domingo, 10 de abril de 2016

A história escrita pelos vencidos


Os contos deste livro contam a história dos que foram vencidos ou que ainda não puderam vencer. O mar e as suas viagens são uma lembrança da condição errante do que é humano.
Livros Os Navios da Noite     
Apesar do traço de união entre os contos, o modo como estes lançam mão de temas mais ou menos comuns é distinto
O ponto de vista do vencido é o título do primeiro dos contos recolhidos emOs Navios da Noite; João de Melo podia tê-lo escolhido para intitular o seu mais recente livro. Como se a história fosse, por uma vez, escrita pelos derrotados, estas ficções concentram-se, não poucas vezes, naqueles que perderam ou perdem, nos despojados dessa espécie de fundo de maneio do ânimo que permite manter a cabeça minimamente erguida. O referido conto inicial é uma narrativa de derrota. O autor localizou-a no tempo de cinza do Estado Novo e concentrou na personagem principal o desastre global de todo um país. Fê-lo de uma forma que acentua um percurso pessoal de afundamento na opressão policial, de falência física sob a pressão incalculável da tortura, e do consequente ostracismo. Uma trajectória cujo alcance simbólico se amplia para denunciar um lastro histórico da memória nacional. Outras instituições marcadamente reconhecíveis, como a Igreja, conhecem um gráfico descendente de teor semelhante, na figura do sacerdote de Os Pecados do Mundo, cujo “antigo discípulo de estudos (…) ascendera na hierarquia eclesiástica” (p.46), até à dignidade de bispo, enquanto Filomeno se mantinha na singela fileira dos padres. A ordem eclesiástica replica, na sua hierarquização, mas também nos grãos de poeira que se intrometem nas suas rodas dentadas, um mundo fechado onde escurece. Mas um dos casos mais lancinantes, neste quadro de malogro, é o de Os Ossos do Meu Corpo.
Neste conto, um caso de doença oncológica é convertido num relato suspenso entre a descrição precisa da decadência física e emocional e a manutenção de uma corporação de mistérios que desfilam embuçados e apenas fazem a sua aparição em investidas de cálculo feroz. Assim, o que poderia ter secado na aridez de um boletim médico, ou, que na pior das hipóteses, talvez degenerasse em sentimentalidade lamentosa, é antes uma constante requisição do zelo de quem lê – “E morro ainda, visível e silenciosa, aos olhos de quem já não me conheceu jovem” (p.265). Uma dos desafios deste conto é a modulação da voz narradora para o feminino que lhe dá forma. No entanto, ele também não é uma vindicação fácil (ou calculista) da condição feminina, mas uma problematização muito mais global do humano. Olhá-lo através do prisma radical da iminência da morte é a sua estratégia principal – “A morte, meu amigo? Começa na noite em que deixamos de ter vontade; na primeira vez em que o corpo recusa a intimidade e nos deixa aturdidos” (p.271). O seu método, a marcação de um dinamismo que ainda é capaz de causar sobressalto, pelas perspectivas assumidas, pelo modo elíptico de conduzir a narração, pela capacidade de manobrar a frase enquanto comentário de um descalabro irremediável – “Uma pessoa como eu jamais suspeitara das muitas espécies de dor que um corpo sem ossos lhe reserva” (id.).
João de Melo optou por desenvolver os indícios fornecidos pela citação do título (colhida em Álvaro de Campos) num conjunto restrito de contos e repartir o motivo marítimo por diversas zonas do livro. A posição central, nesta recuperação do poema de Campos, que encerra com o “frio que sobe do mar”, cabe a Navio de Cruzeiro ao Sul. Este é, porventura, o conto mais ambicioso de todo o livro. Até na questionação da forma. Podia configurar uma novela, pela sua extensão, como pelo desenvolvimento de personagens e enredos subsidiários. Pegando numa situação cujo potencial é elevado – uma longa jornada por mar –, Navio … submete as personagens a uma análise poucas vezes possível nos limites canónicos do conto. A gestão dos acontecimentos, a técnica de retardação dos desenlaces só seriam possíveis num plano mais desenvolvido. O navio passa a ser como um vasto laboratório, uma chave dicotómica em que cada ocupante do cruzeiro encaixa pelo menos parte da sua humanidade. Isolados na majestade dos mares, os viajantes, recostam-se numa “existência exposta ao excesso” (p.185) e revelam mais do que deveriam a sua natureza: quebradiça, perecível. A mestria do conto (novela?) consiste menos na montagem das suas peças até que o quebra-cabeças, por fim, fique emerso – o incêndio do navio e o caos que se segue precipitam a narrativa e desequilibram o ritmo, e a conclusão nada perderia se tivesse um final aberto – do que na individualidade de cada uma das suas partes. Por exemplo, o nome da embarcação, Kaiser, e a presença germânica a ele ligada, lançam permantentes e eficazes pistas falsas de leitura, que o desenvolvimento do conto repudia. A inserção de inúmeras notações de eficácia, rigidez, constituição física, entre outros pormenores nórdicos, é habilmente embutida e não menos destramente descartada. O modo gradual como os componentes da narrativa passam a converter-se em indícios – como “a grande fenda na água” (p.192) aberta pela proa do navio, ou a gula com que os passageiros disputavam o fogo dos banhos de sol –, esse, é um dos pontos altos da sua mecânica. Como num eco que se propagasse através de lonjuras incontáveis, a recorrência dos espaços marítimos poisa nos óculos estendidos em vão à cegueira do protagonista deO Cego da Ilha e que “pareciam o seu salva-vidas no meio de um naufrágio” (p.234) Também a narradora de Os Ossos do Meu Corpo traça o seu auto-retrato, tirado no ápice da crise, à sombra deste tópico: “O meu espírito é como um navio iluminado a romper a noite sobre as águas negras do mar.” (p.273).
Apesar do traço de união entre os contos de Os Navios da Noite, o modo como estes lançam mão de temas mais ou menos comuns é distinto. Nem sempre um cenário, muitas vezes a memória de uma imagem, um ritmo ou um som, o mar modela-se nestas ficções como elemento natural, mas também como força motriz de uma infra-estrutura mítica. O mar enquanto elemento formador e genesíaco, ameaça e símbolo vital. Do mesmo modo, a variedade está nas abordagens e nos ângulos assumidos. Por exemplo, o conto Enjoo Marítimo é uma longa apresentação do narrador na primeira pessoa, com constantes apartes que desmontam essa formação e lhe fornecem outra casta de rotas. Nele, as viagens e as aventuras são lidas, mas o livresco só muito circunstancialmente é um elemento da narrativa. Quase um pretexto para a deriva, e não propriamente uma limitação. A Ideia do Meu Pai é também um relato na primeira pessoa, mas de carácter bem diferente, em que o filho, não sendo propriamente pródigo (esse é o pai), regressa e revolve as ideias-feitas como se de parcelas de terreno se tratasse. Por fim, este conto, que parece circunscrever-se a um torrão de terra, alarga o seu campo de visão até uma reflexão que abarca a condição finita, contingencial de tudo.
História escrita pelos vencidos ou para eles – talvez os que comparecem nas palavras que encerram o livro: “O meu coração reparte-se por quantos carregam consigo anseios e desejos de redenção da pequena vida – a única doença de que ninguém conhece possibilidade de cura.” (p.331) –, este livro adopta o ponto de vista enunciado no conto com que abre, porque é talvez nessa barricada que o humano o é mais. Quanto ao mar e aos navios que nele se perdem, eles são, também, uma outra forma de tentar perceber este ser que para sempre voga.

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