sexta-feira, 4 de março de 2016

Não somos feitos de ferro!

O espectro da guerra volta a ensombrar as nossas vidas. No Centro do país, os relatos que nos chegam – de todas as formas, incluindo as redes sociais – são de tirar o fôlego ao mais pacato cidadão. Não há como ficar alheio ao que está a acontecer. 
Para além de vidas que estão a ser sacrificadas, há registo de destruição de propriedades privadas. O medo começa a tomar conta da sociedade. A violência, quando se instala, cria um imaginário de medo e isso transforma radicalmente as relações sociais. Como feras sitiadas, vivemos em estado de alerta. Há que reaprender a viver com esta nova realidade depois de um interregno de mais de duas décadas!
Talvez seja por isso que o Conselho Nacional de Defesa e Segurança (CNDS), convocado pelo próprio Chefe de Estado, Filipe Nyusi, se reuniu para analisar friamente a situação. O órgão deliberou a criação de condições de segurança para o encontro com o líder da Renamo, com vista a pôr termo às confrontações entre as tropas governamentais e os homens da Renamo e “consolidar definitivamente o ambiente de paz”.
O apelo do Conselho Nacional de Defesa e Segurança tem toda a razão de ser. Os vários ataques protagonizados por homens armados estão a espalhar o medo. O receio é plenamente justificado. Há ainda feridas não totalmente saradas que resultaram da guerra de 16 anos. A terra ainda tem marcas indeléveis dessa longa e extenuante odisseia. Não é possível que estejamos a regredir tanto, mesmo que seja em nome de uma pseudo - democracia. Os arautos da desgraça – que infelizmente adejam que nem moscas sobre o mel – esquecem-se que as balas assassinas não perguntam a filiação partidária das vítimas. Apenas matam!
A insegurança no mundo moderno está cada vez mais ligada à ascensão da violência, que, por sua vez, promove a base e o fortalecimento de um imaginário do medo. Essas questões – insegurança, violência, medo – vêm ganhando realce nas discussões e produções actuais, na imprensa, nas universidades, nas escolas, no quotidiano das pessoas, em virtude das consequências que originam e da aparente falta de controlo de que se revestem.
O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, lá de parte incerta onde está entrincheirado, disse várias vezes que quer governar nas províncias onde supostamente ganhou as eleições. Também não fez segredo da possibilidade do uso da força das armas, facto que, aliás, está já a fazer correr sangue. As colunas de má memória voltaram. Quem viveu a década 80 sabe o que é isso. Os relatos e as mortes sucediam-se a um ritmo assustador. Contas feitas, a guerra dos 16 anos, matou mais de um milhão e meio de moçambicanos. Parece que o número não agradou aos “trabalhadores da morte”. Querem fazer subir a fasquia… e para isso já andam por ai de armas em punho e olhos injectados de sangue a matar inocentes. A pergunta que não quer calar é: a quem querem governar se andam a matar o povo?
O presidente Nyusi voltou, uma vez mais, a proclamar alto e bom som que está disponível para dialogar com o Afonso Dhlakama. A recomendação do Conselho de Segurança é que se criem condições para que o Pai da Democracia saia do seu reduto para a luz do dia e fale do que o apoquenta. Mas há que reter aqui um dado avançado pelo Presidente da República e que faz todo sentido: não pode haver pré-condições para o diálogo mas tão-somente a vontade suprema de obedecer os ditames legais em uso no país e o respeito pelo povo moçambicano.
Não tenhamos ilusões; a violência pode tomar a forma de uma desordem contagiosa, dificilmente controlável, de uma doença da sociedade que aprisiona o indivíduo e, por extensão, a colectividade num estado de insegurança que gera o medo. O medo, a catástrofe, o apocalipse frequentam os palcos da modernidade como os velhos monstros da nossa infância. Uma cultura de assombro (e um imaginário do medo) inscreve-se no ADN da sociedade. O imaginário do medo ocupa um espaço material no corpo e paralisa o país. O crescimento económico sofre imediatamente um colapso.
Cada acção de agressão ou violência permite ritualizar uma ameaça, justificando a reprodução do medo e a adopção de medidas de segurança. Mas, paradoxalmente, essas medidas acentuam a insegurança e o medo. Imagine-se a bordo de um autocarro que calcorreia o asfalto rodeado de militares… não é possível viajar-se tranquilamente nessas condições. Sofre-se bastante. E é por isso que a sociedade civil já veio a terreiro gritar pela PAZ. Ninguém quer a guerra… bem há algumas pessoas que a querem e são protagonistas desse inferno em nome de ambições megalómanas.
Há que pôr a mão na consciência. Somos feitos de carne e ossos. Não nos obriguem a viver como se fossemos de ferro. Afinal, no  fim do dia, como diria  John Fitzgerald Kennedy "o nosso vínculo comum mais básico é que todos habitamos o mesmo planeta… todos respiramos o mesmo ar… Todos queremos o melhor futuro para os nossos filhos. E todos somos mortais."

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