sexta-feira, 22 de abril de 2016

O que mais falta para acordar este povo?

EDITORIAL
No auge da ditadura militar no Brasil – que se caracterizou, como é óbvio, pelo esmagamento de toda a iniciativa de liberdade, – o pedagogo brasileiro Paulo Freire disse uma frase que serviu para mobilizar as pessoas que acreditavam que o alheamento face a toda vaga de arbitrariedades era a forma mais recomendada para a sua sobrevivência. Disse Paulo Freire: “O que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cómoda, talvez, mas hipócrita, de esconder a minha opção ou o meu medo de acusar a injustiça? Lavar as mãos em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele”.
A declaração de Paulo Freire assenta como uma luva na situação que se vive em Moçambique. O alheamento dos cidadãos face ao iminente colapso do país é tão assustador quanto a acção criminosa dos que arrastaram o país até onde chegou.
O país está mergulhado num caos económico e político, com a guerra a desempenhar o decorativo papel da cereja no topo do bolo.
Impressiona-nos, de certa forma, que os cidadãos moçambicanos tenham optado por cortejar esta agenda de destruição, em vez de se levantarem e defenderem o país, a dignidade colectiva e o pouco que nos honra como povo.

Há exactamente quinze dias, havíamos informado que, afinal, para além da escandalosa e criminosa dívida contratada para a criação e funcionamento da Empresa Moçambicana de Atum (EMATUM), o banco “Credit Suisse”, que fez o empréstimo, anunciou aos detentores das obrigações da EMATUM, logo depois da aprovação do diferimento do prazo da dívida, que havia um outro empréstimo, de 787 milhões de dólares, a adicionar aos 850 milhões da EMATUM. Para os investidores, o pânico foi gerado pelo facto de não haver garantias de que os 850 milhões de dólares – que haviam sido contratados a um juro de 8,5%, com período de maturação de sete anos – poderão ser pagos [agora com juros de 14%, devido ao alargamento para 2023], havendo uma outra dívida.
Tal como não foi vista qualquer espécie de manifestação de indignação colectiva perante a penhora do país aos agiotas internacionais com a ajuda dos nossos bandidos de casa, o anúncio da existência de uma dívida adicional de 787 milhões de dólares também quase não indignou a ninguém. Regra geral, são comentários supérfluos, feitos de uma pseudo-indignação individual, com ajuda de um telemóvel, que nos ajuda a acobardar-se por detrás das tais “redes sociais”, que se transformaram em praça de lamentações individuais.
Hoje, há mais informação carregada de duplo choque.
O primeiro choque é que a tal dívida de 787 milhões – alegadamente contratada para financiar a “ProIndicus”, uma empresa obscura apresentada como sendo do Estado, mas que, na verdade, é privada – já não é de apenas 787 milhões de meticais. O Fundo Monetário Internacional, que andou a elogiar por muito tempo estes bandidos, veio agora dizer que, em 2014, Armando Guebuza aumentou a tal dívida para o tecto máximo permitido, que é de 950 milhões de dólares, ou seja, a dívida real, só da “ProIndicus”, é, na verdade, de 950 milhões de dólares. Muito superior à da EMATUM, que era o escândalo inicial.
Se esta informação não for suficiente para indignar o eleitor, Armando Guebuza, Manuel Chang e Filipe Nyusi têm mais informação chocante. É que, para além da dívida da EMATUM, dos tais 850 milhões de dólares que estão a vencer a juros, agora pornográficos, de 14%, para além da dívida da “ProIndicus”, que, agora, também subiu para 950 milhões de dólares, há uma terceira dívida, de 550 milhões de dólares, contratada aos russos do “VTB” Moscovo para comprar lealdades e humor facial no projecto da Base Logística de Pemba.
Feitas as contas de 850 milhões de dólares + 950 milhões de dólares + 550 milhões de dólares, conclui-se que Guebuza, Chang e Nyusi, numa só assentada, conseguiram para os seus bolsos 2,3 biliões de dólares, para fins que até aqui ninguém sabe explicar. O país está com o serviço da dívida insustentável e com fama internacional de Estado caloteiro por culpa de três cidadãos devidamente identificados e perfeitamente localizáveis. Apenas três cidadãos, cujo domicílio e os locais que frequentam são do domínio público, hipotecaram o futuro de duas ou três gerações e continuam impunes, a gozar com a nossa cara.
Se isso não indignar suficientemente o povo moçambicano para, em acção colectiva, dizer “basta!” e responsabilizar estes gatunos, então nada mais irá indignar este povo. Se Guebuza, Chang e Nyusi continuarem a passear a sua classe impunemente, enquanto nos acobardamos, é caso para dizer que renunciámos à nossa dignidade e ao respeito próprio.
Se este saque concertado não for suficiente para nos colocar na rua a exigir responsabilização, então merecemos que esta escumalha nos governe.
Tal como dissemos na nota de intróito desta reflexão, e em concordância com Paulo Freire, se escondemos a opção pelo bem, pela dignidade e pela responsabilização só por causa do medo, então estamos a reforçar o poder do opressor.
Em síntese, estamos a dizer que os bandidos estão correctos.
Quanto a nós, é um dever moral que cada cidadão acorde para defender o futuro dos seus filhos.
Mais do que essa visão futurista, é preciso que nos indignemos e façamos algo em nome deste país que uma vez fez história com trabalho e união. Não permitamos que isto passe assim como está. É uma questão de respeito próprio.
Estamos a dar um péssimo exemplo aos mais novos ao tolerar tanta vigarice em nome do medo. A maior arma que está nas mãos destes vigaristas é a nossa falta de consciência civil e a tendência que temos de nos demitir da mais elementar e nobre responsabilidade, que é defender o país e a soberania de todos nós como povo. Eles estão errados, e não o povo. Mas, se o povo não compreende isso, então o mal vai governar-nos por muito mais tempo.
Resta-nos perguntar: que tipo de humilhação falta para acordar este povo? (Canal de Moçambique)

CANALMOZ – 22.04.2016

As minhas dívidas

A Talhe de Foice por Machado da Graça
Durante toda a minha vida procurei não ter dívidas e, com pequenos momentos excepcionais, consegui-o.
Neste momento descubro cada manhã, ao levantar-me da cama, que as minhas dívidas aumentaram de forma galopante.
O primeiro sobressalto já foi há algum tempo quando, ao ler um artigo de uma revista francesa, descobri que tinha comprado uma frota de navios de pesca do atum. Ou alguém o tinha feito em meu nome. E assustei-me.
A compra rondava os US$850 milhões o que, dividido pelos 22 milhões de moçambicanos, dava quase 39 dólares a cada moçambicano. E comecei a deitar contas à vida para saber onde poderia fazer mais uns biscates para conseguir pagar essa dívida, dado que, com os meus rendimentos actuais, isso seria difícil.
Mais recentemente o Wall Street Journal veio aumentar as minhas angústias ao revelar que eu, ou alguém em meu nome, tinha sido avalista de uma outra dívida a favor da empresa PROINDICUS, ao que parece para comprar armamento. Dizem que esta começou nos cerca de US$ 600 milhões mas depois subiu até aos US$ 950 milhões.
Ora, eu não preciso dessas armas para nada, sei que armas não geram rendimentos para pagar os empréstimos e, pelo contrário, geram destruição de pessoas e de bens. E, ao fazer as contas, descobri que, com isto, passei a dever mais 43 dólares. Somando aos 39 do atum a minha dívida pessoal subiu para 82 de dólares.
Um desastre.

Mas o pesadelo não estava no fim. Ao que parece fui também avalista (ou alguém o foi por mim) de mais um empréstimo, desta vez a favor da Base Logística de Pemba. Coisa para mais uns US$600 milhões. Mas as notícias desse empreendimento dizem que aquilo não anda nem desanda e que há mesmo o risco de a Annadarko e a ENI usarem instalações no sul da Tanzânia em vez de Pemba. Isto é de o empreendimento não vir a servir para nada, não gerar receitas e ser eu, e os outros 22 milhões de moçambicanos, a termos de pagar a dívida contraída. E isso significaria para o meu bolso um novo compromisso de 27 dólares.
O que, somado aos outros 82, dá US$ 109.
Pois é, leitor, descobri em pouco tempo que devo 109 dólares gastos nem eu sei bem em quê.
Mas que gostaria de saber, dólar a dólar!
Mas não se ria de mim porque, se você for moçambicano, também deve o mesmo que eu. E cada membro da sua família também deve os mesmos 109 dólares.
Até o Antoninho, que ainda só gatinha, ou a Leninha, que ainda chupa na mama da mãe.
Isto se o “filho mais querido da nação moçambicana” não nos tiver deixado mais outras surpresas destas, escondidas debaixo do tapete.
E, é claro, tendo em conta que, com os juros e a desvalorização do nosso Metical estas quantias estão sempre a subir...
SAVANA – 22.04.2016

Gasoduto Renascença avança

Chineses em Maputo
Os parceiros do Gasoduto Renascença Africana ligando Palma, na Bacia do Rovuma à província de Gauteng na África do Sul, iniciaram conversações esta semana em Maputo em torno de um acordo para a construção do empreendimento.
O Gasoduto Renascença é um projecto da Profin Consulting SA (Moçambique), da ENH (empresa pública, Moçambique), da CPP (China Petroleum Pipeline), SACoil Holdings (Africa do Sul) e SAgas (África do Sul), tendo já sido assinado um memorando de entendimento (MdE) a 17 de Fevereiro deste ano.
Num jantar em Maputo juntando todos os parceiros do projecto, o general Alberto Chipande, accionista de referência da Profin Consulting SA, disse quarta-feira que o desafio do projecto “corresponde à nova fase do desenvolvimento de Moçambique” em que “os moçambicanos devem beneficiar das riquezas do país”. Para ele, esta é a “terceira fase”, depois da luta pela libertação e a consolidação da independência nacional. O “homem do primeiro tiro” disse que foi mal entendido quando defendeu a riqueza dos moçambicanos. “Não lutamos para sermos pobres”, disse.

Chipande é o presidente da Mesa da Assembleia Geral da Profin, estando a direcção executiva(CEO) a cargo de Sulemane Cabir e Olívia Machel. A mesa de honra na confraternização de quarta-feira era ocupada pelos “antigos combatentes” Marcelino dos Santos e Mariano Matsinhe, a governadora de Cabo Delgado, Celmira da Silva, o embaixador da China em Moçambique, o presidente da CPP e o vice-presidente da CPP Engineering.
A China Petroleum Pipeline Bureau (CPP), é uma subsidiária da gigante China National Petroleum Corporation(CNPC) e terá a seu cargo a construção do gasoduto.
A CNPC detém 20% do Bloco 4, na Bacia do Rovuma e é liderado pela empresa italiana ENI. A CPP já tem escritórios estabelecidos em Maputo.
Nos termos da cooperação estabelecida pelo MdE, foram assegurados fundos estimados em USD60 milhões necessários para os estudos de concepção, estudos de viabilidade bancáveis, assim como o “project finance” de USD4.2 mil milhões para a construção e implementação do projecto. Os restantes USD1.8 mil milhões virão da contribuição de investidores chineses, moçambicanos e sul-africanos.
A estrutura accionista do projecto confere uma maioria de 56% aos investidores moçambicanos, 20% à CPP e 24% a investidores sul-africanos. Segundo uma fonte ligada ao projecto, a estrutura acionista moçambicana não está ainda fechada e pretende-se a construção de uma sociedade comercial “abrangente e inclusiva” e com evidentes sinais de diversidade política.
O projecto será financiado sem qualquer recurso a fundos ou garantias do Governo de Moçambique e não é dependente do gás de royalties, nem do gás doméstico disponível por dispositivo legal.
O gasoduto é uma alternativa ao projecto Gasoduto Norte ao Sul (GASNOSU) liderado pelo Gigajoule Group da África do Sul e que conta igualmente com investidores moçambicanos. (SAVANA/mediaFAX)
MEDIAFAX- 22.04.2016

1 comentário:

Chuphai disse...

Chamaste muito bem o nome: o filho mais querido do povo Mocambicano tornou a vida dos Mocambicanos um inferno. Onde Margarida Talapa que vangloriava em lamber as botas de Guebuza ao lhe colocar no mesmo nível de Jesus ou profetas da era como Maome, etc.
1. Camarada Margarida Talapa, ainda considera Guebuza o visionário ou o iluminado com estas noticias?
2. Mesmo sem saber quem esta a promover a manifestação contra Guebuza, para me em Manica a manifestação já começou a muito tempo, perguntem o camarada ex. ministro do interior se dorme no palácio?
3. Da mesma maneira como membros da Renamo dormem em casas que nem se sabem parece que o Mondlane também não dormem no palácio embora fecha as cancelas para enganar as pessoas que ele esta ai.
4. Hoje vi com os meus olhos um Machimbombo da Nagi em frente do Centro de Recrutamento de Manica a carregar Mancebos. Eu não acreditava nos Kambumas, mas hoje passei a acreditar quando dizem que Nagi transporta militares.

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