terça-feira, 26 de abril de 2016

O regresso da alegria

Todos os anos, aos primeiros minutos do dia 25 de Abril, o cenário repete-se. Vêm de todo o lado, sozinhos, com amigos, com a família. Reúnem-se. Encontram-se ali, no Largo dos Artistas. Os olhares cruzam-se e todos sabem ao que vêm. De repente, surge alguém com braçados de cravos vermelhos. Quando passam 20 minutos da meia-noite, soa a "Grândola Vila Morena". Aqueles que tiveram coragem para sair do conforto de casa e ir à rua celebrar cantam a uma só voz a senha da revolução.

É assim há anos. Gente de vários quadrantes sai de casa para celebrar. Os que viveram a ditadura, outros que da revolução têm apenas a memória de um dia diferente em que não houve escola, os serviços fecharam e os militares saíram à rua e ainda aqueles que aprenderam pela memória dos outros a celebrar a "Madrugada clara". É assim todos os anos. Em Vila do Conde, quando passam 20 minutos da meia-noite, no Largo dos Artistas, cantamos a "Grândola". O dia de festa está a começar.

Foi esse espírito de festa que Marcelo Rebelo de Sousa ontem soube recuperar. A celebração começou com sorrisos passava pouco da meia-noite e prolongou-se sem crispações na cerimónia oficial na Assembleia da República.

Os que estavam à espera de um presidente sectário, quezilento, estarão seguramente defraudados. Ontem, Marcelo Rebelo de Sousa persistiu no seu intuito de criar consensos. Quer ver os portugueses unidos, aqueles que tantas razões têm para estar desavindos, fruto das difíceis condições de vida que foram obrigados a suportar. Mas falou sobretudo para os partidos. Para os que estão mais próximo de si, do ponto de vista ideológico, mas também para os que estão no campo oposto.

"Mais instabilidade, mais insegurança, não abre caminhos, fecha horizontes. Disse-o a todos. Aos que acham este Governo, apoiado no Parlamento pelos partidos mais à esquerda, promissor; e também aos outros, os que o consideram um logro".

Ontem o que já se antevia ficou claro. O presidente da República, pelo menos por agora, pretende criar consensos, nunca abrir fissuras. E aos que viam na sua figura hiperativa uma janela de oportunidade para voltar ao poder, o presidente, que não resiste a comentar a atualidade, lembrou que os tempos apelam à sensatez.

Os que não concordam devem "contestar, com firmeza, mas com a noção de que o tempo não muda convicções, mas pode alterar ou condicionar soluções"; Aos que governam pede que o façam "com voluntarismo, mas com especial atenção a que o possível seja suficiente" - Marcelo abandona o tom divisionista de tempos recentes. O presidente que apela aos afetos quer unir. Ainda que na diversidade.


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