domingo, 10 de abril de 2016

“Ematum gate” é pior do que se pensava

TEMA DA SEMANA 2 Savana 08-04-2016 fender a ideia de um diálogo no meio do fogo? Se não há outra maneira. Se a Renamo deixasse de disparar contra a população, não haveria necessidade de se proteger a população porque não haveria fogo. A propósito disso, o África Confidencial publicou recentemente, e citando quadros de topo na Frelimo, que o Presidente Nyusi está a perder paciência com a intransigência do líder da Renamo, e não descarta a opção militar como forma de obrigar Afonso Dhlakama a ir ao diálogo. Diz a publicação britânica especializada em assuntos africanos que Joaquim Chissano e Armando Guebuza reaproximaram-se politicamente e estarão em sintonia com a estratégia de encurralamento militar da Renamo, reduzindo, por isso, a perspectiva do Presidente Nyusi de manter um timbre mais conciliatório com Dhlakama... Eu nunca conversei com o Presidente Nyusi sobre esse assunto. Nunca lhe dei nem um palpite sobre esse assunto. Toda a filosofia que está nessa publicação é da responsabilidade dos autores. Aliás, já há muito tempo que não tenho conversado com o Presidente Nyusi. Talvez com o presidente Guebuza não sei, mas eu não (risos). Académicos como Gerhard Liesegang consideram que a militarização do Estado moçambicano é uma ameaça veemente à paz que, por sinal, o próprio Chefe de Estado diz que quer… O que quer dizer com militarização de um Estado? Nomeadamente a aquisição de mais meios bélicos, num cenário que se confunde com preparação à guerra, quando o discurso oficial é pela paz. O nosso país tem Forças Armadas em número aquém das Forças Armadas até acordadas no próprio Acordo de Roma. A Força que Moçambique tem é muito pequena, sobretudo, se comparada com as Forças Armadas que nos rodeiam. Em qualquer país, a gente chega lá e encontra uma For- ça enorme, mesmo a Suazilândia e o Lesotho que são países pequenos, sem falar já de Malawi, Tanzânia, etc., e Moçambique tem uma Força que não é compatível com o tamanho do país, com os problemas que o país possa enfrentar. Então, havendo condições, não é nenhum exagero que se tenha de melhorar. Eu não consegui fazer isso porque estávamos numa situação de penúria grande, mas era preciso melhorar as condições dos próprios soldados, em termos de meios para viver, mas também em termos de armamento. Os soldados devem sentir-se preparados para, em caso de necessidade, poderem enfrentar situações. Agora são chamados a defender o povo, como eu disse. Se calhar é disso que a Renamo está a abusar, tipo não são capazes, portanto pode ditar o que o Estado deve fazer. Pode ser isso. O Estado tem de estar minimamente preparado, mesmo em termos de material bélico para defender o Estado e defender a Constituição e o povo. Como acompanhou as recentes Citado como estando em sintonia com o Presidente Filipe Nyusi e o ex-presidente Armando Guebuza, numa estratégia de encurralamento militar da Renamo como forma de obrigar Afonso Dhlakama a ceder ao diálogo, o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, diz que o Governo não deve recuar das suas incursões armadas, naquilo que chama de “diálogo no meio do fogo”. O signatário do Acordo Geral de Paz (AGP), que em 1992 colocou fim a uma fratricida guerra de 16 anos, não vê a aquisição de mais meios bélicos como militarização do Estado, mas sim uma forma de munir o exército de condições para enfrentar qualquer que seja a situação. Apesar disso, o considerado arquitecto da paz em Moçambique acredita que um dia o país voltará a respirar tranquilidade e, para tal, recomenda persistência e dirige um desafio particular ao povo que diz ser uma força imparável: sair à rua e apontar onde é preciso apontar. Numa outra abordagem, Joaquim Chissano confirma que teve liga- ções com a KGB, um serviço de inteligência da antiga União Sovié- tica. Admite que chegou a fornecer informações sobre Moçambique à KGB, mas nega que tenha sido espião, como tal. Interpelámo-lo em Addis Abeba, na Etiópia, onde participou da semana de Desenvolvimento Africano, edição de 2016 que terminou esta terça-feira, 05 de Abril. Siga a entrevista que aborda outras nuances sobre o país e o continente. SAVANA: Que lições tira das reflexões feitas nesta reunião conjunta e anual, sobretudo em como desenvolver o continente? Chissano: Primeiro quero esclarecer que estou aqui como Presidente do Fórum África para os Antigos Chefes de Estado e de Governo e outros Dirigentes. A União Africana e a Comissão Económica das Nações Unidas para a África mostraram interesse em trabalhar com o Fórum porque este apoia as actividades dos Estados representados na União Africana e também nas Nações Unidas. É por isso que ambos decidiram convidar-nos para esta reunião conjunta e anual como forma também de dar uma plataforma para o nosso Fórum poder se reunir e fazer reflexões sobre as suas próprias actividades. Foi mais para acompanharmos para quando chegar a altura de eles precisarem de algum apoio do nosso lado, nem que seja para fazer uma advocacia dos assuntos que discutiram, nós também estarmos minimamente dentro dos assuntos, mas também é uma forma de atrair a nossa atenção e vontade de seguir os assuntos deles. Portanto, somos convidados para esta reunião, como a própria União Africana convida muitos de nós para as suas cimeiras. E o que achou das várias reflexões? O assunto que está em primeiro lugar nesta nossa cooperação é a implementação da agenda 2063 para o desenvolvimento harmonioso e acelerado de África. Nós já começamos a fazer a advocacia desta causa e viemos aqui reunir e falamos sobre como podemos realmente ser mais relevantes e decidimos que no mês de Setembro vamo-nos reunir com mais tempo para melhor desenhar a estratégia da União Africana e a Comissão Económica das Nações Unidas para a África. Nesta reunião, os ministros das Finanças, dos Assuntos Monetários e Planificação e do Desenvolvimento Económico trocaram impressões. Tentaram precisar um pouco o papel que cada país e região deve desempenhar e achei muito interessante. Os painéis que se apresentaram tinham variadíssimos assuntos muito interessantes que valerá a pena nós acompanharmos com mais profundidade para podermos estar capacitados a seguir. Nós, enquanto Fó- rum, não temos nada a realizar, mas vamos encontrar formas realmente de sermos mais relevantes através da advocacia como levar a nossa media a interessar-se no assunto porque é preciso criar um espírito positivo para a realização desta Agenda porque, contrariamente àqueles que pensam que é uma Agenda muito ambiciosa, eu sou da opinião daqueles que pensam que é possível realizar muita coisa da Agenda. Mas que TPC para que Moçambique consiga a domesticação dos desafios que são vários? Eu penso que o Governo de Moçambique está atento e a Agenda 2063 é do interesse não só de uma abordagem continental ou global, mas também do interesse das especificidades dos países. Para além do Governo, entanto que sociedade civil, entanto que Fórum, podemos encontrar formas de aprofundar isto para que cada cidadão contribua na sua implementação. Portanto, é preciso que haja participação de todos, não excluir ninguém não significa só nos benefícios, mas também no processo de reflexão e de implementação. O que se quer é que todos tenhamos o espírito aberto para receber as opiniões e fazê-las convergir cada vez mais para podermos executar e traduzir em prática. Mas a execução vai ter de depender de um elemento que se chama paz, uma paz que em Moçambique está beliscada… É possível porque a Agenda 2063 fala de uma África em paz consigo própria, então, a questão da paz faz parte da realização da Agenda e mesmo aqui (Addis Abeba) durante a minha estadia e mesmo no nosso Fórum, a discussão que tivemos foi de passar em revista as diferentes situações de conflitos que existem na África porque é importante termos essa paz e os meus colegas estão a reflectir sobre como podem contribuir para trazer a paz em cada um dos países que estão em conflito incluindo Moçambique. São conflitos de vária natureza, temos a questão do Burundi, do Sudão do Sul, do Sudão do Norte, temos a questão de Moçambique, da República Centro Africana, tudo isso se passou em revista, até em países que estão em paz, mas que há problemas do reforço e consolidação da democracia. Tudo isso preocupa a nós todos. Mas com esses esforços conjuntos, poder-se-á resolver os problemas desses países, incluindo Moçambique. Portanto, tem de se afastar essa questão de conflito no caminho do desenvolvimento. O povo deve sair à rua Mas como afastar? Há-de reparar que, no caso específico de Moçambique, há cerca de quatro anos que há apelos ao diálogo, há marchas pela paz, há conferências sobre a paz, mas ao invés de se alcançar a paz, cada vez mais se alcança a guerra. Eu acredito que um dia voltaremos a viver uma paz efectiva em Moçambique. Com que solução acredita? Não sei qual é a solução, o que sei é que a persistência na busca da paz só pode resultar na reconquista da paz. E quando falo de persistência não estou a falar da persistência do Governo ou da Renamo, estou a falar da persistência do povo, um povo que exige de uma maneira cada vez mais acentuada que haja paz. Um povo que cada vez mais sai à rua, saem as vozes, apontam onde é preciso apontar e essa é uma força que não pode ser parável. No meio desse processo, há-de se encontrar uma solução. Não pode não haver solução. Acha que o povo hoje está a exigir pouco? O povo não está a exigir pouco, mas está exigindo progressivamente da sua maneira. O principal impasse hoje ao diálogo em Moçambique é a aceitação da Igreja Católica, da União Europeia e do presidente Jacob Zuma da África do Sul como mediadores. Com a experiência que tem como ex-estadista e como mediador de conflitos, como olha para este impasse sobre o qual muitos académicos dizem que, apesar dos doutoramentos que têm, não entendem a sua razão de ser? Eu olho com muito respeito para aqueles que estão a fazer esta discussão porque é preciso medir as consequências de tudo porque não basta que uma das partes exija para se aceitar. É preciso ter-se uma perspectiva. Será que, aceitando isto, a Renamo não vai exigir outra coisa? Porque já vimos exigências disto e mais aquilo. Então, é preciso saber-se profundamente como agir em torno das propostas que estiverem na mesa, depois de tomar decisão. Mas o senhor, enquanto Presidente da República, aceitou muitos desafios da Renamo em nome da paz! Ou não se recorda? Eu tive de aceitar muitos desafios que a Renamo me colocava, mas tinha de prever os resultados e como contorná-los, por isso, o Governo deve ter informação suficiente para julgar tudo isso. Por exemplo, a União Europeia não é um Estado, são muitos Estados. Ora, como é que se age com uma União Europeia? Tudo isso tem de ser estudado, não estou a dizer que não ou que sim, mas tem de ser estudado e ao se reflectir tem de se ter muitos dados. Certamente que o Governo deve estar a fazer consultas, se não está a fazer é porque já deve ter uma visão, mas não é um assunto fácil. Eu não sei o que iria fazer a União Europeia, quem é a União Europeia? Não sei se a Renamo quer transformar este diálogo entre dois num assunto internacional. Fogo deve continuar Uma pergunta de insistência: tendo em conta o cenário actual, marcado por mortes e destruições, que medidas o Presidente da República podia tomar a curto prazo? Bom, eu não quero aparecer a fomentar o uso da força, mas a primeira medida que um Governo toma é realmente fazer tudo que é necessário para proteger a população. Se há autocarros que são destruídos na estrada, se há impedimento de circulação de pessoas e bens, portanto, uma violação de direitos humanos, a primeira coisa que um Estado faz é proteger essas pessoas enquanto procura outra forma. Nós tivemos o diálogo com a Renamo e a fórmula foi que o Governo continuou a defender tanto quanto podia a população e os bens do povo, a defender o próprio do Estado, enquanto se dialogava porque a vida e os direitos das pessoas estão em primeiro lugar, depois é que são os direitos de partidos. O diálogo de 1990-1992 fez-se no meio do fogo. Não parou a luta porque o Governo estava consciente de que tinha o dever de defender a população e não podia recuar de qualquer maneira. Fizemos o que nós podíamos e salvamos até onde pudemos. Só para esclarecimento, está a deJoaquim Chissano ao SAVANA Diálogo sim, mas com fogo! Joaquim Chissano defende que o Estado deve proteger o povo TEMA DA SEMANA Savana 08-04-2016 3 rusgas a duas casas de Dhlakama e à sede nacional da Renamo? É um direito do Governo recolher armas que estão em mãos alheias porque o único que tem direito de possuir e utilizar as armas é o Estado. Nenhum partido, nem o partido que está no poder, tem direito de utilizar armas, quem tem esse direito é o Estado. É preciso que não haja confusão entre Estado e partido. O General Hama Thai é da opinião de que não há problemas em se indicar governadores da Renamo para algumas províncias. Concorda com esse posicionamento do seu camarada de partido? É prerrogativa do Chefe de Estado nomear governadores e a Constituição não diz que os governadores devem vir de um determinado sítio, portanto, se o Presidente entender que deve nomear governadores que são da Renamo numa determinada província pode nomear. Em princípio não há problema nenhum, mas uma imposição ao Chefe de Estado de nomear determinadas pessoas para serem governadores, isso é que sai fora das normas.*% A 19 de Março último, a Revista “E” do Expresso português publicou uma investigação com documentos de um trabalho que revela muitos dos métodos de human intelligence, pesquisa na qual o Presidente Joaquim Chissano é citado como um antigo espião da KGB com o código “TZOM”. Pode partilhar com o SAVANA, em primeira mão, esse outro percurso seu até então desconhecido? Sim, existe uma ligação e essa ligação foi que eu fui treinado militarmente na União Soviética e um dos assuntos em que eu fui treinado foi precisamente na inteligência para podermos penetrar na zona inimiga. Falo dos portugueses. Fomos treinados para isso, portanto, tivemos um relacionamento nessa formação e é verdade que eu dava alguma informação sobre a nossa luta. Está a dizer que dava informação sobre a Luta de Libertação de Mo- çambique aos soviéticos? Sim, tinha de dar, mas não era tanto como eles falam de espião. Era com intuito de beneficiarmos de mais apoios da parte da União Soviética. Bom, se calhar lá eles tratavam assim (de espião), mas eu nem conhecia esse código, não conheço, por isso estou interessado em ver esses documentos porque eu não sei como eles tratavam os assuntos lá. Mas era meu dever como líder da Frelimo criar condições óptimas para ter o apoio dos países parceiros nossos. Portanto, longe de uma coisa que se possa chamar de espionagem. Não andava a abrir portas de ninguém (risos) para poder cumprir um mando da KGB. Mas é verdade que através da KGB recebíamos dinheiro, não era para mim, era para a Frelimo, para ajudar- -nos a realizar o nosso trabalho de inteligência e contra inteligência, para a protecção da própria Frelimo e para a busca de informações do outro lado. Tudo que fizemos foi um trabalho interno para a Frelimo com o apoio da KGB. No início eu até pedi para ver se eles nos podiam ajudar, na base daquilo que aprendemos, a estruturar os trabalhos, mas eu aprendi nesses contactos que é difícil ter um serviço de inteligência de um país a ajudar a instalar algo, apesar de que nós não éramos um país ainda, éramos um movimento de libertação. Mas eu aprendi muito desse relacionamento para montar serviços que eram muito adequados para a nossa luta de libertação. Uma das conexões que a pesquisa do Expresso faz tem a ver com a morte do Presidente Samora Machel. Há ex-agentes entrevistados que apontam a KGB, com a qual o (antigo) Presidente Chissano teve ligação, como promotora do fatídico acidente de Mbuzine com conivência de quadros da Frelimo e o (antigo) Presidente Chissano era também quadro do partido. Quer comentar? Isso é mera especulação. Hei-de ver esse artigo porque ainda não vi o que estão a dizer porque sei lá pode ser um sonho. Passaram-se quantos anos! Isso de que estão a falar foi nos anos 1966, eu a trabalhar com o presidente Samora até à morte dele em 1986 e, nessa altura, eu não tinha já relação nenhuma com a KGB. Eu dava as informações durante a Luta de Libertação Nacional e termina aí e nem foi durante toda a luta. A propósito podia nos situar em termos temporais da sua colaboração com a KGB? Nós fomos treinados em 1966 e eu tive de enviar algumas informações de 1966 talvez até 1968 antes da morte do Presidente Mondlane com quem eu sempre trabalhei neste assunto. Quero crer que depois da morte do presidente Mondlane mais um ou dois anos podia ter tido contacto com eles para tentar esclarecer-lhes o meu ponto de vista sobre a morte de Mondlane. Porque se desvinculou da KGB? Eu começo a perder de facto interesse quando vi que a parte da formação já não era tão profunda e isso resulta também na mudança do pessoal que estava na embaixada da União Sovi- ética em Dar-es-Salam (Tanzânia) que era ponto focal que servia de contacto a quem eu mandatava para em primeiro lugar, o que eu disse, tentar obter apoios à organização dos nossos serviços e com esperança também de aprofundar o meio treino. Mas como houve sempre uma rela- ção com a União Soviética e porque também eu nem sei quais são os elementos da organização (KGB) podia falar talvez mais tarde com pessoas sem saber que são da KBG, pode ser, pode ser… por isso, interessa-me conhecer esses documentos para eu conhecer melhor como é que eles me utilizaram, se é que me utilizaram (risos) sem eu próprio saber, pode ser… porque eu fui treinado nisso e sei que isso se faz, de utilizar pessoas sem elas saberem, nos serviços secretos tanto do ocidente como do leste. Então, não descarta a hipótese de ter sido usado na morte do presidente Samora? Descarto completamente porque não há base para isso. Nem como! Primeiro a minha própria relação afectiva com o Presidente Samora, não sei como usariam. Porque se quiserem que eu vos diga, nesse tempo que eu estava a dar informações sobre a nossa Luta, descobri que o Presidente Samora nunca foi um grande problema para os Soviéticos, mas não sei se as coisas teriam mudado, não sei. Senão os Soviéticos não teriam dado o apoio que nos deram como material de grande valor que os chineses não nos podiam fornecer e era o Presidente Samora que orientava tudo isso. Portanto, tinham confiança no Presidente Samora. Acha que é possível uma operação tipo Lava Jacto do Brasil ou como aquela que “apanhou” o presidente da África do sul, Jacob Zuma, num país chamado Moçambique com muitos negócios mal parados como a EMATUM ou ultimamente a tal empresa estatal PROINDICUS? Bom, cada país resolve os seus problemas da melhor maneira que possa salvaguardar a sua integridade. Como em Moçambique se pode encarar os problemas que surgem sem realmente atingir consequências adversas, esse é que é o problema que se tem de colocar, não copiar apenas só porque no Brasil se fez isso e na África do Sul aquilo. Portanto, eu não sei em que bases se pode realizar isso. TEMA DA SEMANA 4 Savana 08-04-2016 TEMA DA SEMANA chocou a todos os moçambicanos. Contudo, fomos surpreendidos com novas revelações reportadas pela comunicação social sustentando que, além dos USD850 milhões, ligados à mesma operação da EMATUM, o governo contraiu mais USD787 milhões (...). Esta situação faz com que a dívida tenha passado para cerca do dobro tornando-se num negócio ruinoso e altamente lesivo ao Estado (...)”, sublinha Ivone Soares, requerendo que o debate seja agendando com “carácter de urgência”. Adívida contraída pelo governo de Armando Guebuza para a compra de barcos da EMATUM e equipamento naval é bem mais superior que os USD850 milhões inicialmente declarados, refere o Wall Street Journal (WSJ). Documentos divulgados pelos bancos suíço Credit Swisse e russo VTB, instituições financeiras que lideraram a venda de títulos de dívida que financiaram a operação EMATUM, revelam que o executivo dirigido por Guebuza endividou-se em mais USD787 milhões, através de uma outra empresa, supostamente para despesas de equipamento de protecção marítima. Não são só os moçambicanos que são apanhados de surpresa pela revelação de mais um financiamento para um negócio já totalmente desacreditado. Os investidores que compraram os títulos de dívida do “negócio EMATUM” também foram apanhados em contrapé. Não sabiam que o país se endividou muito para lá do que lhes tinha sido inicialmente dito, escreve o WSJ. A EMATUM é uma empresa estatal, controlada em 34% pelo Instituto de Gestão das Participações do Estado (IGEPE) e em duas parcelas de 33% pela Empresa Mo- çambicana de Pescas (EMOPESCA) e Gestão de Investimentos, Participações e Serviços (GIPS), ligada aos Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE). Para a imprensa internacional que se dedica a assuntos económicos, o “caso EMATUM” expõe Moçambique como um caso de estudo. O título do estudo podia ser: “O perigo que os investidores internacionais correm na pressa pela compra de dívida de países de transparência altamente duvidosa”. A Reuters escreve mesmo que os investidores dos títulos da EMATUM não sabiam sequer que o seu dinheiro seria usado para a compra de material militar. Foi-lhes dito que o crédito se destinava inteiramente à compra de navios de pesca de atum e que se tratava de um negócio altamente lucrativo e, por isso, seguro. “Porque é que isto não foi revelado?”, reagiu, segundo a Reuters, Marcus Boeckmann, gestor de dívida de mercados emergentes na Candriam Investors Group in London, que participou na votação da proposta de renegociação da dí- vida da EMATUM sem estar a par do outro empréstimo. De igual modo, o país está mais endividado do que se pensou e os investidores não terão, em termos substantivos, maiores ganhos que o esperado, apesar de nominalmente irem arrecadar mais juros. Com a dívida já consolidada de USD1.637 milhões contraídos em 2013, Moçambique viu a sua dí- vida disparar 25% para seis biliões de dólares. Com a vertiginosa queda do metical, o serviço de dívida “Ematum gate” é pior do que se pensava agravou o ónus das obrigações do tesouro moçambicano. As duas entidades bancárias que lideraram a venda de títulos de dívida da EMATUM consideram que a má classificação que Moçambique obteve nas últimas avaliações feitas por instituições de notação financeira dá-lhes o direito de exigir o pagamento imediato de todo o empréstimo. No total, dentro do pacote financeiro associado à EMATUM, Maputo embolsou 1.637 milhões de dólares, incluindo a parcela dos USD787milhões obtida através de uma firma identificada como Proindicus. A Proindicus é detida pelo Ministério da Defesa, através da Monte Binga, uma empresa inicialmente detida em partes iguais (50%) pelo Estado e por alguns influentes generais do exército. Mais tarde a Monte Binga passou a ser detida a 100% pelo Estado, quando outros generais reclamaram fazer parte do banquete. Para além da Monte Binga, a Proindicus é participada pelos Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE). O crédito amealhado terá sido usado para a compra de navios e radares destinados à patrulha marítima. Ao que tudo indica, Maputo conseguiu a aprovação pelos credores da proposta de pagamento de 14.4% de taxas de juro até 2023, ano em que será liquidado o capital, com os dividendos que o Estado espera arrecadar da produção do Gás Natural Liquefeito. Ao abrigo do anterior acordo, os USD850 milhões da dívida da EMATUM deviam ser reembolsados num período de sete anos, com apenas dois anos de graça, a uma taxa de juros de 8.5%. Apesar de a Credit Suisse e o VTB terem escondido a existência de mais uma dívida até à aprovação da proposta de renegociação, o acordo sugerido aos investidores já contemplava o envelope financeiro que ainda não tinha sido dado a conhecer aos detentores de títulos de dívida. Nesta terça-feira, o Conselho de Ministros ratificou o acordo de reversão dos títulos da dívida comercial da EMATUM em dívida soberana detida pelo Estado. Assim, os títulos da dívida comercial da EMATUM (USD850 milhões) vão ser assumidos pelo Estado mo- çambicano. Para os doadores estrangeiros, que prestam ajuda orçamental a Mo- çambique, o aparente fracasso em divulgar a dívida adicional pode ser desestabilizadora. Enquanto os doadores estão ansiosos em apoiar os reformistas dentro da administração Nyusi, particularmente, o ministro das Finanças, Adriano Maleiane, grandes lapsos de governação e transparência, como a Proindicus poderão comprometer os desembolsos da ajuda. A bancada da Renamo, a segunda maior força parlamentar, acaba de requerer um debate na Assembleia da República e com a presença do Governo para que o Executivo de Filipe Nyusi “explique ao povo qual a real dívida pública, a viabilidade e sustentabilidade da EMATUM”. Num requerimento assinado pela chefe da bancada da Renamo, Maria Ivone Soares, e submetido nesta quarta-feira à Presidente da AR, Verónica Macamo, o maior partido da oposição lembra que, na sessão de perguntas ao Governo, o Executivo argumentou que a dívida de USD850 milhões era sustentável, o que, segundo o partido de Afonso Dhlakama, não correspondia à verdade, “uma vez que o próprio Governo envolveu-se em negocia- ções com os credores com vista a renegociar essa mesma dívida por falta de capacidade para saldá-la, visto que não houve estudo para tal projecto”. “A quantia de USD850 milhões 8m dos maiores escândalos de corrupção mundial denunciado neste domingo, por vários jornais do mundo, denominado Panama Papers, mostra a ligação de investidores a projectos previstos ou em curso nos países africanos de língua portuguesa. A investigação foi realizada por centenas de jornalistas. Foram analisados 11,5 milhões de documentos, provenientes da empresa de advogados panamiana Mossack Fonseca, especializada em gestão de capitais e patrimó- nios. Moçambique, Angola e Cabo Verde aparecem como potenciais beneficiários de actividades das empresas offshore suspeitas, mas apenas o ministro angolano de Petróleos é citado como estando ligado à empresa Mossak Fonseca, que está no centro do escândalo. A investigação realizada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (International Consortium of Investigative Journalists, ICIJ) não revela, por agora, o envolvimento de Botelho de Vasconcelos em actividades ilícitas. Os investigadores dizem ser ele o proprietário do Medea Investments Limited e de estar ligado ao Estúdio Legal Roca & Associados. De acordo com o documento, a 6 de Março de 2002, Botelho de Vasconcelos teria colocado a Medea Investments Limited no seu nome com um valor de um milhão de dólares. Em 2016, a empresa constituída inicialmente em Niue, um país- -ilha no Oceano Pacífico, foi inactivada e transferida para a Samoa. Em ambos os casos, a empresa foi transformada em acções ao “portador”, ou seja, a favor de José Botelho de Vasconcelos, o que torna mais difícil seguir os passos da mesma na óptica dos investigadores. Entretanto, os autores da investiga- ção reiteram ao longo do texto que não é ilegal ter uma empresa offshore, desde que as suas actividades sejam devidamente contabilizadas e auditadas. Num gráfico interactivo com base nos dados revelados pelo ICIJ, o jornal alemão “Süddeutsche Zeitung” e mais de uma centena de outros órgãos de comunicação social, Angola é referido como tendo um cliente do Mossak Fonseca, que se acredita ser o ministro dos Petró- leos, 10 companhias relacionadas a empresas offshore, 18 beneficiários e 40 accionistas ou “lavadores de dinheiro”, que podem ou não ser angolanos. Moçambique também aparece citado e com três clientes, mas os documentos revelados não citam qualquer nome, nem o país aparece na lista da investigação. Entretanto, no gráfico interactivo, Moçambique surge com três companhias, 10 beneficiários e 18 accionistas. Cabo Verde, cujo nome também não aparece na investigação, aparece no gráfico como tendo interesses de 27 potenciais “lavadores de dinheiro”, ou seja, accionistas de empresas com relações à Mossak Fonseca. As fontes acreditam que esses beneficiários têm interesses no arquipélago, como o caso da empresa Profile Group, do Dubai, que há anos tem previsto um resort chamado Cesária Évora na ilha cabo- -verdiana de São Vicente. Fora do continente africano, Brasil é o país mais citado, com a conhecida operação Lava Jato a ser alvo da investigação. As denúncias indicam que há 1399 empresas ligadas à Mossak Fonseca, 40 clientes, 292 beneficiários e 1656 accionistas. Por seu lado, Portugal tem 244 companhias, 23 clientes, 35 beneficiários e 255 accionistas com investimentos ligados à empresa panamenha. “Panama Papers” expõe companhias offshore e fornece detalhes das transacções financeiras ocultas de 128 políticos de todo o mundo, entre eles 12 antigos e actuais líderes mundiais. O ICIJ divulgará a lista completa das empresas e pessoas ligadas à Mossak Fonseca no início de Maio. A investigação desencadeou crises políticas em alguns pa- íses. Noutros, como Panamá, México e Espanha, foram prometidas investigações para averiguar se o uso de “offshores” foi legal ou não. Mas os Panama Papers mostram que há trabalho de casa por fazer, ainda que a fuga de informação diga respeito a 40 anos de actividade da Mossack Fonseca. Uma actividade que passou em grande parte pelas Ilhas Virgens Britânicas, onde a firma de advogados especializada na gestão de fortunas e activos offshore ajudou a criar pelo menos 113 mil empresas, em esquemas que nalguns casos ajudaram os proprietários a beneficiar de regimes fiscais mais vantajosos, mas que em muitos outros terão servido para encobrir actividades criminosas. O arquipélago, de 28 mil habitantes e 15 ilhas habitadas, é um dos 14 territórios ultramarinos que o Reino Unido herdou do Império e que, tendo optado por não se tornar independentes, estão sob soberania britânica, ainda que tendo governo e leis próprias. Boa parte deles, das ilhas Caimão às Bermudas, transformaram-se em paraísos turísticos e fiscais, destino preferido pelos dois motivos das grandes fortunas, lícitas e ilícitas. (SAVANA e agências internacionais) Moçambique e Panama Papers.
TEMA DA SEMANA Savana 08-04-2016 5 PUBLICIDADE 6 Savana 08-04-2016 SOCIEDADE Uma auditoria levada a cabo pelo Tribunal Administrativo (TA), o auditor das contas do Estado, revela uma gritante falta de observância das regras na Empresa de Desenvolvimento de Maputo Sul (EDMS), a firma responsável pela construção da Circular de Maputo e da Ponte de Katambe. A Autoridade Tributária (AT) e a Direcção provincial das Obras Públicas na Zambézia também foram encontrados na teia dos que gastam milhões sem observar do estipulado na legislação em vigor. As constatações do TA vêm expressas no Relatório sobre a Conta Geral do Estado (CGE) 2014 que ainda deverá ser alvo de debate na II Sessão da VII legislatura da Assembleia da República que está em curso. O Parlamento havia agendando para hoje e dia 11 do corrente mês do debate da CGE, mas a pedido da Renamo a discussão do documento foi adiado para a II parte da III Sessão que começa a 15 de Junho. O pedido da Renamo, segundo uma nota enviada à nossa Redacção pela Comissão Permanente da Assembleia da República, visa dar tempo aos deputados para se inteirarem ainda mais sobre o documento, que promete acalorados debates na chamada Casa do Povo. Maputo Sul Segundo o TA, o contrato para a construção da circular de Maputo, que se encontra na fase final, foi executado sem o visto do Tribunal, o que constitui uma infracção financeira prevista na alínea b) do nº1 do artigo 93 da lei nº26/2009, de 29 de Setembro. O contrato foi de 315.1 milhões de dólares celebrada entre a Administração Nacional de Estradas (ANE) e a empresa China Road and Bridge Corporation (CRBC). “No âmbito do mesmo contrato foi adiantado um valor de dois milhões de dólares, equivalente a 61.7 milhões de meticais, por meio de um acordo de gestão, entre as duas empresas, e não através de uma adenda, como estatui a alínea b) do nº1 do artigo 54 do regulamento antes cintado (regulamento de contrataVários milhões de dólares aplicados à margem das regras Pontapés à lei na Maputo Sul -Autoridade Tributária e Direcção provincial das Obras Públicas na Zambézia na lista dos prevaricadores ção pública)”, lamenta o TA. Outro contrato que foi executado sem o visto do TA é o da constru- ção da chamada ponte Katembe. O contrato com a empresa chinesa CRBC foi de 725.80 milhões de dólares e está em execução desde Junho de 2011. No entanto, houve um outro contrato rubricado com a empresa Betar Consultores, no valor de 23,28 milhões de dólares, visado pelo TA, após o pagamento de 11.9 milhões de dólares. Contudo, este contrato foi cancelado em Junho de 2014, porque, segundo a carta de referência nº486/EDMS/CA/2014, de 10 de Junho, “os serviços objecto deste (contrato) estão cobertos pelo contrato EPC assinado entre a Maputo Sul e a CBRC”. Mas, após o cancelamento do contrato, os auditores do TA constataram que foram ainda pagos USD2.8 milhões. O Fórum de Monitoria do Orçamento (FMO), que também analisou estes números, insta a Procuradoria Geral da República e o Gabinete Central de Combate à Corrupção (GCCC) a investigarem o caso. Autoridade Tributária Sobre a Autoridade Tributária, o TA faz notar que esta instituição efectuou a fiscalização directa de dez obras no valor de 29.6 milhões de meticais, uma operação que contraria o preceituado no nº2 do artigo 48 do regulamento de contratação pública, segundo a qual a fiscalização directa só poderá ser efectuada nos casos de contratação de empreitadas de obras de pequena dimensão, o que não é o caso. “São de pequena dimensão as obras cuja estimativa de preço seja inferior a 15% do limite estabelecido nos termos dos nºs 2 e 3 do artigo 90 (3.5 milhões), o que corresponde a 525 mil meticais”, sublinha o TA. A direcção provincial das Obras públicas e Habitação na Zambézia também não ficou atrás no atropelo à lei. Adiantou um pagamento cerca de seis milhões de meticais a um empreiteiro, referente a um contrato de 15.6 milhões de meticais, sem a prestação da “correspondente garantia”. Segundo o TA, a direc- ção provincial das Obras públicas e Habitação na Zambézia violou o regulamento da contratação pública que veda o pagamento de adiantamentos sem apresentação de uma garantia. Ainda na direcção provincial das Obras públicas e Habitação na Zambézia, o TA afirma que não foram prestadas garantias provisórias e definitivas, nos processos de três contratos, no valor de 54.7 milhões de meticais. (Redacção) Ponte da Katembe Savana 08-04-2016 7 PUBLICIDADE 8 Savana 08-04-2016 PUBLICIDADE Savana 08-04-2016 9 PUBLICIDADE SOCIEDADE 10 Savana 08-04-2016 SOCIEDADE SOCIEDADE Perdeu a vida na madrugada da quarta-feira, 06, numa das clínicas privadas da cidade da Beira, capital provincial de Sofala, Dom Jaime Pedro Gonçalves, arcebispo emérito da Diocese da Beira. Afectuosamente tratado por Dom Jaime, morreu aos 78 anos de idade vítima de doença, de que padecia há mais de quatro anos. Nascido a 26 de Novembro de 1938, no distrito de Buzi, província de Sofala, Dom Jaime foi consagrado Bispo diocesano da Beira em 1976, para oito anos depois, isto é, em 1984, ser promovido a arcebispo da Beira, função que exerceu até 2012. Foi como arcebispo da Beira que Dom Jaime, para além de pregar a palavra de Deus, dedicou as suas forças à busca da paz para o seu país. Na luta pela paz, Dom Jaime Gon- çalves, na companhia de Dom Alexandre dos Santos, arcebispo de Maputo, desafiou Samora Machel, em 1982, e disse ao então estadista moçambicano que a única forma de alcançar a paz era através de negociações com a Renamo. Nas suas memórias publicadas no livro: “A paz dos Moçambicanos”, Dom Jaime lembra que a abordagem irritou Samora Machel, levando o estadista a afirmar que os bispos católicos queriam que o Governo se entendesse com os bandidos armados. No livro, Dom Jaime conta que, por causa do seu “atrevimento”, Samora Machel acusou a Igreja Católica de tentar obrigar o Governo a negociar com “assassinos, ladrões, marginais, raptores, drogados e anti-sociais, vendilhões da pátria e inimigos implacáveis do povo moçambicano”. Machel encerrou o encontro acusando a Igreja Católica de ser anti-patriota. Por causa da sua persistência pela pacificação de Moçambique, Dom Jaime Gonçalves e outros bispos católicos foram submetidos a interrogatórios pelo então ministro de Informação, José Cabaço, alegadamente porque a Igreja Católica estava a igualar o Governo aos bandidos armados, quando nas suas cartas pastorais referia que a paz que o povo quer depende da Frelimo e da Renamo. Mesmo perante estas adversidades e o risco de ser declarado persona non grata e ser acusado de colaborar com a Renamo pelo Governo, Dom Jaime não desistiu de aproximar as partes ora em conflito. Sem aval do Governo, Dom Jaime procurou formas de estabelecer uma linha de diálogo com a Renamo. Para tal, era preciso encontrar um interlocutor válido da parte da Renamo, o que se mostrou tarefa bastante complicada. Foram necessárias várias viagens Jaime Gonçalves: 1938 – 2016 Um Dom pela paz Por Raul Senda para diversas capitais africanas, europeias e até aos Estados Unidos da América. Na sua obra, Dom Jaime conta que, depois de vários contactos, recebeu a confirmação, a partir da Alemanha, de que podia encontrar-se com Afonso Dhlakama, no dia 03 de Junho de 1988, na cidade de Lubumbashi, província de Katanga, República Democrática de Congo. Mesmo sem saber o que encontraria pela frente, Dom Jaime empreendeu a arriscada viagem, onde horas depois, em pleno voo, veio a saber que o encontro não seria no ex-Zaire, mas dentro do território moçambicano. A avioneta que levou Dom Jaime ao encontro com Dhlakama aterrou cerca das 18:00 horas daquela data no meio de uma floresta densa e com luzes apagadas, numa pista de aterragem iluminada por lanternas. Materializado o encontro com Dhlakama, o desafio era fazer chegar a informação ao Presidente Joaquim Chissano, já que o mesmo foi à revelia do Governo. Dom Jaime temia que pudesse ser preso ou morto acusado de colaboração com o inimigo de então. Contudo, em nome da paz e do sofrimento do povo moçambicano, Dom Jaime reuniu-se com Dom Alexandre dos Santos, ganharam coragem e foram ao encontro do Presidente Chissano para informá- -lo sobre o sucedido. Para a satisfação dos dois líderes religiosos, Joaquim Chissano foi receptivo e de imediato iniciaram- -se contactos que desaguaram nas negociações de Roma que, por sua vez, culminaram com os acordos de paz, assinados a 04 de Outubro de 1992. Perda irreparável A morte de Dom Jaime deixou vá- rias esferas da sociedade moçambicana consternadas. O Presidente da República, Filipe Nyusi, lamentou a morte de Dom Jaime, considerando que o país perdeu um dos seus compatriotas que muito fez “para vivermos em paz”. Para o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, o país perdeu um grande irmão na medida em que, Dom Jaime Gonçalves, para além de ser uma pessoa dedicada a igreja, também dedicou a sua vida e carisma para a pacificação de Mo- çambique. Sublinha que, em representação da Igreja Católica, Dom Jaime teve um papel fundamental na constru- ção da democracia em Moçambique. Dhlakama destacou a deslocação que o prelado fez à base central da Renamo, em 1988, nas matas de Maríngwe, no auge da guerra civil, para lhe persuadir a pautar pelo di- álogo para a resolução do conflito armado, que por aquelas alturas tinha deixado o país de rastos. Nesse encontro, conta Dhlakama, o arcebispo lhe transmitiu o sentimento e sofrimento dos moçambicanos por causa da guerra a enalteceu a importância de diálogo, facto que foi prontamente aceite pelo líder da Renamo. Dhlakama também destacou os dois anos e meio que Dom Jaime Gonçalves viveu em Roma, em representação da Igreja Católica, durante as negociações do Acordo Geral de Paz. Lembrou que conheceu o arcebispo da Beira, antes de se filiar ao movimento armado, Renamo, em 1976, nas primeiras missas realizadas pelo Bispo na cidade da Beira. Termina o seu depoimento referindo que Dom Jaime foi um conselheiro da Renamo e da Frelimo e com o seu desaparecimento físico a Igreja Católica tem o desafio de encontrar uma figura pacificadora do nível das suas habilidades para dar prosseguimento a causa da luita pela paz. Raul Domingos, o chefe da delegação da Renamo nas negociações de Roma, recorda que viveu vários momentos com Dom Jaime. Estiveram juntos em Roma, durante as negociações de paz e guarda do religioso a memória de uma pessoa comprometida com a pacificação do país. Para Raul Domingos, a sua morte deixa um grande vazio na sociedade moçambicana e na Igreja Cató- lica. “Foi com muita tristeza que recebi a notícia da morte de Dom Jaime, um conciliador, aconselhador, pai e irmão”, lamentou o chefe da delegação da Renamo nas negociações de paz em Roma. Para Raul Domingos, o processo de paz consistiu basicamente na busca de confiança entre as partes, um requisito que muitas vezes faltava, mas que o religioso se empenhou em promover. Graças à intervenção de Dom Jaime Gonçalves, foi possível que os negociadores conseguissem ultrapassar muitos pontos de discórdia e avançar para a paz, lembra Domingos. Conta que foi Dom Jaime Gon- çalves que, nos momentos mais difíceis e em plena guerra, ganhou coragem e desafiou o regime da Frelimo, advertindo para a necessidade do diálogo como a única via para se alcançar o entendimento entre irmãos desavindos. Ao mesmo tempo, penetrou nas matas da Gorongosa e Marínguè, à noite, à procura de Afonso Dhlakama para falar-lhe da necessidade do diálogo, visando pôr fim ao conflito armado. “Graças à capacidade de persuasão de Dom Jaime, quer o governo da Frelimo, quer a Renamo acataram o seu apelo, sentaram-se à volta da mesma mesa e negociaram para o fim da guerra que durava há 16 anos em Moçambique”, assinala o político. Para Raul Domingos, “calou-se uma voz que sempre se preocupou com a paz”. Raul Domingos disse que quando deixou a cidade da Beira, Sofala, em 1980, com 22 anos, para integrar a Renamo, já ouvia falar de Dom Jaime. Porém, só em 1990, em Roma, é que teve contacto com o arcebispo. Recorda que foi um momento emocionante na medida em que, a partir daquele encontro, conseguiu a primeira comunicação com os pais, que não se materializava há mais de 10 anos. “Nesse encontro, pedi-lhe para informar os meus pais que eu estava vivo, mandei cartas e minhas fotografias. O bispo levou o recado e procurou os meus pais na igreja onde rezavam. No seu regresso à Roma, trouxe notícias dos meus pais e isso marcou-me bastante”, disse. Para António Muchanga, porta- -voz da Renamo, a morte de Dom Jaime representa uma grande perda para a sociedade moçambicana, na medida em que, em vida, o arcebispo foi sempre uma grande fonte de inspiração. Ao longo da sua vida, Dom Jaime sempre soube servir a sociedade e Deus e, como mediador, cumpriu o seu papel na íntegra até Moçambique alcançar a paz, depois de 16 anos de guerra. “Foi com muita tristeza que recebemos a notícia da sua morte. Acreditávamos que, apesar da sua idade, Dom Jaime podia ainda despender as suas energias e dar o seu apoio de forma directa ou indirecta, para o restabelecimento do processo de paz”, disse. Muchanga lamentou o facto de o arcebispo ter perdido a vida antes de o Governo responder à petição da Renamo para o envolvimento da Igreja Católica na mediação do conflito. O reverendo Marcos Macamo, presidente do Conselho Cristão de Moçambique, diz que, em vida, Dom Jaime Gonçalves foi uma figura que sempre ensinou a sociedade a fazer e a conviver com a paz. Sublinha que Dom Jaime dedicou grande parte do seu tempo, nas últimas décadas, à busca de uma paz efectiva para o país, pelo que o seu legado deverá ser imortalizado. “A melhor forma de imortalizar este grande homem é pegar nos seus ensinamentos, nas causas das suas lutas e transformá-las em realidade prática”, disse. Lutero Simango, chefe da Bancada Parlamentar da Renamo, entende que os moçambicanos devem saber valorizar o legado de Dom Jaime. Uma das formas de fazer valer a sua herança é não calar e continuar a lutar contra as injustiças. Uma delas é impedir que os moçambicanos peguem em armas para matar outros moçambicanos. Para Simango, Dom Jaime não se calava perante o desrespeito pelos outros, sempre lutou pela justiça e a essa luta juntou a palavra de Deus. “A forma de ser e de estar de Dom Jaime em vida deixou claro que não nos podemos manter constantemente no silêncio, porque o silêncio mata”, observou o político. Dom Jaime Savana 08-04-2016 11 PUBLICIDADE SOCIEDADE 12 Savana 08-04-2016 SOCIEDADE Acidade da Beira reformulou 900 nomes, a maioria coloniais e ligados à luta de libertação nacional, com uma nova toponímia que reescreve a história da segunda maior cidade de Mo- çambique, atribuindo nomes de avenidas gigantes da cidade ao ex- -chefe de Estado, Joaquim Chissano, ao líder da Renamo, Afonso Dhlakama, e ao próprio presidente da autarquia, Daviz Simango. Com votos a favor da maioria do Movimento Democrático de Mo- çambique (MDM, 30 membros da Assembleia Municipal), a lista integra ainda figuras como Uria Simango, pai do líder da autarquia e fuzilado em 1979 por alegada traição à Frelimo de que foi fundador, o ex-número dois da Renamo e negociador do Acordo Geral de Paz, Raul Domingos, assim como o constitucionalista franco- -moçambicano Gilles Cistac, assassinado por desconhecidos em Maputo, em 2015. Afonso Dhlakama ganhou a EN6, desde o Maquinino até Inhamizua, governando assim a principal entrada da cidade da Beira, que passa agora a ostentar o seu nome. Já Joaquim Chissano, antigo Presidente de Moçambique, e Nelson Mandela, primeiro Presidente da África do Sul pós-apartheid, vão, de acordo com a proposta, figurar nas principais avenidas do coração da cidade da Beira. Segundo a proposta, que terá ainda de passar pela Assembleia provincial e depois ao Conselho de Ministros, antes de seguir para a administração estatal, constam da nova lista de nomes para avenidas e ruas da Beira Alberto Chipande (conhecido como o “autor do primeiro tiro” contra o colonialismo português), Graça Machel (activista e viúva do primeiro Presidente moçambicano, Samora Machel, e também de Mandela). A lista inclui ainda Lurdes Mutola (campeão olímpica), Chiquinho Conde (ex-futebolista), Josina Machel (heroína nacional), Carlos Cardoso (jornalista assassinado em Maputo em 2000), padre Mateus Guendjere, David Mazembe, Sebastião Mabote, Marcelino dos Santos (histórico fundador da Frelimo), Joana Simeão, Filipe Magaia, Feliciano Gundana, Papa João Paulo II (que realizou uma visita histórica à Beira), também a presidente da Liga dos Direitos Humanos, Alice Mabota, entre outros. Alguns nomes aprovados na nova toponímia da Beira não são consensuais para a Frelimo (partido minoritário na Beira, 16 membros), que classifica o processo de uma afronta “à atmosfera política do país”, adiantando que o país tem nomes de qualidade na arena política, desportiva, cultural, jornalística e de produção afastados. Chissano, Dhlakama e Daviz entram para nova toponímia MDM reescreve história da Beira Por André Catueira, na Beira Enquanto o governo e a Renamo ainda debatem sobre a eliminação ou não das pré-condições para dialogarem e restabelecerem a paz e a estabilidade no país, o som das armas vai falando mais alto e ceifando milhares de vidas a cada dia. Isidio Júlio Bila, jovem formado em Jornalismo, que decidiu abraçar a carreira militar, é uma das vítimas mais recentes desse conflito, cuja morte foi alvo de muitos comentá- rios nas redes sociais, desde o passado sábado. A comunidade católica de Josefina Bakhita, localizada no bairro de Malhazine, foi pequena demais para acolher na quarta-feira, 06, familiares, amigos e colegas, que foram dar o último adeus a Isidio Bila. Segundo fontes familiares, Bila perdeu a vida na passada quarta- -feira, 30 de Março, depois de ter saído gravemente ferido numa emboscada que os militares da Renamo infligiram às Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) na terça-feira passada, 29 de Março. Conta ainda a família que a equipa das FADM seguia viagem rumo a Satunjira, Gorongosa, quando, no meio do percurso, foi surpreendida por um ataque dos homens da Renamo. No local, houve mortes e feridos, dos quais uma parte veio também a morrer já no leito hospitalar. A informação da morte do seu ente-querido chegou na noite da Isidio Bila: mais uma vítima de uma guerra absurda Por Argunaldo Nhampossa passada quarta-feira, 30 de Março. Um oficial das FADM dirigiu-se à família para apresentar os pêsames em nome do Governo e falar dos passos subsequentes para a realiza- ção das exéquias fúnebres. Na ocasião, a família do malogrado diz que o oficial das FADM falou de terem tombado oito elementos das tropas governamentais juntamente com Isidio. Mas, dias depois, a família contactou um colega do malogrado, que, por sinal, saiu vivo da emboscada, que falou de duas dezenas de soldados das FADM que perderam a vida. Na passada sexta-feira, a Voz da América e a Deutsche Welle falavam nos seus noticiários de fortes ataques à Serra da Gorongosa, com artilharia pesada. Esta terça-feira, a capital do país registou um movimento desusado de ambulâncias acompanhadas por viaturas da PRM que, de acordo com as nossas fontes, transportavam alguns militares tombados naquela batalha, cujos corpos estavam a ser entregues às respectivas famí- lias, para as exéquias fúnebres. Morte prematura Isidio Bila formou-se em Jornalismo pela Escola Superior de Jornalismo. Em Maio de 2015. Voluntariamente, foi incorporado no Serviço Militar Obrigatório (SMO), no Centro de formação de Munguine, no distrito da Manhiça, província de Maputo com o intuito de defender a pátria. Em Outubro do mesmo ano, concluiu a formação e depois de ter testemunhado o nascimento do seu filho, que hoje conta com quatro meses, foi chamado para reforçar a equipa das FADM no centro do país, donde volta, agora, numa urna, semeando dor e luto na família. Como ilustra o seu trajecto, Bila ainda não tinha experiência como combatente, mas lá foi colocado para enfrentar militares que há mais 20 anos premem o gatilho e com alto domínio daquelas matas. Na mesma proporção que a imprensa vai relatando as mortes nesta confrontação, vozes governamentais não cessam de dizer que “saudamos efusivamente o trabalho das FDS”. A última aparição de Bila nas redes sociais foi a 23 de Março, depois de ter postado uma foto na sua conta do Facebook, onde aparece com uniforme das FADM, empunhando uma AKM, e num dos comentários dizia “garantindo tranquilidade em Muxúnguè”. Perante a ovação e espanto dos seus amigos que não sabiam que enveredou pela carreira militar, o finado responde ainda a outro comentário dizendo: “cada um de nós tem o dever de dar um pouco de si com vista à preservação e manutenção da paz... faça a sua parte que eu já faço a minha”. E foi nessa missão que nunca mais voltou e deixou vi- úva e um filho. Durante a missa do seu velório, na comunidade católica Josefina Bakhita de Malhazine, o padre João Aruna disse que, aos olhos de Deus, todos os Homens são irmãos, mas as ambições dos dirigentes fazem com que se tornem inimigos. “A morte de Isidio resulta duma guerra não declarada. Resulta da arrogância dos dirigentes que ainda não enxergaram a luz que os chama para dialogar”, disse. O sacerdote recordou que o país viveu 16 anos de guerra, que gerou muitos órfãos e hoje ninguém mais esperava que retornasse, porque ainda há muitas feridas por sarar. “A guerra não resolve nada, pelo contrário, gera brutalidade numa clara caminhada em contra mão em relação aos anseios do povo, que são a paz e desenvolvimento”, destacou. Para além da formação em Jornalismo e da sua carreira militar, Isidio Bila foi um jovem muito dedicado à igreja, onde colaborou na criação de um boletim informativo paroquial, catequista entre outras actividades. Na mensagem da família, esta suplicou a Deus para iluminar a viúva, o filho que tem o longo caminho por percorrer nesta vida. Falou das boas acções do finado e apelou ao governo para que encontre caminhos rumo à paz para evitar mais mortes desnecessárias. Familiares prestam última homenagem a Isidio Bila “Garantindo tranquilidade em Muxúguè” comentou Isidio no seu facebook Savana 08-04-2016 13 PUBLICIDADE SOCIEDADE Plan International, Inc é uma organização humanitária orientada para o desenvolvimento comunitário centrado na criança, sem afiliações religiosas, políticas ou governamentais. A visão da Plan é de um mundo em que todas as crianças alcançam o seu potencial pleno nas sociedades que respeitam os direitos e dignidades das pessoas. A Plan é uma organização de igualdade de oportunidades de emprego e pretende recrutar para o seu quadro de pessoal, as seguintes posições: 1. Gestor(a) da Unidade de Programas Nº de Vagas: 2, Local: Inhambane e Nampula Tarefas:Todos candidatos devem ter elevado cometimento com os Direitos e Protecção da Criança assim como com a Igualidade do Gênero. ENCORAJA-SE A CANDIDATURA DE MULHERES e PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA: Candidatos com perfil adequado, estão convidados a enviar os seus CV’s acompanhados por uma carta de candidatura com indicação de três referências, para plan@eprecruitafrica.com até ao dia 20 de Abril de 2016. Consulte outras vagas na Plan no site 1118 *, ,/#. ,# 8 )' . Nota: Todas candidaturas a serem enviadas para o endereço electrónico, devem mencionar no assunto (Subject) do email o nome da posição, caso contrário a candidatura não será considerada. ANÚNCIO DE VAGAS 14 Savana 08-04-2016 Savana 08-04-2016 15 NO CENTRO DO FURACÃO Continua na Pág. Seguinte Em Moçambique as opiniões sobre o racismo e as marcas do tempo colonial podem mudar de acordo com a geração, de acordo com quem viveu o apartheid e quem nasceu depois da independência. “Podemos dizer que fomos colonizados por um país periférico — e isso dá uma mentalidade periférica”. Relações improváveis Ickx Kwizera é fruto de uma “relação improvável” no seu país. O pai era ruandês, tutsi, que em 1976 foi para Moçambique trabalhar com os movimentos de libertação africana. Foi convidado pela Frelimo para ajudar no processo pós-colonial. A mãe é de origem goesa, emigrou com os pais para Moçambique quando era nova e o facto de ter casado com um negro “foi uma coisa altamente improvável para a família e para a sociedade” na altura, explica o filho.  Ickx usa muitas vezes palavras e expressões em inglês, cresceu num ambiente internacional. “Não tenho as feições do mulato. Pareço mais somali, etíope. Às vezes existe aquele olhar, mas eu não ligo. As pessoas não pensam que tenho um pai negro. Então é engraçado a perspectiva de como lidam contigo em relação a raças.” Ouviu muitas vezes palavras de espanto por a mãe se ter casado com um negro. Ouviu também chamarem-lhe “monhé” quando era miúdo. Hoje é comum ouvir na rua que quem é indiano tem mais dinheiro, porque há vários moçambicanos de origem indiana nos negócios — e houve até uma onda de raptos recente que atingiu estas comunidades. A sala de jantar e de estar da casa de Ickx está cheia de fotografias. É um apartamento no centro de Maputo, numa das avenidas mais movimentadas e cobiçadas pelos grandes negó- cios. A empregada traz para a mesa o almoço. Ele vai mostrando as fotos antigas, passando os álbuns, apontando para as molduras. Numa delas aparece com a irmã na Avenida Julius Nyerere, a zona que tem as casas mais luxuosas, hotéis, embaixadas e onde fica o famoso Hotel Polana. “Os meus pais sempre me levavam ao Polana ao fim do dia quando iam beber o seu drink. Aqui estou eu a aprender a nadar.” Aos 28 anos, este relações públicas tem imensas actividades, além de organizar eventos como festivais, fazer traduções ou aluguer de casas turísticas. A sua empresa chama-se Yes — Young Entrepeneurial Solutions. Ele circula entre a classe média-alta. Há uns anos, essa mesma classe média-alta estava mais interessada em usar marcas internacionais, nota. Hoje, depois de alguns desfiles de moda e até algumas lojas internacionais comercializarem roupa com tecidos africanos, o imaginário afro passou a estar na moda, disso ele não tem dúvidas.  Num festival de música que organizou em Maio, estava a designer criativa e activista cultural Witnei Alda Chamusso. Ela tenta, com o seu trabalho na empresa Wumburi, “promover e empoderar a cultura moçambicana através da arte”, através do design de roupa, através da poesia e da literatura.  São estes temas que explora, um pouco para divulgar e espalhar a informação sobre a cultura moçambicana, que “corre o risco de se perder”. Ela é uma jovem que usa tecidos de capulanas para desenhar saias com cortes modernos ou para os enrolar na cabeça como turbantes, de forma tradicional. Já foi entrevistada pela CNN por causa do projecto Wumburi. “Vejo que os mais velhos ficam muito felizes (com a recuperação que faço da cultura tradicional), porque isto foi algo que se perdeu muito. Do lado dos jovens, também houve uma recepção positiva, mas há outros que dizem: ‘Estamos a tentar seguir a globalização e queres levar-nos de volta para aquilo que a gente passava há muito tempo’.” Witnei Alda Chamusso e Eliana Nzualo são fundadoras da Wumburi, que visa “promover e empoderar a cultura moçambicana através da arte” No fundo há uma geração que, mesmo sendo jovem, continua com determinados preconceitos sobre a cultura africana e o que ela representa, atribuemlhe conotação negativa. Witnei viveu em Tóquio, viveu na África do Sul e foi quando se afastou de Moçambique que descobriu “que não sabia muito” da sua cultura. A Wumburi é também fundada pela amiga Eliana Nzualo (n.1991), escritora que trabalha numa empresa de comunicação. “Em geral temos muitas referências ocidentais naquilo que é a arte, o belo”, comenta Eliana Nzualo na FEIMA, a Feira de Artesanato de Maputo — é um parque onde vários feirantes têm produtos tipicamente moçambicanos à venda, de capulanas a cestos ou chapéus e sacos de verga; há quem os pendure nas árvores, criando uma imagem onírica com os padrões africanos dos tecidos estampados nas malas de palha suspensas. De cabelo muito curto e pintado de loiro, Eliana Nzualo faz parte de uma geração de moçambicanos que estudou fora, viajou, traz influências cosmopolitas, tem informação sobre o que era o colonialismo e consciência do que significou para as relações raciais. Moçambique é um país jovem, em que 65% dos 25 milhões de habitantes têm menos de 25 anos e 45%, menos de 15 anos. “Tento usar o turbante duas, três vezes por semana. Temos o turbante para grandes cerimónias, é raro as pessoas usarem-no a uma segunda-feira. Queremos tornar isso algo normal. E aprender a usá-lo sempre.”  Quando vai ter com os clientes de turbante, eles adoram, conta. É certo que a área de marketing e publicidade é mais aberta, mas Eliana nota que aos poucos há um renascimento do que é africano. Vai também crescendo o “afropolitan”, ou seja, o cruzamento entre o afro e o cosmopolita ocidental que se nota fortemente em algumas zonas de Maputo. Ambas consideram que existem tensões raciais em Moçambique. Witnei lembra um episódio num chapa (carrinha de transporte público onde raramente os brancos entram) em que um negro estava sentado, entrou um branco e pediram ao negro para ele se levantar. A discriminação nota-se em várias coisas: “Vais a um restaurante e põem o preto à espera, porque o preto não tem a cultura de reclamar. Isso vem do tempo do colonialismo, em que a gente tinha de aceitar o pouco que nos era dado: se reclamasse, estava a reclamar de algo que muitos outros não tinham.”  Para Eliana, existe “alguma tensão” racial, que “não é gritante, mas há muitas microagressões na forma como lidamos com raça”. Explica: “Há uma sobreposição ao nível das classes. Há uma classe dominante que fica com certo poder. É muito raro ver uma pessoa branca que trabalha para uma pessoa negra. Então cria-se a ideia de que o branco é rico, tem dinheiro, come de garfo e faca.” As microagressões passam por coisas como o facto de amigos de Eliana se espantarem por ela ter uma cozinheira mestiça (“quanto mais claro, maior o poder”).  Ela que trabalha com arte já viu muita gente fazer preços diferentes para brancos e negros, partindo do princípio que “os negros não sabem o que é arte” e o branco “tem dinheiro”. Situações idênticas têm dado origem a críticas de racismo de brancos para negros, um conceito com o qual, de resto, Eliana discorda porque “não existe racismo de uma pessoa negra para uma pessoa branca”, defende. “Racismo é algo institucionalizado. O branco continua a ter poder. A discriminação que uma pessoa negra sofre é todos os dias, em quase todas as esferas da sua vida. A discriminação que um branco pode sofrer é um episódio isolado de um único dia ou de um local específico — mas o branco continua a ser a norma, continua a ser a referência a nível de beleza, de estilo de vida porque fala uma língua ocidental, tem mais capacidade de viajar e um passaporte que o leva a mais lugares do que o meu passaporte”.  Foi quando saiu de Moçambique que Eliana percebeu “que era preta”. Já tinha tido amigos na escola portuguesa cujos pais não gostavam que as filhas namorassem com negros ou colegas que faziam comentários racistas. Mas só mais tarde, quando cresceu, é que tomou consciência de que tinha sido racismo o pai de uma amiga ter dito “que os pretos só eram giros quando nasciam”.  Depois começou a trabalhar e deuse conta de que posições de liderança eram reservadas a pessoas brancas. Experienciou mais episódios de “microagressões”, conta. “No meu antigo local de trabalho, pedi demissão sabendo que queria agarrar outra oportunidade. E o chefe disse: ‘Sabes que é muito difícil para nós encontrar quadros moçambicanos de qualidade como tu.’ Para ele, aquilo era um elogio. Mas eu senti-me ofendida porque na cabeça dele não existem moçambicanos com capacidade.” E nota as diferenciações em outras áreas, como a literatura. Acha, por exemplo, que Paulina Chiziane, “uma grande escritora moçambicana que usa as histórias típicas moçambicanas, é posta de lado face a alguns escritores brancos”. Isto porque ainda “é mais fácil digerir uma história africana escrita por um branco, como Pepetela ou Mia Couto, do que uma história negra escrita por um negro”.  Trata-se de algo que reflecte “uma certa preguiça de perceber o que é o colonialismo e do que significa ser colonizado”. No fundo, “a independ- ência não se dá de um dia para o outro” e Moçambique ainda está a viver esse processo. “São centenas de anos em que fomos treinados a pensar de certa forma.”  Diferenças geracionais Ela é da geração que não viveu o colonialismo mas tem “as cicatrizes desse tempo”. Eliana sabe que a experiência de racismo da geração mais velha “é muito mais forte” do que a dela e também é mais “a preto e branco”. Para eles, nesse tempo, havia “um racismo visível, evidente”. Havia segregação, havia até um bairro que se chamava “indígena” (e que ainda hoje é referido assim). “Claro que percebo que para uma pessoa nos seus 50 e muitos anos o racismo já não é um problema.” A geração de Eliana vê sinais discriminatórios que pessoas de uma outra geração encaram como menos pesados. Epifânia Langa (n. 1992), economista, não tem dúvidas de que a herança colonial é forte em Moçambique. “Podemos não ter vivido, mas os nossos pais carregam dentro deles essa realidade.”  Epifânia acredita que o racismo é sentido de maneira diferente entre os mais novos “porque as expectativas são diferentes”, sublinha. “As expectativas de tratamento da minha mãe em relação a um português vão ser relativamente menores porque ela tem ideia do que é o sofrimento, aquela discriminação forte que existia na altura de não se poder sentar numa mesa de um restaurante, de não poder entrar numa loja. Nós, da nova geração, temos expectativas muito maiores. A pessoa mais velha não vai questionar o seu salário, enquanto o jovem vai. A expectativa da geração mais nova é ganhar muito mais espaço do que tem agora.”   Até aos anos 2000, o patronato era sobretudo branco, analisa a jovem economista, e ainda hoje é sobretudo assim. “A emergência de um patronato moçambicano é recente. A imagem do patronato que carregamos no nosso inconsciente é de uma pessoa branca, e o respeito é maior quando ele é branco porque se impõe como tal. Do lado de portugueses, ainda acontece aquele pensamento de que existe uma raça que é superior — não conseguem perceber que um moçambicano pode gerir uma loja, não ser só servente. É uma luta que está a ser travada e a pouco e pouco a situação há-de melhorar. Então existe racismo. Mas está a ser cada vez mais reprimido porque a nova geração tem uma maneira de pensar diferente, entende o seu lugar, o seu papel como moçambicano.”  Transformar diferença em defeito “Racismo é negar que o outro seja diferente e transformar a diferença em defeito: ser negro é um defeito, é ser inferior”, comenta Francisco Noa, doutorado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa com a tese Literatura Colonial. Representação e Legitimação — Moçambique como Invenção Literária. Com grande convicção nas suas opiniões, o também reitor continua: “É como se o negro fosse obrigado a abdicar da sua condição. É por isso que tivemos a assimilação.”  Francisco Noa acha que a questão racial tem sido um tabu em Moçambique e “quando emerge é imediatamente abafada como se fosse algo politicamente incorrecto”, nota. “O colonialismo português também foi um pouco puritano ao se considerar não racista e isso acabou por dar azo ao luso-tropicalismo.” Porém, não tem dúvidas sobre o seu carácter racista, algo que até está impresso na obra de grandes intelectuais do século XIX: “Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, o próprio Eça de Queirós tiveram discursos racistas em relação a África e isso está documentado”, sublinha.  O discurso de Salazar era quase sempre paternalista, indo buscar as teorias do luso-tropicalismo “para branquear e adocicar o racismo”. O exemplo que essas teorias vão buscar é do mestiço, mas como nota Francisco Noa “muitas dessas relações não eram normais, eram relações absolutamente espúrias”. Ao reitor assusta que em Portugal muitas vezes o discurso resvale para o facto de o colonialismo português ser mais suave, “o que não é verdade”. “Havia um racismo institucionalizado. A questão racial ficou congelada.” E permanece mesmo que de forma subconsciente, aparecendo nos momentos de conflitos sócio-económicos, políticos. No entanto, apesar de tudo, os mecanismos de regulação estão activos e impedem que se façam determinados comentários. Mas impera aquilo que Noa chama “uma atitude defensiva”. “Quando se toca na questão racial, imediatamente surgem mecanismos sublimatórios e de negação, porque é uma situação incómoda. Mas acaba por ser algo absolutamente traiçoeiro, porque foi esse o discurso que o colonialismo usou: ‘Não somos racistas, temos um bom colonialismo.’ E nós herdámos isto.” Ou seja, apesar da grande diversidade racial, étnica, cultural, linguística que existe em Moçambique, há “uma conspiração do silêncio, como diz o [teórico do pós-colonialismo indiano] Homi Bhabha”. “As pessoas não estão habituadas a falar destas coisas sem ser de forma maniqueísta”, critica. “A situação colonial criou claramente uma vantagem para os brancos. Agora não posso dizer que a sociedade moçambicana é racista. Mas, por causa dessas situações que transitaram sem terem sido processadas, ficaram numa zona que é um limbo. E em determinados momentos de conflitos a questão racial aparece como álibi.” Os problemas de racismo não se resolvem apenas com vontades políticas, são precisos alguns anos, lembra Teresa Cruz e Silva (n. 1951). “Na história de Moçambique, há uma relação entre raça e classe, que depois é transferida para a própria independência”, analisa a directora do Centro de Estudos Africanos da UEM. “Quando entrei para a universidade, havia falta de professores e de estudantes — contava-se pelas mãos o número de estudantes negros.” É fim de dia e começa o horário póslaboral. O campus é amplo, anda-se de carro lá dentro para ir de um departamento a outro. Há espaços verdes entre os edifícios baixos e muitos jovens em grupinhos. A terra vermelha lembranos que estamos em Moçambique. Na altura, antes de 1975, era normal Teresa Cruz e Silva não ver alunos negros na universidade: a taxa de analfabetismo em Moçambique era das mais altas do mundo (93% em 1975), só havia uma universidade e o número de estudantes universitários era reduzido. Hoje acontece o inverso, descreve a historiadora: “Não me lembro, nos últimos anos, de ter um estudante não negro, o que é um processo normal porque estamos em África.” Agora, 40 anos depois da independência, Moçambique tem cerca de 50 instituições de ensino superior, entre públicas e privadas (dados Ministério de Educação de 2013). A democratização da educação é um dos “orgulhos” dos moçambicanos. Conseguiu-se diminuir a taxa de analfabetismo, embora ainda continue a ser das mais altas, com mais de 40%. Esta cidade são várias cidades, recorda, e dependendo do estrato social encontramos diferentes cores. “Muita gente vem a Maputo e diz: ‘Meu Deus, a Julius Nyerere está cheia de brancos!’ Não quer dizer que seja uma manifestação de racismo.” Mas vem do facto de ser o lugar onde estão as embaixadas, onde os brancos de classe mais alta tinham casas. O processo de olhar para o branco como superior foi-se apagando, acredita, e em determinadas zonas do país há quem nunca tenha visto brancos — “aí, será que a gente pode falar de racismo?” Existem os saudosistas, existem os que ainda vivem resquícios do colonialismo, mas estas fatias são residuais. A raça não é hoje um problema em Moçambique, afirma, convictamente. “Não encontro no dia-a-dia qualquer manifestação racista.” Portugal só tem o domínio de Moçambique a partir de finais do século XIX, lembra. É no início do século XX que há a instauração de uma administração portuguesa. O processo de miscigenação não era pacífico: não havendo apartheid declarado, havia apartheid, disso Teresa Cruz e Silva não tem dúvidas. “Encontramos muitas famílias em que os pais brancos não registaram os filhos. As teorias de Gilberto Freyre [do luso-tropicalismo] não colaram.” A própria avó de Teresa Cruz e Silva nunca viveu com o pai dela, branco.  Tendo vivido numa situação privilegiada, Teresa Cruz e Silva nunca sofreu discriminação racial, sublinha. “Sou o resultado do processo de colonização e de vivermos numa área geográfica que foi de comércio internacional, mesmo antes da chegada dos portugueses. Na minha família somos miscigenados de portugueses e católicos — basta ver o meu nome —, moçambicanos negros do Sul, indianos e árabes.”  No seu registo de nascimento vinha “raça mista”. “Como a tentativa do sistema era cooptar essas pessoas, eu tinha acesso às mesmas coisas.”  Andou em escolas privadas, entrou na universidade sem problema, embora só tivesse bacharelato. Seria depois convidada para fundar o Centro de Estudos Africanos, concretizando o sonho dos que lutaram pela independência e escreveram a sua própria História de Moçambique. “Acho que continuo a ser privilegiada neste momento. Se o hospital público não me serve, eu vou para o privado porque posso pagar. Bato-me pelos meus direitos como mulher, cidadã.” Porém, às vezes, as pessoas têm dificuldade em separar o social do racial — a discriminação pode ser de classe e não de raça, acredita. O estigma do mestiço Tassiana Tomé, 25 anos, trabalha numa ONG que desenha estratégias de advocacia e políticas públicas. Licenciou-se em Sociologia e Antropologia, na Holanda, e fez mestrado em Desenvolvimento, em Londres — ou seja, viveu fora de Maputo durante seis anos.  Vive num andar alto de um prédio de onde se avista Maputo, os telhados das casas, os minaretes das mesquitas, o fumo da poluição. Na sua varanda estão penduradas umas caixas de madeira pintadas com umas plantas. A sala está decorada com tons sóbrios. Por esta altura, Tassiana dividia apartamento com uma mulher latinoamericana que está em Moçambique a trabalhar numa ONG.  Com mãe de origem lusa, estudou na escola portuguesa. Acha que se nota na sociedade moçambicana “alguma internalização do racismo”, em coisas como “enquanto negra talvez vá servir primeiro a pessoa branca antes de servir a pessoa negra”. Não duvida de que “o racismo em si, o facto de termos assimilado um certo tipo de inferioridade, veio do colonialismo”. A sua família é muito diversificada racialmente, caracteriza: a mãe é branca, os irmãos são negros, ela classifica-se como negra apesar do seu tom de pele construir, pois são preconceitos “sobre o negro, a pele, sobre a cultura, o país, a noção de que somos atrasados e ignorantes”. “Só o falarem ‘vou para África’ incomoda-me — há essa redução da pluralidade africana.” Ainda hoje algum do olhar exterior transfere a ideia de que “este país é subdesenvolvido”. O racismo, sente-o em expressões subtis como o facto de haver “muita exoticização, mesmo nas pessoas que não se consideram racistas”, comenta. “Isso é muito mais difícil porque mexe com questões políticas e económicas e com o preconceito maior da noção de desenvolvimento e de como se encara noções de ser moderno ou atrasado.”  A figura da mãe foi muito importante para desracializar o conceito de moçambicanidade e para crescer com o sentido de pluralidade. Por outro lado, em determinadas situações simples do dia-a-dia, como o atendimento em restaurantes, notou o privilégio de tratamento que era feito à mãe como se fosse estrangeira e com um tipo de simpatia diferente que a fez “perceber essa ideia de tratar o branco como superior”. A sua geração é mais aberta, tem mais acesso a informação, “mas sente-se a segregação pela estratificação económica”.  No bairro onde Carlos Bavo vivia, nos anos 1980, a distinção maior era entre os mestiços e os negros. Licenciado em Sociologia e com o mestrado em Estudos Africanos, no ISCTE, em Lisboa, diz que “era muito mais fácil fazer pouco dos mulatos por causa da cor da pele”. Era comum usarem-se claro. “Por razões políticas prefiro associar-me a black, por ser uma categoria que esteve sempre marginalizada. Então é um statement, ‘sou pessoa negra’.” Actualmente, confronta-se mais vezes com comentários a acusá-la de não ser “moçambicana autêntica”, algo que ouviu sobre a mãe e a tia, brancas. Sente, até, que isso está “mais forte” agora, “não só pela imigração mas pelo tipo de governação que temos”. “Acho que a questão do racismo ficou muito negligenciada. É uma discussão pouco existente nas escolas.” Nos países em que estudou, sentia que as pessoas a viam “de forma muito ambígua” e “nunca sabiam onde me colocar”: “És de África? Mesmo de África?” Já em Portugal sentia “percepções racistas”, algo difícil de des- “Quantos milhões morreram na saga do colonialismo?” ÀP Por Joana Gorjão Henriques (Texto)* Francisco Noa Epifãnia Langa Calane da Silva Danilo da Silva 16 Savana 08-04-2016 NO CENTRO DO FURACÃO INTERNACIONAL expressões ofensivas como “és mulato, és da cor do mijo e por causa dessa mistura és bandido, o teu comportamento arruaceiro vem de seres mulato”. Ser mestiço “era associado a comportamentos erróneos”. Mas isso mudou, considera. Ele próprio tem um sobrinho mulato na família, fruto da relação da irmã com um homem branco. Na altura, essa relação não foi bem vista, até porque a irmã acabou por ser mãe solteira. “Isso mudou muito a minha maneira de ver e foi sendo reforçado com o meu próprio crescimento e uma leitura mais justa da sociedade.” Mas ainda hoje há preconceitos e olha-se para as mulheres que se envolvem com brancos como interesseiras, nota, algo que na altura ainda era mais exacerbado: “Uma negra não se podia apaixonar por um branco.”  Ainda hoje existe o estigma do mestiço. Danilo da Silva (1980), director executivo da ONG Lambda, que defende o reconhecimento dos Direitos Humanos das pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) tem um companheiro branco e nos espaços públicos a sua relação inter-racial é alvo de discriminação. As relações inter-raciais em geral “são estigmatizadas”, pois não são vistas como genuínas “mas fruto de uma suposta troca”: “Ou seja, os negros casam com brancos para ter acesso a recursos”, este é o preconceito. Ele nota que em determinados espaços — por exemplo, num restaurante — “a conta vem automaticamente” para o companheiro branco, porque “as pessoas assumem que quem tem mais recursos é o branco, que é quem paga as contas”. Chegarem ao mesmo tempo a um lugar e o companheiro ser atendido primeiro. Danilo da Silva sente-se mesmo mais discriminado pela raça do que pela sua orientação sexual: “Pelo menos nos sítios onde vou, e nos espaços que ocupo, a minha orientação sexual não vem muito à tona.” Algo que vem à tona sim é a questão racial. “Mesmo na classe média e média-alta não houve este processo de desconstrução dos estereótipos”, critica. “Seu mulato”: foi o que o escritor Raúl Calane da Silva (n.1945) ouviu muitas vezes. “Era uma carga terrível”, lembra. Filho de mãe mo- çambicana de origem hindu e de pai português, lembra-se de ter à mesa de jantar uma mistura gastronómica que espelhava a diversidade cultural da sua família. “As pessoas esquecem-se que o litoral de Moçambique foi durante 1200 anos multicultural. Aqui miscigenaram-se povos vindos da Arábia, da Pérsia, da Índia, da China.”   Calane da Silva escolheu o restaurante Continental, bem na Baixa da cidade, para a entrevista e muito por causa da sua simbologia. Com os txopelas (tuk-tuks) e vendedores ambulantes à porta, o restaurante serve hoje muitos turistas. É um dos ex-líbris de Maputo, com uma esplanada que já é recente, mas lá dentro ainda conserva uma iconografia que remete para a época da independência — há uma espécie de escultura encrustada na parede com uma jarra, foice, uvas e a inscrição “trabalho” e “alegria”. Lá dentro está tudo renovado, paredes e mobília.  Era o lugar onde os intelectuais iam, “mas contavam-se pelos dedos os indivíduos não brancos”. Aqui, no início dos anos 1960, “um indiví- duo negro não se sentava com o à- -vontade que se senta hoje”. A mãe de Calane foi barrada de entrar no Cinema Variedades, hoje Cinema África, por ser negra. Formas silenciosas Hoje, as relações raciais estão em fase de transição, observa Calane da Silva, que foi um dos que se insurgiram contra o facto de os manuais escolares moçambicanos pós-independência apenas mostrarem heróis negros — acha que isso “é desprezar o outro, é racismo, xenofobia”.    No livro Meninos da Malanga, Calane brinca com a hipocrisia do multiculturalismo salazarista. Hoje diz que as restrições o ajudaram, na altura, a ter mais consciência da necessidade de lutar contra o colonialismo. “Sou figura pública, mestiça, adopto as culturas moçambicanas, estou à vontade”, conclui o escritor, que fala rápido e de forma convicta, habituado a conversar com jornalistas como ele.   Recebeu o Prémio José Craveirinha em 2003, tem criticado o colonialismo português e a faceta racista do sistema. Paulina Chiziane (n. 1955) não tem meias palavras: “Antes havia racismo visível e sabíamos qual era o espaço do branco e do negro. Ficámos independentes, o racismo foi proibido, houve todo o trabalho para que não existisse. Hoje, legalmente, não existe. Mas na prática assumiu formas mais silenciosas. Viaje para a Zambézia e vá a um banco: veja quem trabalha na caixa. São apenas mestiços. Vá às companhias aéreas: as hospedeiras não são negras. Basta dar uma volta à cidade: quem vive aonde? Os negros comuns estão fora ou no campo.” Não é propiamente na literatura que esta distinção existe, é sobretudo na área económica, analisa a escritora, também na Associação dos Escritores Moçambicanos. “A destruição do eu do negro vem de há séculos e a mudança não pode ser feita de um dia para o outro”, nota. “Mesmo sem se aperceber, o negro submete-se ao branco. O processo de auto-estima e descolonização vai durar séculos.” Quarenta anos é pouco para esquecer a  colonização. Portanto, os imigrantes que chegam a Moçambique, especialmente a nova vaga de emigração portuguesa, “que venha com humanidade”, diz. Não se lembra de viver situação de racismo no pós-independência. Mas viveu os seus primeiros 18 anos sob o regime colonial. Recorda-se de ser uma das melhores estudantes da turma e de ter a melhor nota a Matemática. “A professora ficou furiosa e disse: ‘Seus brancos, o que é que vocês pensam, até uma preta foi capaz de ser melhor?’ Rasgou e anulou o meu teste. Fiz novo teste e tive nota mais baixa. E disse: ‘Viram, assim é que é, o branco nasceu para ser superior e o lugar do negro é no chão’.” Paulina teria uns 14 anos, chegou a casa a chorar. O pai consolava-a dizendo que já era uma sorte ela poder ir à escola. “E eu não era assimilada. O meu pai dizia: ‘Eu, assimilar os valores portugueses? Prefiro morrer’.”  Lembrar esta época é muito doloroso, lamenta. Porque significa “pensar que um ser humano pode ter este ódio por outro”. E conclui, com a voz visivelmente emocionada: “Não consigo encontrar um continente que tenha sofrido tanta repressão como o continente africano. Alguém que vem e que ocupa, pisa, mata, desfaz: porquê? Há um trabalho muito grande a fazer. Não foi apenas em Moçambique, foi na África toda. Quantos milhões de pessoas morreram nesta saga do colonialismo, porquê e para quê?”   *Esta foi a última reportagem da sé- rie sobre racismo realizada pelo jornal Público, editado em Lisboa, em cinco países africanos de expressão portuguesa, em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos e será compilada em livro.   Eliana Nzualo Savana 08-04-2016 17 SOCIEDADE 18 Savana 08-04-2016 OPINIÃO Registado sob número 007/RRA/DNI/93 NUIT: 400109001 Propriedade da Maputo-República de Moçambique KOk NAM Director Emérito Conselho de Administração: Fernando B. de Lima (presidente) e Naita Ussene Direcção, Redacção e Administração: AV. Amílcar Cabral nr.1049 cp 73 Telefones: (+258)21301737,823171100, 843171100 Editor: Fernando Gonçalves editorsav@mediacoop.co.mz Editor Executivo: Franscisco Carmona (francisco.carmona@mediacoop.co.mz) Redacção: Fernando Manuel, Raúl Senda, Abdul Sulemane e Argunaldo Nhampossa )RWRJUDÀD Naita Ussene (editor) e Ilec Vilanculos Colaboradores Permanentes: Machado da Graça, Fernando Lima, António Cabrita, Carlos Serra, Ivone Soares, Luis Guevane, João Mosca, Paulo Mubalo (Desporto). Colaboradores: André Catueira (Manica) Aunício Silva (Nampula) Eugénio Arão (Inhambane) António Munaíta (Zambézia) Maquetização: Auscêncio Machavane e Hermenegildo Timana. Revisão Gervásio Nhalicale Publicidade Benvinda Tamele (823282870) (benvinda.tamele@mediacoop.co.mz) Distribuição: Miguel Bila (824576190 / 840135281) (miguel.bila@mediacoop.co.mz) (incluindo via e-mail e PDF) Fax: +258 21302402 (Redacção) 82 3051790 (Publicidade/Directo) Delegação da Beira Prédio Aruanga, nº 32 – 1º andar, A Telefone: (+258) 825 847050821 savana@mediacoop.co.mz Redacção admc@mediacoop.co.mz Administração www.savana.co.mz EDITORIAL Cartoon Uma cidadã espanhola, até muito recentemente conhecida apenas nos círculos da organização cívica para a qual trabalhava, deu uma extraordinária contribuição ao permitir que nos apercebêssemos da fragilidade do nosso sistema. O que cada um de nós pensa sobre as saias curtas ou longas nas escolas já foi sobejamente escalpelizado e seria redundante voltar aqui a mencionar. Mesmo assim, impõe dizer que as escolas devem ter o poder de decidir sobre o seu próprio modelo de indumentária, sobre o que os alunos só têm o dever de cumprir. Alunos que se opõem a tais códigos têm a opção de ir para uma outra escola cujas condições sejam do seu agrado. A cidadã espanhola, precisamente por ser estrangeira, tornou- -se no elo mais fraco no meio de uma questão mais complexa do que na superfície ela parece. Ela foi expulsa do país porque participou na manifestação do dia 18 de Março, em que um grupo de mulheres, incluindo alunas, se insurgiam contra uma ordem que proibia o uso de certo tipo de vestuário nas escolas. Entende-se que o vestuário proibido pode constituir um atentado contra alguns valores sócio-culturais em Moçambique, especialmente quando envergado por alunos de um nível ainda em fase de formação básica. Por isso, a manifestação contra esta medida provocou alguma indignação entre certos sectores da sociedade, particularmente entre responsáveis do sector da educação. Tudo isso é perfeitamente admissível. Mas a indignação, seja por que motivo for, não deve ser usada para justificar o abuso do poder e a violação das próprias leis nacionais. Pode ser debatível se a participação de estrangeiros em manifestações cívicas, versando questões nacionais, deve ser considerada um delito que justifique a expulsão. O que não pode ser matéria de debate é se mesmo na condi- ção de expulsos, cidadãos estrangeiros não gozam do direito a tratamento digno. O que aconteceu no acto de expulsão desta cidadã espanhola deve ser motivo de vergonha e de embara- ço para o nosso país. Era possível lidar com a situação sem o dramatismo gratuito que se nos foi dado a testemunhar, incluindo a violação física e detenção de uma magistrada do Ministério Público, que se dirigira ao aeroporto para intervir em nome da legalidade. Se as nossas autoridades não são capazes de lidar com este tipo de situações demonstrando um comportamento de civismo, então talvez não mereçam o respeito e a dignidade que nós como cidadãos lhes devemos reservar. O recurso ao nacionalismo barato, e à noção de que cidadãos de outras raças merecem ser molestados é de um racismo primário que não deve ter lugar numa sociedade bem acolhedora como a nossa. Há sectores que defendem que o barulho em torno deste assunto só se faz porque se trata de uma cidadã branca e estrangeira, que se tivesse sido um negro (ou uma negra) não teria havido tanta publicidade. Pessoas sem argumentos suficientemente persuasivos e com uma formação mental desfocada recorrem geralmente a este tipo de reducionismo. Embalam-se no discurso da soberania e de um nacionalismo estreito. Mas será que isso tudo chega para justificar a flagrante violação da legislação nacional? Parece que não. Devemos tratar os cidadãos estrangeiros da mesma forma que desejamos que os nossos cidadãos no estrangeiro sejam também tratados, mesmo quando em situação de conflito com a lei. A indignação não deve justificar o boçalismo Zuma pede desculpas ANC aceita E m Moçambique as raparigas foram proibidas, este ano lectivo, de usar saias curtas nas escolas. Jorge Ferrão, ministro da Educação, defende a medida argumentando que visa a “protecçåo das meninas”. As saias que agora devem obedecer a medidas predefinidas e ter um comprimento “adequado” visam garantir a integridade das meninas e dar-lhes uma aparência “decente”. A normatividade patriarcal e paternalista sobre o comportamento da mulher e a forma como se apresenta deveria ser, em pleno século XXI, apenas uma lembrança envergonhada. Infelizmente, não raras vezes, recrudesce com todo o vigor nas mais diversas sociedades, um pouco por todo o mundo. A ideia de que a mulher se deve vestir ‘decentemente’ para sua própria protecção revela a persistente visão da mulher como incitadora dos assédios e a concep- ção do comportamento agressor como mera reacção e, portanto, desculpável. Todos sabem que quando uma mulher veste uma saia curta é porque “anda a pediSaias curtas, culpas ao largo Por Sandra Cunha* -las”. As culpas de quem se investe do direito de assediar e violentar mulheres ficam ao largo. Revela igualmente a atribui- ção à mulher de um estatuto de menoridade e incapacidade que pretende legitimar a sua submissão ao domínio do homem e permitir que este disponha dela conforme entender. Esta é a mensagem por trás das palavras de Jorge Ferrão e esta é a ideologia que deve ser rejeitada e combatida. Foi precisamente isso que diversas activistas dos direitos das mulheres procuraram fazer, no passado dia 18 de Março, através da tentativa de realização de uma peça de teatro de rua, como forma de protesto, em frente a uma escola secundária de Maputo. A actuação das autoridades perante uma manifestação pacífica diz-nos tudo sobre a condição e o lugar que reservam à mulher na sociedade moçambicana. As feministas foram identificadas e presas. Por ordem do Ministro do Interior, como forma de ‘aviso’, uma das activistas, Eva Moreno, de nacionalidade Espanhola e membro do Secretariado Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, foi detida a 29 de Março pelos serviços de migração. Ainda que possuísse documentação legalizada, foi enviada directamente para o aeroporto no dia 30 de Março de onde foi deportada e proibida de entrar no país por dez anos, sem direito à defesa e independentemente dos esforços da Procuradora Geral da República para a sua libertação. O desenvolvimento de um país mede-se também pelo respeito e pela igualdade entre todos os seus cidadãos e cidadãs. As acções do Governo de Moçambique ferem os direitos das mulheres, promovem a desigualdade e incentivam a discriminação. E uma democracia sustentada na discriminação de uma parte da população não pode ser uma democracia sã nem sequer viável. Um país cujo Governo impõe medidas atentatórias dos direitos e liberdade das mulheres e que de forma absolutamente autoritária e ditatorial deporta activistas para calar protestos pacíficos, tem seriamente de reavaliar e reinventar a sua democracia. *socióloga Savana 08-04-2016 19 OPINIÃO 471 Email: carlosserra_maputo@yahoo.com Portal: http://oficinadesociologia.blogspot.com E xercício do despojamento total, o terror colectivo marca em permanência a história das sociedades. A guerrilha assassina que mata indiscriminadamente, mutila corpos e destrói pertences, é um dos exercícios mais cruéis de terror colectivo e de despojamento total. Os artífices desse exercício conseguem regra geral quatro coisas: 1. Despolitizar os cidadãos pela inoculação de um medo múltiplo e recorrente; 2. Desterritorializar os cidadãos levando-os à fuga e ao exílio; 3. Destatizar os cidadãos, destruindo a rede de infra-estruturas estatais de serviços e proteção e quebrando todos os vínculos com a cidadania e com o Estado; 4. Amorfizar o comportamento social, transformando os cidadãos em seres abúlicos. Não poucas vezes, o exercício de despojamento total é levado a cabo por organizações que se reclamam de um deus, de uma civilização, de um suposto desagravo histórico ou, até, da democracia. Terror colectivo Hoje, Domingo, 3 de Abril de 2016, faço anos. 35. Ela telefonou-me a meio da manhã, à saída da missa, para me felicitar e dizer que me viria visitar ao princípio da noite, para me oferecer como prenda aquilo que de melhor a natureza lhe deu como dote e mais aprecio nela. Agora são 21H30 e esta espera, que já está a ser longa, está a pôr-me num estado de ansiedade febril, que tende a transformar-se numa dor quase física, tangível. Passei a tarde a reler Mbelele e Outros Contos, do Aníbal Aleluia, e agora estou mergulhado numa sala feita de penumbras e luz. Mesmo o barulho frenético característico desta zona onde vivo, em Maputo, está mais reduzido. Ouço neste meio silêncio, como sons vindos do fundo do meu puro sentimento de saudade, o duo Willy e Aníbal, que é o meu grupo preferido para ouvir nestas circunstâncias. Estou sentado em frente à parede, num dos cantos da qual está encrustada a porta que dá acesso ao corredor no fim do qual está a porta de entrada do meu apartamento. A parede não é muito grande: pelos meus cálculos, deve ter 7,5 m de largura por 9 m de altura. É uma parede branca. Entre ela e eu, interpus uma mesa pequena, uma das chamadas mesinhas de centro, segundo os manuais de mobiliário, onde pus, assim à mão de semear, uma garrafa de vinho agora meio consumida, um copo, 2 tigelas, sendo uma com cubos de queijo e chouriço e outra com azeitonas, e ainda uma travessa com fatias finas de pão. Curto o meu silêncio nesta espera vaga. Sopa de lentilhas Mas, de repente, descubro num sobressalto excitado que, afinal, o que tenho na mão direita não é um copo de vinho e que aquilo com que estou a brincar mecanicamente na mão esquerda não é um telemóvel. Coisa milagrosa, de facto! O que tenho na mão direita é a lâmpada de Aladino e na mão esquerda um pedaço de camurça. Incrédulo, pego no pedaço de camur- ça, esfrego a lâmpada e dela emerge o génio: é de cor azul, com óculos de sol de aros cor-de-rosa, e diz-me: – Estou aqui, Senhor. Faça 3 pedidos, estou pronto a satisfazê-los. E eu digo-lhe: – Traga-me um tapete voador! Ele traz-me o tapete voador logo de imediato. Sento-me nele na posição de lótus, à moda de Buda, e digo – “Vamos voar!” Acto contínuo, a parede cede e vejo-me a sobrevoar a cidade sob uma luz resplandecente própria desta altura do ano – altura dos meses de Abril, Maio e Junho, os melhores do ano para mim. Por capricho, voo até à baía, onde surpreendo alguns banhistas na Catembe, mas daí tomo a direcção para o meu destino premeditado: quero ver a Penhalonga, no alto de Manica. E para lá vou. Pouso suavemente à beira da casa em ruínas que lá foi construída, segundo reza a história, pelo arquitecto daquele parque de Penhalonga, um alemão fugido da II Guerra Mundial. Ponho- -me de joelhos em frente a um riacho, bebo da água fresca e cristalina e deito-me de costas sobre o tapete, quando o telefone toca. É ela, a dizer-me que está á espera de mim na Praia do Fernão Veloso, em Nacala. Não me faço rogado: sento-me imediatamente no tapete e levanto voo, e num instante assim como a luz do sol leva para sair de lá e chegar à Terra vejo-me a sobrevoar a Praia. Ela está lá, de fato de banho e topless, deitada numa rede no arvoredo, junto à areia branca imaculada daquela praia quase virgem. É um contraste louco: o verde do arvoredo, a areia imaculada e branca, o azul sereno e cerúleo do mar. Ela está a ler História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luís Sepúlveda. Descalço- -me, tiro a camisa e, de calções e tronco nu, penduro-me na rede onde ela está deitada. Estou a deitar os braços à volta dela quando se dá uma tremenda explosão de som sobre a minha mão esquerda: é o telefone. Teclo e vejo que é ela. Digo: − Débora, estás bem? − “Débora, estás bem?” uma ova! Estou aqui há mais de dez minutos a bater à porta e tu não me abres?! Calvin, não me digas que estás numa dessas tuas viagens pelo espaço sideral. − Perdoa! Não me apercebi. Mas vou já abrir-te a porta. − Não precisas. Já perdi tempo demais contigo aqui à porta da tua casa, à espera que me abras. Vou-me embora. Se, entretanto, me esquecer de apagar o número do teu telefone da minha agenda, vou ligar para ti. Mas o mais provável é que eu apague mesmo. − Mas, Débora… − Tchau, Calvin! Tuc, tuc, tuc, tuc... Silêncio. P.S. A crónica da semana passada, Galinha com Mucapata, saiu pouco conforme à história de Lourenço Marques. Foi uma falha humana. Na verdade, onde dizemos “Associação dos Mudos”, o que queremos dizer é “Associação de Mútuo Auxílio dos Operários Indo-Portugueses”. Imperdoável! Mas, mesmo assim, pedimos desculpas. A figura de homem de saber enciclopédico que Umberto Eco construiu e cultivou tem características singulares e fizeram dele um intelectual entre dois mundos: o mundo dos livros, de feição iluminista, e o mundo contemporâneo, da informação mediática e da desordem. A Umberto Eco servem com justeza os epítetos hiperbólicos, independentemente da actual circunstância celebratória. Acrescentemos a uma longa lista que pode ser recenseada mais um epíteto: ele foi um fenómeno intelectual total. A figura que lhe corresponde, única na cultura europeia, fez uma síntese grandiosa e paradoxal de tipos diferentes, que em regra são incompatíveis: a síntese do “intelectual universal”, que dominou quase todo o século XX, pondo a sua razão, a sua autoridade e o seu prestígio ao serviço O efeito Eco Por António Guerreiro de causas públicas e valores universais, com o “intelectual específico”, que só intervém no seu campo de saber especializado (mas ele desdenhou sempre do intelectual empenhado: “A única coisa que um intelectual pode fazer se a casa começa a arder é chamar os bombeiros”); do professor que, na mais velha universidade europeia (a de Bolonha), ocupou o lugar eminente da ciência e do espírito europeus, com o jornalista e cronista em jornais e revistas do seu país, esse posto avançado de uma grotesca mediacracia; um erudito e estudioso, para quem o mundo é uma biblioteca, com o homem moderno, ou mesmo pós-moderno, atento, por uma espécie de hedonismo frívolo e curiosidade intelectual, às manifestações de superfície e da cultura de massas; um filósofo e um semiólogo ocupado com questões esotéricas da Estética medieval ou do conceito de abdução, com o exotérico romancista que, já tardiamente, em 1980, tinha então 48 anos, se aventurou no romance histórico, O Nome da Rosa, que foi o primeiro dos seus “passeios nos bosques narrativos” (para utilizar o título das suas Norton Lectures, em Harvard) e se tornou um dos best sellers mais difundidos e famosos da literatura universal do último meio século; o estudioso das obras da alta cultura, do cânone mais exigente do património literário e filosófico (Dante, Kant, Leopardi, Joyce...), com o desenvolto analisador de banda desenhada e figuras da televisão. Não se pense que esta síntese grandiosa só lhe trouxe a aclamação e a glória. Uma coisa é a imagem pública e “profana” de Umberto Eco, outra coisa é o juízo dos seus pares. O culto generalizado e o reconhecimento universal que fizeram dele um monumento da cultura e a que ele respondeu com espírito irónico (foi, acima de tudo, um ironista) teve também o outro lado: a crítica e as reservas, vindas de filó- sofos, ensaístas e escritores, pelo seu eclectismo considerado estéril, pela sua suprema arte da homologação de tudo com tudo que muitos consideraram irresponsável. Homologar, disse um dos seus críticos (o poeta e ensaísta Alfonso Berardinelli), foi a sua paixão. A imagem que mais fortemente lhe está associada é a da biblioteca. A sua biblioteca pessoal foi muitas vezes objecto de reportagem. Não apenas pelo seu tamanho, mas porque se tornou uma extensão metonímica do próprio Umberto Eco, enquanto intelectual que não consegue olhar o mundo senão como matéria e metáfora da legibilidade que os livros proporcionam. E enquanto autor-bibliotecário, tinha definido um limite para a capacidade de a memória poder dominar a “navegação” nos livros: 30 mil títulos. Mais do que isso, dizia ele, a biblioteca entrava no reino da perda e do caos e anulava-se na sua finalidade. O seu culto do livro, a sua fé na cultura livresca (recordemos que o herói de O Nome da Rosa é um bibliotecário de um convento medieval, chamado, em chave facilmente decifrá- vel, Jorge de Burgos) e a sua ideia de que o património bibliográfico constituía uma cartografia da história e da cultura universais levaram-no a proferir palavras muito pouco simpáticas para caracterizar as chamadas redes sociais: “Elas dão direito de palavra a legiões de imbecis”. Nunca antes tinha proferido uma frase que lhe valesse, como aconteceu com esta, uma hostilidade tão vasta. Tão dominante e hiperpresente no espaço público foi a presença de Umberto Eco, que já em 1990 duas estudiosas do fenómeno publicaram um livro que se chamava Effetto Eco. O “efeito Eco” haveria de prolongar-se. Para esse efeito, muito contribuíram as crónicas que publicou durante anos no jornal La Repubblica e na revista semanal Expresso, com o título genérico da coluna que se tornou famosíssimo: La Bustina di Minerva (a coruja de Minerva, como sabemos, é a ave da filosofia, aquela que Hegel dizia que só levantava voo ao crepúsculo). O “efeito Eco” não advinha propriamente da sua obra mais especializada, seja sobre a estética medieval, seja enquanto semiólogo (e devemos pensar o quanto a fortuna da semiótica nos estudos literários, nos anos 60 e 70, deve a Umberto Eco). Esse efeito advinha, em grande parte, de duas categorias que ele criou e definiu e depois se tornaram de uso corrente, num livro de 1964, uma recolha de ensaio sobre a cultura de massas: os apocalípticos e os integrados. Os primeiros têm uma visão elitista da cultura e fazem da recusa e da crítica, até ao flagelo e à exasperação, a atitude que os distingue; os segundos acham que vivemos no melhor dos mundos possíveis e têm uma atitude de adesão em relação à cultura, tal como ela é produzida, abdicando de qualquer gesto intempestivo ou de vontade de transformação. No ano anterior, em 1963, Umberto Eco tinha integrado o Gruppo ’63 (do qual faziam parte, entre outros, dois importantíssimos escritores da segunda metade do século XX: Edoardo Sanguineti e Giorgio Manganelli), que tinha um programa estético-literário integrável nas neovanguardas dos anos 60. Mas o seu gosto pela observação e análise da cultura de massas (que o levou a escrever sobre futebol, a publicidade, as vedetas, a moda, a banda desenhada, o Kitsch) já tinha ficado patente nos artigos que tinha escrito, entre 1959 e 1961, para a revista literária Il verri, que tinha sido fundada em Milão, em 1956, por Luciano Anceschi. Da recolha dos artigos publicados nessa revista resultou um livro, em 1963, chamado Diario Minimo. Inscreve esse livro na mesma família – em termos metodológicos e quanto à atitude perante o fenómeno da cultura de massas – das Mitologias, que Barthes tinha publicado em França, em 1957. Em 1962, Eco tinha publicado um dos seus livros de mais longo efeito, Obra Aberta, onde a coexistência de Joyce com a teoria da informação causou algum espanto. Mas o conceito de “obra aberta” é um dos contributos maiores de Eco para a teoria literária, numa altura em que esta vivia numa fase de grande encantamento. Umberto Eco foi precisamente um dos espíritos “encantadores” dessa época, cujo crepúsculo ele também assinalou de maneira enfática, quer no seu discurso teórico, quer na própria atitude do teórico que passa para o romance, ainda que os seus romances sejam uma continuação da teoria por meio da ficção. 20 Savana 08-04-2016 OPINIÃO A TALHE DE FOICE SACO AZUL Por Luís Guevane Por Machado da Graça A P S e, por culpa própria, por um lado, sofremos os efeitos adversos da natureza, por outro, auto mutilamo- -nos, impomo-nos, a nós mesmos, sacrifícios desnecessários e evitáveis. Dos impactos que actualmente mais nos apoquentam e que supostamente fogem ao nosso controlo, por serem da dinâmica da própria mãe-natureza, estão a seca no Sul e centro e as inundações no Norte. A “culpa própria” com relação às calamidades naturais tem por detrás de si o facto de serem fenómenos conhecidos e recorrentes. Em 40 anos de quase independência política não conseguimos dotar o país de mecanismos de defesa crescentemente autónomos, isto é, que reduzissem paulatinamente a nossa trémula e incontornável “mão estendida”. A nossa inteligência, investimento estratégiCalamidades naturais: focalizar o “técnico” co e campo de produção estiveram sempre, em peso visivelmente “incómodo”, virados para o militarismo. Por esta e outras possíveis razões, os quadros formados pelas universidades, em particular nas áreas que lidam directa ou indirectamente com questões de cheias, secas, ciclones, etc., não se orientaram na produção de soluções duradouras para estes fenómenos naturais. Soluções que suscitassem grande interesse ao ponto de atraírem financiamento para serem implementadas, monitoradas e actualizadas em função das exigências do momento. O forte parece não passar de modelos de projecção de eventos naturais, da questão de riscos, e por aí em diante. A grande dificuldade em desembaraçarmo-nos da dependência económica e dos nossos permanentes conflitos político-militares não abre espaço para a criatividade orientada na redução crescente dos impactos dessas calamidades. Assumimos a impossibilidade no seu controlo e ingenuamente culpabilizamos a mãe-natureza. Fazemos questão de nos acomodarmos na nossa conhecida característica, a de vivermos permanentemente de mão estendida. Ou seja, perante um cenário de seca severa, com a probabilidade de atingir cerca de 1.7 milhão de pessoas, reunimo-nos apenas com os nossos parceiros de cooperação para falar do ponto de situação da seca e da necessidade de 103 milhões de dólares norte-americanos para assistir as vítimas nas províncias afectadas. Percebe-se então, que o foco principal está na obtenção da moeda que se espera que caia na “mão estendida” e não em incutir nos nossos quadros (em formação ou mesmo já formados) a necessidade de olharem para as calamidades em causa como uma grande oportunidade de porem em prática o que aprenderam, reaprendendo com a prática. O mediatismo deve passar para os nossos futuros inventores. Nós também somos capazes de minimizar os impactos negativos de tais eventos, desde que haja oportunidades, desde que o “político” reconheça no “técnico” a solução interna. O que é mais sustentável e barato: acomodarmo-nos na “mão estendida” ou apostarmos nos nossos “técnicos”? Por que não insistem os nossos parceiros em ensinar-nos a pescar ao invés de “oferecerem-nos” peixe sempre que os pedimos? Acreditamos todos e profundamente que a nossa inteligência não se limita à “mão estendida”. O moçambicano deve ter crença no seu compatriota e acreditar que este pode tornar-se num inventor ou em um produtor de tecnologias que façam frente às ditas calamidades naturais. Investir hoje no “técnico” pode ser uma saída segura num futuro muito breve. F icámos a saber do desastre financeiro da EMATUM através de publicações estrangeiras. Cá dentro ninguém tinha aberto a boca e, aparentemente, poucos eram os que sabiam do que se estava a passar. Agora é também através de publicações estrangeiras que ficamos a saber que o desastre é muitíssimo maior do que já sabíamos, na medida em que, na mesma ocasião, foi contraído um outro empréstimo, a favor da PROINDICUS (empresa irmã da EMATUM) num valor de US$ 787 milhões. Ainda não conheço as condições deste novo empréstimo, mas não é preciso ser economista para perceber que este aumento da dívida pública atira o país para uma situação de impossibilidade prática de pagamento, arruinando o prestígio nacional nos mercados de capitais e tornando cada vez mais caros os futuros empréstimos que vierem a ser contraídos. Se já tínhamos uma enorme dificuldade em pagar os juros da EMATUM, quando eram a 8.5%, agora que a dívida foi renegociada e os juros passaram para 14%, as dificuldades só podem aumentar. Por outro lado, o Metical está, de novo, a desvalorizar em relação ao dólar. Ora as dívidas e juros são pagos em dólares, o que significa que são necessários cada vez mais meticais para pagar os mesmos dólares. Se o Metical continuar a desvalorizar, em 2023, quando se deverá pagar a dívida da EMATUM, de acordo com a renegociação, a quantidade de Meticais necessários será imensa. E não podemos esquecer que toda esta manobra foi feita às escondidas da Assembleia da República e contrariando totalmente a lei que não permite ao Estado ser avalista de empréstimos para além de uma determinada quantia (muitíssimo inferior aos compromissos assumidos pelo anterior governo). Mas tudo isto poderia não ser uma aberração económica se o dinheiro dos empréstimos estivesse a ser usado em actividades altamente produtivas, que iriam gerar grandes lucros, permitindo pagar as dívidas. O problema é que o dinheiro foi gasto em material de guerra. E o material de guerra não gera lucros a não ser para quem o fabrica e vende. Entre os compradores gera destruição e mortes e situações em que a economia é a primeira vítima, como a paralisa- ção da actividade turística ou do investimento estrangeiro. A ganhar nisto tudo só vejo aqueles que hão-de ter metido ao bolso as generosas “luvas” que os negociantes de armas sempre oferecem aos seus clientes. Todo este desastre levado a cabo pelo anterior executivo, do “filho mais querido do povo moçambicano”, e continuado pelo actual. Ambos do partido Frelimo. E a minha pergunta é: Os inúmeros membros honestos e patriotas do partido Frelimo vão continuar calados perante isto tudo? Vão continuar a consentir que o país seja mergulhado no abismo para o enriquecimento de uma pequena cam(b)ada? Têm coragem de se continuar a tratar por “camaradas” uns aos outros? O abismo RELATIVIZANDO Por Ericino de Salema D epois que o assunto foi mantido nas gavetas por pelo menos três semanas, como se se tratasse de algo não urgente e de relevância nenhuma, finalmente a Assembleia da República (AR) discutiu, esta semana, a proposta de criação de uma comissão de inquérito para investigar a situação dos refugiados mo- çambicanos no Malawi, incluindo aspectos como o que levou aqueles milhares de compatriotas a abandonarem o país e os relatos de violações graves de direitos humanos. O chumbo àquela já defunta empreitada, que fora apresentada pela bancada parlamentar da Renamo, teve o alto patrocínio da bancada maioritária da Frelimo. Em finais do ano passado, a AR, igualmente com o voto maioritário da bancada do partido no poder, a Frelimo, chumbou a ideia na altura apresentada pela bancada do MDM, no sentido de se constituir uma comissão de inquérito à EDM, uma firma pública que se tem destacado no que à prestação de serviços de péssima qualidade diz respeito, ao que se acresce ao facto de, amiúde, ser referida como que estando inserta em esquemas de duvidosa legalidade e quase nenhuma transparência. A função do Parlamento, como se sabe, não se resume somente à feitura de leis, não constituíssem, os 250 deputados, a assembleia representativa de todos os moçambicanos; outra função da AR é de fiscalização da acção governativa, na esteira do que terão, obviamente, surgido as duas propostas supra citadas, que, entretanto, não tiveram como proceder devido ao voto maioritário da Frelimo. Justificações para o efeito, ainda que legais mas de legitimidade problemática, não faltaram e jamais faltarão. Achamos nós que é mais do que chegado o momento de se introduzir um outro regime para regular a constituição de comissões parlamentares de inquérito, por o que se vem observando de há alguns anos a esta parte ter já se mostrado quase inútil em absoluto. Neste momento, a constitui- ção das comissões de inquérito é regulada pelo Regimento da Assembleia da República, aprovado pela Lei número 12/2013, de 12 de Agosto. Diz o Regimento da AR (artigos 94 e 95), que as comissões de inquérito são criadas por deliberação do plenário [da AR], “para averiguar o respeito da legalidade e do interesse nacional, no funcionamento das instituições”. Antes de se chegar ao plenário, como sucedeu nas duas situações citadas acima, relevantes propostas devem ser endereçadas à presidente da AR, por solicitação, à Comissão Permanente [da AR], por pelo menos 10 por cento dos deputados (25 deputados no mínimo). Mas o quê, em concreto, pode ser feito para que este mecanismo de protecção do interesse público não continue a ser esvaziado e minimizado pelo voto maioritário, neste momento em óbvia sintonia com os detentores do poder executivo? Muito pode ser feito, certamente, mas haverá o que se afigurará mais sólido sob o ponto de vista de salvaguarda do interesse público e não de meros interesses político-partidários. Achamos nós que o regime da constituição das comissões parlamentares de inquérito deve ser inserto na Constituição da República (AR), sendo que, à lei ordinária (Regimento da AR, neste caso), caberiam meras questões procedimentais e não as relativas ao seu âmago em si. Nisso, o que prevalece no Brasil, por via de uma consigna- ção na lei fundamental, nos parece um modelo democraticamente recomendável: assim que um terço dos deputados da AR decidirem pela propositura de uma comissão de inquérito, através do endereçamento do relevante pedido, devidamente instruído, à presidente da AR (ou presidente!), nada mais há a discutir senão proceder-se, de imediato, com os formalismos necessários para o efeito. No caso moçambicano pensamos que, , no lugar de um terço, se considere, eventualmente, um quarto dos deputados, o que aumentaria as probabilidades de o mecanismo ser accionado, mas sem potencial de banalização, como sucederia se se exigisse, por exemplo, um mínimo de cinco por cento dos deputados. Na actual arquitectura jurídico-legal, todo um país vê-se impossibilitado de beneficiar de um dos mais idóneos mecanismos de fiscalização governativa, o que nunca deverá ser visto como uma má notícia à democracia. Em algumas coisas, em boa verdade, é até irrelevante se se é do partido A ou B ou de nenhum partido; a EDM, por exemplo, com o seu péssimo serviço público, afecta, certamente, muitos dos próprios deputados que a protegem injustamente. Não é, pois, por acaso que no actual contexto, mesmo sendo possível a constituição de uma comissão parlamentar de inquérito por solicitação do próprio Governo (parte final do número 2 do artigo 95 do Regimento da AR), este [Governo], provavelmente não estando absolutamente interessado na descoberta da verdade no tocante ao filme real, e não de ficção, dos refugiados moçambicanos no Malawi, mais o drama por aqueles deixado nas suas comunidades em Tete, preferiu criar uma comissão integrada pelos seus próprios colaboradores directos (o vice-ministro da Justiça, neste caso), que, com pouca sofisticação, veio a público desmentir tudo de tudo e a todo o custo! Da forma como a coisa se acha juridicamente arquitectada neste momento, talvez nem valha a pena que continuemos a nos enganar pensando na existência dessa possibilidade na nossa jovem democracia (formal). Ou, buscando inspiração num antigo ministro, comprometemo-nos a oferecer uma cerveja preta ou uma cerveja impala a quem falhar na resposta à seguinte pergunta, por ser por demais fácil: Quem tem medo das comissões de inquérito? Quem tem medo das comissões de inquérito? Savana 08-04-2016 21 PUBLICIDADE 22 Savana 08-04-2016 DESPORTO D epois do brilharete de Laura Nhavene, a única tenista moçambicana a conquistar o circuito da África Ocidental, o mais importante do continente, faz já muito tempo, o que lhe valeu uma bolsa da Solidariedade Olímpica para os EUA, a modalidade conheceu um momento de letargia, sobretudo com a retirada, ao mais alto nível, dos irmãos Nhavene e outras glórias, como Antó- nio Sábado. Felizmente, a situação está quase que ultrapassada, a julgar pelo surgimento de uma nova vaga de tenistas que está a surpreender pela positiva, casos de Bruno Nhavane, Marieta Nhamitambo, Cláudia Sumeia, entre outros em forja. Nas vésperas da partida dos atletas para o Feedcup de Montenegro, competição que se realiza a partir do dia 10 deste mês, o SAVANA procurou ouvir a sensibilidade destes e alguns detalhes relativos à modalidade. ”O país terá muito orgulho dessas meninas ” Valige Tauabo, presidente da FMT O presidente da FMT, Valig Tauabo, disse que depois de o país ter participado no africano, nas categorias de sub-14 e sub-16, em que foi representado pelos atletas Bruno Nhavene e Marieta Nhamitambo, agora vai participar no Feedcup, que é um evento internacional de nações. “Não é a primeira vez que tomamos parte no certame, este é o segundo ano consecutivo e, no ano passado, fomos representados pelos tenistas Cláudia Sumaia, Ilga João, Marieta Nhamitambo e capitaneada por Cláudia Bule. Neste ano o país será representado por Cláudia Sumaia, Marieta Nhamitambo e Nicoloe Dias, esta a residir em Portugal, sendo que se vai juntar às restantes companheiras do grupo em Roma, Itália, para de lá partirem para Montenegro”. As expectativas das atletas moçambicanas são as de melhorar os resultados que vêm desde o ano passado. “A nossa selecção é composta por atletas de tenra idade e que têm muito por dar. Hoje pode parecer que não termos bons resultados significa fraco trabalho, mas nós sabemos que no futuro o país terá grande orgulho por essas meninas. Por outro lado, nesta modalidade não se classifica o ganhar, é óbvio que ganhar é bom, mas os resultados são tangíveis a longo prazo. As derrotas que já sofremos constituem um desafio e não nos desanimam. Estamos convictos de que a selecção de hoje tudo fará para dignificar o país”, salientou. Anotou, igualmente, que há que olhar para esta modalidade tendo em conta as suas características, as suas especificidades, porque, “a tí- tulo de exemplo, no lugar de a imprensa dizer que Moçambique foi humilhado ou que o atleta x foi vaiado, no ténis a interpretação correcta não é essa. Há que motivar e não pôr em desespero o atleta, e é a pensar nisso que este ano haverá uma formação dos profissionais de A nova era do ténis moçambicano Por Paulo Mubalo comunicação social”. O presidente da FMT destaca a contribuição do Governo e todos os que de forma directa ou indirecta apoiam o desporto nacional, com destaque para o Comité Olímpico de Moçambique. “Pedimos apoio do empresariado” - Seleccionar nacional, João Carlos Lobo João Carlos Lobo é dos mais credenciados técnicos de ténis no país e, actualmente, exerce o cargo de seleccionar nacional. Com cerca de 35 anos de experiência, Lobo já treinou muitos tenistas que representam o país nas mais diversas frentes, já conquistou, nestes últimos anos, várias medalhas com equipas e em eventos como CPLP e SCASA. “A avaliação que faço do ténis é muito positiva, porque a partir do momento em que no passado os moçambicanos tinham dificuldades para enfrentar adversários de outros países e hoje o fazem sem problemas, é sinal de crescimento. Hoje fico orgulhoso porque num passado recente os jogadores até ficavam com medo quando jogavam em Nelsprit, mas hoje não. Antes pelo contrário, eles, os sul-africanos, é que ficam com medo de nós. Ou seja, o ténis está a crescer muito e a prova disso é que no recente africano, dos 32 atletas que participaram, Moçambique ficou a meio da tabela classificativa e no ano passado ficou na última posição. Marieta Nhamitambo ficou em 17º lugar e Bruno Nhavene em 19º lugar. Repito, entre os 32 melhores de África. Marieta chegou a ganhar a uma tunisina e Bruno a um egípcio. Sós estes dois nomes assustam, porque estamos a falar de países onde cada um chega a movimentar dois mil atletas”, contou. O seleccionador nacional explica, ainda, que Cláudia Sumeia já fez muito tal como Laura, sendo que a diferença reside no facto de que, enquanto esta última jogou nos EUA , “Cláudia é produto nosso”. Segundo conta, Cláudia é uma vedeta sem ter jogado nos EUA. “Aliás, há mais jogadores, casos de Sigaúque, este dotado de uma boa técnica e que é produto nosso, e Bruno Nhavene, que começaram a despontar internamente. Bruno hoje é o que é e só tenho a agradecer a todos os colegas pelo excelente trabalho que estão a realizar”. O técnico diz que o país não só tem bons treinadores como tem bons jogadores, daí que seja necessário resgatar o legado deixado por alguns atletas, casos de Laura, Pilecas, entre outros. “Tal como nós, treinadores, Federa- ção e Clube de Ténis que fazemos a nossa parte, os pais deviam fazer a sua, deviam trazer e acompanharem os seus filhos para praticarem a modalidade”. Lobo abre um parênteses para, de viva voz, pedir mais apoios ao empresariado e às pessoas de boa vontade para que se aproximem à modalidade. “Pedimos às empresas para que nos apoiem, porque nós precisamos ir mais além, queremos participar em mais torneios, mas isso acarreta custos. Estamos abertos para receber qualquer tipo de apoio. Precisamos de realizar, no mínimo, 20 torneios para chegarmos ao pódio, para termos o nível de países como Egipto, por exemplo. Confiem em nós, pois estamos a trabalhar muito e com mais apoios os resultados não tardarão a chegar”. “Há que aumentar atletas do sexo feminino” -Marieta Nhamitambo, uma tenista em ascensão meteórica Marieta Nhamitambo começou a praticar o ténis no Tunduro, em 2006, por influência da família e teve na mãe a sua primeira treinadora. Como momentos altos, a atleta de sub-14 já conquistou o campeonato nacional, em 2013, e repetiu a proeza em 2014. Em 2015 conseguiu qualificar-se para os Jogos Africanos. Para além desses títulos conta com outros, como um torneio em Pretória em 2015 em singulares senhoras, medalha de bronze nos jogos da CPLP. “O meu maior sonho é ganhar uma bolsa para poder estudar e jogar té- nis”, afirma a tenista, por sinal, admiradora de Laura Nhavene, e de russa, Maria Sharadova. “Laura foi uma grande atleta. Ganhou um campeonato africano e eu ainda não o fiz, mas também há que entender que o nível do ténis mudou e as jogadoras são outras”, reagiu, quando instada a estabelecer uma analogia. A atleta diz enfrentar dificuldades para conciliar os treinos e a escola, porque “não basta ser bom atleta sem ser bom estudante”. E prossegue: “Treino quatro vezes por semana no período de duas a duas horas e meia, e tenho procurado compensar o défice aos sábados e domingos, em que treino todo o dia”. Conta que os pais são quem mais a apoiam, pois há torneios em que é necessário comparticipar na alimentação, mas não descura o apoio da federação. A nossa entrevistada diz que para se elevar o nível da modalidade exige- -se mais investimento e isso passa por se ter mais patrocínios. “Quanto mais torneios internacionais participarmos ou mais jogadores tivermos, ainda bem”. Conta que o ténis feminino tem poucas praticantes e quando há um torneio já se sabe quem vai jogar com quem. “Julgo que a modalidade não está a ser publicitada e, como consequência, só vem aqui quem realmente gosta de a praticar. Mesmo assim, diz que não vai desistir: “Sempre apanho inspiração nos grandes torneios da actualidade, e cada vez que vejo alguém na televisão eu digo, quero ser como essa pessoa”, rematou. “FMT fez a sua parte, falta nós fazermos a nossa” -Cláudia Sumaia, a nova coqueluche na modalidade A completar 18 anos, em Maio pró- ximo, Cláudia Sumaia é uma verdadeira coqueluche na modalidade. A atleta conta as suas peripécias e explica: “com as minhas condições de vida nunca iria jogar ténis, mas foi a rotina casa-escola e vice-versa que acabou mudando o rumo da minha vida”. “Fui convidada a treinar ténis, eu estudava na Escola 16 de Junho e quando passava pelo Tunduro ficava a contemplar as partidas, e a senhora Miriam e o falecido Caló, que Deus o tenha, vendo a minha curiosidade, convidaram-me a treinar. Isso foi no dia 7 de Agosto de 2007, e essa data ficou registada para mim até à posteridade. Não me poderia atrever a treinar com as condições que tenho, porque meu pai faleceu quando apenas tinha 7 anos e presentemente vivo com a minha mãe, que não trabalha, e mais dois irmãos”. Cláudia Sumeia reside no bairro de Malhapswene e dias há em que só tem dinheiro para custear o chapa até à baixa da cidade. “Bem, isso acontece com frequência, mas quando é assim peço ao clube e eles têm sido bastante receptivos. Mas quero agradecer, igualmente, a federação, que tem feito o máximo para nós, ao custear algumas deslocações”. Este é, em resumo, o dia-a-dia daquela que poderá vir a ser a maior atleta do país dos próximos anos, por sinal admiradora de Serena Williams e Laura Nhavene. “O maior sonho é jogar fora, ter pontuação mundial, que nenhum moçambicano tem”, disse para depois acrescentar que mesmo jogando internamente, com força de vontade, querer, determinação e perseverança, vai ultrapassando alguns obstáculos. “Estou a dever uma cadeira da 12ª classe, mas há uma garantia do presidente da FMT de me custear as despesas da faculdade, por isso estou a treinar muito e a estudar também muito, não só para não defraudá-lo, mas para me formar e poder encarar os desafios do futuro com mais preparação. Quantos às perspectivas para o Feedcup, explicou que este evento tem 1º, 2º e 3º grupos e “nós queremos passar para o 2º. Isso é possível, exige-se apenas mais trabalho”. Cláudia Sumaia Valige Tauabo João Carlos Lobo Marieta Nhamitambo Savana 08-04-2016 23 PUBLICIDADE 24 Savana 08-04-2016 CULTURA Por Luís Carlos Patraquim 89 O gosth writer de Manuscrito encontrado no Panamá é a sociedade de advogados Mossack& Fonseca e a obra afigura-se tão excitante como o famoso Manuscrito Encontrado em Saragoça, de Ian Potocki, escrito no final do século XVIII. O chamado Manuscrito de Saragoça, cuja versão integral em português só foi publicado na década de 90 do século XX é um clássico da literatura europeia e universal, classificado como o equivalente, de alguma maneira, das Mil e uma Noites e o primeiro romance de aventuras onde se mesclam todos os géneros: da pirataria ao policial, da capa e espada ao erótico, do terror ao relato fantástico. A deliciosa colecção B, da Estampa, onde só saiam livros arredados do main stream literário, publicou nos idos de 70 uma versão do inclassificá- vel, confuso até mas delicioso, livro de Potocki. O Manuscrito encontrado no Panamá também implica um escritor, o senhor Fonseca, entretanto rendido ao fascínio dos mails e das contas secretas do jet set político e mediático de todo o mundo e Herr Mossack, antigo oficial das Waffen-SS hitlerianas que encontrou no país do canal a paz, o sossego e a prosperidade que merecia. Ambas as obras caracterizam-se pela existência de uma multidão de personagens. Potock usa-as como lhe apetece, esquece-se delas e, das que se lembra ao longo de uma narrativa tumultuosa, recondu-las para a derruída casa de Saragoça onde o seu herói encontrou os manuscritos, junto a um par de enforcados. Pela dimensão que o Manuscrito do Panamá está a tomar – pode dizer- -se que é um rake’s in progress – não duvido que ultrapassará o do remoto autor polaco. Terá vários tomos, com a originalidade de ser escrito nas mais desvairadas línguas, ultrapassando as cerca de mil figuras que povoam a obra-prima de Tolstoi, Guerra e Paz. Em termos de estrutura narrativa, a obra em curso de ser escrita pelos jornalistas de investigação de todo o mundo, consagra a originalidade já presente no Quixote de Cervantes, com estórias dentro da história, prosseguida por Potock, e não deixará de ser, a seu modo, uma homenagem ao Decameron, de Bocaccio. Lembram-se. Por causa da peste & etc, um grupo de homens e mulheres resolve divertir-se em todos os sentidos e vai debitando as suas narrativas. Bocaccio obedece a uma numerologia. Uns séculos mais tarde, o divino Marquês de Sade escreverá os Cem Dias de Sodoma. Pasoloni realizará Saló, baseado no texto sadiano. A numerologia que, adivinha-se, estará presente na caudalosa narrativa agora começada, é de outro cariz e tão sumptuosa e anti-higiénica como a cabeleira da Pompadour. As analogias com as obras citadas são imensas. A peste no Manuscrito encontrado no Panamá é o relaxado comportamento de uma personagem que dá pelo nome de capital financeiro na era da globalização, consubstanciada na trupe de aventureiros que chegam a todos os portos do mundo com o seu can-can retórico, o seu music hall, a sofisticação do Crazy Horse parisiense, os senhores respeitáveis de todas as profissões, os grandes patriotas com um mão nas pudibundas partes das instituições políticas dos países que dirigem e a outra mergulhada nos bolsos do Zé-Ninguém, promovido a cidadão de coisa nenhuma… ou quase. Há personagens que começam a aparecer, melhor, a serem escritos, nas suas árduas tarefas e nas bem-aventuranças. De Putin ao Rei da Arábia Saudita, do primeiro-ministro islandês a Pedro Almodovar e Leonel Messi. Haverá aqui, também, uma infinidade de sub-plots a que o voyeurismo pasmado das opiniões públicas, onde as houver, terá acesso. Não será uma leitura edificante. Ou será, dependendo dos pontos de vista. É injusto que comecemos a ter acesso a uma obra que era suposto jazer na espécie de arca pessoana onde sempre esteve. Abomino profanações! Não consta, por enquanto, que a volúvel e caprichosa Senhora Dona Mercados já tenha começado a gritar atrás dos reposteiros. Manuscrito encontrado no panamá N o âmbito das festividades do Dia da Mulher Moçambicana que se comemora a 7 de Abril, o Centro Cultural Franco-Moçambicano acolheu o espectáculo musical Mulheres pela Paz, nesta quarta-feira, dia 6 de Abril de 2016. Neste espectáculo de homenagem à mulher moçambicana, o CCFM recebeu sete Mulheres: quatro cantoras, duas bailarinas e uma estilista. Trata-se das cantoras Yolanda Kakana, Isabel Novella, Sizaquiel e Regina dos Santos, bailarinas: Kátia Manjate e Janete Malapha, estilistas. As mulheres foram acompanhadas neste espetáculo pela Banda Kakana. Para celebrar este dia, um grupo de mulheres decidiu juntar-se para celebrá-lo de uma forma especial quer através da música, dança e moda. Elas acreditam que, através das actividades que propõem, é possível manifestar a preocupação que se instala no coração de todos. Yolanda Kakana é o nome adoptado por Yolanda Chicane, uma jovem moçambicana que começou a sua carreira musical em 2003. Em 2004, yolanda junta-se ao produtor e guitarista Jimi Gwaza (Azarias Arone) e fundam a banda Kakana com o objectivo de usar o dom dado por Deus para expressar o amor, a paz bem como a verdade amarga do mundo actual usando doces melodias. Kakana identifica-se com a fusão de vários estilos musicais destacando-se o Afro, Rock e Jazz e composições escritas em várias línguas. Ao longo de sua carreira, Kakana tem arrecadado vários prémios a saber: Melhor voz (Top Ngoma 2007, 2010, 2012), Revelação (Top Ngoma 2007), prémio fusão (Top Ngoma 2010), melhor banda (Top Ngoma 2009) e prémio fusão (Mozambique Music Awards – MMA 2010). Para o Festival Azgo 2014, Yolanda preparou um repertório já conhecido pelo público que acompanha o seu trabalho. Isabel Novella é uma cantora moçambicana de word music, soul, pop e jazz. É a primeira artista pan-africana a assinar contrato com a Native Rhythms e com Sony Music. Desde que se uniu à Native Rhythms, Isabel encontrou ressonância e espaço no mundo da mú- sica pop, tanto em Moçambique quanto noutros lugares, incluindo a África do Sul – um país que rapidamente se tornou a sua segunda casa. Antes de voltar para Moçambique, Isabel teve uma oportunidade invejável para actuar em mais de 40 concertos e festivais na Europa antes mesmo do lançamento seu pró- prio álbum solo, lançado em Abril de 2013. Na África do Sul, Isabel agraciou concertos e festivais de prestígio, incluindo o prestigiado Road Joy of Jazz, Ugu Jazz Festival, East Comes Alive Concert e o anual Buyel’ Ekhaya Pan African Festival, recentemente actuou no Mulheres cantam pela paz como qualquer outra. Nasceu na província de Nampula e entra para o mundo da música ainda muito nova, fazendo alguns coros nos ensaios da banda do seu pai, Januário Matlombe Regina dos Santos é vocalista da banda Mo- çambicana GranMah desde 2012, que explora sons de Reggae, Dub, Jazz, Pop com influências de sons nacionais e internacionais. É nesta banda que começou a sua carreira profissional. Desde criança que canta em coros nas escolas e coros de gospel e fez parte de uma banda de Rhythm and Blues na universidade. A sua outra profissão é na área de desenvolvimento, concentrando-se na área de género, ambiente e democracia em Moçambique. Kátia Manjate é bailarina e coreógrafa mo- çambicana nascida em 1984. Actualmente encontra-se a concluir os seus estudos em Teatro na Escola de Comunicação e Artes (ECA, Maputo/Moçambique). Desde 2003, ela vem desenvolvendo o seu próprio trabalho como criadora de dança contemporânea, tendo participando no 1º Estágio de Dança Contemporânea, o primeiro programa de formação profissional organizado pela CulturArte e Danças na Cidade (Lisboa/Portugal) em 2003-04. Como parte deste programa, recebeu formação em aulas com Boyzie Cekwana, Desiré Davids, Faustin Linyekula, Gilles Jobin, David Zambrano e Francisco Camacho, entre outros. Sua abordagem geral para o movimento está ligada a sensações, real ou movimento imaginário como uma extensão de sua fonte interior. A maior parte do seu trabalho é baseado em intercâmbios e colaborações. Janeth Mulapha, bailarina e coreógrafa mo- çambicana nascida em 1978, inicia a sua formação em Dança em 1998, na Escola de Dança Máscara/CulturArte, onde adquiriu os primeiros conhecimentos em Danças Tradicionais, Dança Moderna, Música e Contacto-Improvisação. Participou no 1º Estágio de Desenvolvimento Coreográfico organizado pela CulturArte (2003/05), onde trabalhou com os coreógrafos Boyzie Cekwana, Desire Davids, David Zambrano, Mat Voorter, Gilles Jobin, Faustin Linyekula e George Khumalo. Deu continuidade à formação em dança contemporânea em vários workshops com coreógrafos internacionais, tais como Sello Pesa, Frans Poelstra, Paulo Henrique e Elisabeth Coorbett. Maida Jossefa é estilista há três anos e consultora de moda há 18. Dedica-se à linha AFRO-Chic trazendo o estilo tradicional à modernidade. Participou na Feira de Turismo “Descubra Moçambique” em três anos consecutivos e foi designada melhor estilista na categoria Vestes Tradicionais. A.S Atlantic Music Expo, Cabo Verde, em Abril de 2013. Compor música e cantar é uma grande paixão na sua vida. Ela escreve suas letras em Português, Inglês, Chopi e Shangana e sua música pode ser melhor descrita como um equilíbrio entre Soul, Pop, Jazz luz e música do mundo. Sizaquel Matlombe é detentora de uma voz exímia, atraente e inconfundível. Sem dúvidas, ela ostenta uma das melhores vozes no panorama musical moçambicano. Os tí- tulos conquistados no Ngoma Mo- çambique falam por si e provam o talento desta mulher de uma voz de muitas vozes. Vinda de uma família de músicos, desperta em si muito cedo o gosto pela música. Considera-se uma mulher, menina simples Isabel Novella Dobra por aqui SUPLEMENTO HUMORÍSTICO DO SAVANA Nº 1161 ‡ DE ABRIL DE 2016 SUPLEMENTO 2 Savana 08-04-2016 Savana 08-04-2016 3 Savana 08-04-2016 27 OPINIÃO Abdul Sulemane (Texto) Ilec Vilanculo (Fotos) T odos os dias acredito que sejam também das mulheres. São elas que com as suas actividades complementam a vida da nossa sociedade. Descrever o papel da mulher na sociedade não caberia nesta página. De uma forma sucinta vamos procurar celebrar o papel que a mulher desempenha nas nossas vidas. Como sabemos, as mulheres desempenham um papel preponderante na vida de todos os seres humanos. Todos nós nascemos de uma delas. Devemos a vida a elas. E outras coisas devemos à mulher. Além da vida existe também a questão do carinho, compaixão, confraternidade que encontramos na mulher. O seu papel na vida é indiscritível. Embora existam momentos na vida que esquecemos, ignoramos o papel de mulher nas nossas vidas. Quando paramos para pensar que a vida que temos devemos a elas. O nosso crescimento até à vida adulta devemos a elas. Logo nos primeiros sinais do dia são elas que acordam e organizam as necessidades básicas para que a vida de muitos seres humanos inicie condignamente. Organizam o banho, a primeira refeição para que os membros do agregado familiar tenham energias suficientes para enfrentar a vida. São elas que lutam diariamente para manter a família coesa. Quando saímos à rua encontramos a mulher a lutar, à procura de meios de sustentar a vida dos seus filhos e familiares. Nessa luta diária ela chega ao ponto de esquecer da sua vida própria em prol dos outros. Elas são muitas vezes personagens das injustiças, atrocidades, violações e outros males. Esquecemos que elas são figuras preponderantes de todas as sociedades. Mesmo na vida adulta, o homem precisa do alento de uma mulher. Recordo que depois de um dia cansativo do trabalho, em casa são elas que cuidam de todos. Esquecemos que elas também se cansam. Mas como elas foram mais dotadas, são as mais fortes entre os seres humanos, esforçam-se para encarar o novo dia com a mesma vivacidade. Tudo isso para falar da mulher, mãe, esposa, amiga e colega. É nos braços da mulher que afagamos o cansaço, frustração, desalento e recarregamos as energias para encarar o novo dia. A figura da mulher é fundamental para a vida. Se existe alguma dúvida imaginemos como seria o mundo sem a mulher. Acredito que as atrocidades, frustrações e outras maldades seriam ainda maiores. A mulher é um filtro na vida dos seres humanos. Por isso que todos os dias tínhamos que agradecer a elas por existirem nas nossas vidas. Mesmo que de uma forma atafulhada, tentamos descrever a figura da mulher, nesta data, 7 de Abril, que comemora mais uma exaltação do seu dia. Neste contexto, o jornal SAVANA deseja um feliz dia da mulher moçambicana para todas as mulheres deste vasto país. Por isso temos nesta última imagem Benvinda Tamele, Lúcia Maurício, Carmelinda Gaspar e Bela Chiziane a representarem as mulheres da MediaCoop. Mas temos a Sara Gani que não se encontra na imagem, mas que faz parte do elenco feminino da empresa. Elas é que são a força motriz da nossa empresa. Mais uma vez feliz dia das mulheres moçambicanas. Sem elas não seríamos seres dignos deste mundo. No dia delas IMAGEM DA SEMANA À HORA DO FECHO www.savana.co.mz n5 5 ,#&5 5hfgl5R5 5 5R5 o 1161 Diz-se... Diz-se Como vem sendo frequente nos últimos meses, o Gabinete Central de Combate à Corrupção (GCCC) anunciou a instauração do processo-crime contra a antiga directora-geral do Instituto Nacional de Transportes Terrestres (INATTER), Ana Dimande, indiciada pela prática dos crimes de pagamento de remunerações indevidas e abuso de poder. Para acusar a ex-dirigente, uma figura do círculo familiar de um dos principais colaboradores do antigo presidente da República, Armando Guebuza, o GCCC arrolou um conjunto de factos contrários à lei, ocorridos entre Dezembro de 2014 a Abril de 2015. Do conjunto das infracções arroladas como crimes, consta o pagamento de salários indevidos a seu favor e a mais 31 funcionários subalternos e próximos da dirigente. Segundo o GCCC, para conseguir seus intentos, a referida dirigente ignorou, de forma propositada, um despacho conjunto dos Ministros das Finanças e de Transportes e Comunicações, que fixava nova tabela de remunerações para os quadros daquela instituição e que proibia o pagamento de quaisquer outros abonos, para além dos previstos na referida deliberação. Mesmo com o conhecimento da respectiva directiva, a ex-directora e os restantes funcionários receberam as remunerações acrescidas de valores indevidos, tendo prejudicado o Estado em cerca de 11 milhões de meticais. Após a dedução da acusação, o processo-crime foi remetido ao Tribunal Judicial do Distrito Municipal KaMpfumo para posteriores trâmites processuais. A presente acusação vem juntar-se a tantas outras que o GCCC anunciou ter movido contra altos dirigentes do Estado e das empresas públicas por delapidação dos bens públicos, mas que depois acaba não se conhecendo o seu desfecho em alguns casos, e noutros os arguidos são absolvidos por insuficiência de provas ou por má instrução dos processos, ficando o Estado mo- çambicano lesado. Os pecados de Dimande Em Abril de 2015, Ana Dimande foi exonerada do cargo de direc- .), 5 )5 65 * &)5'#(#-.,)5 dos Transportes e Comunicações, Carlos Mesquita, depois de o jornal 5. ,5*/ &# )5/'5 - â(- dalo financeiro naquela instituição. 5,)' )5 , 5&# , )5* & 5, -*)(- sável mais alta da instituição e o mesmo consistia na violação de ordens superiores e aprovação de salários exorbitantes para os responsáveis daquela instituição. Como resultado desses abusos e violações de ordem superior, Ana Dimande auferia cerca de 500 mil meticais. Assim, Ana Dimande tinha mensalmente na sua conta cerca de 500 mil meticais resultantes do somatório do salário-base na ordem de 168 mil, acrescido de um bónus de 120 por cento e outro de 60 por cento. Portanto, somava-se 168 mil + 201 mil + 100 mil, totalizando um abono de 470.400 Meticais. A tabela salarial foi “inventada” pela própria directora, violando, deste modo, uma directiva conjunta assinada pelos antigos ministros das Finanças e dos Transportes e Comunicações. É que, por despacho conjunto, assinado em Setembro do ano de 2014, pelos antigos Ministros das Finanças, Manuel Chang, e dos Transportes e Comunicações, Gabriel Muthisse, introduzia-se uma nova tabela salarial para os cargos da Direcção Geral e das delega- éċ -5, !#)( #-5 )5 65.),- nando claro que não seriam pagos “outros abonos ou remunerações” fora daqueles que estão previstos no referido despacho conjunto. 5 -* ")5 )($/(.)5 -.#*/& 0 5 em 168 mil Meticais o salário base para o Director-geral, acrescido de 16 mil Meticais de renda de casa, um subsídio de telefone de 7.227 Meticais e 10 mil Meticais para despesas de representação totalizando 201 mil meticais. Por Raul Senda Ex-directora do INATTER a caminho do Tribunal Foto: Ilec Vilanculos R555A humilhação sofrida pelo “camarada” JZ no país dos cunhados, por desrespeito da Constituição, é um duplo revés para as nossas bandas. Para o “pai da democracia” que tanta fé faz para mediador do diálogo no polígamo que acredita que um chuveirinho afasta )5 7 # 65 5* , 5 5 , &5. ' ï'65*)#-5 !), 5. '5)5*)0)5' #-5 . (.)5+/ 5(/( 5 5 4 ,5 )'* , éċ -5 (., 5 5' (-ã)5 5 % (- dla e as borradas da Ematum e Proindicus que vão directamente parar à soleira da porta do cachimbo. R555Com a “camarada” Dilma mais isolada, com o “camarada” Lula a lutar pela sobrevivência, com o “camarada” José Dirceu sacrificado * & 5 /- 5 5$á5( 5*,#-ã)65ŀ 5 # ù #&5* , 5* ,. 5 5()' (%& ./, 5 local não sofrer, pelo menos os dramas psicológicos das martiri- 4 (. -5* & 0, -5^& 0 $ .)_55 5^(% ( & _85 .ï5 5*,) /, ), 5/ "# deve ter sido assaltada de dúvidas nos seus sonhos, se deve ou não avançar com um processo contra quem a nomeou. Tássemal… R555Estava o nosso ministro lança-perfume em verdadeiro repouso do guerreiro depois das bem sucedidas batalhas de Londres e )0 5 ),+/ 65-)(" ( )5 )'5' #-70 &# -5 5 22)(5 ) #&5 .ï5 )5 fim do ano, o que eventualmente lhe dará uns trocos para sanar trapalhadas da anterior governação, o descalabro que anda pelas empresas públicas e ainda oferecer umas reservas a juro negociado aos homens do edifício megalómano, eis que um jornal nova iorquino decide dar-lhe mais uma dor de cabeça de origem viral. 5 0ù,/-5 " ' 7- 5 ^ ,)#( # /-_5 5 ( 0 5 ()5 ,5 "á5 0á,#)-5 ()-85 Com ou sem vírus, a agência de notação S&P, que tem o país debaixo de olho, baixou-nos a classificação para “SD” (qualquer coisa como incumprimento selectivo), bem pertinho de declarar o país incapaz de respeitar os seus compromissos internacionais de pagamento da dívida. R5555Com mau dormir também andam os homens do edifício megalómano. Eles que apelam à contenção, e se preparam para mudar para instalações milionárias (na ordem dos três dígitos),estão de cabeça à nora com o deslizar do malfadado metical, esta semana trocado a 59 unidades contra uma verdinha no informal, uma variação de 20% contra as tabelas dos bancos, rácio que há muito tinha desaparecido do mercado local. R555Este cenário torna mais reais as previsões dos dois bancos azuis que não vêem como não escapar a novas subidas das taxas de juro .ï5 )5 ŀ'5 )5 ()85 '5 *#),5 ()5 (. (.)5 -.ã)5)-5% ' -65 +/ 5 têm o dólar agora nos 450 Kwanzas, três vezes mais o preço da cotação oficial. R555Mas apesar da falta de liquidez, da ameaça de venda da operação africana pelo banco mãe, o banco de Dona Lulu chegou aos cinco milhões (USD) de lucro, depois de uma injecção de USD120 mi- &"ċ -5 '5hfgj5 5+/ .,)5 ()-5()50 ,' &")85 5' /5* , 5+/ '5 $á5 )#5 ' & #é) )5*),5- ,5 5 (.#! 50 5& #. #, 5 5()' (%& ./, 5 rendeira. Ajuda também no sono e nos sonhos. R555Quem já anda com pesadelos por antecipação é a titular do ministério dos distritos e das xicalamidade e o seu vice, especialista em motins anti-oposição, em Gaza. Puto Daviz prepara-se para lhe mandar os nomes da nova toponímia da capital rebelde e não constam os nomes Karl Marx, Friedrich Engels, Lenine e Mao Zedong. Uma verdadeira chatice. R555 -5 ,#- /-65 -- -65.ð'5 !), 5-)()5 5-)(")-5' #-5-)-- ! )-65 !)- ra que se foi o seu mais virulento espinho na garganta, o bispo 'ï,#.)5 5 *#. &5 5)*)-#éã)85 5"), 5 5'),. 65 -* , 7- 5 )' /,#)-# 5 5 & , éã)5 5 65/' 5 -50)4 -5 /.),#4 -5 da ala mais conservadora da marca frel. Em voz baixa R5555Em agonia está o “pai da democracia”, algures na Gorongosa, que '5!)-. ,# 5 5#,5à5 #, 5 ,5)5Ě&.#')5 /-5 )5* , (. 5+/ 5 '5 o auxiliou no caminho das pedras até Roma, em 1992. Savana 08-04-2016 1 0DSXWR GH$EULOGH ‡$12;;,,,‡1o 1161 A Letshego, uma subsidiária do Letshego Holdings Limited (LHL), um grupo Pan Africano de serviços financeiros com sede em Gaborone e listada na bolsa de valores de Botswana (BSE), tornou-se desde esta quarta-feira a emissora principal de cartões em Moçambique licenciada pela MASTERCARD, uma empresa norte-americana do sector de pagamentos, que possui mais de 25 milhões de membros. O director do grupo Letsego, Chris Low, diz que esta acção marca uma nova forma de estar e ser do banco no país e no mundo, pois vai contribuir para uma maior inclusão fiLetshego licenciada pela MASTERCARD nanceira com destaque para as mulheres. Segundo Chris, a Letsego é uma marca que ganhou confiança em toda a África e a concessão de uma licença de emissor principal da Mastercard vai ajudar a aumentar a sua vasta gama de produtos e serviços inovadores e financeiramente inclusivos. Sublinhou Chris que Moçambique é o primeiro país dentro do grupo Letshego a receber estes serviços, o que mostra que tem um grande potencial de negócios que tanto precisavam de ser acelerados. A licença de emissor principal da Mastercard permite que o Letsego se envolva na emissão de cartões e ATM, ou com comerciantes ou ainda aquisições. Assim, a Letsego vai procurar explorar o vasto leque de pagamento de serviços de valor acrescentado que a Mastercard oferece, principalmente voltados para inclusão financeira. Estes incluem intervenções financeiras de alfabetização, soluções de remessas e tecnologias sem contacto, trazendo valor adicional para os clientes existentes. Enquanto isso, o PCA desta instituição financeira, Tobias Dai, considera esta nova parceria como sendo o primeiro passo para o desenvolvimento de soluções adequadas, simples e de baixo custo para os distritos. Segundo Dai, numa altura em que o país celebra o mês da mulher, o Letsego também levanta a voz para a sua respectiva promo- ção e inclusão financeira. O Letshego abriu as suas portas em Moçambique a 11 de Fevereiro de 2011, como parte do Grupo Letshego Holdings Limited (LHL) que é listada na Bolsa de Valores (BSE) com uma capitalização de mercado de cerca de USD550 milhões em finais de Janeiro de 2014. Letshego é um termo em Setswana que significa apoio. Letshego é um objecto Africano utilizado para cozinha, a qual apoia panelas no fogo e simboliza a confiança, a estabilidade e a capacidade de fornecer os recursos necessários para o auto- -sustento. Em Moçambique conta actualmente com uma carteira de 55 mil clientes, dos quais 30% são mulheres e dispõe de filias em todas as capitais províncias do pais, sendo que, de acordo com o respectivo PCA, a aposta nos próximos tempos é entrar nos distritos e criar opções de financiamento para os agricultores. Por seu turno, Charlton Goredema, vice-presidente da Mastercard para as áreas de negócios na África Austral e ilhas do Oceano Índico, destacou que a sua instituição é parceira primordial da Mastercard e espera contribuir para a inclusão e desenvolvimento da população moçambicana. Savana 08-04-2016 2 O Barclays Bank Mo- çambique, S.A. (BBM) apresentou nesta terça- -feira, 5 de Abril do corrente ano, os seus resultados referentes ao exercício de 2015. A apresentação dos resultados foi realizada por George Franco Davis, Director Financeiro da Instituição, que deu uma nota positiva a nível dos Resultados Líquidos do Exercício, fixado em 308 milhões de Meticais, o que representa uma recupera- ção muito significativa quando comparado com o resultado de negativo de 16.9 Milhões de Meticais em 2014. O Davis, referiu ainda que os resultados alcançados são ainda mais sólidos quando se compara com o ano anterior, o Banco aumentou os proveitos (em cerca de 50%), reduziu as imparidades de crédito (em cerca de 22%) e expandiu de forma significativa a carteira de depósitos e crédito. “Uma dimensão não menos importante, é a robustez da posição de capital do Barclays, com um maiores níveis de capitalização e liquidez do mercado moçambicano, factores também de sucesso que o torna um parceiro de referência para grandes empresas a operar no país ou com planos de investimento avultados para um futuro próximo”. De acordo Rui Barros, Admnistrador Delegado do BBM, os resultados do exercício ecoBarclays mais sólido em 2015 nómico de 2015 demonstram o sucesso da estratégia do Banco, que já havia dado sinais positivos de crescimento em 2014. “O compromisso em ser o Banco de Referência em Moçambique e a exigência contínua dos Clientes levaram o Barclays a planear mais investimentos para 2016, em particular no que respeita à melhoria no atendimento diferenciado, da infra-estrutura tecnológica e aposta na inovação, por modo a tornar-se a escolha óbvia de quem procura um banco de excelência”. O Administrador Delegado, realçou ainda que 2015 foi também um ano de investimento na simplificação da estrutura mais operacional do Banco, com o reforçar do posicionamento mais centrado no Cliente, tendo reforçado o nível de comunicação com os seus Clientes, procedido à abertura de um moderno Centro Premier, e iniciado o processo de reabilitação dos seus balcões, para além do lançamento novos produtos bancários. Relativamente ao remanescente do ano de 2016, os dois administradores do Barclays Mo- çambique denotaram preocupa- ção com a situação económica vigente de aumento de inflação, redução do crescimento econó- mico e subida de taxas de juro. Contudo, no médio e longo prazo, dizem-se confiantes no sucesso de Moçambique e do seu negócio. (E.C) O governo moçambicano lançou, esta segunda- -feira, no posto administrativo de Sabie, distrito da Moamba, província de Maputo, um ambicioso projecto com vista a expandir o sistema de abastecimento de água na região do grande Maputo. De acordo com o ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos (MOPHRH), Carlos Bonete Martinho, o projecto consistirá na construção de uma Estação de Tratamento de Água (ETA), com uma capacidade de tratar 60 mil metros cúbicos por dia, isto numa primeira fase e duma conduta adutora que partirá de barGoverno reforça abastecimento de água no grande Maputo ragem de corumane até ao centro distribuidor da Machava. Segundo Martinho, o projecto é co-financiado pelo governo mo- çambicano e Banco Mundial, no valor de USD178 milhões e contempla ainda a construção de um tanque de controlo pressão em Pessene com capacidade para 5 mil metros cúbicos dia. Sublinhou que o sistema irá assegurar a melhoria do acesso à água para mais de 560 mil pessoas, partindo do local da implantação do projecto para zonas a norte dos municípios de Maputo e Matola e a vila de Marracuene. Espera-se ainda aumentar as horas de distribuição e que o projecto atraia e alimente iniciativas de emprego e empreendedorismo assentes nas pequenas e medias empresas, bem como na criação de mais postos de trabalho para a população local. Assegurou que aquele projecto será replicado noutras cidades como Beira, Quelimane, Pemba, Nacala e Cuamba, locais onde serão estabelecidas cerca de 45 mil novas ligações domiciliares e construídos 29 fontenários públicos, que vão beneficiar perto de 29 mil famílias. Com estes planos, o dirigente diz que se espera aumentar os níveis de cobertura do abastecimento de água para 75% nas zonas rurais e em 90% para as zonas urbanas. “Queremos assegurar que o processo de ensino e transmissão de conhecimento nas raparigas e nos rapazes seja efectivo e não perturbado por actividades domésticas de busca de água”, frisou. Continuando, Bonete chamou atenção ao empreiteiro Denys Water Work para a necessidade de observância dos prazos de execução das obra (dois anos) bem como da qualidade do mesmo e evitar o má- ximo possível os erros. No entanto, o director-geral do FIPAG, Pedro Paulino, disse que a aposta na barragem de corumane surge depois de estudos feitos entre 2010/11 terem concluído que a estação de tratamento de água de Umbeluzi havia atingido o limite da sua capacidade. Assim, a única fonte alternativa e segura seria a barragem de corumane, num horizonte de aproximadamente 20 anos, sendo que mais tarde em função da demanda, haveria de se recorrer à barragem de Moamba major. No entanto, corumane debata-se com fortes restrições de água devido à estiagem, sendo que actualmente apresenta uma de 25% e, caso não chova nos próximos tempos, o investimento será um elefante branco. Entidade gestora da barragem aponta que o governo tem em manga um projecto de construção de comportas que no mínimo vão garantir a disponibilidade de água durante uma época de estiagem. F oi lançada, na semana finda, no Brasil, a segunda obra literária do escritor moçambicano Clemente Bata. Intitulada “Outras coisas”, a obra reúne contos de variada temática, como o amor, o alcoolismo, os crimes, a violência doméstica, entre outras. “É uma junção de espaços físicos, reClemente Bata lança obra no Brasil tratando as desordens das relações humanas em histórias instigantes, de maneira subtil e comovente”, afirma o autor. A obra, de 132 páginas, publicada sob a chancela da Editora brasileira Kapulana integra a série “Vozes da África”, responsável pela publicação de obras de autores moçambicanos como Francisco Noa, Ungulani Ba ka Khosa, Suleiman Cassamo, Lica Sebastião e Aldino Muianga. Recorde-se que a primeira obra de Clemente Bata, publicada em Maputo, no ano 2010, foi laureada com o Prémio Literário 10 de Novembro, atribuído pelo Município de Maputo.(E.C) Savana 08-04-2016 3 O s resultados alcançados pelo Millennium bim no ano de 2015 contribuíram para as receitas do Estado com cerca de 460 milhões de meticais só em IRPC (imposto sobre o rendimento das pessoas colectivas), atingindo uma variação positiva de 6% em relação ao mesmo período do ano passado. A este valor somam-se os 900 milhões de meticais de retenção na fonte que entraram nos cofres do Estado, relativos a juros, dividendos, rendimentos do trabalho pagos e imposto de selo, que fazem do Millennium bim um dos principais contribuintes fiscais do país. Estes dados foram divulgados na Assembleia Geral do banBIM contribuiu para o Estado com 1.360 milhões co, realizada na quinta-feira, 31 de Março, onde os accionistas aprovaram o Relatório e Contas relativo ao exercício do ano de 2015. Com o seu desempenho de 2015, o banco apresentou um resultado líquido de 3.7 mil milhões em linha, que permitiu o reforço dos seus capitais próprios e a obtenção de um rácio de solvabilidade de quase 20% face ao mínimo regulamentar de 8% demonstrando a elevada robustez do Millennium bim. Estes resultados vêm, mais uma vez, contribuir para consolidação do seu posicionamento como agente activo do crescimento económico e desenvolvimento social de Moçambique. De facto, os resultados apresentados pelo Millennium bim, nos últimos anos, têm permitido reforçar o seu investimento na bancariza- ção do país e inclusão financeira das populações. Refira-se que em 2015, e mantendo a permanente atitude de inovação que desde sempre o caracteriza, o Banco lançou o projecto dos agentes bancários e estabeleceu a parceria com os Correios de Moçambique que prevê a abertura de balcões conjuntos nos próximos anos em diversos pontos do país, um investimento que irá contribuir de forma expressiva não só para a recuperação do património público, mas também para a bancarização de Moçambique. (E.C) A AIESEC-Associação Internacional de Estudantes em Ciências Económicas e Empresariais realiza, no país, a partir desta quarta-feira, a segunda edição do Leadership Challenge, um projecto nacional de jovens universitários, que visa despertar nos jovens a consciência sobre o seu potencial de liderança. O Leadership Challenge tem iní- cio com a realização de cinco eventos locais nas cidades de Maputo, Matola, Xai-Xai, Beira e Nampula, entre os dias 22 e 23 de Abril. Em cada uma destas cidades serão seleccionados os 10 melhores estudantes, perfazendo 50 melhores estudantes, que participarão no desafio final, num retiro em Maputo, onde terão uma preparação aprofundada em investigação científica, através de um corpo docente, empresariado e personalidades. Pretende-se com esta iniciativa abrir um espaço que possibilite, através de soluções de investigação científica, a co-criação de soluções práticas e aplicáveis, para servir o País e o empresariado. A segunda edição do Leadership Challenge, a decorrer sob o lema “Ciências e Tecnologia como catalisador da educação em MoçamII edição do Leadership Challenge em movimento bique”, visa igualmente envolver o sector corporativo como incentivador do desenvolvimento de liderança jovem em Moçambique e ainda criar uma ponte de cooperação entre o sector académico e a sociedade civil na materialização de conhecimentos científicos para o benefício social, entre outros aspectos. No evento, em co-organização com o Fundo Nacional de Investigação e o Instituto Nacional da Juventude, com o apoio do Conselho Nacional da Juventude, serão identificados problemas práticos que assolam o País e o empresariado, devendo os estudantes finalistas universitários, através da investigação científica, propor soluções concretas aos problemas da sociedade moçambicana. Savana 08-04-2016 4 PUBLICIDADE

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