segunda-feira, 14 de março de 2016

Mais de 306 mil crianças sírias nasceram como refugiadas, diz a UNICEF


Mortes, recrutamento de crianças e ataques contra escolas são algumas das "violações graves" que a UNICEF denuncia num novo relatório.
Refugiados sírios em Idomeni, na fronteira entre a Grécia e a Macedónia SAKIS MITROLIDIS/AFP



Cinco anos após o início da guerra, a vida das crianças sírias tem sido marcada pela violência, pelo medo e por condições de vida degradantes. A UNICEF alertou esta segunda-feira para o facto de cerca de 3.7 milhões de crianças terem nascido depois do início da guerra da Síria, em Março de 2011. Dessas crianças, mais de 306 mil nasceram como refugiadas.
Num relatório intitulado No Place for Children, a UNICEF denuncia cerca de 1500 "violações graves" praticadas contra crianças, incluindo casos de morte e mutilação, recrutamento para as facções envolvidas no conflito, rapto, prisão e ataques a escolas e hospitais. O relatório diz que mais de oito milhões de crianças na Síria e nos países vizinhos necessitam de ajuda humanitária e estima que cerca de 400 crianças foram mortas em 2015.
“Para as 3.7 milhões de crianças sírias que nasceram desde o início do conflito, cinco anos é literalmente uma vida. Uma vida em que não conheceram mais nada a não ser violência, privação e incerteza”, afirmou Anthony Lake, director executivo da UNICEF.
No total, a UNICEF estima que cerca de 8.4 milhões de crianças – o que corresponde a mais de 80 % da população infantil síria –, estão actualmente afectadas pelo conflito no interior do país ou como refugiadas.
“Na Síria, a violência tornou-se uma prática comum, atingindo casas, hospitais, escolas, centros de saúde, parques, jardins infantis e locais de culto,” disse Peter Salama, director regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África.
O acesso à educação é um dos maiores problemas que a UNICEF denuncia, estimando que mais de 2.1 milhões de crianças dentro da Síria e cerca de 700 mil nos países vizinhos não estão a conseguir ir à escola.O relatório afirma que até ao momento a Síria ficou sem um quarto das suas escolas: mais de seis mil foram destruídas pela onda de violência. Muitas das antigas escolas são agora utilizadas como locais estratégicos para combatentes ou como abrigo para centenas de famílias que perderam as suas casas.
“Nestes cinco anos de guerra, milhões de crianças cresceram demasiado depressa e antes do tempo”, explicou Peter Salama. “Com a continuação do conflito, as crianças continuam à mercê de uma guerra de adultos, continuam a não ir à escola, muitas vêem-se obrigadas a trabalhar e muitas raparigas casam precocemente”, reiterou.
Nos países vizinhos, o número de refugiados sírios é hoje praticamente dez vezes maior do que aquele que se registou em 2012, sendo que metade são crianças. Desde que a guerra começou em 2011, cerca de 15 mil crianças não acompanhadas ou separadas atravessaram as fronteiras da Síria.
Das cerca de 2.4 milhões de crianças sírias refugiadas, apenas uma pequena minoria consegue chegar a campos. A grande maioria vive em comunidades pobres e muitas delas são obrigadas a trabalhar para conseguir sustentar as suas famílias.
Outra das principais preocupações manifestadas no relatório é o aumento do número de crianças que são recrutadas para combater na guerra. “As crianças afirmam que estão a ser activamente encorajadas para se juntarem à guerra, sendo-lhes oferecidos presentes e 'salários' de 400 dólares [cerca de 358 euros] por mês”, lê-se no relatório.
Desde 2014, os diversos lados do conflito, em particular o autoproclamado Estado Islâmico (EI), têm recrutado crianças, que recebem treino militar para participarem em combates, arriscando a própria vida. Mais de metade dos casos verificados em 2015 pela UNICEF são crianças com menos de 15 anos, a maior parte delas sem o consentimento dos pais.
Várias raparigas também estão a ser recrutadas. Um dos casos que é referido no relatório é o da jovem Huda, que tinha apenas 14 anos quando esteve no campo de batalha. “Eu estava assustada. O comandante deu-me uma arma e disse para eu me preparar para a batalha”, contou. Huda conseguiu sobreviver e agora vive num campo de refugiados na Jordânia.

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