segunda-feira, 7 de março de 2016

O espinhoso caminho para a paz!

Quando se fala da paz em Moçambique foca-se mais na Igreja e nas duas delegações que negociaram o acordo. Mas o processo foi complexo e envolveu outros grupos de pressão que, à medida dos interesses em jogo, vão sendo esquecidos. Em 1990, um grupo de moçambicanos de várias áreas subscreveu uma carta, dirigida ao presidente sul-africano. Conheça os nomes de quem deu a cara pela causa da paz.
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Jornal Domingo, Maputo, 14 de Janeiro de 1990
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Carta Aberta ao Presidente Frederick de Klerk

Senhor Presidente,
Somos intelectuais moçambicanos, escritores, cientistas, artistas, jornalistas, de diferentes correntes de pensamentos irmanados pela preocupação profunda para com o futuro da nossa Pátria e da região.
Nesta última década, a República Popular de Moçambique tem sido palco de um dos mais terríveis genocídios na história de África. A agressão que o nosso país tem vindo a sofrer não pode de maneira nenhuma ser denominada guerra. Uma guerra é dirigida contra as forças militares de um Estado. Mesmo implicando actos destrutivos, uma guerra prepara as condições para o grupo insurgente assumir a governação do território em que age. Não é isto que se passa em Moçambique. A agressão é fundamentalmente contra civis, ceifando vidas humanas e destruindo infra-estruturas do nosso património económico. Esta agressão não visa substituir um governo por outro mas apenas encontrar os mecanismos da sua própria auto-reprodução, inviabilizando Moçambique como nação e ameaçando estender o caos a toda a região.

Mais de um milhão de compatriotas nossos ou foram assassinados pela RENAMO ou morreram vítimas de outros focos de violência e da fome que a agressão generalizou. A sobrevivência de milhões de outros depende basicamente da ajuda alimentar externa. Centenas de homens e mulheres foram mutilados sem qualquer piedade. Crianças recém-nascidas são assassinados e mulheres grávidas desventradas. Ao destruir-se maciçamente escolas, centros de saúde, lojas e outras infra-estruturas, destroem-se pontos de referência nacionais vitais para um povo constituído por muitas etnias, raças e credos religiosos. Nenhuma ética, nenhum objectivo político podem justificar mais apoios a este processo de matança.
Senhor Presidente,
Temos seguido com atenção as suas declaradas intenção em contribuir para a edificação de uma nova África do Sul. Registamos como positivas as mudanças que vêm sendo operadas no seu país, acreditando que elas são o início de um processo de irreversível democratização da África do Sul.
São, indiscutivelmente, sul-africanos todos os que nasceram na África do Sul e a amam como sua Pátria. Pela sensatez, pelo convívio quotidiano, pela coragem moral, todas as comunidades sul-africanas saberão superar preconceitos e medos num contexto de rica diversidade cultural africana que orgulhará e engrandecerá todo o continente. Porém, que futuro de harmonia poderá haver se o terrorismo generalizado lançado contra Moçambique continuar a cumprir a sua dinâmica de auto-reprodução e expansão geográfica?
Quando o Senhor Presidente esteve em Maputo, em Julho do ano passado, sugeriu querer contribuir para a paz em Moçambique. Mas o que está em causa é o facto de a RENAMO continuar a receber apoios de território sul-africano.
Para haver paz no nosso país é primeira condição que sejam abolidos todos os mecanismos concebidos à luz da «estratégia total» para desestabilizar militarmente a região. É forçoso que, para anular essa ingrata herança, sejam neutralizadas todas as forças que, na África do Sul, ainda usam violência das armas para conseguirem mudanças políticas em Moçambique.
A sobrevivência desses mecanismos, não só mantém viva a ameaça sobre a África Austral, como constituiu um trágico legado de desestabilização da própria África do Sul. Ao eliminar essas forças organizadoras do caos.
Senhor Presidente, não estará a levar a cabo um acto de generosidade, mas sim, de indiscutível defesa da paz futura, condição necessária para o desenvolvimento integral de todos os países da região, incluindo o seu.
Senhor Presidente,
Não lhe teríamos dirigido esta carta aberta se não tivéssemos a convicção de que pode utilizar os poderes que lhe confere a chefia do Estado sul-africano para enfrentar sem mais delongas as forças que na África do Sul estão envolvidas na destruição do nosso futuro comum. 
Subscritores:
1. Abílio Mondlane (Jornalista)
2. Albino Magaia (escritor)
3. Alfredo Muecha (Jornalista)
4. Alfredo Tembe (Jornalista)
5. Alexandre Langa (Músico)
6. Alexandre Luís (Jornalista)
7. Antipas Mate (Professor universitário)
8. António Muchave (Jornalista)
9. Armando Artur (escritor)
10. Arnaldo Henrique (Jornalista)
11. Bartolomeu Tomé (Jornalista)
12. Calane da Silva (escritor)
13. Camilo de Sousa (Cineasta)
14. Carlos Cardoso (Jornalista)
15. Clara ...... (actriz)
16. Daniel Macaringue (Poeta)
17. Eduardo Maciel (cantor)
18. Eduardo White (escritor)
19. Eugênio Aldasis? (Maquetista)
20. Fernando Lima (Jornalista)
21. Fernando Gonçalves (Jornalista)
22. Fernando Manuel (Jornalista)
23. Fernando Rosa (Pintor)
24. Filimone Meigos (escritor)
25. Firmino Mucavele (Professor Universitário)
26. Gil Launciano (Jornalista)
27. Gilberto Mendes (actor)
28. Gustavo Mavie (Jornalista)
29. Heliodoro Baptista (Poeta)
30. Isabel Noronha (Cineasta)
31. Jaime Macamo (Jornalista)
32. João Costa (Cineasta)
33. João Manje (actor)
34. João de Sousa (Jornalista)
35. Jorge Barros (agrónomo)
36. Jorge Matine (Jornalista)
37. José Cabral (Jornalista)
38. José Cardoso (cineasta)
39. José Craveirinha (Poeta)
40. José Mucavele (músico)
41. José Rodrigues Ferreira (Director de Faculdade de Agronomia-UEM)
42. José Júlio Tomás (Músico)
43. Júlio Bicá (Poeta)
44. Júlio Macaringue (Jornalista)
45. Kok Nam (Jornalista)
46. Luís Lemos (Jornalista)
47. Machado da Graça (Jornalista)
48. Malangatana Ngwenya (pintor)
49. Manuela Soares (Jornalista)
50. Marcelino Alves (Jornalista)
51. Margarida Manje (actriz)
52. Mário Souto (professor)
53. Mia Couto (escritor)
54. Moisés Mabunda (Jornalista)
55. Naita Ussene (Jornalista)
56. Noémia de Sousa (poetisa)
57. Orlando Mendes (Jornalista)
58. Orlando Mendes (escritor)
59. Paulo Sérgio (Jornalista)
60. Pedro Chissano (escritor)
61. Pedro Mucavele (Jornalista)
62. Ricardo Rangel (Jornalista)
63. Ricardo Santos (Jornalista)
64. Roberto Daene? (Jornalista)
65. Romualdo (músico)
66. Salomão Moyana (Jornalista)
67. Sérgio Tique (artista)
68. Shikani (artista plástico)
69. Suleiman Cassamo (escritor)
70. Telma Faria (professora universitária)
71. Teresa Sá Nogueira (Jornalista)
72. Tomás Vieira Mário (Jornalista)
73. Ungulani Ba Ka Khosa (escritor)

Nota: Alguns nomes podem ter sido mal escritos. tal, deveu-se a má qualidade de conservação do documento de que me servi.



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Comments
Rafael Ricardo Dias Machalela Os heróis de hoje...
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Eusébio A. P. Gwembe São heróis esquecidos!
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Rafael Ricardo Dias Machalela Como tantos outros. Escrevamos os nomes deles...
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Matin Sabin

Escreve uma resposta...
Francisco Wache Wache Alguns destes ainda vivem. Outros mudaram de cor, nem parece que outrora foram os que gravaram: "A amnistia é o prazo do governo, entrega_te e será perdoado". Deviam continuar a lutar pela paz
GostoResponder11 hEditado
Eusébio A. P. Gwembe Estás a falar do Moya, Wache? kakakaka
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Francisco Wache Wache Kikikikiki, esse mesmo. A FRELIMO nao lhe pagou bem. Fez muito trabalho o homem. Deve estar muito frustrado com a gloriosa. os outros continuam a comer do lado de ca
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Eusébio A. P. Gwembe Francisco Wache Wache não foi esquecido. Se fosse o caso não teria sido aceite lá onde está nos 200 paus. Kakakaka. A Frelimo é como pai, conforme disse-nos aquele entrevistado de Angoche.
Eduardo Domingos Kkkkkkkkk muito bom Francisco Wache Wacheescreva toda estrofe ainda podemos usa la.
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Matin Sabin

Escreve uma resposta...
Talique Amuda Ossol uma contribuição excelente do historiador para paz efectiva em Moçambique!
Eusébio A. P. Gwembe A vontade, Isalcio Mahanjane! Tudo o que posto é público. Abraços
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Isalcio Mahanjane Obrigado.
GostoResponder2 min

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