sábado, 5 de março de 2016

Repórteres da “24 de Julho”

Há um jornal cujo domicílio é avenida 24 de Julho, na capital do país, nos lados do bairro de Alto-Maé. É sazonal (duas vezes ao ano), tem direcção, chefes da Redacção.A sua sorte é não ter concorrência e o seu azar é não ter editores.
Tudo se publica, em bruto, tal como os repórteres recolhem na sua faina diária. O jornal chama-se AR.
“No meu círculo eleitoral mais de 300 pessoas estão sem abrigo por causa das chuvas intensas, caíram as casas de adobe e necessitam de ajuda urgente. Eu venho de lá, é triste o que se passa com os nossos concidadãos” assina, enviado especial a Nampula, pela Frelimo.
“Em Nhamatanda, foi sequestrado a calada da noite, um membro do meu partido e veio a ser encontrado sem vida no cruzamento de Nhamapadza, com certeza que é obra do nosso adversário político, acostumado a essas práticas” assina o enviado a Sofala, pela bancada da Renamo.
“Na aldeia Quelimane, em Mocímboa da Praia, não deixaram que um líder fosse legitimado, usaram instrumentos contundentes para que tal não acontecesse e as pessoas que assim agiram, pertencem ao nosso adversário” assina, repórter enviado a Cabo Delgado, pela bancada da Renamo.
“Na minha província, mais de 174 mil pessoas estão sem abrigo, para além de milhares de cabeças de gado que foram dizimadas, por falta de chuva, e desde a campanha passada que não pinga” escreve a enviada especial a Gaza, pela bancada da Frelimo.
“As nossas bandeiras foram queimadas e/ou destruídas nas regiões de Sussundenga, Mossurize, Gondola, achamos que são os nossos adversários políticos, que são alérgicos ao convívio politico” informou o enviado especial à província de Manica, pela bancada do MDM.
“As chuvas intensas que caíram no meu círculo eleitoral, deixaram as estradas degradadas em Chimbunila, Cuamba, Mecanhelas, Mandimba, Metarica e Maúa” reportagem do enviado especial a Niassa, pela bancada da Frelimo.
“Em Inhassunge, Namarrói, Pebane e, mesmo nas cercanias de Mocuba, o ambiente é de desolação, as casas dos eleitores estão partidas, porque caíram de tanta chuva que fustigou a região no último mês” reporta o enviado a Zambézia, pela bancada maioritária.
“O que se pode ver no meu círculo eleitoral, é claramente duma governação desastrosa: animais sem pasto nem água para beber, não é preciso ir longe, aqui em Matutuíne, Moamba e Namaacha, só visto…”, segundo o enviado da Renamo, à província de Maputo.
“Os moçambicanos no Malawi foram expulsos pelo seu governo, a partir da localidade de Nkondedzi. Foram forças de defesa e segurança que queimaram as suas palhotas, forçando-os a se refugiarem no país vizinho” repórter da Renamo enviado a Tete.
“Os moçambicanos no Malawi, não são refugiados, são voluntários que estão naquele país, à espera de governar, a partir deste mês, segundo foram prometidos” repórter da bancada da Frelimo, enviado a Tete.
“Vi com os meus olhos quanto sofrimento se vive nos distritos de Mabote e Govuro, sinal da desgovernação deste país” repórter da bancada do segundo partido mais votado, enviado a Inhambane.
A edição esgotou na sexta-feira passada, faltam reuniões de comissões de trabalho, planificadoras do próximo número, em secções temáticas e a redacção permanente, dentro de algum tempo, reunir-se-á para nos informar quando sai a próxima edição.
Ninguém disse, dos repórteres, que se reuniu com a população e sugeriu medidas preventivas para as casas não caírem facilmente, ninguém disse que esteve a ensinar a queimar o adobe, para se transformar em tijolo, ninguém disse claramente que se bateu para que a população fosse viver em locais seguros.
Deixaram tudo para o governo. Os repórteres da “24 de Julho”, só reportam. São maus repórteres, sobretudo porque vieram dizer tudo o que já tinha sido dito pela RM, TVs, jornais, etc.
A próxima edição daquele jornal corre o risco de não ter leitores!
Desta maneira vale a pena Dizer por Dizer…

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