sábado, 23 de abril de 2016

Zitambira IV: uma rainha Nguni em Angónia

Nos registos oficiais responde pelo nome de Jacinta Marcos Dama Rindzi Costa. No seio do seu grupo, os Nguni, é Kosi ya maKosi (raínha das rainhas), Zitambira IV, filha primogénita de Marcos, Zitambira III.
A sua dinastia fixou-se e enraizou-se em plena Angónia, concretamente em Folotia, a sensivelmente 11 quilómetros da vila de Ulónguè, província de Tete. domingoentrevistou-a e conta aqui a sua estória e da sua comunidade, que é quase uma ‘ilha’ no mosaico cultural moçambicano.
Como se explica a existência de uma dinastia Nguni, devidamente organizada, em Moçambique?
Tudo começou quando um guerreiro de nome Nguni (nome que tempos depois foi atribuído ao seu grupo) parente de Txaka, um chefe considerado como um grande estratega militar zulu, iniciou uma caminhada de Durban Natal rumo a regiões fecundas onde pudesse subjugar outros povos, para além de melhorar as condições de vida.
Tratou-se de uma migração que durou décadas e nesse período aconteceram muitas perdas de vida e, na sequência, sucessões na liderança, ao mesmo tempo que abriu lugar para subdivisões.
O que motivou tais subdivisões?
Foi a ambição de governar. Na verdade, as deslocações de uns lugares a outros foram motivadas por essa aspiração.À medida que se avançava, iam acontecendo lutas e mortes devido às desavenças entre os guerrilheiros, tudo originado pela avidez de dominar.
Foi uma longa caminhada até chegar à Folotia…
Sim. Entre caminhadas, travessias e dificuldades, eles cortaram o rio Zambeze rumo à Tanzânia. E conforme eu disse no início, estavam à procura de lugares e povos onde pudessem exercer o seu domínio. Mas, não se instalaram definitivamente na Tanzânia, não se sentiram confortáveis neste lugar. Encetaram um movimento inverso.
Entretanto, antes mesmo de partirem em busca da satisfação dos seus objectivos, aconteceu uma sucessão: Mputa assumiu o poder devido à morte do seu pai, o referido guerrilheiro que encetou a caminhada a partir de Durban Natal.
A liderança do filho do guerrilheiro Nguni cessou quando também perdeu a vida, sendo, portanto, substituído pelo seu irmão Cilhawonga que continuou a digressão, tendo passado por Cabo Delgado, Niassa até chegar ao Malawi, e mais tarde à Domwe, Angónia.
Passaram por Cabo Delgado e Niassa, por que motivo não se instalaram em um desses lugares?
Alguns ficaram, mas em número insignificante. Naquela altura, as lutas pelo poder eram intensas, dificilmente se encontrava estabilidade em qualquer lado. Havia lutas entre tribos e também dentro das tribos pela liderança. Inclusive foi este último facto que contribuiu para que, a dada altura, houvesse uma ramificação do grupo Nguni. Uma das partes ficou no Malawi e a outra instalou-se em Folotia.
Mas, falávamos, anteriormente, das sucessões…
Sim. De Mputa passamos para seu irmão Cilhawonga, que foi assumindo o lugar, uma vez que o filho de Mputa, Cikusi, ainda era menor. Quando Cikusi atingiu a maioridade assumiu o poder e trabalhou lado a lado com a sua mulher, Namulangueni, que era comandante dos guerreiros. Nesta altura o grupo já se encontrava em Angónia.
Conforme referi, houve uma subdivisão do grupo e o que se fixou em Angónia, mais concretamente em Folotia, nos anos 1800, é que iniciou o trono dos Zitambira, desde I até chegar ao IV, portanto até mim.
Zitambira I foi meu bisavô paterno; depois veio Zitambira InKosi ya maKosi II, Dafuleni. Este era meu avô também paterno. Ficou no trono até à década 50. Nesta altura eu já tinha nascido. Dafuleni foi substituído pelo filho, Marcos, meu pai.
REI DETIDO E ATROPELADO PELA PIDE
 Quanto tempo o seu pai ficou no trono?
Pouco tempo. Foi coroado em 1951 e em 1954 preso pela PIDE, por questões políticas. Era contra a presença do colonizador, isto é, dos portugueses. A PIDE via-o como um elemento perigoso, foi levado de Angónia para Tete, onde o mantiveram encarcerado.
Entretanto, quando saiu da prisão seus movimentos eram controlados, não podia de forma nenhuma voltar à Angónia. Estava interdito.
Então, voltou a trabalhar e instalou-se em lugares como Ilha de Moçambique, Lourenço Marques (actual Maputo), Sofala, mas sob vigilância dos serviços de inteligência. Regularmente, obrigavam-no a apresentar-se à PIDE para uma espécie de monitoração.    
Quando Zitambira III esteve preso, quem o substituiu no trono?
Foi substituído por seu tio, que assumiu a missão de assegurar o lugar. E, tempos depois, este substituto morre, tendo ficado no seu lugar o irmão do meu pai. Veja-se que poderia ter sido o meu irmão a suceder ou ficar no lugar do meu pai, mas infelizmente não se encaixava no perfil de quem se pretendia como rei. Naqueles tempos era também impensável a colocação de uma mulher naquele posto, apesar de eu ser a primogénita dos meus pais. Entretanto, nessa altura eu me encontrava a viver e a trabalhar na província de Nampula.
Que elementos são considerados para a coroação de um rei?
Primeiro, tem que ser primogénito; depois vem qualidades como ser patriota, corajoso, identificar-se com a comunidade e garantir o bem-estar da comunidade.
Em algum momento o seu pai teve a oportunidade de voltar às raízes e reassumir o trono?
Não. Ele faleceu em circunstâncias estranhas, em 1969, no dia 20 de Julho, na Beira. Nessa altura prestava serviços nos Caminhos-de-Ferro. Foi atropelado por um carro conduzido por um colono de quinze anos. Para ela, tudo indica que se tratou de um acto propositado.
MUDANÇA DE MENTALIDADE
FAZ UMA RAINHA DAS RAINHAS
O que ditou a coroação de uma mulher como inKosi ya maKosi? Consta-nos que isso era impensável no seio do seu grupo…
Primeiramente foi feito um estudo, que durou vários meses. Ora, foram quebrados os preceitos segundo os quais as mulheres não podiam ser coroadas. Na verdade, acredita-se que foram os antepassados que ditaram a minha escolha. Diz-se que eles assim o queriam. Então, no dia 12 de Outubro de 2013 fui coroada como InKosi ya maKosi Zitambira IV.
Antes da coroação, trabalhou como professora. A Educação Nguni abre espaço para a escolarização?
Sim. Mas deixem-me dizer que a prisão do meu pai fez com que a nossa educação seguisse outros rumos. Saímos (a família) de Angónia para Lourenço Marques e eu fiquei na Missão da Munhuana. Meus irmãos foram para Missão Maputo, que se localizava em Matutuíne.
Depois de alguns anos, fui viver na Ilha de Moçambique já com o meu pai. Conforme referi, ele estava na condição de desterrado, não podia voltar à Angónia. Na Ilha, o meu pai arranjou-me emprego como dactilógrafa, no tribunal, isto em 1963. Foi também na Ilha onde me casei em 1964.
Em 1975 mudei de emprego passei a trabalhar na secretaria da Escola Secundária da Ilha de Moçambique até 1977, ano em que, devido ao abandono de vários professores colonos, houve uma necessidade de se fazer uma reciclagem em alguns funcionários de forma que assumissem a função de professores.
Então em 1977 comecei a trabalhar como professora de História, Geografia, e mais tarde Educação Cívica e Moral, tarefa que exerci até ao ano de 2007, quando passei para a aposentadoria. Nesse mesmo ano perdi o meu marido.
Sabemos que o seu percurso académico acabou seguindo um rumo, digamos imprevisível, aquando da prisão do seu pai. Actualmente, a instrução de um Nguni passa por instituições formais?
Sim, em Folotia temos uma escola com salas de aulas apetrechadas. O único problema que enfrentamos é a existência de casamentos prematuros. Mas já vêm sendo tomadas medidas para desencorajar esta prática.   
Podemos considerar que em Folotia há espaço para implementar as ordens do Governo?
Sem dúvidas.
Mas percebe-se a existência de um sistema que rege a vida do vosso grupo…
Mesmo assim, nós trabalhamos em coordenação com o Governo em muitos aspectos, principalmente em situações em que se mostre necessário aplicar sanções que ultrapassam as nossas capacidades.
Alguns exemplos…
Quando há desmandos ao nível político. Os distúrbios ao nível social são resolvidos internamente, não obstante o facto de, no ano passado, ter sido emitida uma ordem que nos obriga a encaminhar todos os problemas para as entidades oficiais.
E…
… e teremos que obedecer, não podemos nos isolar na totalidade, até porque várias infra-estruturas como hospitais, igrejas foram criadas no nosso seio.
Igrejas?!
Sim. Temos uma capela da Igreja Católica em Folotia. Eu própria professo a religião cristã e sou católica.
Afinal de contas, um Nguni não tem poderes sobrenaturais, não comunica com deuses?
Tem, sim. Facto interessante é que um Nguni é capaz de fazer grandes deslocações, de uma terra para outra, sem nenhuma orientação, apenas guiados pelos seus poderes. Antigamente, só para exemplificar, aplicava-se outro poder, o de fazer cair a chuva e dava certo.
Mas esses aspectos da nossa essência serão resgatados. Sinal disso é que quando voltei ao meu meio, à Folotia, pediram que fosse feita uma casa própria para os espíritos. Será inaugurada brevemente.
Zitambira IV tem, também, poderes…
Sinto que sim. Quando faço uma oração evocando os Zitambiras já falecidos, como o meu pai, resolve os problemas. Isto é, surte efeito. Por vezes sonho com os antepassados e outros sinais que não posso precisar.  
Os Ngunis preferem ir ao hospital ou ao curandeiro?
Uns valorizam a figura do curandeiro e o respectivo tratamento, mas há quem opta pelo hospital. Mas entenda-se que Folotia faz parte de Moçambique, o que nos distingue dos outros grupos é a nossa tradição, os nossos hábitos e costumes.
RESISTIR LONGE DA TERRA NATAL
Os Nguni em Folotia formam uma ilha em Moçambique. Estaremos certos ao fazer esta afirmação?
Bem, existem certos traços que demarcam o nosso grupo. Os nossos enterros são feitos colocando o corpo sentado (contrariamente às outras tradições que colocam o finado deitado num caixão). Nós organizamos a casa do morto, que consiste numa cova redonda com um pequeno compartimento na parte lateral. Colocamos uma esteira que recebe o caixão, depois uma pedra dentro do caixão e em seguida o corpo é assentado por cima da pedra. Alguns dos seus pertences como roupas são também levados para a cova ao que se segue o fechamento.
Mas deixem-me anotar que houve uma violação dessa regra aquando da morte do meu pai, Zitambira III. Ele foi enterrado deitado pois, na altura do seu falecimento, não foram tomadas as devidas precauções de forma que o corpo obedecesse à posição correcta sob o nosso ponto de vista cultural. Ele morreu longe de casa e dos seus. Os restos mortais chegaram dias depois para serem sepultados.
Rainha Zitambira IV, qualquer pessoa pode fixar residência em Folotia, no seio do vosso grupo?
Por que não!? Nós aceitamos quem quer que seja, aceitamos o desenvolvimento, mas tentando preservar a nossa cultura.
O desenvolvimento não adultera a vossa essência?!
Não. Vejam, por exemplo, que marcamos a nossa forma de ser através dos nossos símbolos, a pele de animal com a qual se faz um escudo e a azagaia. Os nossos antepassados apresentavam-se (vestiam-se) dessa maneira para enfrentarem o inimigo em batalhas que iam travando ao longo das caminhadas que faziam nas suas migrações. Fazemos uso desses artefactos, temos capulanas estampadas com esses mesmos símbolos. Esses traços identificam os Ngunis, tanto na África do Sul, como na Zâmbia, Suazilândia, Tanzânia e o nosso grupo aqui em Moçambique. Outra forma de nos identificarmos é através da dança, a ngoma, cujos passos imitam a performance na guerra. Mas praticamos outras danças aqui da zona como o Nyau, só que estas não nos interessam. O ngoma é que nos identifica.
Qual é a vossa língua de contacto em Folotia?
Nyanja, de qualquer forma o Zulu é que carrega um significado simbólico para o povo Nguni. Esta língua é geralmente usada na realização de cerimónias de evocação de espíritos e para a comunicação, quando estamos todos juntos, os da África do Sul, Malawi, Zâmbia…   
Praticam ritos de iniciação?
Praticamos, mas nos últimos tempos muitas dessas cerimónias deixaram de ter o sentido original. O que persiste é o isolamento de meninas na sua adolescência para aprenderem a se comportar de boa forma no lar.
O que aprendem concretamente?
Um dos exemplos que vos posso dar é que aprendem sobre a sexualidade, para que na altura do casamento o homem se junte a uma mulher completa. E mais não vos posso dizer (risos). Mas o homem também era educado para saber dirigir a casa e também sobre como agradar a mulher.
Como é que se vestem no dia-a-dia para trabalhar, estudar e em outras actividades?
As mulheres vestem-se de capulana e lenço. Os homens vestem-se, igualmente, de uma maneira normal, como qualquer cidadão. Somente em ocasiões importantes, como receber visitas, datas comemorativas, entre outras, nos vestimos a rigor, ou seja, de capulanas vermelhas cujas estampas têm símbolos dos Nguni e os homens de pele e empunhando a azagaia e o escudo.
VIVER DE BOATOS
Como é feita a vossa comunicação com os ‘outros mundos’?
Nós não temos muitos meios de comunicação, nem para dar nem para receber notícias.
Isso significa que não fazem ideia do que ocorre pelo país e pelo mundo?
Bem, nós ficamos a saber de certos acontecimentos por via de boatos (risos). Não temos rádio, não temos televisor. Mas gostaríamos de ter esses aparelhos para acompanharmos os programas que aí são passados. Já tive três rádios, mas não captavam os canais nacionais, somente sintonizávamos os do Malawi. A população traz as informações não sei de onde. Em Março, por exemplo, girou uma informação segundo a qual a guerra ia começar num dia X. as pessoas falam, muitas vezes sem fundamentos.
Como é que a rainha passa os tempos livres?
Não tenho espaço para brincadeiras. Estou sempre envolvida na resolução de problemas. Mas quando me surgem convites costumo-me deslocar a Malawi, Zâmbia….
Não arranja tempo para a sua família? Tem quantos filhos?
Tenho oito filhos, o mais velho de 52 anos e o mais novo de 37, e vinte e dois netos. Eles andam dispersos, mas, na medida do possível, me reúno com eles.
FRONTEIRAS QUASE QUEBRADAS
Tendo em conta a sua educação, nota alguma diferença entre uma mulher Nguni e de outras comunidades?
Hoje em dia há muita mistura. Não há grandes diferenças. Houve uma altura em que eu ficava chocada ao me deparar com a mulher da cidade, por causa da forma de se vestir e também pelo facto de andarem a altas horas da noite. Eu achava isso espantoso, que a mulher tinha que se resguardar. Mas ultrapassei esses julgamentos, já encaro com alguma naturalidade.
No seio dos Ngunis, quem manda, o homem ou a mulher?
Depende. Se a mulher tiver sido lobolada, o homem é que manda, de contrário este deve se submeter às ordens da mulher. E antigamente, o casamento era por castas, mas isso não vem mais ao caso.
Qual é a base de subsistência dos Ngunis em Fotolia?
É a agricultura.
Sou membro do partido Frelimo
Tem participado em alguns eventos da Frelimo. Está filiada a este partido?
Sou membro do partido Frelimo, desde 2002. Antes era simpatizante e compactuava com as causas do partido.
Como foi lá parar, terá sido por influência do seu pai que chegou a ser preso pela PIDE?
Passei a fazer parte da Frelimo por influência dos meus antepassados. Eles eram contra a dominação por parte dos estrangeiros, dos portugueses. Meu pai, Zitambira III, falava sempre da luta de libertação nacional, fazia referência à existência de compatriotas na Tanzânia, envolvidos nessa luta.
O meu marido também estava a favor das causas nacionais. Sinal disso é que alguns militantes da Frelimo eram seus amigos, iam à nossa casa, passavam refeições.
Em algum momento sofreu algum tipo de perseguição por esta sua escolha?
Sofri e em grande medida. Quando meu pai esteve preso, vivíamos sob ameaça dos colonos, revistavam a nossa residência com o intuito de encontrar alguns sinais de ligação com a Frelimo, alguma correspondência… lembro-me de certa vez que o então governador Sarmento Rodrigues mandou chamar a mim e a minha mãe, e nessa circunstância chegaram a apontar-nos armas nas cabeças, na tentativa de arrancar qualquer informação que lhe fosse útil.
Aiuba Cuereneia foi meu aluno
Jacinta Marcos Dama Rindzi Costa, a rainha Zitambira IV, foi professora de Aiuba Cuereneia, que ocupou os cargos de Vice-Ministro da Administração Estatal e de Ministro da Planificação e Desenvolvimento.
A propósito deste facto, domingo conversou com o pupilo da actual raínha que afirmou guardar boas recordações da professora Jacinta, especialmente como uma pessoa exigente e conselheira em relação às causas da Nação moçambicana.
Em que tempo foi aluno da professora Jacinta, actualmente rainha das rainhas, Zitambira IV?
Foi minha professora de História e Geografia, no antigo Ensino Secundário, na 5ª Classe, na Escola Secundária da Ilha de Moçambique, em 1977. Tê-la como professora foi gratificante e marcante, especialmente porque se tratava de uma negra, tendo em conta que até então as aulas era leccionadas por indivíduos de cor branca.
Que recordações guarda desta sua professora? Como é que ela era na sala de aulas?
Era uma pessoa muito exigente, dedicada, atenciosa mas severa, e avarenta nas notas. Lembro-me, igualmente, dos momentos em que nos passava mensagens sobre a necessidade de assumirmos a responsabilidade pelo nosso país, que fossemos disciplinados e nos ajudássemos uns aos outros. Entendo como indicadores de que se tratava de uma pessoa com veia para dirigir, liderar, para ser rainha.
Consta-nos que nessa altura, em 1977, ainda nas mãos da professora Jacinta, foi seleccionado para estudar em Cuba…
Sim, foi mesmo antes de terminar a 5ª classe. Fiz parte de um grupo de três ou quatro alunos que eram tidos como disciplinados, ou seja, com bom comportamento, estudiosos e filhos de famílias humildes. A selecção foi feita pela então directora Lília Momplé. Portanto, foi uma experiência gratificante ter passado pelas mãos dela.
Maria de Lurdes Cossa
Para uma abordagem pragmática do diferendo que nos opõe a Renamo, o importante a salientar é que apesar do presidente Filipe Nyusi priorizar o diálogo, Afonso Dlhakama neste momento por atacar o estado de direito deixou de ser um interlocutor válido, portanto o dedo das FDS não pode sair do gatilho até que a Renamo pare de matar moçambicanos.
O diálogo estará sempre na mesa, desde que o líder da Renamo reconheça o poder constituído, e obedeça à ordem incondicional de desarmar os seus homens. A sociedade anda farta de criminosos para ter de lidar com bandidos armados, com o seu discurso político abominável e tribalista.
A política não  substitui a justiça, sendo por isso o motivo do equívoco vivido até aqui, porque um estado que não actua firme e de forma implacável ante o banditismo armado, é um convite à instabilidade política.O estado deve deter o monopólio da violência e da justiça, e o partido do governo na reunião do Comité Central, ao determinar que a Renamo e Afonso Dlhakama devem ser responsabilizados criminalmente, pelas matanças de cidadãos indefesos, e por atacarem as FDS, destruir bens, fê-lo por imperativo nacional, sendo de louvar. A prerrogativa de uma paz podre ou de guerra não declarada encontra-se nas mãos do presidente Nyusi, contudo importa enfatizar que a Nação pretende preservar a paz,conquanto a Renamo seja completamente desarmada, e Dlhakama esteja fora da parceria política,  não havendo país algum no mundo capaz de impô-lo à força.
O recurso militar por ser útil para dissuadir futuros actos de banditismo armado deve continuar. Se Dlhakama foi mal aconselhado o problema é dele, e se voltou a pegar em armas foi por a ambição pessoal falar mais alto que a razão, agora o seu caso está nas mãos da justiça e das FDS.Ninguém está acima da Lei, e nesta matéria ele é um reincidente. Finalmente as FDS estão a dar conta do recado na defesa da pátria, e dos bens do povo.
A componente político militar da Renamo está de rastos para exigir o que quer que seja num potencial diálogo, e o seu colapso não deve tardar.Sempre mencionei nos meus artigos de opinião, que no final da actual crise política, a posição da Renamo ficaria extremamente fragilizada.Será que veremos uma Renamo domesticada,capaz de entender que se deve reger pelas regras de jogo democrático?Em minha opinião pessoal  apenas uma derrota militar do braço armado da Renamo pode trazer a paz, tranquilidade, e o desenvolvimento que Moçambique necessita.
 Neste momento o líder da Renamo luta pela sua sobrevivência política às mãos das FDS. Ele com a sua ideologia neotribalista encontra-se  cada vez mais desnorteado, e o debate de idéias inexistente, além de nunca ter constituído uma alternativa política em Moçambique,contudo sabemos que à sua ilharga  movem-se forças sombrias, de algumas chancelarias ligadas à UE  em Maputo, onde os homens da Renamo como prostitutas foram batendo à porta, e que em último recurso poderá exigir a sua sobrevivência política, mas não vejo como.
O partido Frelimo tem uma grande tradição de amizade por essa Europa fora , mas a UE doravante está dominada pela PPE, Partido Popular Europeu, da direita conservadora e democratas cristãos, que engloba  partidos ultranacionalistas e xenofobos,antisemitas e racistas, que nada têm a ver com o passado de solidariedade.O quadro político europeu política e sociológicamente mudou.Hoje quanto verificamos que países como a Dinamarca, Holanda, Noruega, Austria, Polonia,Hungria, têm no governo partidos populistas e extremistas da direita, e que os ideais ultranacionalistas e racistas  expandem-se pela França, onde os Lepens estão na moda,Inglaterra, Polonia ,sendo poder nos países bálticos, confirmamos que a Europa já não é o que era.Esta é UE com que lidamos presentemente, dominada pela PPE, que o nosso presidente irá encontrar quando estiver na Alemanha, especialmente em Bruxelas.
Um passo de cada vêz. Eu acredito na democracia,e por ela espero bater-me contra todos que a querem desviar.Espero que possamos tratar da saúde a Dlhakama e do seu bando de rufias armados, e depois corrigir o que está errado na economia.
Em meu entender não é pela beleza da baía do Indico que a UE está tão empenhada em ser protagonista em Moçambique. Tem vários investimentos em projectos de desenvolvimento económico no país.A pergunta pertinente que se colocaria,...Terá sido a UE a aconselhar a Dlhakama para dar início à actual crise política? É que continuo sem entender o grau de interferência da União Europeia no actual quadro da crise política.Já escutamos várias intervenções de dirigentes da organização, todas desfavoráveis ao governo, ao mesmo tempo que diz que gostaria de mediar o diferendo.Hoje entende-se o porquê da Renamo há muito indicar a UE como potencial mediador, mas para nós trata-se de um assunto interno, e quanto sei as FDS estão a dar e bem conta do recado.A UE não é um aliado de Moçambique, mas apenas um parceiro económico.
A Africa não foi abandonada por Deus, e por mais que digam que nascemos com côr do pecado, continuamos a dar conta do recado, e somos a cor do continente.
Até ao momento não vi o nome africano dirigente ou privado na lista do escandalo Papéis do Panamá, e se a Dinamarca conforme alguns pasquins ligados à oposição deram grande relevo de contentamento, encerrou a sua embaixada, mas as nossas relações continuam.O que me foi dado a conhecer é que a Dinamarca  é um dos países que deixou de apoiar o nosso OE, e por outro lado se hoje em dia existe um país eurocéptico europeu, que põe em prática uma política anti-imigração é a Dinamarca.Uma Dinamarca governada pela direita conservadora e ultra nacionalista, que aplica lei anti-imigração para além do estipulado pela UE, sujeitando as crianças, filhos de emigrantes a temperaturas extremas de inverno, e à exclusão social, e obrigando os asilados a viver em locais reservados,e os imigrantes em campos de concentração.Apesar dos bombardeamentos da Nato, a Libia, Siria, Iraque, onde semeiam morte e miséria, quando alguém pede asilo a político o governo dinamarquês acha-se no direito de confiscar os seus bens, etc, etc.
Unidade, paz e democracia
PS. Seria  bom que a questão da divida soberana fosse  de imediato eslarecida para que Moçambique regresse aos mercados sem sobressaltos.O país tem a opção de escolher o credor que entender, não  está condicionado a isso, contudo a confiança junto dos credores e doadores ficou abalada, sendo necessário o restabelecimento imediato da confiança.O governo deve explicar o montante da divida conforme o presidente Fililipe Nysusi elucidou aquando da reunião do Comite Central.
Quando a oposição anda falha de idéias e imginação e com o seu líder em fuga,  resta apenas o recurso ao insulto e alianças a sectores ultracolonialistas e racistas.
A nossa superioridade intelectual e moral permite-nos a opção de responder a pessoas mentalmente perturbadas, apenas em locais próprios;mas os vermes confundem o princípio com fraqueza.
Inácio Natividade
No dia 22 de Maio de 1997, eu e o meu colega fotógrafo, Carlos Bernardo, experimentamos uma “odisseia” no planalto dos Makondes, muito precisamente no distrito de Muidumbe.
Tínhamos a missão de trazer uma reportagem sobre a Base Central dos guerrilheiros da Frelimo, ali onde tudo foi planeado para trazer a Independência Nacional.
Tivemos o azar de o filho do falecido Macuba, um “chapeiro” da aldeia de Matambalale, ter-nos aldrabado ao prometer que, depois de nos deixar em Muatide viria buscar-nos por volta das 17 horas, altura em que pensávamos que teríamos feito a outra distância (ida e volta), de cerca de 13 quilómetros, a pé, porque para a aldeia de Naunde, onde se localiza a base, não havia estrada que aceitasse uma viatura.
O filho de Macuba, depois de o convencermos a nos levar a partir da vila de Mueda e buscar em Muatide e tendo recebido o valor correspondente com o extra sob a chancela de aluguer, pura e simplesmente não se fez ao local combinado, nem mandou alguém com o seu Isuzu-amarelo, caixa aberta, com a chapa de matrícula, MPA-10-70. Burlou-nos, como ainda não era comum entre as pessoas da sua etnia.
Já noite, devíamos infalivelmente regressar a vila de Mueda, mais porque o Bernardo tinha tempos muito apertados para regressar a Maputo. Outro factor foi termos sido confundidos com simpatizantes da Renamo, dado que no compasso de espera perguntamos pela localização da sede daquele partido, pois queríamos algumas palavras de um possível representante da perdiz em plena ex- zona libertada da Frente de Libertação de Moçambique.
Foi suficiente para sermos aconselhados a retirarmo-nos de Muidumbe, onde então não se podia ouvir a palavra Renamo e todas as outras que fazem parte da semântica ideológica e política daquela formação política. Não bastava termos dito que éramos jornalistas!
Foi por isso que uns bons rapazes, entre eles, o Raul, ofereceram-se a acompa nhar-nos a Mueda, a pé, perto de 60 quilómetros, o mais depressa possivel e, em Matambalale (aldeia de Macuba), já no crepúsculo, vimos ao longe uma casa a arder.  Bernardo Carlos pôs-se a correr para tirar as imagens. E quando quisemos saber da causa, disseram-nos: é o dono da casa que ateaou fogo, fumou soruma! As pessoas que haviam ido socorrer voltavam desmoralizadas e a notícia ainda se podia fazer, mas em jeito de crónica e a imagem publicada na página 5 de então, sem legenda.
O fumar soruma para queimar a sua própria casa,  deu algumas gargalhadas, poorque a propriedade era sua.  Hoje só se pode comparar com  reunir tanta força humana e toca a fazer uma cratera numa estrada asfaltada, como o que aconteceu em Honde, distrito de Báruè, em Manica. Aquilo deve ser soruma.  Aquilo lembra garimpeiros ilegais em Namanhumbir quando eram eles a mandar, mas depois de doses valentes de soruma.
Fumar soruma para reunir forças que viabilizem a destruição duma obra pública, fumar soruma para destruir o país que se quer, por reivindicação, governar. Fumar soruma para dinamitar a pátria. Essa soruma tem um nome, tem gente à volta de um ideal, mas não é fácil concordar que haja soruma patriótica...

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