terça-feira, 19 de abril de 2016

um homem que tentou assaltar um banco com recurso a uma faca de cozinha

MAHUNGO - Bom descanso “ABC”
“Pois é, hoje quero vos contar a história de um homem que tentou assaltar um banco com recurso a uma faca de cozinha. Isso mesmo, uma faca de cozinha”.
Esta foi mais uma de uma série de histórias que me despertou atenção sobre a capacidade e criatividade de António Bernardo Cuna, contadas na sua rubrica, Gira Mundo. Galgávamos a segunda metade da década 80. Gira Mundo até servia para recrear os ouvintes já que os noticiários eram, na sua totalidade, pintados de sangue e crueldades na altura perpetrados pelos homens armados.
“No giro imaginário pelo mundo hoje trago a estória de um homem que percorreu quilómetros e quilómetros com uma jibóia por baixo do assento do seu automóvel. A cobra tinha pouco mais de dois metros”, contou “ABC”, como era tratado pelos amigos mais próximos.
Estas e outras estórias, como aquela do “Velho Chapata” contada a partir da terceira maior baía do mundo, Pemba, quando em missão de serviço escalou a província nortenha de Cabo Delgado, me tornaram além de apenas ouvinte assíduo da Rádio Moçambique, mas em especial do “ABC”, não só no Gira Mundo que ia para o ar todas quartas-feiras depois da primeira edição do RM-jornal, mas também nas suas crónicas assim como a sua apresentação do chamado jornal falado desta antiga estacão emissora do país.
Não obstante a paixão que nutria pelas vozes da Orlanda Mendes e Machado da Graça, da rubrica “Pontos nos Is”, Maria Cremilda Massingue, a apresentação e realização do RM-jornal do recém falecido Custodio Inácio, do Edmundo Galiza Matos, Leonel Matias, as crónicas de Jeremias Ângelo Jeremias, de Hélder Muteia, Sauzande Jeque e Nelson Saute, na revista “Tempo”, igualmente não perdia os relatos e animações do Viera Manala, o programa dos emigrantes editado por Mário Muleia, ou seja, dobro “M” todos domingos, mas o Gira Mundo do “ABC” ocupava a minha agenda.
Foram muitas estórias que escutei no meu “Xirico”, e desde essa altura tomei o autor do “Giro Mundo” como uma referência na comunicação social. Isso alimentava a expectativa de um dia conhecer “ABC”. É magro, alto, mediano, claro ou escuro; se numa conversa normal com as pessoas fala como apresenta notícias, crónicas e suas estórias do Gira Mundo. Morria de curiosidade.
O tempo foi passando e a minha paixão pela comunicação social foi ganhando espaço para o meu futuro. Porquê? Morria de inveja quando escutava “ABC” falando a partir de Windhoek, capital da Namíbia, como enviado especial da RM. Ele falava da resolução Quatro, Três, Cinco, 435, do Conselho da Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para a independência da Namíbia. Lia assim, o “ABC”.
Destino quis que me tornasse colega deste homem que semana passada se desligou das cassetes, disquetes, “flashes”, gravadores e microfones para refastelar a vida num outro ambiente. Iniciei a minha actual profissão na cidade de Maputo, mas não tive nenhuma ocasião de partilha de momentos de trabalho nem mesmo cruzamento pelas artérias da chamada cidades das acácias e isso só veio acontecer quando é enviado à província de Inhambane onde eu já me encontrava em serviço.
Homem forte, sorridente, contador da sua vasta experiência de trabalho dentro e fora do país. Desde o nosso primeiro contacto como colegas de profissão o tratei de mais velho, depois de me declarar seu principal fã e impulsionador da escolha da minha profissão, tornamos amigos.
“Epá deixa de estórias, fala sério”, interrogava-me “ABC” quando quisesse “sacar” mais dados quando em cavaqueiras eu contava as peripécias dos baluartes sanhas da RENAMO a que sobrevivi em Bela-Vista, sede do distrito de Matutuine. Embora com estatuto de embondeiro de jornalismo que continua a ostentar, este profissional nunca deixou de escutar e até aprender com os mais novos. Partilhamos quarto, na falta deste espaço em algumas missões de serviço pela vasta província de Inhambane, dormíamos no carro.
Na sua qualidade de mais velho, se fosse necessário disputar quartos, até refeições onde não houvesse algo devidamente organizado, tal como aconteceu em Xipanela, em Vilankulo durante a visita da ex-primeira dama, nós os pequenos, íamos ao “combate”e no fim dividíamos o produto da peleja com “ABC”. Dizíamos ao mais velho para não se meter na guerra, na linha de combate iríamos nós e ele fartava-se de rir quando já recebia um sumo, uma sandes ou mesmo um colchão para meter numa tenda e passar a noite.
Nesta hora em que se desligou do serviço, quero desejar ao “ABC” um descanso merecido e não pode pensar que deixou de ser nosso amigo. Nós seus fãs, acredito que somos muitos, teremos saudades de ouvir as suas crónicas, mas a sua voz ouviremos não nas ondas do éter, mas sim em chamadas telefónicas que faremos para saudar e consultar algo como sempre o fizemos.
Não quis fazer um elogio fúnebre, pois entre eu e o mais velho nunca se sabe quem parte primeiro, por causa disso, digo hoje e agora, o que muitos deixam para o último dia. Amigo “ABC”, parabéns por ter chegado a reforma com uma folha limpa, auguro igualmente desligar tal como o mais velho conseguiu. Parabéns.

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