segunda-feira, 25 de abril de 2016

Empréstimos de Guebuza empurram o país para o descrédito

PM reconhece existência de dívidas escondidas 
Estamos mal! -“
É provavelmente um dos piores casos de entrega de dados errados por parte de um Governo que o FMI viu num país africano nos últimos tempos”, FMI -“O país há um mês era um dos países exemplo, agora as notícias para o mundo é dizer que Moçambique é o pior exemplo que se podia encontrar em matéria de contracção e gestão de dívida”, Graça Machel.

Graça Machel diz que o país está a ser mal visto.
Graça Machel associou-se à indignação geral que se abateu sobre o país com a descoberta de que o Governo na altura chefiado por Armando Guebuza endividou-se às escondidas em mais de um bilião de dólares, aparentemente para a aquisição de equipamento de defesa e segurança marí- tima. Em declarações aos jornalistas à margem da Reunião Regional do Fundo Global da Saúde, a presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC) considerou que o país ficou mal com as revelações sobre dívidas não declaradas. “O país está a ser mal visto, ainda não sabemos a totalidade da dívida que nós temos”, declarou Graça Machel, não escondendo a sua irritação em relação às notícias desabonatórias sobre o país. Para a activista social moçambicana, é urgente apurar o real volume da dívida e as condi- ções em que a mesma foi contraída, apontando a produção interna como alternativa aos recursos externos. “Ao invés de nos acusarmos uns aos outros, temos de aumentar tremendamente a produção interna, aproveitar os recursos que temos, a terra, e as pequenas indústrias para aumentar a produção”, enfatizou Graça Machel. Machel lamentou o facto de o país sair de uma situação de bom exemplo para um caso de gestão desastrosa de dívida pública. “O país saiu de há um mês que era um dos países exemplo, agora as notícias para o mundo é dizer que Moçambique é o pior exemplo que se podia encontrar em matéria de contracção e gestão de dívida”, afirmou Graça Machel.

O anúncio de “dívidas escondidas”, aliado ao cancelamento pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) do pagamento da segunda tranche no valor de USD155 milhões do empréstimo que Mo- çambique havia feito e o facto do país ter passado de “menino bonito” para o “menos confiante”, está a causar tensão e preocupação em Moçambique, com vários sectores a questionarem as várias medidas de endividamento tomadas pelo então Governo liderado por Armando Guebuza. Não é para menos: O Primeiro- -Ministro moçambicano, Carlos Agostinho do Rosário, que se encontra em Washington em trabalho de corredores, confirmou o que todos temiam. Admitiu ao FMI a existência de dívidas escondidas. O FMI, por seu turno, diz que o reconhecimento desses encargos constitui um “passo importante” para a “restauração da confiança”. “O Primeiro-Ministro de Moçambique reconheceu que um montante de mais de um bilião de dólares de dívida externa garantida pelo Governo não havia sido anteriormente informado ao Fundo”, refere o FMI em nota de imprensa. Agostinho do Rosário deu conta da existência dessas dívidas à directora-geral do FMI, Christine Lagarde, após um encontro, entre os dois dirigentes, na capital norte- -americana, para onde o Primeiro- -Ministro moçambicano se deslocou de emergência para prestar esclarecimentos sobre revelações de dívidas escondidas do tempo do Governo de Armando Guebuza. Na noite desta quarta-feira, o gabinete do Primeiro-Ministro mo- çambicano distribuiu um comunicado, enfatizando que o encontro entre Carlos Agostinho do Rosário e a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, decorreu num ambiente de “cordialidade e abertura”. “Foram abordadas e esclarecidas matérias relativas à dívida pública do país, bem como passados em revista aspectos relativos à cooperação e perspectivas de assistência técnica financeira do FMI a Mo- çambique”, sublinha o comunicado, acrescentando igualmente que o PM tem na agenda encontros com o Departamento de Estado norte- -americano, Banco Mundial, Grupo de Embaixadores da SADC, bem como representantes da Comunidade Moçambicana residente em Washington. Logo após do anúncio da “dívida escondida”, os juros exigidos pelos investidores para transaccionarem os títulos de dívida soberana de Moçambique bateram o recorde de 14%. A taxa de juro que os investidores estão a cobrar para transaccionarem os USD727 milhões em títulos de dívida soberana, com maturidade em Janeiro de 2023, subiu pelo quinto dia consecutivo, para 14,08%, o que se compara com os 12,72% da última quinta-feira, o dia anterior à declaração do FMI sobre a existência de dívida escondida. Em meios habilitados, acredita-se que estes empréstimos (Proindicus e Base Logística de Pemba) foram negociados pelo mesmo grupo de securocratas próximos do Presidente Armando Guebuza aos mesmos bancos, Credit Suisse e VTB Bank da Rússia, que intermediaram os USD850 milhões dos títulos da Ematum. O empréstimo da Proindicus começou por ser USD600 milhões, mas depois subiu até aos USD 950 milhões, segundo as últimas informações divulgadas pela imprensa internacional. A Proindicus e a Ematum têm o mesmo PCA. Chama-se António Carlos do Rosário, ligado aos Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE), órgão que participa na estrutura accionista da EMATUM. Não está ainda clara a estrutura accionista da Proindicus. Mas o SAVANA apurou que a Monte Binga, empresa do Ministério da Defesa, é o accionista de referência. Actuar com transparência No fim-de-semana, o FMI exigiu que o Governo moçambicano actue com transparência e publique todas as dívidas, independentemente do propósito que motivou a contrata- ção de mais encargos para o Estado, alertando para a inevitabilidade de rever as perspectivas macro-econó- micas do país. A posição do FMI foi anunciada em conferência de imprensa pela directora do Departamento para África da organização, Antoinette Sayeh, após a entidade tomar conhecimento da existência de mais de um bilião de dólares de dívidas escondidas pelo Estado moçambicano. Falando no encontro com os jornalistas, após reuniões do FMI e do Banco Mundial na capital norte- -americana, Sayeh afirmou que estão em curso contactos com as autoridades moçambicanas para o apuramento cabal do montante das dívidas escondidas pelo Governo então chefiado por Armando Guebuza. “A divulgação de transacções relacionadas com dívidas não declaradas é essencial para garantir a prestação de contas do Governo perante os seus cidadãos e o Parlamento, visando permitir uma avaliação correcta do impacto de dívidas escondidas nas perspectivas macro-económicas”, afirmou a directora do Departamento para África do FMI. Uma informação fiável e aberta sobre as referidas operações, prosseguiu Antoinette Sayeh, será também fundamental para aquilatar o impacto dos esforços de financiamento do FMI a Moçambique. Sayeh referia-se a uma segunda tranche no valor de USD155 milhões que o FMI devia entregar a Moçambique, como parte de um envelope financeiro de USD285 milhões que o fundo prometeu em finais do ano passado, visando a mitigação do impacto das dificuldades económicas que o país atravessa. A primeira prestação foi adiantada e o desembolso do remanescente foi adiado, devido à revelação sobre dívidas escondidas contraídas pelo Estado moçambicano, maioritariamente para a aquisição de material de defesa. A decisão do FMI foi tomada na sequência do cancelamento da visita ao país, esta semana, na qual era previsível que fosse dada a autorização para o pagamento da segunda parte do empréstimo acordado no final do ano passado. “É provavelmente um dos piores casos de entrega de dados errados por parte de um Governo que o FMI viu num país africano nos últimos tempos. Eles esconderam deliberadamente de nós pelo menos mil milhões de dólares, possivelmente mais, em empréstimos escondidos”, disse esta fonte do FMI. “Moçambique está à beira de uma crise financeira se as autoridades não tomarem medidas para lidaram com os riscos actuais”, vincou a mesma fonte, acrescentando que os doadores internacionais, responsáveis pelo financiamento de cerca de 25% do Orçamento, podem também seguir o mesmo caminho e cancelar os pagamentos de USD350 a 400 milhões. “Aí Moçambique enfrentaria uma crise orçamental e uma crise na balança de pagamentos”, concluiu a fonte do FMI, citada pelo Financial Times. Num comunicado enviado ao SAVANA na noite desta quarta-feira, a partir de Londres, a Agência Britânica de Desenvolvimento Internacional (DFID) manifestou apoio aos apelos do FMI para a divulga- ção completa de todas as operações de empréstimos de Moçambique. 0DSXWRWDPEpPFRQÀUPD Em Moçambique, o SAVANA contactou nesta terça-feira a delegação do FMI em Maputo. Uma fonte bem colocada, que pediu protecção da sua identidade, também confirmou a suspensão dos desembolsos de fundos para Moçambique até ao esclarecimento cabal das dí- vidas do país. Assim, de acordo com a fonte do FMI, em Maputo, a decisão da retomada ou não dos desembolsos está refém da avaliação que a direc- ção daquela instituição da Brettons Woods fará aos esclarecimentos do governo moçambicano. Além do FMI, também o director do Banco Mundial para Moçambique disse à Lusa que a revelação de um novo empréstimo no âmbito do caso Ematum pode aumentar o risco de endividamento excessivo e afectar os recursos disponibilizados pela instituição no futuro. “É importante lembrar que Mo- çambique é um país beneficiário da Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA) e tem um risco moderado de sobre-endividamento. Qualquer potencial análise em baixa da estabilidade da dívida poderá afectar o montante global dos recursos disponíveis para os próximos anos”, explicou Mark Lundell. Logo após o Governo moçambicano ter realizado uma reestruturação bem-sucedida dos chamados “títulos do atum”, que implicou uma garantia do executivo em 2013 a um empréstimo de USD850 milhões, o Wall Street Journal noticiou, há duas semana, a existência neste caso de um segundo encargo escondido, de que os investidores na operação de recompra de títulos de dívida da Ematum não foram informados, no valor de USD622 milhões. Na primeira reacção ao caso, o ministro da Economia e Finanças de Moçambique, Adriano Afonso Maleiane, negou a existência de empréstimos escondidos e disse que “houve alguma confusão” no âmbito do financiamento da Ematum. “Houve alguma confusão e acabou colocando Moçambique num barulho sem necessidade. Tudo aquilo que tem a garantia do Estado está garantido. Nós assumimos tudo o que havia sido assumido pelo Governo. Essa é a tranquilidade que eu continuo a dar aos investidores”, disse Maleiane na sexta-feira passada à agência Lusa, durante a sua passagem pelos encontros de primavera do FMI e Banco Mundial. Terceiro empréstimo não revelado Cada vez mais que cresce a pressão sobre o Governo moçambicano, mais dados sobre empréstimos obscuros vão sendo tornados pú- blicos. O Governo moçambicano terá autorizado um empréstimo de mais de USD550 milhões a uma empresa pública, o que, agregado aos créditos às empresas Ematum e à Proindicus, representa quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Trata-se de um empréstimo russo para o projecto da Base Logística de Pemba, que não era público. A Credit Suisse e VTB têm também atraído fortes críticas por sobrestimar a capacidade de Mo- çambique para reembolsar os seus empréstimos, e supostamente, por não olhar profundamente o suficiente sobre como o dinheiro seria gasto. Segundo a Africa Confidential, uma publicação editada em Londres, Alberto Chipande e outros membros da elite Cabo Delgado ficaram irritados quando o contrato para a Base Logística de Pemba foi parar a uma empresa pertencente ao bilionário italiano Gabriele Volpi. Acredita-se que o empréstimo de USD550 milhões é uma tentativa para apaziguar e compensar Chipande e o seu círculo. Os Terminais Portuários e Logísticos de Pemba e Palma foram concessionados pelo Governo mo- çambicano por 30 anos a Sociedade Porto de Cabo Delgado (PCD), que, por sua vez, subconcessionou o projecto a ENH Integrated Logistics Services (ENHILS), um consórcio formado pela nigeriana Orlean Invest (49%) e ENHLogistics (51%), está última subsidiária da estatal Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH). A indicação da ENHILS suscitou um coro de protestos e indignação por parte de alguns sectores polí- ticos-económicos da nomenklatura ligados ao ramo da indústria de petróleo e gás. Entre os que submeteram propostas para entrarem na Base Logística de Pemba destacam-se, para além na própria ENHL, Consórcio Norsea, em parceria com a Associa- ção Cabo Delgado em Movimento, uma organização marcadamente da etnia makonde e que tem como patrono Alberto Joaquim Chipande. A Orlean Invest é maioritariamente controlada pelo empresário italiano Gabriele Volpi e tem como sócio de referência Atiku Abubakar, vice-presidente da Nigéria entre 1999-2007, no Governo de Olusegun Obasanjo.

Governo pode ter violado princípios
OSAVANA contactou também o grupo dos parceiros programá- ticos que antes eram G19 e actualmente G14 devido à saída de cinco deles, um que grupo contribui com 25% do valor do Orçamento do Estado. Este ano está previsto um desembolso de USD 270 milhões, dos quais um milhão de dólares foram transferidos logo no princípio do ano. A fonte do G14, que também solicitou anonimato em virtude do grupo aguardar esclarecimentos do governo para a tomada de uma posição oficial, manifestou preocupação com o caso. “Caso se confirmem as informações que o governo mo- çambicano ocultou a dívida de forma deliberada, estaremos perante uma grave violação dos princípios de relacionamentos plasmados na parceria com o governo e isso é passível de san- ções”, disse. De acordo com a nossa fonte, que abordou o assunto de forma cautelosa, nos termos de relacionamentos acordados, aquele acto constitui uma grave falha, “uma tremenda falta de transparência e um grande abalo às relações de parcerias”. Ressalvou que é preciso dar espaço ao seu interlocutor mo- çambicano, neste caso, o ministro da Economia de Finanças, Adriano Maleiane, para que em nome do governo moçambicano exerça o direito de contraditório. A mesma fonte precisou que o assunto ainda vai fazer correr muita tinta, porque neste momento já estão reunidas as equipas técnicas rumo à revisão anual de parceria que sempre culmina com novos compromissos de desembolso em Maio e em Junho o respectivo anúncio dos valores acordados. Como é tradição entre finais de Abril e Maio surgem novos desembolsos dos fundos e, de acordo com a nossa fonte, tudo estava bem encaminhado para se liberar USD 76 milhões, mas os parceiros preferiram retardar por ainda aguardarem os devidos esclarecimentos. Responsabilizar Guebuza Adriano Nuvunga, director do Centro de Integridade Pública (CIP), uma instituição de advocacia a boa governação e transparência, refere que não restam dúvidas que aquelas dívidas foram contra- ídas fora da lei orçamental e do quadro do ordenamento jurídico nacional, ou seja, este era o apaná- gio do antigo presidente. Nuvunga, que falava ao SAVANA esta terça-feira, diz que a forma como foram feitas aqueles empréstimos podem ser vistas como vingança de Guebuza por ter visto gorada a possibilidade de um terceiro mandato. Assim, o director do CIP diz ser oportuno que se faça uma auditoria geral às dívidas do Estado para se saber onde e como foi alocado o dinheiro e depois uma tentativa de recuperação. Entende Nuvunga, que se tendo o raio x das finanças do país, já se pode avançar para a responsabiliza- ção dos dirigentes que colocaram o Estado nesta situação. Aliás, recordou que já houve dirigentes de topo a serem responsabilizados como é o caso de Almerino Manhenje, antigo ministro do Interior da era Chissano e António Muguambe antigo ministro dos Transportes e Comunicações na presidência de Guebuza. “Agora estamos no fundo de um poço muito fundo e não seria possível viver sem o FMI”, sublinhou Nuvunga, projectando um cenário desolador para o país nos próximo tempos, caso o governo e o FMI não alcancem nenhum acordo. No entanto, Nuvunga desafiou o Presidente Nyusi a levar a sé- rio o combate à corrupção como forma de dar credibilidade ao Estado e ao seu governo e como meio para financiar o investimento e desenvolvimento do país. O governo deve fazer uma declaração Para investigador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos(IESE), António Francisco, é preciso que o governo esclareça ao povo sobre o que aconteceu naquele negócio, depois se vai embarcar para a responsabilização. De acordo com Francisco, o Presidente da República precisa de fazer uma declaração pública na qual dará conhecer as consequências a curto, médio e longo prazo da dívida. Entende que com a falta de transparência demonstrada, o governo perdeu credibilidade com o povo e com os parceiros internacionais e isto terá consequências visíveis na vida de cada um dos moçambicanos porque o custo de vida poderá se agravar. Depois de lamentar a situação, o académico classificou a situação como sendo escandalosa e acusa Filipe Nyusi de falta de seriedade, pelo facto de não ter dito nada ao povo sobre esta situação e deixado a bancada parlamentar que o suporta o Governo chumbar a proposta da Renamo para o executivo prestar esclarecimentos ao povo.

A CRISE

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Centelha por Viriato Caetano Dias (viriatocaetanodias@gmail.com )
“O azarado não tem outra medicina que não a esperança. ” – William Shakespeare É um facto indefectível que o mandato do presidente Filipe Nyusi começou de modo curvilíneo e labiríntico devido mormente a actual situação política e militar e a “canzoada” de dívidas do Estado, contraídas pelo governo de Armando Guebuza, mas pode terminar de forma recta e triunfante se souber aglutinar o pensamento e o labor de todos os moçambicanos. Custa-me acreditar na eficiência e eficácia de outro antidoto, para ultrapassar os dois “assados”, sem o premente envolvimento de todas as forças vivas da sociedade moçambicana. Quando um país está à beira de exaurir económica e financeiramente é mister que o governo desse país “acabe”, literal e momentaneamente com todas as formas de “oposição política”, criando, destarte, um governo de salvação e unidade nacional.
A consecução deste tipo de paradigma não significa necessariamente a inclusão de figuras da oposição, no governo, mas fundamentalmente estabelecer uma plataforma comum de diálogo e de gestão da coisa pública. É claro que tudo isto impõe algumas cedências, ou seja, para ser mais exacto, implica uma certa “humilhação” política do partido no poder, algo que, em Moçambique, aconteceu no governo de Joaquim Chissano. Sei que é duro dizer isto, até porque esta posição é contrária aos desígnios do governo, mas é a única forma viável e saudável para termos uma paz infinita no país.
Não sou especialista em economia, mas aprendi durante o estádio que permaneci no garimpo da vida académica que o reescalonamento da dívida pública não anula a dívida em si, nem silencia o roncar ensurdecedor do estômago vazio do povo, pelo contrário, aumenta os prazos de pagamento e dos juros estabelecidos, bem como o risco de inadimplência. Portanto, com o conflito político-militar em marcha, os riscos de endividamento e de inadimplência são cada vez maiores. O presidente Nyusi terá que fazer pactos estratégicos, inclusive com o “diabo”, para inverter o estado clínico – político, económico e social – do país.

Um olhar mais acurado à actual situação política-militar permite concluir que a actuação dos homens armados da Renamo afectam a dinâmica económica do país. Os relatos de empresários e até mesmo de “desenrascados da vida” que decretam insolvência por causa do conflito militar não são poucos, um pouco por todo o país. Hoje a batata reno é comprada nos mercados informais a preço de 500 meticais, contra os anteriores 200 meticais. O tomate e a cebola dispararam a preços astronómicos. O “elevador da desgraça” também fará subir em breve o preço do pão, da energia eléctrica, da água potável, etc. Quero deixar bem claro que um conflito militar pode até ser isolado/localizado, mas as suas consequências serão sempre globais. O tiro que mata em Santungira afecta o familiar que está em Changara, prejudica o comércio na Matola, fere a estrutura social em Caia, deixa órfãos em Muxúnguè, fecha escolas em Gorongosa, carcoma o desenvolvimento do país. Por mais isolado que seja o conflito, afecta todo o país. Já aqui escrevi amiúde que a dor de uma ferida não só tem efeitos no local, como abrange o corpo todo.
É o país inteiro que está a ser dilacerado por este conflito absurdo e injustificável. O líder máxima da Renamo, Afonso Dhlakama não mentiu quando disse que o presidente Nyusi não teria uma governação fácil, pois os resultados dessa ameaça surgem aos olhos de todos. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, eu não vejo a actual crise económica e financeira como uma fatalidade. Dezenas de vezes escrevi, nestas minhas centelhas, que um abscesso quando surge no corpo humano deve ser retirado, sim, mas a sua existência é útil para a regeneração do nosso corpo e para a medição da nossa resistência perante a dor.
Temos que saber resistir a dor marchando para a frente, tal como no passado recente fizeram os nossos antepassados na conquista pela independência. O que pretendo, então, dizer com isso? A resposta assenta numa base comum: as dívidas contraídas pelo governo do presidente Armando Guebuza devem, sim, preocupar o actual executivo de Filipe Nyusi, mas não devem desfalecer a marcha da vitória.
Que este momento sirva, outrossim, de pretexto para encetar estratégias de combate ao despesismo. Por outro lado, é uma oportunidade para o presidente Nyusi materializar a sua política de desenvolvimento. Da nossa parte, como patrões, devemos testar a capacidade de resistência dos nossos dirigentes.(CONTINUA…).
WAMPHULA FAX – 25.04.2016

Dívida soberana - e esta agora!... Por Teo Nhagumele
Há unanimidade no seio do povo moçambicano informado de que o país está mal. Tanto a Frelimo bem como a Renamo e outros partidos, incluindo a sociedade civil, estão, raramente, de acordo em relação ao caos financeiro para o qual fomos atirados. Não é para menos! As razões objectivas para sermos arrastados para esta situação ainda continuam no segredo. Ouve-se falar de que os dinheiros contratados foram usados para financiar a Proinducus, Ematum e, agora, a Base Logística de Pemba. Os montantes variam em função das fontes. Os critérios para contratação dessas dívidas assustam os mais e menos entendidos em matérias de finanças públicas. E, para tornar a situação mais grave, somos brindados com a decisão do Executivo de que esta divida já não é das pessoas que a contraíram, mas sim já é de todos nós. Um punhado de pessoas cria empresa, contrai divida, não consegue pagar e depois repartem a divida por todos nós. Em todos estes processos o povo não foi consultado. Entretanto, há pessoas que acham isto normal. Pudera eu repartir a minha divida pelos meus vizinhos e amigos sem os consultar... No final das contas, qual é o problema real? É porque não fomos consultados? O dinheiro deve ter sido desviado? Porque o dinheiro foi usado para compra de equipamento bélico? Porque os barcos da Ematum “pescam acostados no porto” e nunca se fazem ao mar? Porque o Parlamento não foi consultado? Qual é o problema real? O problema real é que nos endividamos muito acima das nossas capacidades reais de repagar a divida dentro dos prazos acordados com os credores. Exemplificando, é como se alguém que aufere mensalmente 1000.00, 00 Mts fosse ao banco para contrair uma divida de 1.000.000,00 Mts para pagar em 5 anos. Esta é a situação actual. Mas, como foi possível alguém no seu perfeito juízo tomar tal decisão? As respostas a esta pergunta são várias, mas a mais objectiva e desapaixonada é que alguém confiou que podia fazer omoletas com os ovos ainda dentro da galinha. Alguém tomou a decisão de se endividar junto ao banco contando pagar a divida com o dinheiro de um negócio que estava por fechar. Acontece que o negócio ainda não fechou mas o dono do dinheiro já o quer de volta. Ti ku kinze! O que isto significa? Significa que temos de nos virar para pagar a divida. Temos de juntar todas as quinhentas que a nossa economia produz em divisas para pagar a divida. Tudo que for dólar que se encontra dentro do pais e fora, sob a alçada do banco central e do governo de Moçambique deve ser contabilizado para pagar as dividas. Acontece, porém, que os dólares que nós geramos neste momento não são suficientes para simultaneamente pagar a nossas dividas, importar comida, importar combustíveis, importar medicamentos, pagar as despesas dos cartões VISA feitas no estrangeiro em dólares quando viajamos, importar carros, pagar despesas de tratamentos médicos no estrangeiro, etc. Consequências Quais são os prováveis consequências desta situação para o povo? São vários e todos assustadores, nomeadamente: a) Escassez de Divisas no Mercado De onde vem os dólares para o nosso mercado domestico? Das receitas das exportações, das transferências dos moçambicanos no estrangeiro e das instituições diplomáticas e pagamentos empresas privadas e publicas para o mercado doméstico, dos investidores estrangeiros e das ajudas financeiras das instituições de Bretton Woods e de outros créditos externos. Uma vez que todas estas fontes de receita de dólares americanos estão comprometidas, resulta que há cada vez menos dólares disponíveis no mercado para financiar/pagar as importações de bens e serviços necessários à economia. Isto faz com que não haja disponibilidade de divisas para realizar as importa- ções e, as poucas divisas arrecadadas, são usadas para financiar actividades prioritárias tais como importação de medicamentos, comida, combustíveis, etc. Por quanto tempo? Ninguém sabe. b) Depreciação do Metical: o aumento da procura do dólar americano pelo governo e pelos co- ' , # (. -65 #(ł #)( 5 )5 valor do dólar americano em relação ao metical, fazendo subir o custo de transacção do dólar no mercado financeiro. Isto é, as pessoas estão dispostas a pagar o que for necessário em meticais para ter os dólares necessários para financiar as suas actividades. c) Subida de Preços: uma das consequências directas da escassez do dólar é a subida do preço de transacção da moeda, o que por sua vez provoca o aumento dos preços dos produtos no mercado doméstico. Ora, Mo- çambique quase importa tudo, com a excepção do ar livre que respiramos, da terra que pisamos e suas riquezas e da água dos rios, mares, lagos e oceanos. Tudo o resto é parcialmente ou totalmente importado. Para importar os bens e serviços precisamos de moeda forte (e.g dólar, euro, libra, rand, etc.). Estando o dólar a ser transaccionado em alta, resulta que todos os produtos importados com esta moeda estarão mais caros. Impactos Todos os produtos importados irão subir de preço, por via da carestia dos custos de transacção em moeda estrangeira. Mesmo os bens e servi- ços não importados serão afectados por via do aumento dos custos dos factores de produção i.e. energia, água, matérias primas, etc. Esta subida de preços irá trazer sofrimento ao povo uma vez que com o mesmo salário auferido o povo comprará cada vez menos bens e serviços. O povo irá comprar cada vez menos pão, menos carne, menos manteiga, fará menos viagens, irá consumir menos medicamento, comprará menos roupa, ajudará cada vez menos as viúvas e órfãs, comprará menos energia, e a lista não termina. Medidas de Prevenção Aliado à seca que se faz sentir em algumas regiões do país, esta situa- ção da carestia do custo de vida tem o potencial de despoletar reacções não desejáveis por parte do público. A nossa experiência colectiva das reacções por parte do público nos diz que o Governo precisa de tomar medidas pró activas para evitar tais reacções, nomeadamente: R5 #),5 ,./, 5 ( 5 *, -. éã)5 5 informação educativa para o povo lidar melhor com a crise que se avizinha; R5 & 2 ,5 ,. -5' # -5ŀ- #-5+/ 5 sufocam o povo; R5 /4#,5 5)-. (. éã)5 )-5' #)-5 5 vida, principalmente por parte de governantes e oficiais seniores do Governo; R5 /4#,5 5 ),. ,5 ! -.)-5 -/*ï,ł/- os com festas, festivais cerimónias oficiais de pouco valor e significado neste contexto de contenção; R5 0#. ,5 ,/. ,5)5*)0)5*),5* ,. 5 das autoridades i.e. polícia municipal, polícia de protecção e de trânsito; R5 ( , ' (. ,5)5 #á&)!)5*)&ù.# )5#(- ter partidário e social para aumentar a coesão interna para melhor se lidar com a crise económica; R5 /' (. ,5 5 ŀ á # 5 )5 )(.,)&)5 interno no sentido de assegurar a eficiência dos custos e das despesas; O nosso futuro é incerto, de tal modo que pensar nele seria um esforço em vão. O nosso esforço deve estar concentrado em sobreviver cada dia e isso deve ser feito num ambiente menos hostil e pacífico. Todo o esforço colectivo, cada metical, cada homem, cada cabeça deve ser usado para assegurar que a gente atravessa esta crise como um país, um povo uno e em paz. 

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