sábado, 26 de março de 2016

O interrogatório de Salah Abdeslam, o arrependido

O único atacante a sobreviver aos atentados de Paris falou durante duas horas, mas nada disse que pudesse ter impedido os ataques a Bruxelas. Disse que se arrependeu no último momento e decidiu não se fazer explodir. A sua história está pejada de contradições.
Abdeslam, um bombista-suicida que se arrependeu DR
Salah Abdeslam é o único participante dos atentados de Novembro vivo e foi capturado na passada sexta-feira depois de mais de quatro meses com o título de "o homem mais procurado na Europa". A sua detenção pode ter precipitado os ataques de terça-feira, por receio de que Salah denunciasse os planos. De facto, o jovem francês de 26 anos falou: a primeira vez à polícia e a segunda a um juiz de instrução, num total de duas horas de declarações, mas nada disse que pudesse ter impedido os ataques de Bruxelas que, assegura, não conhecia de antemão — apesar de vários indícios sugerirem o contrário.
O diário francês Le Monde e a televisão belga BFMTV revelam nesta sexta-feira os pormenores do que foi dito por Abdeslam nessas duas horas de interrogatório. Primeiro, sobre o seu papel nos atentados de Novembro: tinha uma missão suicida no Estádio de França, mas no último momento arrependeu-se e decidiu não detonar o seu cinto de explosivos — isto apesar de Salah ter dito a um primo que não o fez por não ter "líquido explosivo" suficiente. Foi repreendido à chegada de Bruxelas por Abdel Belkaid, o jihadista argelino que lhe deu guarida quando Abdeslam fugiu de Paris. 
Nas suas palavras, citadas pelo Le Monde: “Conduzi o carro. Devia ir para o Estádio de França para me fazer explodir no meio do estádio com os meus cúmplices. Contudo, recusei-me a fazê-lo quando estacionei. Depositei os meus três passageiros e depois voltei ao zero. Conduzi sem rumo e estacionei o carro não sei onde. Tranquei-o, fiquei com a chave e entrei na estação de metro de Montrouge. Fiz algumas paragens, uma ou duas, e depois saí do metro.”
"Abdel não ficou contente de me ver regressar", disse Abdeslam, já sobre a sua chegada a Bruxelas. "Expliquei-lhe que não me podia fazer explodir. Consolou-me e assegurou-me que me iria esconder durante uns tempos até que pudesse ir para um sítio onde ficasse em segurança", acrescentou. Uma constante no interrogatório: Salah atira toda a responsabilidade do ataque para o seu irmão mais velho, Brahim Abdeslam, um dos bombistas-suicidas de Novembro. Confirma ter sido ele a alugar os carros e hotéis para os atacantes e assume ter conduzido três bombistas do Estádio de França. Nada mais. "Fiz isso a pedido de Brahim", disse.
Mesmo curtos, os interrogatórios de Salah — em que "parecia muito cansado", segundo a versão europeia da Politico — estão pejados de contradições. O suspeito diz ter contactado apenas Mohamed Amri para fugir de Paris, quando os investigadores sabem que telefonou a várias pessoas. Diz que conheceu o cérebro dos ataques — Abdelhamid Abaaoud — só na véspera dos atentados, embora se conheça que eram amigos há vários anos e que foram até detidos juntos em 2011. Negou conhecer os terroristas com ligação aos atentados desta semana em Bruxelas, quando tudo aponta para o seu contrário
O seu advogado, Sven Mary, diz que Abdeslam pode valer "uma mina de ouro" em informação, mas o ministro belga da Justiça revelou esta sexta-feira que o detido não voltou a colaborar com as autoridades depois dos atentados desta semana em Bruxelas — decisão que pode estar ligada ao desejo de serextraditado para França. A sua ligação a vários terroristas em Bruxelas pode atrasar a sua deportação. O mesmo ministro belga — Koen Geens — assegura que o seu papel na investigação "está longe de terminado".
As autoridades belgas tentaram saber mais sobre jihadistas, mas não obtiveram respostas. Na única vez em que o interrogatório parece aproximar-se de informação que poderia travar os atentados desta semana, Salah é evasivo. Questionado sobre os irmãos El Bakraoui, que se fizeram explodir no aeroporto e metro de Bruxelas, o detido limita-se a responder: "Não os conheço". Com Sílvia Amaro, em Bruxelas

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