segunda-feira, 18 de abril de 2016

A deputada brasileira que votou contra a corrupção e acordou com a polícia à porta


Temer já está em negociações para assumir a presidência do Brasil

O ainda vice-presidente vai dar início a consultas "oficiais" para formar uma equipa governativa. "Agora vem o mais difícil", disse aos assessores.
Michel Temer enquanto assistia ontem à votação para a destituição da Presidente REUTERS
Com a passagem do processo de impeachment de Dilma Rousseff para o Senado, o vice-presidente brasileiro está mais próximo de assumir a liderança do país. No domingo, Michel Temer disse aos seus assessores: “Agora é que vem a parte mais difícil”, cita o jornal Folha de São Paulo.
Temer prepara-se para iniciar ainda esta segunda-feira as primeiras movimentações para formar a equipa que tomará posse caso o Senado confirme a decisão da Câmara dos Deputados, que no domingo aprovou a destituição com 367 votos a favor e 137 contra, adianta a Folha.
Se a decisão do Senado (que poderá só ser conhecida em meados de Maio) for no mesmo sentido, Dilma Rousseff enfrentará em tribunal a acusação de quebra das leis orçamentais. Será então, e durante o período em que decorre o julgamento, que Temer assumirá automaticamente a presidência. Mas na eventualidade de Dilma ser considerada culpada, Temer ficará como chefe de Estado até ao final do mandato, previsto terminar em finais de 2018. Isto, caso não sejam marcadas eleições antecipadas.
Explica o Estado de São Paulo que Temer vai começar as suas movimentações abrindo uma linha de negociação com o presidente do Senado, Renan Calheiros, que já disse que não vai acelerar o processo - como fez Eduardo Cunha na Câmara de Deputados, marcando sessões para todos os dias, inclusivamente para sábados e domingos.
Segundo fontes da Reuters, o vice-presidente estava há alguns dias a ponderar convidar Paulo Leme, presidente da Goldman Sachs no Brasil, para ministro das Finanças, e Luiz Fernando Figueiredo, ex-responsável do Banco Central e fundador da empresa de gestão de capitais Mauá Capital, para o Banco Central, ou para o Tesouro.
Antigo aliado do PT, o PMDB do vice-presidente passou em Março para a oposição, tornando-se um dos fortes apoiantes da destituição. Ainda antes da votação, Temer gravou uma mensagem em vídeo como se o impeachmenttivesse sido aprovado; a mensagem foi enviada - por acidente, disse Temer - para um grupo de Whatsapp de membros do PMDB e divulgada pela imprensa brasileira. O vice-presidente afirmava que “é preciso um Governo de salvação nacional e, portanto, de união nacional”, para pacificar e reunificar o país; e prometia manter os programas sociais emblemáticos dos governos do PT (Partido dos Trabalhadores), entre eles o Bolsa Família.
O vídeo levou Rousseff a acusar o seu vice de ser o “chefe da conspiração” e um “golpista” (nome que os defensores do Governo dão aos partidários doimpeachment, por considerarem que o processo movido contra Dilma é uma tentativa ilegítima de derrubar uma Presidente eleita). E prejudicou a imagem de estadista que Temer tinha vindo a cultivar. Mas os brasileiros não têm melhor opinião dele que de Dilma Rousseff: uma recente sondagem do Datafolha indicava que 60% dos inquiridos desejavam que ambos se demitissem.
Raquel Muniz votou “sim, sim, sim” a favor do impeachment de Dilma e deu como exemplo de gestão o marido na prefeitura de uma cidade mineira, detido horas depois.





O prefeito (presidente da câmara) de Montes Claros, uma cidade no Norte de Minas Gerais, conseguiu a façanha de ver o seu nome nos media nacionais do Brasil por duas vezes em menos de um dia. Neste domingo, Ruy Muniz foi citado no Congresso pela mulher, a deputada federal Raquel Muniz, como exemplo da gestão da coisa pública. Passada a noite, a Polícia Federal bateu-lhe à porta logo pela manhã para o deter por suspeitas de corrupção.
As autoridades brasileiras crêem que Ruy Muniz favoreceu um hospital privado de Montes Claros detido pelo próprio e gerido pelo grupo económico da família – o Hospital das Clínicas Mario Ribeiro da Silveira –, prejudicando os hospitais públicos da cidade mineira. O político – que, tal como a mulher, representa o PSD (centro-direita) – ficou em prisão preventiva.
A Operação Máscara da Sanidade II – Sabotadores da Saúde visa ainda a secretária municipal de Saúde, Ana Paula Nascimento. Estão a ser investigados crimes de “falsidade ideológica”, dispensa indevida de licitação pública, “estelionato majorado”, prevaricação e peculato. “Se condenados, as penas máximas aplicadas aos crimes ultrapassam 30 anos”, aclara o portal Terra.
Instado a pronunciar-se pela imprensa, o executivo de Ruy Muniz fez saber em comunicado que o prefeito se mantém no cargo e que “tem plena convicção de que a decisão absurda será revertida com a maior brevidade possível, por entender que a Justiça Federal foi induzida ao erro ao receber informações que não se harmonizam com a verdade”, cita o G1 do Globo.

“Sim! Sim! Sim!”

Raquel Muniz, mulher do prefeito, protagonizou neste domingo uma das declarações de voto mais caricatas da sessão parlamentar que autorizou a abertura do processo de destituição da Presidente Dilma Rousseff. A deputada federal, uma das 367 que votaram favoravelmente, terminou aos pulinhos, de bandeira na mão, a gritar: “Sim! Sim! Sim!”.
Antes desse momento, teve oportunidade de dizer: "O meu voto é para dizer que o Brasil tem jeito e o prefeito de Montes Claros mostra isso para todos nós com a sua gestão". Depois, fez como muitos outros deputados e desfiou o nome de familiares ao microfone: “O meu voto é por Tiago, por David, Gabriel, Mateus, minha neta, Júlia, minha mãe, Elza”.
“Meu voto é pelo Norte de Minas, por Montes Claros, por Minas Gerais. É pelo Brasil”, exclamou. Saiu vitoriosa. De manhã, tinha à sua porta em Brasília, onde o marido se encontrava, a Polícia Federal. Desde então, apesar dos contactos dos jornalistas brasileiros, não prestou qualquer declaração.

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