segunda-feira, 18 de abril de 2016

Tamos pidir paz - já há refugiados da Zambézia no Malawi

A Função da esquizofrenia
De entre vários outros assuntos, a opinião pública nacional tem nos últimos tempos sido dominada pela situação dos mais de 11 mil moçambicanos que se encontram refugiados no Malawi. O assunto transformou-se numa questão ideológica, e dependendo do lado do pêndulo político-ideológico em que cada um se posiciona, vão sendo tecidas diversas teorias sobre o seu estatuto, incluindo o bizarro debate sobre se são refugiados ou deslocados. Agora o assunto atingiu a tribuna da Assembleia da República, através de uma proposta dos 89 deputados da Renamo para que seja constituída uma comissão parlamentar de inquérito sobre as razões que os levaram a abandonar o país. Claro que para não fugir à regra, a bancada da Frelimo, que é a maioria, votou contra a proposta. O seu argumento é de que o assunto estava a ser investigado pela Procuradoria Provincial de Tete, e como tal não havia necessidade de um outro exercício que se pudesse configurar numa intromissão em matéria subjudice. À semelhança do debate sobre se aqueles moçambicanos são refugiados ou deslocados, também um argumento bizarro. É bizarro porque o trabalho do Ministério Público não torna impeditivo que a Assembleia da República exerça as suas funções, mesmo que seja sobre o mesmo assunto. Por outro lado, o Ministério Público não é um tribunal. Por isso, a matéria em causa não pode ser considerada como estando pendente em tribunal, o que justificaria que se aguardasse pela decisão judicial transitada em julgado. As verdadeiras motivações da bancada da Frelimo são mais políticas do que o simples facto de que a Procuradoria de Tete esteja a investigar o assunto. São motivações que analisadas abaixo da superfície, sem qualquer tipo de emoções, podem constituir um gravíssimo perigo para o futuro da democracia e do constitucionalismo sobre o qual deve assentar o nosso sistema democrático. O voto dos deputados da Frelimo não teve como base a consciência de cada um, tendo em conta aquilo que cada um poderá ter entendido ser o supremo interesse nacional. Foi uma reacção instintiva e colectiva, para proteger interesses político-partidários. Compreendem-se as razões que levam a bancada da Frelimo a agir desta forma. Os seus deputados não podem questionar o governo liderado pelo presidente do seu partido, a quem em última análise devem gratidão pela sua presença no parlamento. Os nossos deputados não estão no parlamento em consequência da sua estreita ligação com o eleitorado, mas sim em função das relações de clientelismo que são a característica principal do actual sistema político. Mas quando deputados agem em função dos interesses do partido que representam, em detrimento daquilo que traça o nosso destino comum como nação, eles estão a abdicar das suas responsabilidades constitucionais como representantes do povo. E este não foi um caso episódico. Tem sido sistemático a Frelimo votar contra matérias importantes da vida nacional somente para proteger interesses do partido ou actos ilícitos praticados por alguns dos seus membros. Em verdadeiras democracias, a acção de um pequeno grupo de indivíduos, agindo fora da lei, é reprimida para salvar e proteger o interesse comum. A Constituição da República concede ao parlamento poderes para autorizar o governo a contrair empréstimos cujo período de serviço seja superior a um exercício financeiro. Mas quando ficou-se a saber que para além da dívida assumida pelo Estado a favor da EMATUM havia uma outra dívida acima de 600 milhões de dólares a favor da Proindicus, e a oposição submeteu um pedido para que o governo fosse chamado para dar esclarecimentos, a Frelimo bloqueou a decisão, mais uma vez colocando o parlamento na situação de incumprimento das suas responsabilidades constitucionais. Os argumentos utilizados foram, mais uma vez, de uma infantilidade incrível. Uma deputada disse que o assunto tinha sido despoletado pela imprensa internacional, e que o parlamento não age em função de notícias veiculadas no estrangeiro. É evidente que a referida deputada nem tem a dimensão da reputação do órgão de informação que veiculou a informação no seio dos meios financeiros internacionais que usam essas informações para tomar decisões importantes sobre o futuro da economia do nosso país. E pelo que parece, nem está preocupada com as consequências da imprudência dos seus correligionários. Se nos afundarmos, nunca será com as mordomias dos deputados. É a função da esquizofrenia.

Silêncio cúmplice
Por Machado da Graça
Vezes sem conta ouvimos os ilustres deputados da bancada do partido Frelimo, na Assembleia da República, a afirmar que em Moçambique existe um Estado de Direito e, por conseguinte, a nossa Constituição e leis devem ser escrupulosamente cumpridas. Sobre os mesmos temas os mais-ou-menos 40 comentadores alistados desenrolam diplomas, colocam os seus barretes académicos, sobem às cátedras e debitam artigos e parágrafos com sapiente fluidez. Mais estranho fica, portanto, o silêncio sepulcral de todas essas preclaras entidades quando surgem provas evidentes de que os nossos concidadãos Armando Guebuza e Manuel Chang cometeram actos gravosos que violam a Constituição e as leis nacionais, arruinando o país. E, pior ainda, não se trata apenas de um silêncio passivo. Pelo menos pela parte dos ilustres deputados trata-se de um silêncio activo, cúmplice. Ao vetarem o pedido da Renamo de que o Governo fosse ao Parlamento explicar o que se passa com esta nova dívida gigantesca que agora foi conhecida, os dignos tribunos disseram claramente que não querem que esse silêncio seja quebrado. Habituados à norma de disciplina partidária segundo a qual a roupa suja se lava em casa, não percebem, ou fingem não perceber, que as dívidas da EMATUM e da PROINDICUS não são questões partidárias mas sim nacionais. E o lugar próprio para lavar essa roupa suja é, precisamente, a Assembleia da República. O parecer do Tribunal Administrativo refere, embora timidamente, essas ilegalidades? O melhor é, na leitura, saltar esses parágrafos incó- modos. De resto o nosso Parlamento, sob a batuta bonacheirona da sua Presidente e a cumplicidade da Procuradoria Geral da República, tem vindo a abafar todas as tentativas de se esclarecerem assuntos graves de interesse público. Não são casos isolados, é uma estratégia claramente definida e cumprida. Quais serão as consequências para o país dessa estratégia? Tenho medo que sejam bastante más. Já estão a ser mas, se não arrepiarmos caminho, podem ser muito piores. Mas, infelizmente, as orelhas, entupidas de mordomias, têm muita dificuldade em ouvir vozes de fora. Se eu fosse crente diria “Deus nos ajude!”. Como não sou vejo isto a ir rapidamente para o desastre...

Mais refugiados no Malawi

Depois das fugas para o Malawi a partir de Moatize e para o Zimbabwe, os administradores(comissários) distritais de Chikwawa e Nsange no Malawi dão conta de refugiados a partir da Morrumbala. Em declarações publicadas pela Zitamar News, esta terça-feira, Bester Mandele, o comissário de Chikwawa, disse que no seu distrito tem registados 800 refugiados, enquanto Ledgson Nkolombwe, em Nsange, tem registados 105 refugiados. Até segunda feira, os refugiados, que começaram a chegar em meados de Março, foram abrigados numa escola, mas com o iní- cio das aulas, os refugiados foram movimentados para o acampamento da Mota Engil, a empresa portuguesa que construiu o porto de Nsange no rio Chire. Ainda sobre a situação dos refugiados, o comissário Gift Raposo de Mwanza, o distrito onde se situa Kapise, disse à Zitamar News que a afluência de moçambicanos diminuiu para 50/60 chegadas diárias. Ele disse que os camponeses estão agora a tentar fazer as suas colheitas, mas tem também informações que o exército moçambicano faz patrulhas ao longo da fronteira para tentar evitar as fugas para o Malawi. Corroborando o que dizem as agências humanitárias operando na área, a Zitamar News menciona o caso de Melinda Fernando que a semana passada fugiu da aldeia onde vivia para o Malawi, depois de as suas habitações terem sido queimadas pelas tropas governamentais. “Acusam-nos de ser da Renamo, quando eles (os soldados) não conseguem localizar a Renamo. Mas nós não somos apoiantes da Renamo. Nunca lidámos com eles, embora os soldados governamentais digam que as milícias da Renamo operam a partir da nossa zona”. Nesta segunda-feira, a bancada da Frelimo no Parlamento chumbou uma proposta da oposição para se criar uma comissão de investigação sobre a questão dos refugiados no Malawi, alegando que em 25 Fevereiro a Procuradoria de Tete tinha iniciado um processo sobre o assunto, o que iria duplicar os procedimentos. Contudo, já depois da data mencionada pela bancada da Frelimo, uma delegação do governo fez uma investigação sobre o assunto, o mesmo tendo acontecido com a Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH). Esta Comissão completou a parte moçambicana devendo nos próximos dias deslocar-se ao Malawi para concluir a sua missão e o respectivo relatório.

População não pára de fugir devido ao espectro de guerra na Zambézia 

Por Laison António, nosso enviado a Morrumbala 

Numa altura em que o partido governamental está reunido em mais uma sessão do Comité Central (CC) com o tema Paz no topo da agenda, cresce a vaga de abandonos populares na localidade de Zero, distrito de Mopeia, e no posto administrativo de Sabe, no distrito de Morrumbala, devido à presença das forças governamentais e homens armados da Renamo naquelas regiões da província central da Zambézia. Começaram também a chegar os primeiros refugiados a Chkwawa e a Nsange. Depois de Nkondezi e Kapise, o SAVANA regressou ao terreno para ver in loco o cenário de dezenas de famílias que vivem as amarguras de um conflito polí- tico-militar que teima em forçar deslocações humanas. Em Sabe e Zero, por exemplo, a população continua a deixar para trás as suas casas, levando consigo o que pode e consegue, à procura de regiões seguras. Na zona de Zero, as forças governamentais até montaram dois postos de controlo separados por cerca de 100 metros. Aí, os automobilistas que fazem o troço Quelimane-Mopeia e vice-versa são obrigados a parar e os passageiros revistados nos dois locais, facto que deixa aqueles utentes agastados. Os populares repetem que o espectro de guerra é que lhes força a abandonarem as suas residências. José Sucaeira é um ancião que se refugiou na vila de Morrumbala, centro de violentos confrontos e onde a população é acusada de conviver com a “cobra”, uma clara referência pejorativa contra as simpatias para com a Renamo naquele distrito. “A vida mudou e tornou-se um pesadelo depois de ter saído de Sabe”, conta, apelando ao líder da Renamo, Afonso Dhlakama, e ao Presidente da República, Filipe Nyusi, para encontrarem solução para a crise. Mas Sucaeira lança culpas ao governo pelo facto de ter enviado tropas para aquelas zonas, acção que considera desnecessária, pois os homens da Renamo, conta, nunca incomodavam a população. “A população está a sair das suas zonas não porque a Renamo está a criar desmando. Não estamos a abandonar por causa da Renamo, desde ano passado que eles vieram ali, nunca houve problema com a população, íamos à machamba, passear, mas quando veio essa tropa, aí começaram problemas, começámos a ouvir que alguém foi violentado por militares, ou disparou, então fugimos para não morrermos por causa da guerra de dois grupos”, explica ele que é vítima de um conflito que os políticos negam resolver. Tomás Fernando, que igualmente abandonou Zero para se refugiar em Morrumbala, há sensivelmente duas semanas, depois de um ataque a um autocarro da transportadora Nagi, avança que foi uma saída não programada, por isso, quase que ninguém levou nada, tudo porque saiu-se às correrias devido ao som dos tiros. Agora vive na companhia da sua família numa casa arrendada, onde paga cerca de 150 meticais, dinheiro que diz não ser fácil obter. Para alimentar a sua família, conta Fernando, deve ter 30 meticais para comprar uma tigela de farinha de 2kg, uma situação que este considera de muito triste visto que, na sua zona, conseguia produzir e alimentar os seus filhos, para além de que a produção e venda de carvão era outra forma de sustento. Maria Fanbaone narra que decidiu sair de Zero para a casa do seu irmão, na vila sede de Mopeia, devido à movimentação de For- ças de Defesa e Segurança. Fanbaone, que guarda horrores da fratricida guerra dos 16 anos, na qual perdeu pais, irmãos e outros parentes, decidiu abandonar a sua residência antes do pior. Por sua vez, a família do régulo Armando Standiqueia, de Sabe, abandonou a sua residência, alegadamente, porque os homens de Afonso Dhlakama montaram um dos seus acampamentos ao pé da sua casa, alegando que querem ficar perto do rio Thiade. Em tempo de guerra, o acesso à água é estratégico. Segundo Pitoja Tomo, esposa do régulo, a família, temendo que um dia pudesse estar debaixo de fogo, partiu para a vila de Morrumbala. Perseguições à mistura Fernando Cambazo França, lí- der comunitário de Sabe, disse ao SAVANA que a sua saída de  lá foi por causa da perseguição e tentativa de assassinato por parte dos homens armados da Renamo, que ao descobrirem que era membro do partido no poder, era procurado supostamente para ser assassinado sob alegação de que fornece informação às forças governamentais. Cambazo diz ser membro da Frelimo, mas nega ter passado informações. “Vieram a minha casa quatro vezes. Eu fugi e, quando descobriram a pessoa que trazia comida de lá para mim aqui na vila, prenderam-na e ficaram com ela quatro semanas lá na base a ser castigada e quase ser morto. Estou aqui a sofrer sem nada para comer, tenho medo de mandar de volta estas minhas duas esposas, porque vão sofrer também”, denunciou. Quem também terá sido sofrido perseguição é Carlitos Jeremias, líder comunitário na zona de  Zero. Segundo conta a filha, que responde pelo nome de Chica Jeremias, quando descobriu que estava sendo procurado pelas forças governamentais, supostamente, porque tiveram informação que ele era da Renamo, o pai fugiu para a vila sede de Morrumbala, para depois chamar a sua famí- lia. Para já, são nove pessoas que estão a partilhar uma minúscula casa na vila da Morrumbala, depois de terem deixado para trás a sua residência em Zero por conta das perseguições. Até porque ao que a nossa reportagem testemunhou, a maioria vive mesmo em pequenas casas arrendadas, albergando homens, mulheres, crian- ças e idosos. Educação e saúde não escapam Afectados pela tensão que fustiga aqueles pontos da província da Zambézia, estão os sectores da educação e da saúde. De acordo com o director distrital de Saúde, Mulher e Acção Social (SDSMASM) de Morrumbala, Tomé Manuel Charles, das três unidades sanitárias existentes na localidade de Sabe, apenas duas estão a funcionar, nomeadamente, o Centro de Saúde de Moera que assiste um universo de 81.169 habitantes. O de Babichalo, com capacidade para atender 7.302 habitantes, encontra-se totalmente encerrado desde Novembro do ano passado. O Centro de Saúde de Sabe-Sede também fechou as portas. Antes de encerrar por causa dos confrontos assistia cerca de 25.982 habitantes. Segundo Tomé Manuel Charles, a assistência às poucas famílias que ainda se encontram em algumas zonas circunvizinhas vem sendo feita em brigadas móveis, para além de agentes polivalentes que são permanentes. Na educação, 10.030 alunos viram-se forçados abandonar as aulas, no fim do ano passado, devido ao encerramento de 15 escolas em quatro Zips (Zonas de Influ- ência Pedagógica). Para o director dos Serviços Distritais de Educação Juventude e Tecnologia, Farias Noé Alberto, apesar de não terem realizado os exames na mesma altura em que decorriam exames em todos o país, alguns destes alunos tiveram a oportunidade de realizarem em zonas onde os pais acharam seguras como Caia, em Sofala, e Mutarara, em Tete. Este ano não foi possível abrir as portas daquelas escolas. Os 101 professores, que haviam sido afectos nas mesmas, estão sendo recolocados em outros estabelecimentos de ensino. Contudo, garante Farias Alberto, neste momento decorre um trabalho de sensibilização das comunidades de modo a mandarem seus filhos a escolas seguras. 

Resgatando os princípios que nortearam a sua criação
Nyusi quer uma Frelimo puritana
Por Raul senda 

Opresidente da Frelimo, Filipe Jacinto Nyusi, enalteceu a necessidade do partido Frelimo, no poder desde a independência nacional, resgatar os princípios que nortearam a sua criação e definir- -se como uma organização puritana. Nyusi, que falava na abertura da V Sessão Ordinária do Comité Central (CC) do Partido Frelimo, que decorre na cidade da Matola desde a última quarta-feira e que se prolonga até amanhã, referiu que a meta do seu partido é alimentar o exercício retomado no ano passado, que consiste no fortalecimento e coesão interna do partido, preservando os valores e os princípios que marcaram a Frelimo da geração de Eduardo Mondlane, Samora Machel, Pascoal Mocumbi, entre outros. Para além de apelar ao resgate dos princípios moralísticos que marcaram os primórdios da Frelimo, Nyusi destacou a necessidade do reforço da disciplina partidária, ponto central para a coesão interna do partido. Nos últimos anos, figuras históricas da Frelimo têm-se queixado, com alguma frequência, da dilui- ção dos valores morais que marcaram os primórdios do partido. A ganância pelo poder, o clientelismo, a arrogância, a intolerância e a corrida pela busca de bens materiais sem olhar para os meios tem caracterizado o partido nos últimos anos, adulterando por completo o preceito estatuário que define a Frelimo como um o partido que congrega moçambicanos de todas as classes e camadas sociais, defende os valores da liberdade, da unidade nacional, da paz, da democracia, da igualdade, da solidariedade e da justiça social. De acordo com Filipe Nyusi, foi no quadro dessa reorganização partidária que a Frelimo definiu como prioridade, para ao ano de 2015, o fortalecimento da coesão interna e o aprimoramento das relações entre os membros do partido e para este ano foi definido o reforço da disciplina partidária. Segundo Nyusi, com estas abordagens quer-se influenciar, de forma intensa, a promoção da disciplina individual de cada membro do partido, de forma a consolidar a disciplina colectiva nos órgãos, a diversos níveis. Sublinha que o seu sonho é ver um membro da Frelimo a todos os níveis a criticar e a ser criticado, a ouvir e ser ouvido, um membro que exprime o seu pensamento livremente. A liberdade de expressão e de opinião foi um dos direitos que nos últimos anos do reinado de Armando Guebuza era limitado na Frelimo. Foi mesmo devido à falta de espaço no seio do partido para exprimir seus pensamentos de forma livre que, muitos “camaradas” recorriam aos meios informais para desafogar. Os desabafos desses membros irritaram Armando Guebuza e o obrigaram a lançar duras críticas na histórica sessão que selou a sua queda da liderança do partido. Na mesma reunião, também realizada na Matola, em Março de 2015, Guebuza disse, num tom que foi interpretado como inflamatório e intimidatório, que estava preocupado com a postura e comportamento de alguns camaradas que, publicamente, engendravam acções que concorriam para perturbar o normal funcionamento dos órgãos e das instituições e para gerar divisões e confusão no seio da Frelimo. Recados à Renamo Entre os temas arrolados para a reunião magna da Frelimo, consta a tensão político-militar que nos últimos anos tem desestabilizado o país com maior enfoque para as províncias de Inhambane, Sofala, Manica e Zambézia. Filipe Nyusi mostrou-se preocupado com a situação, mas mandou recados à Renamo, deixando claro que não há espaço para se recorrer a estrangeiros para mediarem um problema interno, com o mesmo argumento de que cabe aos moçambicanos resolver as suas diferenças. Para o presidente da Frelimo, o povo moçambicano pode e deve pensar e decidir sobre o seu pró- prio destino. Sustenta a sua tese referindo que há tendências de se pensar ou decidir pelo pobre, renegando a liberdade do pobre, ou do mais fraco, decidir sobre o seu futuro. Diz Nyusi que, quando se é pobre, há tendência de se considerar que a pobreza é também mental ou intelectual. Filipe Nyusi lançou duras críticas ao maior partido da oposição apontando-o como principal responsável da tensão que se vive no país. “No centro do País, em zonas bem localizadas, o povo vive o terror e medo causados pelos homens armados da Renamo. Atacam viaturas, invadem machambas, perseguem líderes comunitários e dirigentes do nosso partido, a nível da base. Estes cenários calamitosos e criminosos, apesar do nosso bom nível de resposta, continuam a provocar sofrimento e perda de vidas humanas e de bens”, lamentou. Recordou os assassinatos do membro do Conselho Nacional de Defesa e Segurança indicado pela Renamo, José Manuel no último Sábado na Beira, e do procurador Marcelino Vilanculos, na Segunda Feira na cidade da Matola. Sublinhou que a Frelimo condena os dois assassinatos bárbaros e encorajou as Forças de Defesa e Segurança a procurar rápido esclarecimento dos mesmos. Recordou também as calamidades naturais que assolam as regiões sul e centro do país, afectando mais de um milhão de moçambicanos.

Reunião partidária com cunho de Estado
Tal como já é hábito, a reunião do Comité Central da Frelimo que está a decorrer na cidade da Matola, mais uma vez mexeu com o funcionamento do Estado moçambicano. São milhares de meios públicos mobilizados dentre autocarros das empresas municipais de transporte públicos, ambulâncias, viaturas de polícia, serviços nacionais de bombeiros para além de serviços especiais da empresa Eletricidade de Moçambique. Os recursos humanos também foram movimentados em massa. Por exemplo, para as moções de saudação aos membros do CC foram mobilizadas crianças, em nome da Organização dos Continuadores Moçambicanos, e centenas de jovens em representação a Organização da Juventude Moçambicana (OJM). Pelos bairros foram mobilizadas senhoras da Organização da Mulher Moçambicana (OMM) e transportadas em autocarros das empresas municipais de transportes públicos. Os membros do Governo ao nível central, os governadores provinciais, reitores das universidades públicas, executivos das empresas do Estado, institutos e fundos públicos entre outras figuras ligadas à administração pública marcaram presença em peso na reunião. Cada um destas figuras levava consigo viatura institucional, motoristas e nalguns casos ajudantes de campo. Antes do discurso do Presidente da Frelimo, as organizações sociais do partido desfilaram pelo pódio apresentando mensagens de exaltação à figura de Filipe Nyusi. A Associação dos Antigos Combatentes da Luta de Libertação Nacional (ACLLN) lançou duras críticas ao partido de Afonso Dhlakama apelidando-o de movimento assassino e vandalizador. Pediu ao pleito para aumentar a quota dos combatentes nos órgãos de decisão a fim de permitir contornar as estratégias dos adversários nos próximos pleitos eleitorais. O tom mais pornográfico do culto de personalidade destacou-se mais com a passagem do grupo da OJM que, embora sem direito a discurso, os jovens entoaram cânticos como “o líder é Nyusi, quem comanda....é Nyusi”.

Valentina Guebuza interdita de aceder à sala de sessões
Afilha de Armando Guebuza, antigo Presidente da Repú- blica, Valentina Guebuza, passou por alguns momentos embaraçosos. Tudo começa depois de Valentina Guebuza ter deixado a sala de sessões para integrar o grupo dos antigos combatentes que subiram ao pódio para apresentar a moção de saudação. No regresso à sala, Valentina Guebuza foi impedida pela segurança de voltar à sala, supostamente porque o crachá em seu poder não era daquela reunião. Valentina Guebuza tentou explicar ao segurança que era membro do CC e disse quem era, mas a sua explanação não demoveu os seguranças. Momentos depois, a filha do antigo presidente da República, Armando Guebuza, apresentou o cartão de membro do CC, mas também foi recusado pelos seguranças que insistiram que para aquela reunião há crachás próprios e de que a senhora não dispunha. Valentina Guebuza só acedeu à sala depois de alguma concertação entre o pessoal de segurança e do protocolo.


Continuam em marcha planos para a construção de um porto de águas profundas no sul da província de Maputo, o que poderá vir a aliviar de certa forma a pressão sobre o porto de Maputo, e oferecer opções mais competitivas de acesso aos mercados internacionais por parte de alguns países da África Austral. O projecto do porto de Techobanine, no distrito de Matutu- íne, província de Maputo, está a ser promovido por um consórcio liderado pela empresa moçambicana Bela Vista Holdings, SA (BVH), que espera investir na fase inicial do empreendimento mais de um bilião de dólares. Há outros investidores internacionais envolvidos no projecto, nomeadamente a Transnet, empresa pública de caminhos de ferro da África do Sul, e a chinesa CHEC, especializada na construção de portos. Em 2005, os governos de Mo- çambique e do Botswana assinaram um Memorando de Entendimento na base do qual o Botswana apoiaria o desenvolvimento do projecto. O Botswana pretende utilizar o porto para a exportação, de cerca de 20 a 30 milhões de toneladas de carvão por ano. As obras de construção do porto deverão consistir na abertura de um canal de acesso de 3,5 quilómetros, ladeado de duas dunas naturais, e que permitirá quebrar a velocidade de navios de grande calado, entrando no porto com condições de mar adversas. O porto, com uma bacia natural interior ao nível do mar, terá uma profundidade de pelo menos 24 metros e irá acomodar navios de até 300 mil toneladas. Um consórcio internacional já finalizou os estudos preliminares de impacto ambiental, e em resposta às suas recomendações, os promotores do projecto decidiram escolher um local que dista 23 quilómetros da Reserva Especial de Maputo para a localização do porto na Ponta Techobanine. “Sendo um projecto de categoria A, este empreendimento irá ser objecto de um Estudo de Impacto Ambiental completo, do qual resultará um plano de gestão respectivo, suportado basicamente pelo projecto”, disse uma fonte ligada à BVH. O projecto inclui ainda, a 20 quilómetros do porto e da Reserva Especial de Maputo, a instalação de uma zona franca industrial, numa área de 13 mil hectares em frente à Bela Vista, a capital do distrito de Matutuíne. A área é Novo porto para a província de Maputo caracterizada pela existência de pequenas florestas que para além de serem mantidas deverão também ser ampliadas. Através de uma rede que deverá aproveitar os principais corredores ferroviários actualmente existentes e outros novos a serem construídas no futuro, o porto poderá potencialmente facilitar e diversificar o acesso ao mar a países encravados da região, nomeadamente o Botswana, a Swazilândia e o Zimbabwe, para além de encurtar a distância para o mar a partir de regiões com enorme potencial de minerais dentro da África do Sul. Estes países já usam um conjunto de portos já existentes em Mo- çambique e na África do Sul, mas o novo porto poderá ajudar a descongestionar tais infra-estruturas, trazendo benefícios económicos adicionais para toda a região da África Austral. Por exemplo, através de Techobanine, a exportação do carvão da região de Witbank, na província sul-africana de Mpumalanga, poderá ser encurtada em 113 quiló- metros, se comparada com a distância de 635 quilómetros para o porto de Richard’s Bay, na costa leste da África do Sul. Uma ligação ferroviária através da Swazilândia, ao longo do Rio Maputo, poderá contribuir para reduzir significativamente os custos de transporte de minérios produzidos na África do Sul, permitindo a sua colocação no mercado da Ásia a preços competitivos. Uma outra ligação ferroviária com o porto de Maputo poderá também interligar Techobanine ao corredor do Limpopo, que permitirá o acesso ao Botswana e ao Zimbabwe. Phalaborwa, uma região rica em minério de ferro e situada na província do Limpopo, no nordeste da África do Sul, dista actualmente 901 quilómetros do porto de Richard’s Bay, também na África do Sul. Com uma ligação através da Swazilândia para Techobanine, essa distância poderá ser reduzida para 455 quilómetros. Será através da ligação ferroviária com a África do Sul que o Botswana passará a ter outro acesso ao novo porto, assim como serão encurtadas as distâncias de acesso ao mar para os campos de produção mineira das províncias sul-africanas do Limpopo e de Mpumalanga. O encurtamento das distâncias ferroviárias é importante para a redução do custo do transporte por quilómetro, permitindo aos exportadores colocar os seus produtos no mercado internacional a preços competitivos, ao mesmo tempo que reduz os preços das importações. O governo da África do Sul tem estado a desenvolver planos destinados a encorajar os produtores de carvão na província de Mpumalanga a usar o sistema ferroviário como forma de evitar os danos causados nas estradas da região. Ao nível do distrito de Matutu- íne, o projecto de Techobanine prevê um grande impacto na vida das populações, através da criação de novas oportunidades de emprego para jovens que actualmente se vêm obrigados a procurar melhores condições de vida ou na cidade de Maputo ou na África do Sul.

Última homenagem ao Arcebispo emérito da Beira
Dom Jaime: um homem marcante e incompreendido
Com o céu nublado e debaixo de uma segurança extrema das forças especiais da polícia moçambicana, a cidade da Beira parou, no último sábado, para prestar uma última homenagem a uma das figuras mais marcantes e incompreendidas na história do processo político moçambicano dos últimos 40 anos. O Presidente da República, Filipe Nyusi, o antigo estadista Joaquim Chissano, Manuel Bissopo, SG da Renamo, em representação de Afonso Dhlakama, líder do partido e Daviz Simango, edil da Beira, destacavam-se entre as personalidades que renderam a última homenagem a D. Jaime Gonçalves, o arcebispo que teve um papel nuclear para o fim da guerra dos 16 anos. Nyusi chegou pouco depois das 09:00 horas num enorme pavilhão da paróquia da Santa Maria de Fá- tima (onde foi realizada a missa de corpo presente) e deixou o local perto das 12:00 horas, quando todas as pessoas se dirigiam ao cemitério Santa Isabel, onde seria depositada a urna, quase 50 metros do local onde foi realizado o velório. Numa cerimónia sob forte aparato policial e uma segurança indisfarçada, transmitida em directo pela STV, mas ignorada pela TVM (a tv pública), Filipe Nyusi, que teve o tempo mais longo para o discurso no evento, destacou o papel incontornável de Dom Jaime no processo de busca de paz. “Eu me recordo numa das vezes quando passamos aqui (na Beira), e fomos visitar o Dom Jaime ao lado da irmã, quando ainda lutava contra a doença, disse `jovem tenha paciência para o reencontro dos moçambicanos`”, lembrou Filipe Nyusi na sua intervenção, e recordou a “inteligência e perspicácia” de Jaime Gonçalves, expressando o desejo de manter vivo o seu legado. “Na divulgação da fé e da esperança, na missão que abraçaste, interagiste com a sociedade despertando a consciência colectiva dos moçambicanos para a necessidade de construirmos uma sociedade de igualdade, justiça, harmonia social, paz e reconciliação. Queremos ser continuadores da tua obra e manter vivo o teu legado”, declarou Filipe Nyusi. Religiosos Numa cerimónia de muito simbolismo, entre tristeza e abraços, que sugeriam cinismo entre os líderes políticos na última homenagem a Jaime Gonçalves, na igreja Santa Maria de Fátima, no bairro dos Pioneiros, vários elogios e legados com tom reconciliatório foram deixados. “Tivemos uma aventura entusiasmante e trabalhosa, a da busca da paz, quando não foi fácil mas cheia de armadilhas, por causa da violência e de muita desconfiança. Mesmo nos momentos mais difíceis ajudou-nos a encontrar as melhores soluções. Acreditamos que honrar a sua memória é procurar por todas as maneiras encontrar a paz”, disse Leono Gianturco, em representa- ção do fundador da Comunidade de Sant´Egídio, afiançando que a violência nos últimos meses era um sofrimento enorme para Jaime Gon- çalves “porque ele acreditava na paz”. Falando em nome dos arcebispos de África, Dom Francisco Chimoio disse: “calou-se a boca de ouro, o inconformado e, nalgumas vezes, o incompreendido pela paz dos mo- çambicanos e pela justiça social em todos os contextos”. Na leitura da nunciatura apostólica, João Carlos referiu: “o incansável obreiro da reconciliação e da paz em Moçambique, o papa Francisco concede a quantos oram a sua partida e aos pastores e fieis para a celebração das exéquias uma consoladora bên- ção apostólica”. Políticos O ex-arcebispo da Beira morreu na quarta-feira, 05 na Beira, aos 79 anos, tendo sido, na qualidade de mediador da Conferência Episcopal moçambicana e do Vaticano, um dos principais obreiros do Acordo Geral de Paz, assinado a 04 de Outubro de 1992, em Roma, e que encerrou 16 anos de guerra civil entre o Governo da Frelimo e a Renamo. O ex-Presidente Joaquim Chissano, signatário do entendimento histórico de Roma, recordou, por sua vez, os encontros com Jaime Gonçalves, na longa caminhada que antecedeu o Acordo Geral de Paz, observando que, apesar das muitas discussões que mantiveram, as diferenças nunca os afastaram. “Com coragem, somos capazes de resolver os nossos problemas e trazer a paz ao país”, afirmou o ex-Presidente moçambicano, quando Mo- çambique volta a viver instabilidade política e militar, mais de duas dé- cadas após as negociações de Roma. Além do chefe do Estado, a cerimó- nia de homenagem a Jaime Gonçalves juntou líderes religiosos e representantes dos três maiores partidos moçambicanos. O presidente da Renamo fez-se representar pelo secretário-geral do maior partido de oposição, Manuel Bissopo, alegando falta de condições de segurança para abandonar o seu refúgio algures na Serra da Gorongosa, onde se encontra desde o final do ano passado. Condecorado pelo Estado moçambicano, em 2014, voltou a juntar- -se aos signatários dos acordos de Roma, Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama, num evento da Universidade Católica, em Setembro de 2015, na Beira, acusando os políticos de ameaçarem a paz com seu “orgulho e medo” e de promoverem uma democracia de ódio. “Estão todos os dias enchendo a boca a dizer paz, paz, paz! Qual paz? Paz de vergonha? Onde está a paz?”, questionou. Em longos elogios fúnebres, na paróquia da Santa Maria de Fátima, no centro da Beira, os líderes polí- ticos frisaram que a maior forma de homenagear o “herói da reconcilia- ção” e “pai de causas justas” é seguir os  seus ensinamentos, esquecendo o “ódio e a dor”, das cicatrizes da nova instabilidade. “A morte de Dom Jaime empobrece a nossa democracia”, precisou Daviz Simango, líder da MDM, terceira força política, assegurando que as lições deixadas por Jaime Gonçalves são uma semente da vida. “Fica a lição de que os servidores e defensores da vida devem ser os agentes do Estado de direito, pois a essência do Estado é a defesa e a promoção da vida. A defesa e a promoção da vida são valores supra partidários e supra religiosos”, afirmou Daviz Simango, também autarca da Beira, repetindo a frase de Jaime Gonçalves “cabe agora aos moçambicanos se querem acabar com a guerra, e ou se a guerra acaba connosco”. “A melhor forma de o Presidente (Filipe) Nyusi e o presidente (Afonso) Dhlakama homenagearem Dom Jaime é seguirem os seus ensinamentos, promulgando a paz e poderíamos aproveitar esta oportunidade (fúnebre) para declarar tréguas em respeito à memória de Jaime Pedro Gonçalves”, disse Manuel de Araujo, edil de Quelimane pelo MDM, chamando a consciência crista dos dois dirigentes. “Dom Jaime incorpora todos os esforços da busca pela paz, duma forma incessante, o seu legado nos ensina que o trinómio, diálogo, inclusão e reconciliação são os grandes pilares da paz”, disse Raul Domingos, o ex-número dois da Renamo, admitindo que havendo uma busca por honestidade, Moçambique pode alcançar a paz. Manuel Bissopo, secretário-geral da Renamo, lembrou que “Jaime Gonçalves dedicou a entrega à solução pacífica (para a crise política em Moçambique), entregando-se de corpo e alma para aproximar o governo e a Renamo, de modo a privilegiar o diálogo em detrimento de soares da armas”, lembrando a aterragem nocturna de Jaime Gonçalves em Cainxixe (Marínguè, Sofala) em Abril de 1988, para iniciar as negociações que conduziram ao Acordo Geral de Paz em 1992. Qualificando Jaime Gonçalves como “homem destemido, corajoso, dedicado à causa da paz, democracia e bem-estar de todos os seres humanos do mundo em geral e em particular em Moçambique”, Manuel Bissopo lamentou que a morte de Jaime Gonçalves tenha ocorrido “numa altura em que mais se precisava o seu saber para a pacificação e unidade entre os moçambicanos”, chamando a todos os intervenientes a buscarem o que estiver a seu alcance para “devolvermos a paz aos moçambicanos através de um diálogo sério como forma de perpetuar os seus ensinamentos, do verdadeiro irmão da paz”. Jaime Pedro Gonçalves nasceu em Nova Sofala a 26 de Novembro de 1936, tendo frequentado o seminá- rio em Zóbuè, província de Tete, e prosseguido os estudos em Maputo, Namaacha, Canadá e Roma. Assumiu a diocese da Beira em Março de 1976, um ano após a independência de Moçambique.


Um dia após o assassinato violento do procurador Marcelino Vilanculos em frente a sua casa no Tchumene, município da Matola, a Associação dos Magistrados do Ministério Público (ANMMP) levantou a voz e apelou à resolução de velhos problemas que apoquentam a classe: a segurança. De acordo com a porta-voz desta agremiação, Nélia Cornélio, há nove anos foi aprovada a lei orgânica do Ministério Público que prevê segurança para o magistrado e a respectiva família, mas até agora nada avançou. O sindicato do crime organizado recorreu uma vez mais à força das armas para intimidar, retardar ou mesmo paralisar o avanço dos chamados casos “quentes” que estão nas mãos dos procuradores ou juízes. Em 2014, o alvo foi o juiz Dinis Silica que, em plena luz do dia, foi crivado de balas na própria viatura, numa das zonas nobres da cidade de Maputo. Esta segunda-feira e em circunstâncias similares, foi assassinado Marcelino Vilanculos, quando regressava à casa após mais uma jornada laboral. Com 40 anos de idade, Vilanculos estava afecto à secção criminal do Tribunal Judicial da cidade de Maputo onde seguia casos delicados, com destaque para os raptos. Ao que apurámos, um deles está relacionado com Danish Satar, sobrinho de Nini Satar, que no final do ano passado foi deportado de Itália para Moçambique. É preciso notar que Vilanculos também seguia vá- rios casos considerados “quentes”, não se sabendo até que ponto os raptos poderiam estar relacionados com o seu assassinato. Em conferência de imprensa havida esta terça-feira, Nélia Cornélio, porta-voz da Associação dos Magistrados do Ministério Público (AMMP), repudiou o assassinato de Marcelino Vilanculos, que o descreveu como sendo um colega exemplar e íntegro. Prova disso é que, no dia do assassinado, o malogrado juntamente com outros colegas que integram a equipa responsável pela revisão da lei do Ministério Público haviam sido felicitados pela classe pela excelente proposta que produziram, depois da mesma ter sido aprovada pelo Conselho de Ministros. Comovida com os assassinatos dos colegas, a porta-voz lamentou a falta de segurança dos magistrados, tendo apelado a quem de direito para prestar a devida atenção para esta questão. “A lei orgânica do Ministério Pú- blico foi aprovada em 2007 e prevê segurança para o magistrado e sua família. Hoje já lá vão nove anos e ainda aguardamos a materialização deste direito. Queremos ser heróis vivos, queremos trabalhar pela segurança do país, mas é preciso que os profissionais desta área não tombem desta maneira”, disse. Apesar de reconhecer que esta situação abala a classe, a porta-voz Magistrados reivindicam segurança Por Argunaldo Nhampossa assegura que os magistrados não se sentem desencorajados, uma vez que se trata de um compromisso assumido do qual já sabia dos riscos existentes. No entanto, Nélia Cornélio aponta que o facto de saberem dos riscos não pode em nenhum momento implicar que tenham de ficar expostos ou as autoridades se devem eximir das suas responsabilidades de prover segurança. Sublinhou que este clamor pela segurança não é de hoje, tendo já havido atentados contra a vida e integridade de magistrados como Maria Isabel Rupia, Afonso Antunes, entre outros. Assim, reiterou o seu apelo a quem de direito para fazer cumprir as leis de modo a trazer harmonia no trabalho e que consigam levar a bom porto os processos iniciados por Vilanculos. Custódio Duma, Presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, também manifestou o seu repúdio pelo assassinato de Marcelino Vilanculos. “Uma afronta ao sistema de administração de justiça como um todo e, mais uma vez, expõe o ambiente de extrema insegurança em que os nossos magistrados vivem”, frisou, apelando aos conselhos superiores das magistraturas para que repensem a política de segurança dos seus membros. PGR está no terreno O porta-voz da Procuradoria Geral da República, Taibo Mucobora, referiu que já foi constituída uma equipa multissectorial dirigida por um magistrado do Ministério Pú- blico com vista ao esclarecimento das circunstâncias em que ocorreu o crime, a identificação e neutralização dos autores. Segundo Mucobora, a PGR e o Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público repudiam veementemente este acto macabro e garantiu que de forma alguma irá fragilizar a determinação do MP de levar avante a sua missão de cumprir e fazer cumprir a lei e combater a criminalidade. Ainda esta terça-feira, o porta-voz do Comando-geral da PRM, Iná- cio Dina, disse existirem indícios de que o malogrado já vinha sendo perseguido por criminosos, mas deplorou avançar com mais elementos alegando ser prematuro avançar com o que poderá ter movido o assassinato. Dois dias antes do assassinato do procurador Marcelino Vilanculos, na cidade da Beira foi também barbaramente assassinado José Manuel, chefe de assuntos sociais da Renamo e membro do Conselho Nacional de Defesa e Segurança, um órgão de consulta do Chefe de Estado. José Manuel foi morto juntamente com o motorista do Txopela, que o transportava minutos depois de desembarcar no aeroporto da Beira. Sobre o assassinato de José Manuel, o porta-voz da Renamo, António Muchanga, precisou que era prematuro comentar. “O partido aguarda pelas investigações policiais”, frisou Muchanga. Em meios habilitados, há um entendimento de que a confirmarem- -se as motivações políticas no assassinato violento de José Manuel, no dia e na cidade onde eram feitos apelos à paz em nome do falecido D. Jaime Gonçalves, confirma-se a tendência para actos de violência extrema contra altos responsáveis da Renamo sempre que começa a ganhar expressão qualquer tipo de iniciativa/movimento sustentando o diálogo. Sectores mais moderados na Frelimo acolhem com algum embaraço acusações de que há um plano previamente trançado para assassinar altos membros da Renamo, acção que consideram que pode agudizar o clima de confrontação armada de desfecho imprevisível.


Negócio Ematum e Proindicus inclui compra de drones
Três drones Schiebel Campter vão fiscalizar as águas moçambicanas a partir deste mês e são parte de uma encomenda de USD200 milhões feita em Setembro de 2013 ao estaleiro francês de Cherbourg, CMN, que incluiu a compra de 24 barcos de pesca de atum e interceptores HSI 32, noticia o site sul-africano sobre notícias relacionadas com assuntos de defesa e segurança Defence Web. A Defence Web escreve que os três drones (UAVs – Aerial Unmanned Vehicle, ou seja, veículos aéreos não tripulados) serão operados a partir de um navio patrulheiro Ocean Eagle 43, parte de três patrulheiros que fazem parte do pacote solicitado pelo Governo de Armando Guebuza em Setembro de 2013. Os três Camcopter S-100 foram fabricados pela companhia Schiebel, da Áustria e já foram pré-testados em Cherbourg, França, aguardando testes definitivos em Moçambique. O Camcopter pode operar tanto de dia como à noite, mesmo perante condições de tempo adversas, deslocando-se até 200 quilómetros, tanto no mar como em terra. O Ocean Eagle tem 43.6 metros de comprimento, está equipado de quarto motores Scania para uma velocidade de 30 nós e dispõe de um alcance de três mil milhas por 20 nós. Dispõe de uma pequena plataforma para albergar um helicóptero com menos de 300 quilos. A Defence Web não faz nenhuma ligação entre os drones e os patrulheiros à aquisição de navios de pesca e de patrulha da Ematum no polémico negócio de USD850 milhões nem ao mais recente caso envolvendo a Proindicus, que terá contraído uma dívida de mais de USD787 milhões para a compra de patrulheiros e equipamento de segurança marítima. Contudo, a referência ao estaleiro de Cherbourg não deixa dúvidas de que o negócio dos drones está incluído nos contratos em torno da Ematum e Proindicus, visto tratar-se do fabricante CMN. Entretanto, a bancada parlamentar da Frelimo recorreu, nesta terça- -feira, à ditadura do voto para evitar que o Governo se desloque ao Parlamento para explicar os contornos da dívida da Proindicus, um pedido com “carácter de urgência” feito pela Renamo, o maior partido da oposi- ção. Recorde-se que documentos divulgados pelos bancos suíço Credit Swisse e russo VTB, instituições financeiras que lideraram a venda de títulos de dívida que financiaram a operação EMATUM, revelaram que o Executivo dirigido por Armando Guebuza se endividou em mais USD787 milhões, através de uma outra empresa, supostamente para despesas de equipamento de protecção marítimo. A divulgação destes documentos pelo Wall Street Journal (WSJ) surpreendeu meio mundo, o que motivou o pedido da Renamo para que o Governo se explicasse na sede do Parlamento, o que a Frelimo recusou. Para justificar o seu posicionamento, a Frelimo, na voz da deputada Helena Música, argumentou que votou contra porque o assunto do endividamento público precisa de ser “debatido com serenidade e muita ponderação técnica”. “O assunto deve ser debatido com a devida serenidade, ponderação técnica que o tema exige. Votamos contra porque ao trazer ciclicamente esta maté- ria a Renamo pretende ganhar simpatias e manipular a opinião pública”, precisou Helena Mú- sica, no momento reservado às declarações de voto. Por outro lado, a Renamo e o Movimento Democrático de Moçambique disseram que ficou claro, até para quem “põe óculos de madeira” que o caso Ematum é, efectivamente, um crime doloso “e que como se trata de crime, as pessoas envolvidas deviam ser responsabilizadas judicialmente”. A reprovação, de acordo com a oposição, prova mais uma vez que o dossier Proindicus e muitos outros prejudicam verdadeiramente o povo, e isto tudo apadrinhado pela bancada do partido no poder. (Redacção) 

Amigos milionários de Zuma abandonam África do Sul
Para muitos sul-africanos, os irmãos indianos Gupta têm a família Zuma no bolso. Além de serem sócios nos negócios do filho de Zuma, Duduzane, o seu enorme poder financeiro e os tentáculos de polvo que ostentam terão lhes dado influência suficiente até para escolher, à socapa, ministros, que pudessem ser subservientes no tabuleiro da actividade empresarial que desenvolvem na África do Sul. Mas a aliança Gupta-Zuma parece estar a ruir. Atul Gupta e Ajay Gupta terão deixado a África do Sul no seu avião privado com destino aos Emiratos Árabes Unidos na quinta- -feira da semana passada, após abandonarem os seus postos na Oakbay Investiments, o grupo empresarial que controla os negócios da família, incluindo no poderoso sector mineiro da África do Sul. Em comunicado, Duduzane Zuma também anunciou que resigna do posto de director da Shiva Uranium Company, detida pela Oakbay Investiments, e de outros 11 postos de direcção nos negócios daquela família. Adianta ainda que pretende vender as suas participações na sociedade. Os Guptas e Duduzane decidiram sair da liderança da Oakbay depois de vários bancos sul-africanos terem anunciado o corte de relações comerciais com o grupo, evocando riscos associados a uma parceria que passou a ser lesiva à sua reputação. Entre as entidades que decidiram cessar a sua cooperação com os Guptas incluem-se o Barclays e a firma de auditoria KPMG. ANC dividida Sectores ligados ao Congresso Nacional Africano (ANC), partido no poder na África do Sul, e vários quadrantes da opinião pública sul- -africana estão estarrecidos com as ligações entre a família Gupta e Zuma, pois entendem que essas relações foram usadas para beneficiar a Oakbay em vários negócios. Aliás, lembram os críticos, a oferta de cargos a quadros do ANC por parte dos Guptas visava garantir livre-trânsito no acesso a oportunidades de fazer negócios. O escândalo que associa os Guptas a Zuma é mais um nos últimos dias. Na semana passada, o Presidente sul-africano foi alvo de um acórdão avassalador do Tribunal Constitucional sul-africano, que considerou o caso da utilização ilegal de fundos públicos para a reabilitação da casa de campo do chefe de Estado sul-africano em Nkandla como um exemplo de uma corrupção que se pode comparar a um “Golias” ante um sistema judicial personificado pelo pequeno “David”. No acórdão, o Tribunal Constitucional sul-africano considera que Jacob Zuma violou a lei fundamental do país ao recusar-se a devolver milhões de dólares indevidamente usados nas obras da sua habitação, supostamente como parte do reforço do sistema de segurança do local. Vários membros importantes do ANC, incluindo o ex-ministro das Finanças Trevor Emanuel já exigiram a demissão de Jacob Zuma do cargo de chefe de Estado e alguns acusam o Presidente de trair a memória do líder histórico do partido no poder Nelson Mandela, que se bateu pela integridade nos negócios do Estado. Mas nesta batalha - mais uma - Jacob Zuma não está sozinho. A influente Liga de Mulheres do ANC (ANCWL) reiterou na quarta-feira o apoio ao líder e “vergastou” publicamente Trevor Emanuel, acusando a esposa do ex-ministro das Finan- ças de ter beneficiado de favores de bancos que financiaram o regime do “apartheid”. “Muitos entre o nosso povo sabem o quão e que sacrifícios suportámos para chegar onde estamos hoje, mas, quando olhamos para a frente, é evidente que o nosso povo ainda luta para conseguir a partilha da riqueza que deve ser partilhada de acordo com a Carta da Liberdade”, disse Meokgo Matuba, secretária-geral da ANCWL. É, prosseguiu Matuba, injusto, após 22 anos de entrega à causa patrió- tica, ouvir instituições que sugaram o povo sul-africano e continuam a plantar a discórdia.


Aescassez de produtos frescos nos maiores centros urbanos do país, concretamente a cebola, o tomate e a batata-reno, que provoca o agravamento de preços destes, levou o Ministro da Indústria e Comércio, Max Tonela, a visitar, semana passada, o Mercado Grossista do Zimpeto, na Cidade de Maputo, e os campos agrícolas do distrito da Moamba, província de Maputo, para inteirar- -se das suas capacidades de abastecimento. Acompanhado pelos quadros do Ministério, o governante começou o seu trabalho de campo por volta das 7:20 horas, no Mercado Grossita do Zimpeto e terminou por volta das 17:30 horas, na Vila da Moamba. Tanto no Zimpeto, assim como na Moamba, Max Tonela ouviu reclamações, choros e propostas para as possíveis soluções deste problema, mas foi em Moamba onde o tom foi elevado e se descreveu o outro lado da crise alimentar no sul do país. Os agricultores reconhecem que a estiagem reduziu as suas capacidades de produção, mas apontam a comercialização dos seus produtos a baixos preços como sendo o principal factor e pedem o agravamento das taxas de importação dos produtos frescos, por forma a proteger a produção nacional. Enquanto isso, os comerciantes reclamam a isenção total das taxas alfandegárias na importação desses produtos e a criação de um banco de crédito para comerciantes, à semelhança dos funcionários públicos, que dispõem de um banco com mesmas características. As lágrimas dos agricultores O distrito da Moamba, localizado no extremo oeste da província de Maputo, é um dos grandes fornecedores de produtos frescos do Mercado Grossista do Zimpeto, tornando-se num actor principal na economia nacional, uma vez que aquele mercado abastece a zona sul e uma parte da zona centro do país. Este distrito tem potencial na produção de hortícolas, com destaque para o tomate, batata-reno, cebola, pepino e pimento. Entretanto, a seca levou estes produtos, deixando os campos secos, cheios de capim e as valas sem água, assim como o Rio Incomati, a principal fonte deste precioso líquido. Angélica Chissano, Secretária da Associação dos Agricultores do Bloco 2, naquele distrito, aponta a falta de interacção e programação entre os intervenientes desta cadeia de valores (do produtor até ao comerciante), como principal factor da escassez dos alimentos no país. “A programação é muito importante. O agricultor deve saber que há momento de preparo da terra, da sementeira e da colheita, de modo a que o seu produto entre na corrida com os outros. Para isso, tenho de ser ensinado e também devo aceitar aprender. Deve haver interacção e envolvimento de todos os intervenientes. Desde o agricultor até ao comerciante”, disse. Esta Associação é composta por 250 membros e dispõe de 480 hectares de terra arável, que entretanto estão mergulhados numa mata. Na mesma situação está a Associação de Agricultores do Bloco 1. Com 120 membros, dos quais 70 mulheres, esta agremiação tem 485 hectares, mas por causa da seca, só trabalha 280 hectares. No ano passado, o grupo de agricultores cultivou 60 hectares, de onde produziu 150 toneladas de batata e, para este ano, afirma estar preparado para voltar ao terreno, faltando apenas o dinheiro. “Estamos tremidos nesta época porque não temos sementes. Temos terra, água e mão-de-obra, mas faltanos dinheiro para investir (150 mil MT, no mínimo)”, afirmou Joshua Sitoe, presidente da Associação dos Agricultores da Moamba e representante do Bloco 1, questionado pelo Ministro se havia condições de produzir a batata-reno neste ano. Joshua conta que a situação que o país vive, actualmente, já era prevista e que o governo teve conhecimento do mesmo, mas ninguém se preocupou em criar condições para colmatá- la. “A África do Sul avisou-nos, em 2010, numa conferência sobre a agricultura, que a sua produção estava a declinar. Mas, não nos preparamos para fazer frente a este problema e hoje estamos a pagar a factura”, revelou. A fonte acrescenta que, em 2014, a Associação que dirige fez um trabalho de base sobre os problemas da agricultura com o Fundo do Desenvolvimento Agrário (FDA) e a Confederação das Associações Económicas (CTA), sob orientação do ex-Ministro da Indústria e Comércio, Armando Inroga, mas “o documento final morreu no CEPAGRI, sem ter chegado ao Gabinete do Ministro”. Joshua reafirma que o distrito tem potencial para produzir batata, milho, pepino, pimento e tomate, mas para tal, “é preciso que o Governo não tenha medo de investir na produção”. “Temos de ver a cadeia de valores, desde a produção, a conservação, o transporte até a comercialização. A conservação dos produtos é deficiente. Dispomos de frigoríficos, mas não funcionam há sete anos”, sublinhou a fonte. A par das Associações, existe, em Moamba, agricultores singulares, como é o caso de Hortelão Matusse que, neste ano, investiu cerca de dois milhões de meticais para o cultivo do tomate, pimento e da batata. Matusse afirma que “se chorávamos por causa da seca, agora é que vai começar, porque já não temos reservas. Nem para um mês”, explicou, justificando que isso se deve à desorientação dos agricultores por causa dos prejuízos provocados pela seca e “roubalheira” no Zimpeto. Para este, o problema tem a sua origem no topo, porque “parece que os Ministérios da Agricultura e Comércio andam avessos. Não parece fazerem parte do mesmo governo. Não há complementaridade no trabalho que é feito por estes dois sectores”, destaca. A fonte acrescenta que a desvalorização do agricultor também contribui para o actual cenário, porque “quando chega a quadra festiva, só os comerciantes são chamados à mesa de diálogo para lhes dizer que devem reduzir os preços, mas nunca perguntam ao agricultor se tem produtos para abastecer o mercado”. Apesar disso, Hortelão continua a trabalhar a terra e, agora, chora mais pela melhoria das condições de produção. “Já dispomos de um bom sistema de irrigação, mas para uma boa produção, precisamos de estufa porque permite a redução da temperatura em 40%. Com a estufa, a cebola pode resistir entre seis a nove meses”, observa Hortelão Matusse, apontando também a isenção na importação do equipamento agrícola. “As Alfândegas não conseguem identificar o que é equipamento agrícola e material de construção. Cobram as mesmas taxas. Passamos mal na importação deste equipamento. Pedimos isenção”, rogou aquele agricultor. Machiane aponta a construção de fábricas de sementes, insecticidas e pesticidas como sendo uma parte da solução do problema, pois segundo ele, não é possível que a África do Sul forneça sementes de qualidade, sendo concorrente directo no mercado moçambicano. “A produção de sementes no nosso país é imperiosa. Todas as sementes, pesticidas, e adubos que usamos no país vêm da África do Sul, o nosso concorrente directo no mercado nacional. Por isso, tudo chega adulterado. Quem nos garante que recebemos sementes de qualidade?”, questionou, antes de apontar também a conservação dos produtos como calcanhar de Aquiles no nosso país. “Antigamente, fazíamos contratos para a conservação de produtos com empresas privadas e não faltava espaço, mas agora é difícil acontecer. A batata sul-africana, que consumimos, é congelada. Os agricultores deixam os seus produtos lá e, quando chega o tempo de ir ao mercado, vão buscar”. Mercado do Zimpeto desincentiva a produção Além das condições de produção, os agricultores reclamam acerca da organização do sector comercial. Aliás, é sobre a chamada “roubalheira do Zimpeto” que a maior parte das vozes ouvidas por Max Tonela se concentrou. Segundo o grupo, que assumiu ser produtor e não comerciante, o Mercado Grossista do Zimpeto é o maior desincentivador da produção, porque determina os preços sem ter em conta os custos de produção. Em coro, estes falam de sabotagem e desinteresse dos comerciantes daquele Mercado Municipal da capital do país em relação aos seus produtos, manifestando-se com a sua comercialização a baixos preços que os sul-africanos, não dando retorno de investimento. “O pouco que nós produzimos tem tido grandes dificuldades na sua comercialização. Posso produzir bem o tomate em 20 hectares, mas quando chego no Zimpeto o preço da venda não compensa. Na machamba, a colheita por caixa custa 10 MT e no mercado também querem comprar a 10 MT. Este preço nem paga a semente”, reclama Angélica Chissano, da Associação de Agricultores do Bloco 2, revelando que a sua agremiação cobra, mensalmente, a cada associado 750 MT para pagar a factura de água. “Temos uma represa, mas a mesma está degradada, provocando infiltração de água, que podia ser utilizada durante duas semanas. Utilizamos a água com algumas restrições (duas vezes por semana), porque se não for assim, teremos ruptura no abastecimento”, garantiu Chissano. Hortelão Matusse diz que está endividado, mas o Mercado do Zimpeto não lhe dá dinheiro para pagar a dívida. “Estamos a chorar. O Mercado do Zimpeto não nos ajuda porque estes não vêm ao local de produção. Esperam por nós no Mercado para influenciarem os preços”, avança a fonte, apontando o agravamento das taxas alfandegárias na importação dos produtos frescos como uma das soluções, como acontece no sector açucareiro. Machiane afirma que “os nossos produtos são os mais baratos do mercado”, diferentemente dos produtos sul-africanos, citando os casos da cebola e da batata que são vendidos entre 30 a 50 meticais (10 kg) contra os 200 e 300 para os produtos sulafricanos. “Gastamos 150 mil meticais para comprar as sementes da batata só para produzir dois hectares e, durante a venda, não recompensamos nada. Não contamos água, electricidade, insúmos, adubos, entre outras matériasprimas”, revela. Para este, é preciso que se uniformize os preços, pois o agricultor é que sofre, porque o comerciante determina o preço, de acordo com as suas vontades. “Quando chega no Mercado do Zimpeto, quem marca o preço é o ‘gay-gay (carregador)’. Aumenta mais 50 meticais por cada caixa e chega a ganhar mais que o próprio produtor”. Enquanto uns pedem o agravamento das taxas de importação dos produtos frescos da África do Sul, Suleiman Ngwenha afirma que dificilmente iremos limitar o mercado sul-africano, porque não produzimos. “É preciso que a gente produza para que possamos ter produtos nossos no mercado. O desemprego, neste país, pode acabar, basta que se aposte na agricultura. Os nossos irmãos vão à África do Sul trabalhar nas machambas, porque é que não o podem fazer aqui? Podemos tornar aquelas ‘mukheristas’ em cooperativistas para conservarem e comercializarem os nossos produtos, como acontece na África do Sul”, sugeriu. Zimpeto também chora Os choros não só vêm da Moamba, como também do maior mercado grossista do país. Logo pela manhã, Max Tonela acompanhou a dinâmica comercial daquele mercado e testemunhou o sofrimento a que os seus compatriotas estão sujeitos. Constatou, no terreno, a redução da quantidade fornecida diariamente, assim como a subida acentuada dos preços. Na manhã daquela segunda-feira, 4, o tomate era comercializado entre 720 a 900 meticais, mas todo de péssima qualidade. Este era o preço final de um produto, que na verdade custava entre 650 a 850 meticais, mas devido ao chamado voto (taxa paga a quem carrega a caixa do tomate do camião até à sacola do comprador), os consumidores eram obrigados a pagar mais 50 ou 70 meticais. Sobre esta situação (do voto), o Ministro não soube no Zimpeto, mas foi na Moamba que teve conhecimento. A cebola, outro produto fresco de muita procura naquele local, custava entre 180 a 280 meticais e a batata roçava os 350 meticais. Os comerciantes justificam estes preços com o facto de todos os produtos serem importados, chegando a percorrer mais de 500 km à busca dos mesmos. “Estamos com quantidades reduzidas porque adquirimos os produtos no estrangeiro e, mesmo assim, em sítios distantes. A cebola e a batata vêm de Johannesburg e o tomate de Polokwane, na fronteira com o Zimbabwe. Não temos tomate nacional. Compramos o tomate a 100 rands e pagamos caro na fronteira pelas taxas alfandegárias. Pedimos a revisão das taxas aduaneiras. Um camião com 400 caixas paga 23 mil meticais e o de 600 caixas paga 30 mil”, explicou Paulo Mandlate, vendedor daquele mercado e proprietário de três camiões dedicados à venda do tomate. Com esta situação, Mariza Tomás, também vendedeira do Mercado Grossista do Zimpeto, pede a isenção na importação do tomate e da laranja, como acontece com a cebola e a batata-reno. “A maior parte dos produtos frescos tem isenção, menos a laranja e o tomate. Por isso, pedimos a isenção nesses produtos também. Mesmo a isenção nos outros produtos é para pessoas colectivas, porque à singulares não é aceite. Temos de pagar comissões para sermos isentos de taxas”, afirma. Fatíma Magalhães reclama do transporte da mercadoria, acusando o Ministério dos Transportes e Comunicações de lhes dificultar a vida. “O MTC complica a nossa vida, porque exige licença de transporte internacional, enquanto temos perment. Com este documento compramos e transportamos nossos produtos no Zimbabwe e na África do Sul, mas em Moçambique não é aceite”. Além destas reclamações, os comerDa estiagem à escassez dos produtos frescos Por Abílio Maolela (texto) e Ilec Vilanculo (fotos) Joshua Sitoi Entre as lágrimas na machamba e os choros no mercado -Agricultores reclamam a uniformização de preços e o agravamento das taxas de importação de produtos frescos para reduzir o produce of South Africa -Comerciantes pedem isenção na importação do tomate e da laranja, como acontece na cebola e batata No final, o Ministro da Indústria e Comércio, Ernesto Max Tonela, considerou positiva a vista àqueles locais, porque permitiu-lhes conhecer a realidade que se vive no país, através da interacção com os principais actores da economia nacional. Tonela afirma que, devido ao fenómeno das mudanças climáticas, as cheias e secas serão recorrentes, sendo, neste sentido, necessário encontrar soluções para colmatar o problema. “Temos de arregaçar as mangas e começarmos a trabalhar. Não nos podemos sentir satisfeitos pela importação dos produtos. Não podemos continuar dependentes do mercado internacional”, observou o governante, sublinhando que o país gasta, anualmente, mais de USD 340 milhões na importação de produtos alimentares. “Alguns desses produtos (arroz, milho, tomate, cebola e batata) podemos aumentar a produção para reduzirmos a importação”. Quanto às divergências entre os agricultores e os comerciantes acerca da (des) protecção da produção nacional, Max Tonela afirma que este assunto está em discussão na Pauta Aduaneira, que está em revisão, porém alerta que é preciso olharmos para os produtos que merecem protecção. “Temos de ver onde e como proteger porque não pode haver protecção que resulte no aumento do preço no consumidor final. Por exemplo, aumentar a taxa da importação de um produto que não produzimos nem 40% da procura, tem suas implicações directas no preço do consumidor. Podemos ter medidas intermediárias, como o regime de quotas (a diferença entre aquilo que o país produz e o que consumimos), mas tendo em conta também os compromissos comerciais que temos ao nível da SADC”, explicou. No que tange à organização do Mercado Grossista do Zimpeto, o Ministro da Indústria e Comércio admitiu que as regras praticadas naquele mercado não são favoráveis à boa concorrência, porém a regulação do mesmo deverá ser feita em coordenação com o Conselho Municipal de Maputo, que tutela o mesmo. “Temos de trabalhar para não continuarmos dependentes” - Max Tonela, Ministro da Indústria e Comércio Max Tonela, Ministro da Indústria e Comércio.

P etróleo a pelo menos 50 dólares/barril é uma necessidade cada vez mais premente para Moscovo, e na cimeira de Doha a Rússia e a Arábia Saudita vão tentar provocar a subida de preços.  Pelo lado da procura de petróleo as expectativas do mercado são baixas e Moscovo joga tudo no compromisso com Riade para congelar a produção russa em 10,9 milhões barris/dia, volume recorde pós-soviético atingido em Janeiro último. O Irão, quinto maior produtor da OPEP, ignorará o acordo russo-saudita a formalizar domingo, e irá aumentar a curto prazo a produção para perto de 4 milhões barris/dia.         Cada vez pior O anúncio do acordo ocorreu, não por acaso, no dia em que o FMI reviu a previsão de Janeiro de quebra de 1% do PIB da Rússia em 2016 para 1,8%, depois de uma queda de 3,7% em 2015. A economia poderia retomar um crescimento de 0,8% em 2017, segundo as previsões de Primavera do FMI, mas, na Rússia, ministérios, bancos e empresas   assumem estimativas mais pessimistas. A recuperação do valor dos salários reais, que sofreram uma quebra de 13% desde 2014, levará mais de uma década, de acordo com cálculos de técnicos do Ministério das Finanças de Moscovo.              O Banco Mundial (BM) estima, por sua vez, uma contracção do PIB de 1,9% em 2016, considerando o pre- ço médio do barril de petróleo a 37 usd, enquanto o cenário pessimista (30 usd/barril) implica uma quebra de 2,5%. A possibilidade de aumento do PIB de 1,1% em 2017 para o BM passa pela difícil contenção do défice orçaA salvação pelo petróleo Por João Carlos Barradas* mental em 3%, mas à custa de mais cortes em despesas sociais e do esgotamento das reservas do Fundo Soberano que em 2015 contava com 46 mil milhões usd. A governadora e o ministro Desde 2014, ano da anexação da Crimeia, a quebra do preço do petróleo (os hidrocarbonetos representam 40% das receitas do orçamento) e a imposição de sanções levaram a reajustamentos económicos que redundaram numa redução de 10% do rendimento disponível. A consequente diminuição do investimento e do consumo doméstico (-9,6%, o valor mais alto desde a crise de 2008) correu a par do aumento da pobreza que afligia no ano passado 19,2 milhões de pessoas num total de 173,8 milhões de habitantes. A Rússia está condicionada a curto prazo pelos preços do petróleo e, no entender da governadora do Banco Central de Moscovo, um crescimento a médio prazo superior a 1,5%, 2% só será possível por via de reformas estruturais, desenvolvimento do mercado doméstico de capitais e políticas económicas responsáveis. Sem entrar no pormenor da razoabilidade e fito de “políticas económicas responsáveis”, Elvira Nabiullina tem vindo ao longo dos últimos dias a proferir declarações coincidentes com as posições do ministro das Finanças.  Anton Siluanov admite que o défice orçamental chegue a 4% se o petróleo se mantiver abaixo dos 40 usd e cortes de 10% em despesas governamentais (apesar de no Ministério da Defesa a redução ficar pelos 5%) anunciados em Janeiro sejam impossíveis de concretizar ou insuficientes.   Tal como a governadora do banco central, Siluanov teme a acentuada volatilidade do rublo que em Janeiro caiu para um nível recorde em relação ao dólar (1 usd - 82 rublos) apesar de ter recuperado mais de 20% desde então. Uma política orçamental que reduza a inflação (objectivo apontado para 2017: 4%) é prioridade comum.   Desde Julho de 2015 que a taxa de referência do Banco Central está em 11% e com a inflação em 7,3% em Março será difícil a Nabiullina baixar juros. Eleições e poder As eleições parlamentares de Setembro obrigam a adiar para o Outono a adopção de medidas de emergência para tentar cumprir um défice de 3%. Putin enfrenta desde 2014, pela primeira vez, uma crise económica que se traduz numa persistente redução de rendimentos da população e cortes alargados de prestações sociais sem expectativa de reversão a curto prazo. Preços altos de petróleo foram essenciais para Putin consolidar o poder pessoal, a  partir da nomeação como primeiro-ministro em 2009, seguindo-se à eleição como Presidente em 2000, e estruturar o capitalismo de Estado russo. Falhada a modernização tecnológica e a diversificação da economia, quaisquer reformas estruturais implicam alterações profundas nas estruturas de patrocínio e partilha de recursos que fizeram a fortuna da elite russa sob tutela de Putin. A salvação pelo petróleo poderá obviar ao pior num grande aperto presente, mas não é panaceia de futuro. Muito terá de mudar e, possivelmente, passadas as eleições de Setembro, Putin irá tomar algumas iniciativas para obstar ao esboroar do seu poder presidencial. *Jornalista

Vida desbaratada!
Por Ericino de Salema 
O Estado moçambicano, à semelhança de qualquer outro digno desse estatuto, possui três funções centrais: garantia da segurança dos cidadãos e dos seus bens; promoção do bem-estar social; e feitura de justiça a todas as pessoas, físicas e jurídicas, em igualdade de circunstâncias. Nisso, a vida, o mais importante bem jurídico, se situa, sempre, pelo menos sob o ponto de vista formal, no ápice das prioridades. Quando caminhamos para a celebração do quadragésimo primeiro aniversário da nossa Independência Nacional, o conteúdo daquilo que são as três funções centrais do Estado se acha numa situação infelizmente problemática, o que se traduz, certamente, em desafios acrescidos ao Governo, a quem compete gerir os negócios do Estado enquanto colectividade, bem como a todos nós, cidadãos, ainda que a nossa baixa consciência cívica possa concorrer para que, em bom rigor, a nossa relevância seja meramente estatística. As mortes evitáveis que se assistem em quase todos os pontos do nosso país são a mais nítida expressão dessa situação infeliz em que nos encontramos. Essas mortes se resumem a seis domínios, todos eles, que têm a vida como seu epicentro, capitais: execuções extra-judiciais de moçambicanos, aparentemente por motivos políticos; crime organizado, que, às vezes, possui tiques de expediente político; confrontos militares entre a guerrilha residual da Renamo e as Forças de Defesa e Segurança; acidentes nas estradas do país; falta de fármacos básicos nos hospitais e/ou centros urbanos, sobretudo nos de ní- vel distrital; e fome que tem como fonte imediata a seca e a estiagem. Sobre execuções extra-judiciais, de que são palco quase todas as capitais provinciais e alguns distritos e postos administrativos do país, até parecemos estar no estado da natureza, a avaliar pela forma cobarde como actos tais ocorrem, tendo, quase sempre, como alvos membros influentes da Renamo e, uma e outra vez, membros do partido Frelimo. A última dessas vítimas foi José Manuel, membro do Conselho Nacional de Defesa e Segurança (CNDS) indicado pela Renamo, que, à queima roupa, foi subtraído do mundo dos vivos, no último domingo, quando se dirigia do Aeroporto Internacional da Beira à sua residência. Outras duas pessoas que com ele seguiam no txopela tiveram o mesmo fim trágico. Já o crime organizado, parece ter como alvos preferenciais magistrados judiciais e do Ministério Público, por motivos de que se não têm ciência. Mas a ‘rádio boca’ não se coíbe de associar os assassinatos que estão a ser engengrados a processos em que os visados se encontravam a trabalhar. A mais recente vítima foi o procurador Marcelino Vilanculo, que, quando se preparava para, com a sua viatura, entrar no seu quintal, foi atingido por balas na cabeça, tendo de imediato perdido a vida. Outras vítimas são o juiz Silica, assassinado há cerca de dois anos, e o constitucionalista Gilles Cistac, baleado mortalmente há pouco mais de um ano, que parece, este último, ter caído nas malhas de um consórcio com muito de expediente político e alguns elementos típicos do crime organizado, no que ao modo de execução diz respeito. Os confrontos político-militares, iniciados há já três anos, estão também a causar luto em muitas famílias moçambicanas. Já deve ser vengonhoso o número de compatriotas que, sem a mínima culpa, se viram sacrificados por querelas que lhes são em absoluto estranhas. A arma de guerra, infelizmente, [ainda] é, cá entre nós, usada como se de um instrumento lícito de fazer política se tratasse. Nas fileiras militares, a vida não deixa de se achar desbaratada quase que constantemente. A Polícia republicana parece ser decoro jurídico-constitucional Como se tudo o que referimos acima fosse pouco, muitos de nós se fazem às estradas de forma irresponsável nas suas viaturas, com o que se causam acidentes com danos humanos e materiais incalculáveis. Só o ano passado, para se ter alguma ideia, cerca de duas mil pessoas perderam a vida no país devido a acidentes de viação, o que siginifica que uma média de 5-6 pessoas perderam a vida diariamente naquele ano. A condução em estado de embriaguês está a conhecer níveis jamais vistos de popularidade, para a nossa desgraça colectiva. Também de forma absolutamente evitável, irmãs e irmãos nossos continuam a perder a vida, em vários pontos do país, devido à falta de anti-maláricos ou por doenças há muito cientificamente controladas. Há menos de dois anos, um jovem engenheiro que se encontrava a residir em Marromeu, na província de Sofala, foi mais um de entre tantos que perdem a vida por razões tais. Há uma semana, uma lenda do futebol também faleceu de malá- ria. Já desde finais do ano passado a esta parte, não escasseiam relatos de mortes devido à fome, que tem como fonte a seca severa que está a assolar o país, em particular as regiões sul e centro. O acima resumidamente descrito coloca, certamente, em causa todo o esforço público e/ou privado visando a promoção do desenvolvimento do país. As matanças com aparentes motivações políticas e as acções do crime organizado a todos nós mancham como país, o que há- -de, naturalmente, ter impacto no Investimento Directo Estrangeiro. As confrontações político-militares, idem. Tudo o resto, que desbarata a vida, não pode ser boa notícia para um país que se quer firmar no concerto das nações! Se se resolvessem de imediato os diferendos políticos, que se estão longamente a traduzir em confrontos militares, temos fé que haveria mais ciência, inteligência e recursos para atacar de forma sustentável os demais problemas. De que mais estamos à espera?

SACO AZUL Por Luís Guevane  
Num desses dias, por estas bandas da Matola, enquanto esperava por uma boleia que me levaria a algum lado (por aí), eis que sou confrontado por um grupo de rapazolas na pré-adolescência, discutindo sobre o modelo de brincadeira a adoptar para passar uma dessas tardes entediantes de domingo. Sem pretenderem ser políticos faziam política representado os seus polí- ticos. Uns estavam sentados. Outros, em pé, completavam o grupo. Olhei fixamente para eles. Percebi que com muitas dificuldades evitavam imitar hipopótamos em conflito. Dialogavam, cada um apresentando o seu próprio fogo. Um deles, de camisola vermelha, a dado momento, gritou em tom alto que quase me obrigou a intervir. Depois disse o seguinte: Par ou ímpar? - Eu já não quero brincar. O nosso grupo não escolheu a Frelimo. A Frelimo sobrou para vocês. Nós queremos ser os “rangers” da Renamo. É isso que combinamos. - Nada disso Pinho, nós é que falamos primeiro dessa coisa de “rangers”. Ou fazemos par ou ímpar ou, então, vamos arranjar outra brincadeira – disse o outro, colocando no ombro a sua camisa verde escura. Fingi que não estava interessado no assunto. Ao mesmo tempo rezava para que a minha boleia demorasse um pouco mais ou, no mínimo, que os garotos se apressassem a decidir-se sobre o assunto. Onde é que leram ou ouviram sobre essa coisa de “rangers”? Vi-os a fazerem par ou ímpar e, pouco depois, o grupo vencedor a festejar. Que barulheira! Tudo isso para serem os tais “rangers”, que coisa! - Vocês do MDM vão ter de entrar nos nossos grupos: metade fica com o Fonssinho e outra metade fica comigo – foi a decisão do “camisola vermelha”, o Pinho. Escolheram como palco a estrada onde estavam. Ali se desenrolariam as acções dos “rangers” e dos “soldados” (do governo). - Ouve-la Pinho, nós vamo-nos esconder nas “partes incertas”. Quando eu mandar uma mensagem é porque já estamos prontos para a guerra. Não vale esconder muito longe daqui. Quando um carro estiver para passar todos ficamos em “pause”; temos de ficar parados até passar. Se alguém for atingido e não aceitar morrer é deletado e sai da brincadeira. Quem desmaiar tem direito a ser refrescado com “F5” para poder recuperar. Vamos! - Fonssinho, manda a mensagem de guerra meu compatriota, estamos dispostos a lutar e morrer por uma causa justa. Os nossos homens estão preparados, os esquadrões da morte serão accionados a qualquer momento… Todos nós defendemos o povo, a nossa luta é justa! Que morram os melhores filhos deste povo que defendemos! Pouco depois começaram com o jogo de representações. No palco escolhido para a brincadeira os “Rangers” não poupavam os seus adversários. Os “putos” fingiam matar e morrer. Fingiam bravura. Fingiam ser os “anti-bala”. Fingiam deserções em massa. Eu ali apavorado ouvia “paw”, “paw”, “ratatatátá”. Tiros e rajadas para aqui e acolá. Faltava ouvir o último tiro para dali sair o vencedor. Quando a boleia chegou ainda ouvi um dos últimos “putos” a reclamar: “eu é que te matei primeiro, morre-la. Isso não vale! Morre-la!”. E o outro: “Nada! A luta acabou, nós os dois é que ganhamos!” A estrada estava cheia de “sangue” e “cadáveres”. Ah, entrei no carro e desaparecemos. Caramba, os mais velhos “lixam” mesmo os mais novos. Onde é que os “putos” foram “comprar” aquela inspiração? 

Oporta-voz da Renamo e deputado da Assembleia da República por esta formação política, António Muchanga, submeteu esta semana à Procuradoria da Cidade de Maputo uma denúncia contra o jornal Público. Em causa está a publicação por este semanário de um artigo no qual acusa o denunciante de ter participado de um encontro havido no dia 20 de Fevereiro, cujo objectivo é de criar uma plataforma de guerra psicológica. Na sua edição de 14 de Março do presente ano, o jornal Público destacou na capa o titulo “ Renamo inventa conflito entre Chipande Filipe Nyusi” e na página seguinte argumenta que os serviços secretos da Renamo, chefiados pelo queniano Abanguento Zamruka, reuniram-se no dia 20 de Fevereiro, com o objectivo de criar uma plataforma única, consistente, rápida e organizada de boatos e mentiras enquadrados na estratégia de guerra psicológica. De acordo com o semanário em António Muchanga processa jornal Público alusão, a referida guerra psicológica visava gerar pânico no seio da população, dos governantes, dos membros do partido Frelimo e da comunidade internacional. Um dos exemplos dos boatos citado pelo Público, foi a informação que inundou as redes sociais dando conta de que o general Alberto Chipande terá tentado tirar vida ao chefe de Estado Filipe Nyusi. O artigo aponta que, na reunião em causa, participaram 16 membros da Renamo dentre eles o denunciante, António Muchanga e ressuscitaram mais dois membros da Renamo já falecidos, nomeadamente Vicente Ululu e Joaquim Marrungo Bicho. Ora, António Muchanga diz desconhecer a tal reunião, com o agravante do articulista não ter mencionado o local onde terá decorrido muito menos o dia da semana. Justifica- -se que na referida data esteve das 8 hrs as 12 hrs na Igreja Nazareno de Boane, tendo das 14 às 18 hrs participado dum almoço de confraternização, no bairro de Hulene, relativo a tomada de posse do novo superintendente do distrito Eclesi- ástico de Boane,. Assim, por considerar inverdades os aspectos arrolados no artigo, o porta-voz e deputado da Renamo decidiu submeter uma denúncia contra o jornal Público de modo que indique o local e a hora onde decorreu a reunião e provar que efectivamente, o denunciante esteve presente na mesa. Muchanga diz que a sua acção não isenta os restantes membros do seu partido arrolados no artigo (incluindo familiares dos malogrados) de enveredarem pelo mesmo caminho. (A. Nhampossa) ANovabase em parceria com a Cooperação Portuguesa, a Cisco e o Ministé- rio da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior (MCTESP), lançou pelo segundo ano consecutivo a iniciativa “Novabase Estudar Mais”. Este concurso pretende encontrar o melhor aluno de tecnologias de informação de Moçambique e premiá-lo com uma Bolsa de Estudo Nova Base leva Melhor aluno a Portugal em Engenharia Informática em Portugal. De acordo com o Embaixador de Portugal em Moçambique, José Duarte, esta iniciativa enquadra-se na política da Cooperação Portuguesa de financiar bolsas de estudo para licenciatura ou mestrado a cidadãos moçambicanos em Portugal. “Nesta linha, iniciámos há cerca de três anos um programa de bolsas de estudo em parceria com empresas com capitais portugueses a operarem em Moçambique, permitindo assim que mais moçambicanos beneficiassem desta possibilidade de continuar os seus estudos em Portugal, como também da possibilidade de regressarem ao seu país com emprego garantido na empresa que se associou ao pagamento da sua bolsa de estudo. Mais e melhor capacitação dos recursos humanos em Moçambique é crucial para o desenvolvimento e sustentabilidade do país. Apostar na educação é o melhor investimento que podem  fazer”, Acrescentou (RR).

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