sábado, 9 de abril de 2016

Dom Jaime Gonçalves ficará na história como “uma das grandes figuras de Moçambique”


Será recordado com saudade entre os moçambicanos, afirmou Lourenço do Rosário, académico e ex-mediador na crise política. Realiza-se no sábado (09.04) o funeral de um dos principais arquitetos da paz em Moçambique.
Dom Jaime Gonçalves foi o mediador da Igreja Católica moçambicana e do Vaticano no Acordo Geral de Paz de 1992, que pôs fim a 16 anos de guerra civil entre o Governo da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana). Faleceu na última quarta-feira (07.04) vítima de doença prolongada.

Nos últimos tempos, o arcebispo emérito da cidade da Beira já não gozava da mesma simpatia de outrora por parte dos líderes daqueles partidos. Contudo, entre os moçambicanos, é recordado como uma figura de relevo na vida política, social e religiosa de Moçambique.

A DW África entrevistou Lourenço do Rosário, académico moçambicano e ex- mediador nas conversações entre o Governo e a RENAMO, que lembrou a figura de Dom Jaime Gonçalves.


Lourenço do Rosário (esq.), na altura mediador no diálogo entre o Governo e a RENAMO, na recolha de algumas armas do braço armado do partido (2015)
DW África: Como será recordado entre os moçambicanos Dom Jaime Gonçalves?
Lourenço do Rosário (LR):Coincidentemente, os bispos da Beira foram sempre foram bispos muito atuantes na cena social, política e religiosa de Moçambique. Mesmo no tempo colonial, tivemos uma atuação da Igreja Católica bastante crítica em relação aos aspetos políticos da guerra colonial. Então, Dom Jaime Gonçalves deve ter herdado essa prática, dessa maneira de estar da Igreja Católica na Beira que, naturalmente, os moçambicanos lembram como uma figura de grande envergadura para equilibrar a opinião pública de Moçambique sobre as situações sociais e políticas do país.

DW África: Deixará o bispo emérito Dom Jaime Gonçalves um sentimento de saudade entre os moçambicanos, principalmente neste momento de tensão política e militar no país?

Dom Jaime Gonçalves teve um papel preponderante na assinatura do Acordo Geral de Paz em 1992
LR: Ultimamente, ele não gozava de grande simpatia por parte dos políticos atuais. Embora depois da sua morte tenham vindo a público discursos de louvor, quer da parte do líder da RENAMO quer da parte do Governo, sobretudo do partido FRELIMO, olhava-se o arcebispo com muita desconfiança sobre as suas simpatias políticas. Mas, de uma forma geral, o povo recorda Dom Jaime Gonçalves como uma das grandes figuras da cena política, social e religiosa nacional.
DW África: Dom Jaime Gonçalves foi um dos elementos mais importantes no que concerne à assinatura do Acordo Geral de Paz em 1992?
LR: Foi sim senhor. Ele teve um grande papel, foi inclusivamente um representante da Igreja Católica moçambicana. O processo de paz foi mediado pela Igreja Católica através da Comunidade de Sant’Egídio e, por parte de Moçambique, ele foi um dos elementos que esteve nas conversações de paz durante os dois anos. Dom Jaime Gonçalves vai ficar, com certeza, na história de Moçambique como uma das grandes figuras dos últimos 50 anos de vida do país.

DW África: Dom Jaime Gonçalves considerava que o Acordo Geral de Paz continuava atual. Tendo em conta a atual situação de tensão política e militar, tem a mesma opinião?

Apesar de a paz ter perdurado durante mais de 20 anos, a crise político-militar trouxe novos confrontos
LR: O Acordo Geral de Paz tem vários capítulos, alguns dos quais foram amplamente divulgados, outros não. Do meu ponto de vista, há capítulos que precisavam de ser revisitados para ver efetivamente se foram cumpridos ou não nas eleições de 1994. Portanto, com a entrada em vigor do Governo constitucional de 1995, resultante das eleições de 1994, o Acordo Geral de Paz deixou de ser validado. Mas há capítulos naturalmente que não foram divulgados e que provavelmente era preciso revisitar, nomeadamente no que diz respeito à questão das forças armadas, o problema da lei eleitoral, etc.

DW África: Dom Jaime Gonçalves recordava que a falta de confiança entre o líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, e o Presidente na época, Joaquim Chissano, foi um dos principais problemas para se chegar ao acordo de paz. E numa das últimas intervenções públicas disse mesmo que havia um plano para eliminar o líder da RENAMO. 

 

Dom Jaime Gonçalves ficará na história como “uma das grandes figuras de Moçambique” 

Enquanto ex-mediador, o que é que falta para que haja um verdadeiro e sincero aperto de mãos entre os dois líderes e o calar definitivo das armas em Moçambique?
LR: Em determinados momentos já existiram sinais que demonstram que os níveis de confiança se aproximam para haver um aperto de mão, mas acontecem sempre outros aspetos que acabam por deteriorar a situação. E, neste momento, os níveis de confiança estão no mais baixo nível possível. Portanto, é preciso ter muita criatividade para se reencontrar o caminho visando restabelecer a confiança.

DW África: A que se deve esta falta de confiança que perdura há bem mais de vinte anos?
LR: Do meu ponto de vista, acho que é a falta de cultura de uma verdadeira reconciliação nacional. A ideia do inimigo, do adversário e o problema do grupo é que minam efetivamente a criação de confiança. Portanto, não há uma cultura de reconciliação real, de se considerar que há uma agenda do Estado que pode ser comum tanto para quem esteja no poder como na oposição.

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