quinta-feira, 21 de abril de 2016

Barue: Quantos já morreram? Quantos ainda terão que morrer?


Lá fora está frio. E eu sinto frio dentro de mim, quando me recordo do que, lá em baixo e lá em cima, melhor dizendo, lá noutras terras deste Moçambique, se vive indiferente à guerra que aqui, em Barue, outros rapazes e outros homens, vindos sei lá de onde, são obrigados a ter, por causa da ambição desmedida de meia dúzia de falsos profetas, entre eles Nyusi e Dhlakama, que tudo prometem e nada cumprem. Rapazes e homens, uns agora vindos de escolas, outros com alguns anos de experiência na guerra de outros tempos, que vêm para aqui, completamente afastados das suas terras, das suas casas, das suas famílias, para nesta terra defenderem o que eles próprios ignoram. Falecimento aqui, falecimento acolá, luto nesta casa, luto naquela casa, lágrimas neste rosto, lágrimas naquele rosto, violação aqui, violação acolá, é o verdadeiro rosto do que um ano e quatro meses de mandato de Filipe Nyusi já semeou. Quantos já morreram? Certamente centenas! Quantos ainda terão que morrer? Certamente milhares. Cheiro de corpos em putrefacção aqui, ossos e membros humanos acolá, tiros aqui, estrondos acolá é a forma como Nyusi pretende ser legitimado, próprio de um bom aprendiz de Maquiavel quando disse que um líder deve escolher ser temido do que amado. Todos os dias manda jovens, normalmente filhos de pobres para cá. E a guerra que os espera aqui em Barue é uma guerra traiçoeira, completamente diferente das guerras de outrora, resolvida exclusivamente nos campos de batalha, entre soldados. A luta que eles actualmente enfrentam, como a enfrentam os seus irmãos que se batem noutros lugares, como Gorongosa, reveste-se de uma nova concepção estratégica mediante a qual o ataque de flanco ou pela retaguarda se realiza, não sobre o flanco ou retaguarda das forças combatentes, mas na absoluta retaguarda delas, no interior do território, sobre a massa enorme e quase inerte de mulheres, de velhos e de crianças, que mal podem influir com o seu esforço na decisão da luta quer no campo da batalha quer no campo político. O que eles desejam é verem-se livres desta guerra injusta e inexplicável, promovida também por aqueles que lhes prometem a paz. Uma pergunta que o povo de Barue se faz e para a qual faltam respostas é: até quando aguentaremos com os tiranos? Só estão em paz os que comandam esta guerra, os que estão à margem dos imensos sofrimentos morais e materiais desta guerra injusta e inexplicável. Só está em Paz Senhor Engenheiro dos CFM, os seus amigos, a sua família e seus defensores. Aqui em Bárue ninguém está em paz. Hoje, 21 de Abril do ano de graça de 2016, assistimos ao avolumar das atrocidades. Fomos surpreendidos por um grupo incontável dos homens de Filipe Nyusi que brutalizaram tudo o que aparentava ser homem, acusando-os de serem a «Renamo». Mandaram fechar escolas,  hospitais e mercados e espancaram o maior número de homens, jovens e até velhos. Não sei se pode haver maior atrocidade que esta. Quando o Ocidente invadiu a Líbia, um dos argumentos era proteger o povo da atrocidade cometida pelo próprio Governo. É o que vemos aqui em Barue, ante o olhar impávido das Organizações Humanitárias, se é que existem. A Frelimo que tinha prometido defender o povo é ela que violenta o povo. Infelizes de nós por não vivermos junto das fronteiras de países vizinhos para denunciarmos, já em paz, o que vemos por aqui. Sinto frio, enquanto escrevo isso e não sei se voltarei a escrever, mas tenho a certeza de uma coisa: amanhã terei que escolher para que falecimento ir, depois que estes violadores, estupra-dores, assassinos, enfim, homens sem almas, se retirarem daqui de Barue.

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