quinta-feira, 21 de abril de 2016

Fidel diz adeus ao partido e pede-lhe que não abandone a revolução

Fidel Castro despede-se do Congresso do Partido Comunista. “Chegará a minha hora, mas as ideias do comunismo cubano são para durar”, disse.
Fidel Castro na sessão de encerramento do VII Congresso do PCC OMARA GARCIA MEDEROS/ ACN / AFP
Visivelmente quebrado e envelhecido, mas determinado tanto no seu discurso como no seu propósito, o histórico líder da revolução e ex-Presidente de Cuba, Fidel Castro, despediu-se dos delegados do VII Congresso do Partido Comunista Cubano com uma derradeira intervenção que deixou a plateia em lágrimas. “Talvez esta seja a última vez que falo nesta sala. Em breve cumprirei 90 anos, não em resultado de nenhum esforço mas por capricho do destino. Sou como todos os demais: também chegará a minha hora”, lembrou Fidel, frequentemente interrompido pelos 1300 delegados que gritavam o seu nome com devoção e aplaudiam cada frase com entusiasmo.
O confronto com a mortalidade parece não assombrar Fidel; é a perspectiva de um desvio ou mudança de rumo do projecto revolucionário que estabeleceu há mais de cinco décadas que o atormenta. Como ficou claro das suas palavras, Castro teme que as suas ideias morram com ele. “As ideias do comunismo cubano são para durar”, avisou. “Ficarão como prova de que neste planeta, se se trabalha com fervor e dignidade, podem produzir-se os bens materiais e culturais de que necessitam os seres humanos. Devemos lutar sem trégua para obtê-los; devemos transmitir aos nossos irmãos da América Latina e do mundo que o povo cubano vencerá”, acrescentou.
A sua intervenção, cuja transcrição no jornal Granma, o órgão oficial do partido, pode ser lida como uma espécie de reflexão autobiográfica e testamento político, abordou temas tão diversos quanto a ideologia, a teoria económica e o devir da História, mas também o sistema solar, os dinossauros, a alimentação, a tecnologia. Fidel lembrou que se converteu em comunista – “essa palavra que expressa o conceito mais distorcido e caluniado da História por parte daqueles que tiveram o privilégio de explorar os pobres” – quando tinha à volta de 20 anos e “era um aficionado do desporto e de escalar montanhas”. Foi quando leu a obra de Lenine, “uma lição histórica”, considerou.
O Congresso do Partido Comunista Cubano reúne a cada cinco anos paraavaliar o progresso nacional e reafirmar os princípios revolucionários na génese do regime (a revolução socialista, o partido único, a economia planeada pelo Estado), bem como para desenhar os planos económicos e políticos para os cinco anos seguintes. Os principais observadores e analistas especializados na política cubana diziam que a grande incógnita da reunião que terminou na passada terça-feira à noite era perceber a resposta das lideranças comunistas às mudanças profundas dos últimos anos: da progressiva liberalização económica ensaiada por Raúl Castro depois de 2008 à normalização da relação diplomática com os Estados Unidos da América, em 2015, que pôs fim a décadas de isolamento internacional da ilha.
Nesse sentido, embora previsível, o desfecho dos quatro dias de trabalho foi uma desilusão para quem alimentava esperanças de uma mudança geracional na liderança do partido, e de um aprofundamento das políticas de modernização e liberalização económica: o Congresso terminou com a eleição do Presidente Raúl Castro, de 84 anos, e do número dois do regime, José Ramón Machado Ventura, de 85 anos, para um novo mandato de cinco anos à frente do partido.
Numa entrevista à rádio pública norte-americana NPR, Ted Henken, especialista em Cuba do Baruch College de Nova Iorque, explicou este fortalecimento da ortodoxia revolucionária e como o “efeito Obama”. As lideranças históricas claramente não estavam preparadas para o impacto da visita presidencial na população, e quiserem deixar claro que o controlo ainda lhes pertence, por mais promessas de uma vida melhor apresentadas por Obama.
Na sua intervenção, Raúl Castro insistiu que apesar de o novo diálogo e cooperação entre os EUA e Cuba já ter produzido “alguns resultados concretos”, as relações entre os dois antigos inimigos continuam inquinadas pelo “bloqueio económico, comercial e financeiro de mais de 50 anos, cujos efeitos intimidatórios e alcance extraterritorial são inquestionáveis”.
Bastante mais duro foi o ministro dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodriguez, que qualificou a recente visita de Barack Obama a Havana como “um ataque às nossas ideias, à nossa História, à nossa cultura e aos nossos símbolos” – isto apesar de o líder dos EUA ter prestado homenagem ao herói da independência de Cuba, de ter elogiado a arquitectura, a gastronomia e a música cubana, e de ter inspirado a nova geração do país num discurso transmitido pela televisão nacional.
Uma atrás da outra, as declarações dos delegados no Congresso foram na senda da crítica e hostilidade para com os EUA, sempre descritos como o “inimigo” – provavelmente em deferência à opinião expressa pelo próprio Fidel, que numa coluna publicada em Março ironizou com as palavras doces de Barack Obama, que “quase lhe provocaram um ataque cardíaco”.
Com o poder firmemente nas mãos dos “guardiões” da revolução, a promessa de “renovação” foi atirada para 2018, quando Raúl Castro deixar a Presidência – o irmão mais novo de Fidel comprometeu-se a não ultrapassar o prazo estipulado para entregar o poder executivo – e para 2021, quando o partido voltar a eleger o seu comité central (de 142 membros). “Pela inexorável lei da vida, este será o último congresso dirigido pela geração histórica”, reconheceu Castro, que acolheu uma proposta que já abre caminho a mudanças futuras nos quadros do partido (único) cubano: a restrição a dois mandatos consecutivos de cinco anos de desempenho em todos os cargos, e a imposição de um limite de idade para a eleição dentro do partido – 60 anos para o comité central e 70 anos para a comissão política.


O Papa e Fidel:A história me absolverá?


JORGE ALMEIDA FERNANDES

27/09/2015 - 00:01


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Depois da missa na Praça da Revolução — com o altar situado entre a monumental efígie do Che e a imagem do Jesus da Divina Misericórdia —, o Papa encontrou-se com Fidel Castro. Este esperava-o na sua residência-clínica, em Punto Cero, com a mulher Dalia e os netos, num ambiente “familiar e informal”. Conversaram meia hora num clima de “cordialidade”. O Papa jesuíta e o antigo aluno dos jesuítas — que o formaram e o protegeram quando ele foi preso depois do fracassado ataque ao quartel de Moncada, em 1953. “Falámos sobretudo da [encíclica] Laudato si, pois “ele está muito preocupado com a ecologia”, informou Francisco.

Em 2012, no encontro com Bento XVI, Fidel pedira um conselho sobre livros a ler. Francisco levou-lhe duas obras do padre Alessandro Ponzatto, especialista em catequese: A Nossa Boca Abriu-se ao Sorriso. Humorismo e Fé; e Evangelhos Incómodos. A escolha é irónica: conforme a ortodoxia soviética, Cuba substituiu o catecismo pelo ensino do “ateís-mo científico”. Castro retribuiu com outro livro, Fidel e a Religião: Conversas com Frei Betto.

Francisco tinha uma surpresa para Fidel. Ofereceu-lhe dois CD com os sermões completos do jesuíta Armando Llorente, seu mestre no colégio Belén (1942-45). Llorente morreu no exílio em Miami, triste por não poder visitar Cuba e reencontrar o antigo discípulo.

Este encontro foi um apêndice simbólico, mas obrigatório, na visita papal. O “Líder Máximo” é hoje uma relíquia.

A visita foi devidamente ambígua: boa diplomacia. Francisco quis chegar aos Estados Unidos partindo de Cuba, após o seu papel na aproximação entre os dois países. Em Havana houve precauções e polémica. Nenhum dissidente teve acesso ao Papa. Aleida Guevara, filha do Che, protestou contra o convite do Partido Comunista de Cuba aos seus militantes para assistirem à missa.

Em Roma, antes de partir, Francisco encontrou-se com estudantes cubanos e americanos a quem disse: “Um bom líder é o que é capaz de gerar outros líderes. Se um líder se amarra à liderança, é um tirano. Os líderes de hoje não existirão amanhã. Se não espalham a semente da liderança noutros, não têm valor. São ditadores.” A arte do Papa, jesuíta e político, é escolher o que dizer e o que calar nos lugares adequados.

No avião para os EUA, perguntaram-lhe se Fidel se poderia arrepender. “É uma questão íntima”, respondeu. “A História absolver-me-á”, proclamou Castro em 1953 no seu julgamento. O gesto de rebelião foi louvado. As contas de Fidel com a História têm que ver com que se seguiu à conquista do poder. Ele ficará na História — e não só de Cuba. Mas com que imagem? Que discute ele consigo mesmo? Não o disse ao Papa.


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