terça-feira, 29 de março de 2016

Um monstro à solta nas ruas

Posted By: CdB


Quando o poeta Thiago de Mello escreveu esses versos, o Brasil vivia o início de uma longa e tenebrosa noite. Uma noite escura, sem estrelas e sem luar. Uma noite longa, na qual a dor tinha que ser sentida em silêncio, e a tortura e a morte se afirmavam soberanas, sem que freio de espécie alguma lhes fosse colocado
Por Joan Edesson de Oliveira – de São Paulo:
Vivemos agora um tempo ao avesso daquele. Precisamos cantar para que haja manhãs, para que a escuridão não venha novamente. E precisamos que as ruas cantem conosco, que conosco as ruas entoem o canto contra a escuridão. Diferente do poeta, precisamos agora cantar para espantar o escuro, para que a manhã não se vá.
O fascismo ganhou as ruas do país
O fascismo ganhou as ruas do país
A direita brasileira soltou os seus monstros na rua. Resolveu vir com tudo. Já não usa máscaras nem meias palavras. E sobra ódio, muito ódio, de norte a sul do país. Em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, um casal foi agredido porque usava roupas vermelhas; em Sobral, no Ceará, no outro extremo do país, a sede do Diretório Municipal do PT foi pichada durante a madrugada; na avenida Paulista outro jovem casal foi agredido porque usava uma bicicleta vermelha e porque a jovem se recusou a gritar “Fora Lula!”.
O fascismo ganhou as ruas do país, perdeu o medo, e arreganha os dentes com um ódio cada vez mais visceral. Chegamos a um ponto em que não dá mais para discutir com os fascistas, em que os argumentos nada valem. Chegamos a um ponto em que ninguém, ninguém mesmo, está seguro. Ainda não temos um cadáver, mas se não reagirmos, ele logo surgirá. Uma roupa, uma palavra, um gesto, podem ser suficientes para que uma turba ensandecida, cheia de ódio até a medula, envenenada por Willians, por Leilanes, por Cristianas, por Mervais, desencadeie contra qualquer um uma violência jamais vista.
O mais assombroso é exatamente isso. Não me parece haver precedentes na história do nosso país, não consigo encontrar paralelos em nossa história. Estamos diante de uma época que não vivemos, nem em 1954, nem em 1964. Ainda não tínhamos experimentado uma onda tão brutal de intolerância, de ódio e de violência.
Pior, essa onda está apenas começando. Se não for barrada, se não for enfrentada, ela crescerá mais e mais. Já não haverá mais lugares seguros. O fascista escondido na sua família, no seu círculo de amizades, no seu trabalho, nas suas redes sociais, está pronto a deixar cair a máscara e a avançar contra você.
Não há saídas para o momento que vivemos se não for o da mais ampla unidade e o da mais ampla mobilização das forças que, neste momento, defendem a democracia. As diferenças pontuais, as discordâncias menores, precisam ser superadas em nome da unidade em torno do que é maior, a defesa da democracia. O monstro que saiu do armário e foi para as ruas não está disposto a sair delas. Um juiz, acompanhado por promotores, delegados, políticos, sob o comando bem orquestrado da Globo, alimenta o monstro. Ou mobilizamos os democratas para enfrentar esse monstro na rua ou perderemos a batalha.
E então, precisaremos cantar muito forte, pois a escuridão não deixará que a manhã volte tão facilmente.
Joan Edesson de Oliveira, é educador

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