processo da luta de libertação. O processo de liber­tação não foi só com armas, mas foi criar alguma lucidez nas pesso­as, para começarem a ver claro…
Nós somos um caso ”suis ge­neris”. Há muitos países africanos que fizeram grandes esforços de unificação, alguns dos quais tri­lharam caminhos semelhantes ao nosso, mas que não conseguiram a unidade. Tais são os casos do Congo, Nigéria, e Quénia, Gui­né- Bissau e Angola onde houve guerras de grupos posiciona­dos segundo motivações tribais.
N: Eduardo Mondlane mor­reu numa altura em que havia acção das forças hostis no seio do movimento. De que resulta­vam esses desentendimentos?
JC: Na verdade havia infiltra­ção, agitação e actividades psi­cológicas no seio do movimento, desencadeadas por organizações portuguesas, muitas vezes não identificáveis. Até pseudo- deser­tores apareciam lá com o objectivo de assassinar este ou aquele diri­gente, incluindo Samora Machel. Mas a sua pergunta, se entendi, refere-se a uma altura em que es­tavam à procura de eliminar o Pre­sidente Mondlane. Ora, nessa al­tura, um grupo de moçambicanos reunia-se regularmente em Mtwa­ra discutindo as formas de elimi­nar Mondlane, incluindo a busca de curandeiros numa ilha chama­da Mafia, no Sul da Tanzânia, que pudessem arranjar feitiços para o matar. Mas também criaram aqui­lo que eles designaram em Swahili de “Kamati ya mabarabara” isto é, ” Comité das Ruas” para o vigiar a fim de o assassinar. Isso levou-me, na qualidade de responsável pela segurança, a tomar medidas para impedir que Mondlane andasse sozinho. Mas ele não temia nada, e por isso, nem sempre cumpriu o meu conselho. É assim que no dia 3 de Fevereiro, ele foi sozinho para o escritório, de onde partiu sozinho para o local onde a bomba explodiu. Portanto, acreditei sem­pre que havia pessoas no seio da FRELIMO que estavam a conspi­rar com a PIDE, porque esta que­ria que Eduardo Mondlane fosse eliminado no seio do Partido. Não era só a eliminação do Pre­sidente que lhes interessava, mas sim a implosão dentro do Partido. Aquela bomba alcançou Eduardo Mondlane, mas a ideia era alcan­çar todo o movimento. Então terão feito de tudo para que a desgraça fosse deflagrada por moçambi­canos, entre os moçambicanos.
N: Como é que se dá o assas­sinato de Eduardo Mondlane?
JC: Em 1969, numa Sexta­-feira, eu estive com Eduardo Mondlane num encontro com um cidadão polaco, numa praia na Tanzânia. Esse polaco era mer­gulhador que apanhava conchas marinhas. Queríamos que ele treinasse os nossos homens como mergulhadores para sabotarem os navios que traziam armamento e munições de Portugal ou de Lou­renço Marques, ou ainda realizar acções na base militar lacustre de Metangula. Mas, na mesma sexta-feira, tínhamos tido um en­contro com o vice-presidente da Tanzânia, Rashidi Kawawa, no qual decidimos que segunda­-Feira, eu iria ter com ele antes de ir encontrar-me com o Presidente Mondlane, lá onde acabaria por encontrar a morte. Portanto, nes­sa segunda-feira, não passei pelo escritório, fui directamente para onde ele se encontrava, para lhe entregar o correio que tinha chega­do. Acredite que, se estivesse ido ao escritório, teria sido eu a abrir o correio. O que não sei é se o livro que continha a bomba mortífe­ra me teria sido entregue ou não. Portanto, entregaram-lhe o correio que estava na minha mesa e esse livro armadilhado não estava ali. Segundo apuramento das inves­tigações, este livro bomba foi lhe entregue quando ele já estava no seu carro, Volkswagen, prestes a arrancar para a casa da praia.
Depois da morte de Mondlane, Chissano, ficou sob custódia policial
N: Como é que soube da morte. Consta-nos que foi a pri­meira pessoa a saber do aconte­cimento?
JC: Quando cheguei ao es­critório da FRELIMO, recebi o telefonema da Bety King, uma americana que era funcionária no Instituto Moçambicano, a pergun­tar-me onde estava o Eduardo. Respondi que não sabia. Então ela perguntou, “ele teria estado na minha casa?”, e eu respondi que sim. Disse-lhe inclusive que estava a preparar-me para ir para lá, e que me tinham dito que já tinha passado pelo escritório e lhe tinham entregue o correio que eu vinha buscar. É quando ela diz: ” estou a telefonar-te por­que alguém disse que ouviu uma grande explosão na minha casa, depois de terem visto o carro da­quele Doutor negro a ir para lá…”
Como estávamos sob alerta, por causa daquela história dos “ Comités de Rua”, suspeitei que
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tinha sido uma granada, que atira­ram contra ele. Comecei a avisar os outros enquanto seguia para lá para ver o que se tinha passa­do. Lá encontrei o coronel Ali Mahfoud. Espreitámos por fora da casa com os vidros estilhaça­dos. Vimos o corpo do Presidente dilacerado, dividido ao meio. Era horrível e á primeira, não tive co­ragem de olhar para mais detalhes.
Depois de nós, chegou a po­lícia e, mais tarde chegou Uria Simango. Foi nessa altura que, enquanto a Policia percorria to­dos cantos, vi os detalhes que não quero descrever. Posso apenas falar de pedaços de papel torci­dos que a polícia foi apanhan­do de uma maneira selectiva.
N: Que procedimentos fo­ram tomados de imediato, no quadro da investigação?
JC: A polícia recolheu o cor­po e todos os detalhes, e eu fui posto sob custódia com o fun­damento de que eu tinha sido o primeiro moçambicano a chegar ao local do crime. Mas, logo de­pois, o responsável da polícia descobriu que eu era o elemento mais importante para ajudar na investigação, porque era respon­sável da segurança da FRELIMO. Aliás, eu devia integrar a equipa de investigação, concluíram eles.
N: Quais foram as primeiras pistas que acharam?
JC: Fomos aos armazéns mi­litares da FRELIMO, em Dar­-es-Salaam, que se encontravam no quartel tanzaniano, no “Colito Baracks” na estrada de Morongo, ver se havia detonadores iguais àquele, cujo invólucro rasgado pela explosão ainda mostrava ins­crições bem visíveis. Fomos ver nos armazéns da tropa tanzaniana e dos outros movimentos de liber­tação, mas não achamos nada pa­recido. Fomos para Nachingwea, não encontramos nada semelhan­te. Porém, no fim da investigação concluiu-se que era um detonador comum na NATO e lançou-se o caso à Interpol que descobriu que a bateria eléctrica tinha sido fabri­cada no Japão e pertencia a um lote de baterias importadas para a cidade da Beira. Descobriu-se, igualmente, que a bomba tinha sido fabricada na Beira, mas tudo tinha sido feito para parecer que ela vinha pelos correios, razão pela qual o papel de embrulho os­tentava um carimbo parecido com os carimbos dos correios russos, com inscrições em língua russa. Chamei atenção ao inspector da polícia sobre os detalhes das le­tras que me pareciam imperfeitas, já que eu conheço o alfabeto rus­so e começaram a investigar este aspecto. Confirmou-se na Embai­xada Soviética que aquele carim­bo era falso. Não recordo se era papel de embrulho ou o fio usado para amarrar que não era autênti­co. Essa foi mais uma das minhas contribuições para a investigação, para além dos itinerários percorri­dos, incluindo a região de Mtwara.
N: Com estes elementos, o que se pôde concluir?
JC: Uma vez detectado isso, foi preciso ver como é que uma bomba daquelas poderia ser cons­truída. Aí, Ali Mahfoud foi ter com aquele polaco, que também trabalhava com explosivos por baixo da água. Depois de observar atentamente os pequenos pedaços distorcidos do livro de Plekanov recolhidos pela polícia e depois de observar os outros livros iguais enviados sem explosivos, desta feita pelos correios, creio que, para despistar, ele disse que era fácil preparar uma bomba daquelas. Ele reconstituiu o livro, que bastava abrir um pouco para acontecer a explosão. A partir das informações de que o livro não estava junto com outro correio, que estava na mesa do Gabinete do Presidente, que tinha chegado pelos CTT, foi des­coberto que teria vindo dum ponto perto do Lago Niassa até Mbeya, Tanzânia, e teria sido entregue a alguém, que, por sua vez, o trou­xe a Dar-es-salaam. Daí, terá sido entregue a uma outra pessoa que o terá feito chegar ao Presidente.
Depois soubemos que o livro não fora entregue a Mondlane dentro do escritório, mas sim, no carro. A polícia deduziu que assim procederam, porque se ti­vesse sido entregue no escritório haveria o risco de ele ser aberto na presença de outras pessoas, incluindo aquela pessoa que fez a entrega, e morreriam todos.
DESTAQUE
b
Chissano pede perdão para Uria Simango
N: Confirma-se que Si­mango esteve envolvido no assassinato?
JC: Sabíamos que Uria Si­mango, Silvério Nungo, Láza­ro Kavandane e Gwenjere seriam partes deste ”complôt” para assassinar Mondlane. Po­rém, não posso determinar ou saber o seu grau de envolvi­mento neste assassinato em si. Tudo se baseia no itinerário do livro e no grupo “Comités de Rua” ligado a Kavandane, que depois foge para Moçambique para colaborar com a PIDE. Estas são as pessoas que a po­lícia tanzaniana não conseguiu excluir. Muitas das passagens desta investigação, o senhor Sawaya, Inspector-Geral da Policia de Investigação Crimi­nal da Tanzânia, viria a repeti­-las em Moçambique sempre que eu me encontrasse com ele, durante o tempo em que ele tra­balhou cá para a Federação Lu­terana. O seu adjunto, o senhor Manikam também me repetiu algumas passagens e as suas análises, quando o encontrei em algumas ocasiões na Tanzânia.
N: Há informações que indicam que houve uma reu­nião do Comité Central na qual Simango confessou o seu envolvimento nesse crime…
JC: O que me recordo é que numa reunião do Comité Central, em Nachingwea, Uria Simango confessou que estava magoado pelo tratamento que Mondlane lhe dava. Admitiu que tinha ambição de ser Pre­sidente e justificou que ter am­bição era normal para qualquer pessoa. Revelou ainda que ele se sentia ameaçado nas vésperas do II Congresso da FRELIMO, que foi boicotado pelo grupo de Kavandane e que se realizou na Província do Niassa, em 1968. Não me lembro de o ter ouvido a confessar o seu envolvimento directo no assassinato. Porém, depois desta reunião do Comité Central, ele nunca mais aceitou participar nas reuniões do triun­virato (o Conselho de Presidên­cia de que Simango, Samora Machel e Marcelino dos Santos faziam parte), do Bureau Poli­tico ou do Comité Executivo.
N: Soube que a partir de Lourenço Marques, Simango terá pedido aos sul-africanos para invadirem Moçambique, por contestar os acordos de Lusaka?
JC: O que posso confirmar é que tive informação de várias fontes sobre a presença de Uria Simango nas reuniões daquele grupo que tomou a Rádio Mo­çambique, no dia 7 de Setembro de 1974, após a assinatura dos Acordos de Lusaka. Recente­mente, chegou-me a chocante informação de que Uria Si­mango e Paulo Gumane teriam participado na delegação dos portugueses e moçambicanos que foram pedir a intervenção sul-africana para impedir que a FRELIMO tomasse o poder. Com tal informação, ficou-me reforçada a imagem de Uria Simango como um grande trai­dor. Até aqui, eu tinha-o como traidor, primeiro porque, como vice-presidente da FRELIMO e, mais tarde, coordenador do Triunvirato, empenhou-se na destruição da sua própria orga­nização, escrevendo nos jornais grandes artigos contra ela, ao mesmo tempo que rejeitava o diálogo com os seus colegas da Direcção. Segundo, por­que veio juntar-se aos portu­gueses que combatiam a sua própria organização antes da assinatura dos Acordos de Paz a ponto de caminhar com eles até à tomada da Rádio Moçambique, numa tentativa de obstruir a proclamação da independência. Mas, ciente de que os homens, filhos de Deus, cometem erros, diga­mos pecados muito graves, peço a Deus que o perdoe e que a sua alma descanse em paz, porque creio que não há pecado que não possa ser perdoado por Deus, quando o homem se arrepende, mes­mo quando os outros viventes não conheçam esse arrepen­dimento perante o Altíssimo.
Parte da Bibliografia de Joaquim Chissano
Joaquim Chissano nasceu em Maleice, distrito de Chibuto, na Província de Gaza, a 22 de Outubro de 1939, onde fez parte dos estudos primários. Chissano foi primeiro negro a matricular­-se no Liceu Salazar (actual Es­cola Secundaria Josina Machel, em Maputo), em 1951, onde fez os seus estudos secundários. Foi em Lourenço que integrou o Núcleo dos Estudantes Secun­dários Africanos de Moçambi­que, do qual teve conhecimento através de Caifaz Muzima, estu­dante do Colégio Pedro Nunes.
Em 1960, partiu para Portu­gal para cursar medicina, mas abandonou este País, em 1961, devido à perseguição da PIDE, tendo-se juntado à FRELIMO, em 1963. Enquanto estava em Portugal a estudar, desenca­deou-se a Luta de Libertação de Angola, acontecimento que aumentou a sua consciência nacionalista. Na sequência da perseguição da PIDE, Chissano refugia-se na França. Nas fé­rias da Páscoa de 1962, recebe mandato de jovens nacionalis­tas moçambicanos em Portu­gal para ir a Dar-es-salaam, para persuadir os movimen­tos nacionalistas a unirem-se.
Saiu definitivamente da França para Tanzânia, em mea­dos de Setembro de 1963, onde se tornou assistente de Mondla­ne na condução do Departamen­to de Educação de que ele era Secretário. Ele foi Secretário de Eduardo Mondlane e responsá­vel pelo Departamento de Segu­rança da FRELIMO. Em 1974, com apenas 35 anos de idade, Joaquim Chissano tornou-se Primeiro-Ministro do Governo de transição, depois da procla­mação da independência, foi no­meado Ministro dos Negócios Estrangeiros. Com a morte do Presidente Samora Machel, em 1986, foi nomeado Presidente de Moçambique. Em 1994, na sequencia da vitória nas pri­meiras eleições gerais no País, Chissano é investido ao cargo de Presidente da Republica, re­novando o mandato em 1999, depois de ter vencido as segun­das eleições multipartidárias.
Joaquim Alberto Chissano deixou, a seu pedido, a Presi­dência da Frelimo e do Estado moçambicano em 2004 e 2006, respectivamente, invocando o facto de ter permanecido mui­to tempo na Direcção destes. Com efeito, o Comité Central aceitou o pedido, designando­-o, porém, Presidente Honorá­rio da FRELIMO. Desde que deixou a Presidência da Repú­blica, Joaquim Chissano tem se dedicado a actividades interna­cionais de gestão e resolução de conflitos, em missões de paz da ONU, União Africana e SADC para o restabelecimento da paz em zonas de conflitos.

Dedica-se também a diver­sas actividades ligadas ao de­senvolvimento social do País, através da Fundação Joaquim Chissano. Em 2006 recebeu o prémio “ Mo Ibrahim”, pela sua excelente governação du­rante o tempo em que diri­giu a Nação Moçambicana.

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