quarta-feira, 30 de março de 2016

Mais uma portadora de albinismo raptada e assassinada em Moçambique, é a nona vítima este ano


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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Adérito Caldeira  em 30 Março 2016
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Adatação poster http://albinism.ohchr.org/Uma menor de quatro anos de idade foi sequestrada e assassinada, na passada quinta-feira(24), no distrito de Muanza, na província de Sofala, simplesmente por ser portadora de albinismo. Os seus algozes pretendiam vender o seu corpinho a feiticeiros que os usam em rituais que alegadamente trazem sorte e riqueza. O @Verdade contabilizou, só baseado nos casos divulgados pela imprensa, nove cidadãos moçambicanos albinos que foram raptados e posteriormente assassinados nestes primeiros três meses de 2016.
A vítima terá sido aliciada pelo seu tio que a levou para um local ermo, durante o dia, onde foi sequestrada por um número não identificado de criminosos que a levaram, de bicicletas e motas, para uma mata onde foi assassinada com recurso a armas brancas. Quatro indivíduos, incluindo o tio da vítima, foram detidos pela Polícia da República de Moçambique (PRM) em Muanza, de acordo com o jornal Diário de Moçambique.
Não foi esclarecimento o móbil do crime mas acredita-se que os criminosos pretendiam cortar partes do corpo da criança portadora de albinismo para venda a feiticeiros que realizam rituais com eles.
“Tem sido largamente reportado e documentado que pessoas com albinismo são caçadas e atacadas fisicamente devido a prevalência de mitos como a crença de que partes do seu corpo, quando usadas em rituais de feitiçaria, poções ou amuletos irão proporcionar abundância, boa sorte a sucesso político. Outro mito preocupante, que estimula os ataques, está relacionado com as percepções sobre a sua aparência, a ideia errada de que pessoas com albinismo não são seres humanos mas fantasmas, a crença de que são sub-humanos e não morrem, mas apenas desaparecem”, refere o primeiro relatório da especialista independente sobre os direitos humanos das pessoas com albinismo, Ikponwosa Ero, divulgado na semana passada e que alerta sobre muitos ataques terem acontecido nas vésperas de períodos eleitorais no continente africano.
Ikponwosa Ero revelou que a maioria dos casos reportados desde que foi nomeada para o cargo, em Junho de 2015 pelo Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), aconteceram em sete países do continente africano, e Moçambique é um deles.
O relatório vem confirmar a existência de um mercado “lucrativo e macabro das partes do corpo de pessoas com albinismo” onde se paga entre 2 mil dólares norte-americanos (cerca de 100 mil meticais) por um membro ou 75 mil norte-americanos (aproximadamente 3,7 milhões de meticais) para um “conjunto completo”, mas não indica quem são ou onde operam esses compradores.
Nove albinos raptados entre Janeiro e Março de 2016
Foto de ArquivoNo nosso país, só durante o mês de Março, além da menor com albinismo assassinada na província de Sofala um cidadão adulto, também com a falta de pigmentação na pele, foi abordado no distrito de Mueda, por um criminoso que o atacou e o matou com golpes de catana tendo em seguida decepado os membros superiores do finado e posto-se em fuga. De acordo com o jornal Diário de Moçambique este cidadão foi o quarto albino assassinado desde 2015 na província de Cabo Delgado.
Em Fevereiro, criminosos invadiram uma residência no povoado de Muhela, localidade de Chissaua, em Mecanhelas, e raptaram uma adolescente albina. Ainda na província do Niassa um cidadão tentou sem sucesso raptar o seu sobrinho de apenas seis anos de idade, no distrito de Cuamba.
Em meados do segundo mês de 2016, três cidadãos foram detidos PRM no distrito Eráti, na província de Nampula, na posse de restos mortais de um cidadão que em vida sofria de albinismo.
No início do mês de Fevereiro, um menor de sete anos de idade, portador deste defeito genético hereditário, foi raptado da residência dos seus familiares na localidade de Penda, no distrito de Moatize, na província de Tete, por sete malfeitores com arma de fogo que durante a noite introduziram-se na residência da família.
“Eu gostaria que arranjassem uma forma de protegermos estes dois menores que ficaram(que também são albinos), não sei como é que posso fazer” afirmou impotente na altura o tio da vítima à Rádio Moçambique.
Ainda na província de Tete, em Janeiro, um cidadão de 19 anos de idade, identificado pelo nome de Victorino Fabião, foi raptado por um indivíduo conhecido, na vila de Moatize. Algumas semanas antes três menores de cinco anos de idade, com problemas de pigmentação da pele, foram raptadas nos distritos de Angónia, Changara e Moatize, de acordo com as autoridades policiais, ouvidas pela Rádio Moçambique, as vítimas foram arrastadas nas casas dos seus progenitores.
Na segunda semana de Janeiro no posto administrativo de Micaúne, no distrito de Chinde, na Zambézia, um outro menor, portador de albinismo, foi morto e o seu corpo esquartejado. Na mesma altura cinco indivíduos foram detidos na posse de ossadas humanas no distrito do Molumbo, de acordo com a PRM os restos mortais pertenciam a um cidadão que em vida sofria de falta de pigmentação na sua pele.
Também em Janeiro deste ano, um outro túmulo, de um cidadão que foi portador de albinismo, foi vandalizado no distrito de Mogovolas, província de Nampula, por desconhecidos que levaram os seus ossos.
Crianças albinas são alvo por se acreditar que “quanto mais inocente for a vítima mais potentes serão as partes do corpo”
Tal como indica o primeiro relatório da especialista independente sobre os direitos humanos das pessoas com albinismo, os casos acima reportados são apenas fracção dos ataques, raptos e assassinatos que acontecem em Moçambique, o em pelo menos outros seis países do nosso continente, porque a maioria dos casos ocorre em rituais secretos em áreas rurais que nunca são reportados.
O documento apresentando ao Conselho de Direitos Humanos da ONU igualmente confirma que muitos dos ataques, raptos e mortes envolvem familiares das vítimas como cúmplices, como se vê acontecer nos crimes reportados em Moçambique.
Ikponwosa Ero revela no seu relatório a existência de pessoas portadoras de albinismo que sofreram amputações “ainda em vida ou tiveram dedos, braços, pernas, olhos, genitais, pele, ossos, cabeça ou cabelo cortados”.
De acordo com o relatório que estamos a citar uma grande parte dos alvos é composta por crianças por se acreditar que “quanto mais inocente for a vítima mais potentes serão as partes do corpo” para as preparações. Entre as nove vítimas, que o @Verdade contabilizou entre Janeiro e Março, cinco são menores de idade.
As mulheres albinas, segundo este primeiro documento da especialista independente sobre os direitos humanos das pessoas com albinismo, são alvos de agressões sexuais devido ao mito de que “a prática de sexo com elas poderia curar o VIH/ Sida”.
Há também casos de mães afastadas ou discriminadas por darem à luz a crianças com albinismo por ser considerado maldição, mau presságio ou sinal de infidelidade.
Albinos precisam também de protecção contra o cancro de pele
Em Moçambique a “caça” e assassinato dos portadores de albinismo não são crimes novos, contudo só começaram a ter visibilidade a partir de 2014. Em finais de 2015, com a aparente escalada dos crimes, o Governo moçambicano criou uma comissão, envolvendo vários instituições, com vista a garantir segurança e protecção das pessoas portadoras de albinismo.
De acordo com o ex-ministro moçambicano da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, Abdulremane Lino de Almeida, até finais do ano passado haviam sido registados 20 casos na província de Nampula, 15 na Zambézia, alguns no Niassa e dois em Inhambane. Pelo menos meia centena de indivíduos foi detida pela Polícia da República de Moçambique e indiciados pelo rapto e assassinato de albinos contudo nenhum deles identificou o(s) mandante(s).
Ikponwosa Ero acredita que entre as medidas eficazes para acabar com os ataques incluem acelerar a investigação imediata das alegações e a acusação dos supostos autores. As outras acções incluem soluções nas áreas legal, social, psicológica e médica além de compensar as vítimas, acções para prevenir o tráfico de partes do corpo e medidas de reintegração segura dos deslocados com albinismo.
Como se não lhes bastasse a perseguição de são vítimas os albinos - que não são mais do que portadores de um defeito genético hereditário que os impede de produzir o pigmento que dá origem à cor da pele, do cabelo e dos olhos – também correm o risco de contrair cancro de pele devido à exposição aos raios solares. A pobreza e a falta de conhecimentos dos seus familiares, que muitas vezes os deixam ao sol para ver se “bronzeiam-se”, são apontadas como alguns dos motivos. Há relatos da morte da maioria das pessoas africanas com albinismo entre 30 e 40 anos de idade.

ESTE ARTIGO FOI ESCRITO NO ÂMBITO DO PROJECTO DE MEDIA PARA O DESENVOLVIMENTO DE ÁFRICA DA VITA/Afronline( de Itália) E O JORNAL @VERDADE.

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