terça-feira, 29 de março de 2016

Mito e símbolo em António Quadros

Mito e símbolo em António Quadros

Escrito por António Telmo




Rio de Janeiro


«(...) Como talvez já saiba, fui ao Brasil em Novembro [de 1986], onde durante 3 semanas fiz um curso sobre Pensamento Português na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, de que lhe envio o programa por eles distribuído, quase completamente cumprido.

Foi um curso para um grupo de alunos de Mestrado e Doutoramento em Pensamento Luso-Brasileiro, cerca de 30, todos extremamente interessados, tão interessados que fundaram um Centro de Estudos de Pensamento Luso-Brasileiro, que eu próprio inaugurei com uma conferência.

(...) Ali fui encontrar gente a fazer teses sobre Bruno, Cunha Seixas, Leonardo Coimbra, Antero, Pascoaes, Eudoro de Sousa... e sobre si, caro António.

Ainda tentei trazer uma cópia da tese, feita à base da História Secreta de Portugal, pois a rapariga que a fez, muito inteligente e interessada, esteve em todo o meu curso. No entanto, ela não a deu a tempo, prometendo mandá-la pelo correio, mais tarde. Como agora estão lá em férias, todos se dispersaram, mas você tê-lá em Fevereiro ou Março, o mais tardar...».

António Quadros para António Telmo (Carta XIII, de 18.1.87, in António Quadros e António Telmo: Epistolário e Estudos complementares).


«(...) O António Quadros é dos que restam, o único que não "repele" a minha Teima ocultista, que não a teme, que a inclui numa das direcções da sua vida espiritual.

(...) Não vejo ninguém, a não ser o António Quadros, capaz de acompanhar Álvaro Ribeiro e de comigo o seguir neste ponto crucial. Ocultismo sem catolicismo, como talvez o entendesse F. Pessoa, não está dentro dos planos da "Ordem Templária", a que ele dizia pertencer. O prestígio que se fez à sua volta e o silêncio tumular que sempre se faz à volta deÁlvaro Ribeiro explicam-se, talvez, assim. Afigura-se-me impossível separar dois relativos: a ortodoxia e a heterodoxia.

Todavia, as notícias que me dá de que "as coisas andam" no Brasil e em Portugal deixam-me muito contente.












(...) O meu livro História Secreta de Portugal, veja bem com teses à volta, não presta. Amo os outros dois [Gramática Secreta da Língua Portuguesa e Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões], os filhos desprezados da sorte. São duas mónadas de luz iluminando o meu espírito. Mas as pessoas preferem o ocultismo enterrado na pedra. O capítulo sobre Pascoaes onde pus alguma coisa da minha orientação quotidiana e iniciática de viver o mundo passa esquecido. Só influenciamos os outros pelo que não presta: a sombra da morte atrai muito mais do que a luz da vida. Escreveu Álvaro Ribeiro, numa carta ao Rafael, que só quem estivesse sacramentado deveria tentar decifrar os Painéis. Posso garantir-lhe que os Grandes Iniciados dos Jerónimos fizeram passar pela minha carne a sombra da morte. Mas isso é outra história...».

António Telmo para António Quadros (Carta XIV, de 22-1-87, in António Quadros e António Telmo: Epistolário e Estudos complementares).


«(...) Não procure mais a razão para o relativo apagamento da "Gramática Secreta..." e do "Desembarque...", perante a "História Secreta". Nesta, ainda você se coloca num plano de comunicação com uma cultura média do português universitário, atraído pelo oculto (e patriota). Mas naqueles livros, você sobe por aí acima, e quantos de nós o podemos acompanhar?

Sem degraus, é preciso subir à corda, à força de músculo (intelectual), penetrando em zonas que são estrangeiras à tal cultura média.

Dir-se-ia (e falo também por mim), que você se retira cada vez mais para o tal espaço ígneo e lhe parece uma concessão, um compromisso inaceitável descer um milímetro que seja, até ao nível de gente de mais pobres elementos.

Será a razão por que já não gosta da "História Secreta"? Porque os seus livros têm de ser para nós, como que provas iniciáticas cada vez mais exigentes, para nós e também para si próprio, já para além do estádio ou grau da "História Secreta". Mas pense no que é o nosso sistema de ensino e a nossa cultura dominante. Nós, que passámos pelo magistério do Álvaro Ribeiro e do Marinho, aprendemos alguma coisa, que é inacessível à maioria.

Não lhe estou a dizer para mudar. É preciso que alguém fale para os poucos. Estou apenas a dizer-lhe que entenda a grande fragilidade intelectual de quase toda a gente, além dos tabus e bloqueios de toda a ordem (incluindo, e estou de acordo consigo, os católico-eclesiástico-hierárquicos).



António Quadros e António Telmo


Note esta conversa que tive ao telefone com o António Marques Bessa (do grupo "Futuro Presente", "Século", J. Valle de Figueiredo, J. Nogueira Pinto). Elogiou-me por "Portugal, Razão e Mistério", falou de si com entusiasmo, a propósito da "História Secreta..." (não sabia sequer que você é irmão do Orlando), mas depois disse-me que não entendia nada do Álvaro Ribeiro, que não gostava dele, nem da filosofia portuguesa, a não ser as nossas formas históricas, literárias, etc. É assim mesmo...

(...) Também lhe queria dizer duas palavras sobre o problema catolicismo - ocultismo (...). A verdade é que não vejo contradição entre os dois termos: catolicismo e ocultismo. É claro que as heterodoxias marcam grandes divergências em relação às ortodoxias. Mas estas também, não são estáveis, têm um percurso sinuoso. Além de tudo o mais, se eu leio os ocultistas, não significa que vá concordar com tudo. Mas... a verdade é que há muito a aprender.

Sou, digamo-lo, um católico liberal. Não me sinto no mínimo inibido, em minha liberdade espiritual. Nem clericalista nem anti-clericalista. Faço hoje uma vida de sacramentos, embora o meu espírito flutue muito e se dirija para paragens aventurosas, faço-o fundamentalmente porque os sinto como constituindo laços vivos, concretos, tradicionais com o sagrado, com Deus, exigindo da nossa parte reverência e humildade, uma aproximação do povo, dos simples que só por aí acedem a uma vida do espírito superior à dos interesses quotidianos. (...) O que importa quanto a mim é uma linha geral para o alto, não importando muitos os acidentes de percurso. Concebo um Deus-Espírito, muito superior às nossas pequenas contabilidades e prejuízos terrenos. Muito superior às nossas estreitas ortodoxias, que aliás já foram heterodoxias e heresias para outros, ou são-no.

A Sua revelação está nos profetas, nos evangelistas, nos místicos, na Igreja, e está também na filosofia, e no esoterismo dos que quiseram ou querem ir mais longe do que o quadro mental oferecido eclesiasticamente e escolasticamente. A Sua revelação está também na linguagem, na ciência, na natureza, dentro de cada um de nós.

Você verá talvez melhor a minha posição no vol. II de "Portugal...", onde defendo um trinitarismo de predominânciaparaclética, mas... sem heresia, como penso que foi o de Dinis e Isabel, dos franciscanos espirituais e da Ordem de Cristo. Coincido pois com o que você diz sobre os templários e sobre a aproximação do catolicismo e do ocultismo - pelo menos do ocultismo de sinal cristão, isto é, não-oriental -, embora eu penda pessoalmente mais para um criacionismo cristão-liberal.

Ainda dois pontos:

Não acredite em si próprio quando me diz que a "História Secreta..." não presta. Talvez haja graus, do simbolismo expresso em pedra até ao expresso em poesia e palavra, mas todos convergem, todos são uma mesma linguagem poliédrica, com diferentes faces. Sobretudo, e este é um problema que eu também enfrento no curso do meu livro, o que o documento escrito tantas vezes cala, esconde, ou o que foi destruído em obras queimadas ou censuradas, ou ainda, o quefoi dito no Capítulo de uma Ordem ou na pequena tertúlia de uma câmara ou de um café mesmo, escapapassa no simbolismo da pedra, que não houve coragem para destruir pela sua monumentalidade, ou de que se perdeu a cifra, mas resta, à vista. Caso dos Painéis, como verá no meu livro: foram escondidos intencionalmente durante séculos, ao aparecerem dizem-nos agora muito que não ficou escrito, nem na literatura...


Painéis de Nuno Gonçalves


Ver aqui




(...) P. S. Não creio que seja eu o último que não repele a sua "teima ocultista". Ainda há pouco falei de si com o Jorge Preto. E o Rafael? E o próprio Orlando? E a Dalila?...».

António Quadros para António Telmo (Carta XV, de 29.1.87, in António Quadros e António Telmo: Epistolário e Estudos complementares).


«(...) Sobre a História Secreta. Quando a publiquei, o Álvaro Ribeiro escreveu-me uma carta, amável e elogiosa, mas nas entrelinhas decifrei a sua discordância quanto à orientação geral do livro. Tenho em meu poder também um esboço de História de Portugal que só a si mostrarei quando vier a Estremoz. Está traçado com a sua mão. Comparando-o com o meu livro, apanha-se a funda razão da discordância. Eu sei que isto pode perturbá-lo agora que o António está a preparar os volumes seguintes de "Portugal Razão e Mistério", mas sei também que acredita na sua estrela, e que nem o António nem eu somos o Álvaro Ribeiro. Comunico-lhe, no entanto, porque calculo que deve ter nisso grande interesse.

De resto, a correspondência que possuo do nosso Amigo, a quem o António e eu tudo devemos, revela aspectos não ainda saudados da sua filosofia, que é, na parte e no todo, a ter em conta uma correspondência, uma obra de Kabbalah. A propósito fiquei contentíssimo ao ler na sua carta o que já julgara saber, isto é, o seu repúdio do ocultismo oriental e a sua ligação com o ocultismo de sinal cristão. De resto, tudo quanto me diz sobre a sua posição religiosa que admite a evolução dos dogmas pela sua concepção de Deus como puro Espírito está, julgo eu, na linha exacta da Tradição portuguesa. "Para mim, Deus é o Espírito Santo", costumava dizer o Álvaro Ribeiro nos últimos dias. A sua perspectiva da Trindade Cristã é a d'"Arte de Filosofar". A cristianização do "orientalismo" é tratada, contra a filosofia alemã, noprefácio a um livro de Nietzsche e integrada na significação dos Descobrimentos».

António Telmo para António Quadros (Carta XVI, de 2 de Fevereiro de 1987, in António Quadros e António Telmo: Epistolário e Estudos complementares).


«Diz Pinharanda Gomes, a páginas 401 do seu livro [A Filosofia Hebraico-Portuguesa], que "a escola formal é a iniciação esotérica e que este é o princípio da maçonaria".

O conceito de escola formal é de Álvaro Ribeiro, que o expõe no livro a que deu, precisamente, este título. Mas funda-se ele no conceito aristotélico de forma como o que dá origem, não princípio, à existência das coisas, dos seres e do mundo e só se distingue da categoria primacial, a substância, porque esta não dá origem, mas é o que faz substância, é o que faz perdurar. O conceito da escola formal, tal como Álvaro Ribeiro o pensou, destina-se a assegurar que o ensino seja uma imitação da criação, ou do espírito, tal como a arte é uma imitação da natureza. Estamos sempre seguindo e actualizando o aristotelismo.
Ao acrescentar ao conceito de escola formal o de escola material, Álvaro Ribeiro concedeu ao nosso calão pedagógico que chama matérias aos assuntos tratados nas disciplinas escolares. A palavra matéria tem uma longa história de múltiplos sentidos mas que, todos eles, sobretudo o do materialismo característico da filosofia e da ciência modernas, acabam por cair perante o de Aristóteles. Comprovam os eruditos que foi Aristóteles quem primeiro deu conceito à palavra matéria (ou àquela que os latinos traduzem, com milagrosa correcção, por matéria). Ora, nesse conceito a matéria é, em si mesma, o nada. Não o nada no sentido que lhe deram os filósofos cristãos, como José Marinho, M. Heidegger ou Hegel, inspirados na imagem bíblica segundo a qual o mundo foi criado do nada, mas no sentido donenhum, onde coisa alguma é, e do nenhures, onde coisa alguma existe.

Torna-se, portanto, surpreendente que Pinharanda Gomes transponha para a maçonaria o conceito de escola formal, e o conceito de escola, ou escolas materiais, dando o primeiro como o de iniciação esotérica e o segundo como o dos vários ritos maçónicos para, dentro deste quadro mental, desenvolver eruditamente as relações entre pensamento hebraico e a prática da maçonaria.

Não sei se o Pinharanda tem informações, que eu não possuo, de a maçonaria utilizar a designação de escola formal. Mas sei fundamentadamente que o aristotelismo é incompatível com a doutrina oculta de uma associação secreta. Acontece com Aristóteles o que ainda não acontecera com Platão: a filosofia, ou o saber autêntico, radicado no homem e no mundo, distinto do saber revelado, separa-se das religiões do oculto porque deixa de carecer do oculto para garantir a sua autenticidade, porque a autenticidade passa a ter a garantia no pensamento. É esta separação que dá origem à lógica.

O cristianismo herdou de Aristóteles a separação das religiões do oculto e é delas, sempre prontas a reaparecer onde e quando o pensamento se debilita e evanesce, que se alimentam os seus adversários. A maçonaria constitui um entre múltiplos exemplos históricos.

Pinharanda Gomes não estranhará que, a seguir à recensão de um livro tão rico e admirável como é o seu, eu me demore a discutir apenas uma questão. Trata-se, porém, de uma questão crucial nas circunstâncias culturais e políticas em que nos encontramos. E acresce o facto de eu ter sido o responsável por uma revista, publicada entre 1976 e 1978, e na qual colaborou, que teve o título, precisamente, de Escola Formal. Também aí não faltou quem visse o dedo da maçonaria a apontar o liberalismo, ou o neoliberalismo, que a revista preconizava e doutrinava.
A confusão da maçonaria com o liberalismo é uma imagem que nos ficou da monarquia constitucional e da 1.ª República, que ainda não se desfez. Reaparece com frequência na linguagem dos políticos, o que não tem qualquer significado intelectual, mas figura em todas as pastorais emanadas do episcopado português nos últimos seis ou sete anos, o que nos deixa perplexos. Entre nós, como nalguns outros países, o chamado regime liberal que resultou da Revolução Francesa foi, efectivamente, o regime dos mações. Acontece, porém, (e o actual neoliberalismo já o demonstrou à saciedade), que tal regime pouco ou nada teve a ver com o liberalismo, mas constituía a sua dissolução, com a consequente preparação do advento do socialismo. O rosto visível que, no nosso país, a maçonaria hoje oferece, impulsionando, apoiando e comandando o regime socialista constitucionalizado pela revolução de 25 de Abril, só serve de confirmação ao que estou esclarecendo. O neoliberalismo preconizado pela revista Escola Formal é o antípoda dosocialismo.

Uma última observação: a escola formal é o que há de mais contrário, não só ao esoterismo maçónico como a todo o ocultismo. A filosofia tem, decerto, uma iniciação, mas não no sentido esotérico e ocultista que se tornou habitual atribuir a toda a iniciação. O ocultismo é um culto romântico, muito expandido nos nossos dias, e tanto mais sedutor quanto menos sábias são as inteligências e orgulhosas as subjectividades.

A filosofia é, por definição, o que se oferece, no seu todo, a todas as inteligências e só pode existir por residir totalmente na natureza de cada ser humano. "Um homem que não é um filósofo - disse o mestre da 'filosofia portuguesa' que é José Marinho - é tudo menos um homem". Que a maior parte dos homens não tenha a consciência disso, nem a reflexão nem o saber, que a maior parte dos homens o ignore e se satisfaça nos actos da vida prática e da vontade dominadora, ou sublime essa ignorância nas imagens e ritos do culto religioso, não pode significar que a filosofia dependa de um saber secreto e oculto. O que só se tornou acessível a alguns, raros, não significa que tal acessibilidade seja negada ou condicionada por alguma secreta iniciação ocultista. É possível que os homens, movidos pelo espírito do mal, que é a vontade de persistir na ignorância, e atormentando-se, torturando-se e mentindo uns aos outros, forcem os melhores de entre eles a uma existência segregada e, portanto, a uma acção segregada. É possível que a história de Portugal seja mais verdadeira no que tem de secreto do que no que tem de patente. É possível até que a verdade "não venha nem se vá"... Mas nada é oculto. 

Se tudo fosse oculto, como disse o poeta festejado, ou apenas o de que tudo depende, então não haveria, como também o poeta concluiu, nem procura nem crença, nem filosofia nem religião».

Orlando Vitorino («A Filosofia como Imagem da Pátria»).







Orlando Vitorino e António Quadros (1988).



Mito e símbolo em António Quadros


Estamos aqui reunidos celebrando o pensamento de António Quadros para o tornar presente na nossa lembrança e na nossa saudade. Nesta época de televisão em que todas as noites nos expomos sem vergonha ou defesa, ao bombardeamento da imagem, é bom, de vez em quando, não morrer de todo relendo um conto tradicional, não para regressar à infância, mas para nele vermos como a imagem pode ser um símbolo para os homens, quando a luz não é manipulada pelos computadores, mas se revela nas formas da verdade.

"Era uma vez uma princesa que, ao descer, logo vieram sete fadas. Cada uma delas dotou-a com uma virtude, mas a sétima marcou o seu destino de infortúnio".

Eis que entramos no reino dos mitos e dos símbolos.

Só as almas superiores concentram sobre si, ao nascerem para a vida, os sete poderes fatais, significados pelos planetas.

António Quadros era um espírito superior. No horóscopo que dele fez Vasco da Gama Rodrigues, o signo de Câncer na casa Segunda está povoado de estrelas juntas olhando o recém-nascido. A Lua no seu domicílio domina o céu.

António Quadros não gostou do horóscopo, viu com incómodo que ele o caracterizava como um espírito lunar. E não se libertou desse desgosto mesmo quando outros astrólogos lhe lembraram que a Lua é o espelho do Sol e lhe mostraram que a conjunção de tantos astros no mesmo lugar do horóscopo era o sinal de um destino superior.

Morreu exactamente na hora em que teve início a Primavera de 1993, ali onde a roda do tempo recebe o impulso que o liberta do nocturno Inverno. Refere René Guénon que os iniciados escolhem esse dia para morrer porque assim propiciam que a viagem no outro mundo se inaugure em condições altamente favoráveis. António Quadros não era um iniciado, mas Deus, queremos todos pensar, terá escolhido por ele. Assim seja!

Mais imperioso é o facto de Agostinho da Silva ter pedido para o levarem do hospital para casa onde queria passar o Domingo de Páscoa, dia em que de facto partiu.

A obra de António Quadros é uma obra de reflexão. Não é um filósofo operativo, um filósofo que não confunde a categoria de paixão com a categoria de acção. Reflectiu, com muitas vezes perfeita limpidez, as doutrinas solares dos seus mestres, cuja luz encheu daquela suavidade que a torna suportável e até aceitável pelas almas inferiores que a noite dominada pela televisão envolve. Por vezes há manchas nessa reflexão, como a do excessivo valor que atribuiu à doutrina do inconsciente de Carl Jung.

Esta doutrina aparece a explicar e a defender o mito do Encoberto contra a grosseria de António Sérgio. É sobre o livro de António Quadros Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista que diremos qualquer coisa nos poucos minutos que a cada um de nós são concedidos. Espero que essa coisa qualquer seja a coisa que se quer.







Neste livro, como em Portugal. Razão e Mistério, o mito aparece a interpretar a história, mas é sempre a história que decide no sentido do mito através da política. O mito do Encoberto é a forma que em Portugal assumiu o messianismo, mas, se no judaísmo a espera do Messias degenerou no marxismo e na utopia da sociedade sem classes, aqui, em Portugal, país onde manda Cristo, é a unidade católica, que harmoniza mas não destrói as diferenças dos indivíduos, das classes e dos povos, aquilo que aparece prometido no regresso do Rei e que, sem dúvida, estará confiado à Idade do Espírito Santo. Em consequência. António Quadros não se limitou a criticar e a refutar o optimismo progressista de Marx e seus sequazes, mas repudiou também o pessimismo dos esoteristas, apesar da simpatia que eles lhe mereciam, cuja doutrina resume deste modo: "O albedo do Quinto Império virá assim depois das fases alquímicas de putrefactio e nigredo; a luz do Espírito Santo, após a putrefacção e a morte virtual de todo um povo. A terra portuguesa, queimada, gasta, desperdiçada, a wasteland, povoada de hollow men, de homens vazios, é um Calvário, onde um povo-Messias, um povo-D. Sebastião, um povo-Cristo, é crucificado para ressuscitar em glória e salvar a humanidade. Este é, para Abellio, o mais subtil sentido do sebastianismo do Quinto Império".

Se eu tivesse vindo aqui com a intenção de expor a mitosofia de António Quadros (era assim que ele gostava de exprimir-se), já há muito que estaria empregado numa universidade. Toda a interpretação que não vai além de si própria é uma redução, porque é nisso que consiste a objectividade científica, conservando-se dentro dos seus limites. Prefiro ler Leonardo Coimbra e ouvir as suas palavras à saída da fonte, mesmo que o não compreenda, do que lê-lo simplificado numa apreensão mais ou menos correcta. Se o autor disse o que disse naquelas palavras, outras palavras desdizem necessariamente o que ele disse. Antes a fantasia subjectiva dos que atiram ao lado de Leonardo Coimbra e, ao irem procurar o que disseram, descobrem um mundo maravilhoso. Por muito respeito que nos mereçam os estudos de um filósofo que só são científicos quando deixamos a alma em casa, é bom, de vez em quando, que sigamos o movimento da nossa imaginação.

Todos sabemos que o espiritismo é uma aberração, mas comportarmo-nos perante os mortos, com quem convivemos e que amámos em vida, como se tivessem passado a inexistentes e fossem hoje um nada, além de estúpido é imoral. Por isso Álvaro Ribeiro, quando José Marinho partiu, falava dele, nos meses sucessivos em que permaneceu entre nós, como se não tivesse morrido e em tais termos e com tal verdade que alguns julgaram que pelo seu cérebro perpassasse a asa da alucinação.

Façamos o mesmo com António Quadros!

Eu discuti com ele enquanto preparava esta evocação do seu pensamento. O que lhe disse foi mais ou menos o seguinte.




"O meu amigo, levado pelo seu inteligente e corajoso patriotismo, compromete excessivamente o mito do Encoberto com a história política de Portugal. O sebastianismo, como movimento social, é apenas um aspecto menor desse mito. Com o Bandarra o sebastianismo foi anterior a si próprio porque as Trovas foram publicadas antes de Alcácer-Quibir. Você dirá que as profecias do sapateiro de Trancoso nasceram de condições históricas socialmente análogas às que permitiram mais tarde, depois do descalabro da batalha, criar pelo inconsciente colectivo a ideia de um rei eternamente vivo. Se observarmos, porém, que ao mito do Encoberto corresponde uma sabedoria do Encoberto, de que a filosofia portuguesa foi até si a explicitação actual, terá de situar essa sabedoria muito antes do Bandarra com o nascimento da Ordem do Templo como Portugal. No reinado de D. Dinis, as condições sociais eram completamente diferentes. Havia um país pleno de força e de confiança em si próprio e, no entanto, todas as Cantigas de Amigo têm por tema a demanda do Encoberto.


Ai flores, ai flores do verde pino
se sabedes novas do meu amigo
Ai Deus y u é?


O Encoberto aparece aqui significado por três vogais: i u e. Y u é, que quer dizer, como sabe, e onde está? O verde pino deve ser interpretado, em sintonia com a ilha verde em que habita o rei, como a comunidade gnóstica e as flores como os seres iluminados supremos. A pinha, símbolo sempre presente na arquitectura manuelina, sendo o fruto dessas flores concentra em si ocultas as sementes na forma vegetal duma chama.

Quando o Padre António Vieira desocultou o Encoberto apresentando-o como D. João IV, quando interpretou o Fuão das Trovas do Bandarra, como João Duque de Bragança, o sebastianismo, no sentido que lhe dou de uma sabedoria esotérica, acabou e a Pátria entrou em decadência até esta miséria do nosso tempo em que o deus que cultuamos é o deus Mamon. A revelação do oculto não pode ser histórica. O oculto só se revela à alma".

António Quadros ouviu-me com aquele jeito tão seu de quem não se sabe se está a ouvir mas que é o modo de quem segue a sua estrela interior e disse-me brandamente: "Está bem. Mas tudo isso não invalida o que eu exponho no meu livro. Os Antónios Sérgios continuam aí" (in Sabatina de Estudos da Obra de António Quadros / Contributo bibliográfico, Lisboa, Fundação Lusíada, 1995, pp. 65-68).





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