sábado, 23 de abril de 2016

a repetição da tragédia brasileira

O impedimento:


O que é intolerável para a classe dominante é o fato de um operário de pouca escolaridade ter se tornado presidente do país
Por Leonardo Boff – do Rio de Janeiro:
A cordialidade brasileira, em sua face sombria, descrita por Sérgio Buarque de Holanda, que se expressa pelo ódio e pela intolerância, fornece o húmus de onde pode se precipitar novamente a  tragédia brasileira.
Em que consiste esta tragédia? Nesse fato: sempre que o povo, os pobres, seus movimentos e seus líderes carismáticos irrompem no cenário político, surgem as velhas elites que carregam dentro de si a estrutura da Casa Grande para  negar-lhes direitos, conspirar contra eles, difamar e criminalizar suas lideranças, empurrá-los para as periferias de onde nunca deveriam ter saído. Aos negros, aos índios, aos quilombolas, aos  pobres e a outros discriminados se lhes negam reconhecimento e dignidade. E contudo constituem a grande maioria do povo brasileiro. É o que está ocorrendo atualmente no Brasil. Face a todos esses, as oligarquias e, em geral, os conservadores e até reacionários, mostram-se cruéis e sem piedade, apoiados por uma imprensa malvada e sem vínculo com a verdade pois distorce e mente.
A cordialidade brasileira, em sua face sombria
A cordialidade brasileira, em sua face sombria
O que é intolerável para a classe dominante é o fato de um operário de pouca escolaridade ter se tornado presidente do país. O que mais os irrita é dar-se conta de que ele, Luiz Inácio Lula da Silva, é muito mais inteligente que a maioria deles, possui um liderança carismática que impressionou o mundo e que seu governo fez mais transformações que eles em todo o tempo em que estiveram no poder. Com ele o povo  ganhou centralidade e o considera como o maior presidente que este país já teve. Com frequência se ouve de suas bocas: “foi um presidente que sempre pensou nos pobres e que implantou  políticas que não apenas melhoraram nossas vidas mas nos devolveram dignidade. Éramos  invisíveis, agora podemos aparecer ”.
A atual conflagração política que atingiu níveis vergonhosos  de expressão nasce desta mudança operada no andar de baixo, negada pelos do andar de cima. Estes escandalizam o mundo por sua riqueza e poder. Jessé de Souza, presidente do IPEA, revelou recentemente que o topo da pirâmide social brasileira é composta por cerca de 71 mil bilhardários representando apenas 0,05% da população adulta do país. E são beneficiados por isenções de impostos sobre lucros e dividendos, enquanto os trabalhadores carregam o pesado fardo dos impostos.
Estes endinheirados possuem sua expressão política nos partidos conservadores  e com síndrome de vira-latas, porque  não conseguem ser aquilo que gostariam de ser: sócios, ainda que meros agregados, do projeto-mundo hegemonizado pelos EUA.
Eles não negam a democracia, pois seria vergonhoso demais. Mas querem um estado democrático não de direito mas de privilégio, estado patrimonialista que lhes permite o enriquecimento, ocupando altas funções de governo e controlar os órgãos reguladores pelos quais garantem seus interesses corporativos. O grosso do PSDB e do PMDB (graças a Deus há neles pessoas honradas que pensam no Brasil e não só nas próprias vantagens) sem citar outros partidos menores, se inscrevem dentro deste arco político de uma modernidade conservadora e anti-popular.
Ao contrário, os grupos progressistas que ganharam corpo no PT e nos seus aliados, postulam um Brasil autônomo, com projeto nacional próprio que resgata a multidão dos injustamente deserdados com políticas sociais consistentes apontando para uma completa emancipação. Estes agora ocupam o estado que se vê cercado como que por uma matilha de cães raivosos que querem liquidá-lo.
São esses que estão promovendo o impedimento da presidenta Dilma Rousseff sem base jurídica consistente de crime de responsabilidade. Dois meses após a sua vitória em 2014, o PSDB já conclamava nas ruas um impedimento da presidenta sem apontar as condições constitucionais que permitissem tal ato extremo. Primeiro se condena, depois procura-se algum eventual crime. Como não lhes importa a democracia, apenas aquela de sua conveniência, passam por cima de leis e normas constitucionais para arrebatar  o poder central que não conseguiriam conquistar pelo voto. Não é de se admirar que este partido arrogante, cuja base social é a classe média conservadora, esteja se diluindo internamente, por não manter ligação orgânica com o povo e com seus movimentos e por sustentar um projeto neocolonialista.
Estes com outros articulam um golpe parlamentar e renovar a tragédia política brasileira como foi com Vargas e com Jango, culminando com a ditadura  militar. Agora no lugar dos tanques e das baionetas funcionam as tramoias, forjando uma argumentação insustentável juridicamente para afastar a presidenta. Querem ocupar o estado para realizarem seu projeto privatista e antinacional. Se ocorrer uma convulsão social, porque os milhões dos que saíram de miséria não aceitarão mudanças contra eles, os golpistas serão seus principais responsáveis. Não podemos permitir que tragédia novamente se consuma.
Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor.

Ponte para o inferno


Diante da crise política em que se afunda o Brasil, não há dúvida que o movimento sindical e os trabalhadores têm pressa em resolver logo a situação para acelerar a retomada econômica
Por Sérgio Butka – de Brasília:
É preciso cuidado para que nessa pressa não acabemos embarcando em iniciativas que podem se tornar um tiro no próprio pé de toda a classe trabalhadora.
Esse risco é claro quando olhamos para o documento “Uma Ponte para o Futuro”, que o PMDB apresentou como plano de governo caso Michel Temer se torne presidente. O programa simplesmente propõe a flexibilização e o fim dos direitos trabalhistas, previdenciários e sociais. Carregado de retrocesso, é uma dilapidação da Constituição Federal e um ataque frontal ao Brasil.
Covardemente, o documento do PMDB Ponte para o Futuro acusa os direitos do trabalhador como um entrave para País avançar
Covardemente, o documento do PMDB Ponte para o Futuro acusa os direitos do trabalhador como um entrave para País avançar
Covardemente, o documento acusa os direitos do trabalhador como um entrave para País avançar. É a mesma conversa mole sempre usada pela direita e pelo patronal. Não é a toa que esse pessoal está como um bando de urubus em cima da carniça articulando e financiando o impeachment. Já disse e volto a repetir, não pense o trabalhador que o interesse da Fiesp e da oposição é por patriotismo. Esse pode ser o sentimento real do trabalhador.
Já em relação à direitona, não resta dúvida que tentam se aproveitar da instabilidade política para fazer valer seus interesses. O que querem é aumentar seus lucros e seus privilégios às custas do corte e destruição dos direitos da nação.
O documento deixa claro a serviço de quem está o PMDB de Michel Temer e Eduardo Cunha. O que propõem é uma pauta totalmente contrária aos trabalhadores. É uma ponte para o inferno. E mostra que é preciso cuidado para que na ânsia de sairmos da frigideira, não acabemos nos atirando no fogo.
É fato que temos tido uma postura crítica em relação ao governo, principalmente na condução da política econômica. E temos lutado para mudar isso. Agora, por em risco direitos históricos para fazer o jogo do patronal e da direita, não dá para aceitar.
Fica o alerta tanto para o movimento sindical, como para os trabalhadores. O risco de que esse pessoal chegue ao poder é alto, já que Dilma está “mais pra lá, do que pra cá”. E não resta dúvida de que com essa história toda, quem vai comer o pão que o diabo amassou é o trabalhador se não estiver preparado e mobilizado para enfrentar a tempestade que vem por aí. Quem viver verá.
Sérgio Butka, é presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba

Sem comentários:

Windows Live Messenger + Facebook