quarta-feira, 2 de março de 2016

Há um gene responsável pelos cabelos brancos

Um estudo que envolveu mais de 6000 pessoas da América Latina associou pela primeira vez dez genes a características como a densidade dos pêlos faciais, a forma do cabelo, a calvície e a monocelha.
Quando a melanina deixa de ser produzida nos folículos capilares, os cabelos ficam branco PAULO PIMENTA
Quando nascemos, os folículos capilares já estão distribuídos pela pele. Ao longo do crescimento, os folículos produzem pêlos, barba e cabelo, consoante a região do corpo, o sexo e a genética de cada um. Estes factores dão alguma variedade entre humanos, mesmo se só olharmos para os cabelos: há cores diferentes, várias densidades e alguns são ondulados, outros encaracolados ou lisos. Com a idade, os primeiros cabelos grisalhos vão surgindo e muitos homens tornam-se calvos.
Toda esta dinâmica está ligada à actividade dos genes das células do folículo capilar. Agora, um estudo genético populacional associou vários genes a características do cabelo e da barba. Entre eles, está o gene IRF4, que foi associado pela primeira vez ao aparecimento dos cabelos brancos. O estudo, publicado nesta terça-feira na revista científica Nature Communications, pode vir a ajudar no desenvolvimento da cosmética.
“Já sabemos que vários genes estão envolvidos na calvície e na cor do cabelo, mas esta é a primeira vez que um gene para o cabelo grisalho foi identificado nos humanos, assim como outros genes que influenciam a forma e a densidade do cabelo”, disse Kaustubh Adhikari, do University College, em Londres, no Reino Unido, um dos cientistas da equipa que contou com investigadores de vários países da América Latina.
A equipa analisou o genoma de mais de 6000 pessoas do Brasil, da Colômbia, do Chile, do México e do Peru. Para cada pessoa, os investigadores anotaram a forma do cabelo (se era liso ou encaracolado), a sua cor, se era calva, se tinha cabelos brancos, a grossura das sobrancelhas, as monocelhas – quando os pêlos formam uma única sobrancelha – e, no caso dos homens, a densidade da barba.
Com um grande número de pessoas é possível associar determinados genes às características físicas. Além disso, a população daqueles países tem uma ascendência variada: índios sul-americanos, europeus e africanos. “[O estudo para os pêlos] só foi possível porque analisámos uma população muito diversa, o que nunca foi feito a esta escala. Estas descobertas têm possíveis aplicações cosméticas e forenses”, acrescentou Kaustubh Adhikari, citado num comunicado da sua universidade.
Um dos genes que surgiu na análise genómica foi o IRF4. Já se sabia que este pedaço de ADN comandava a produção de uma proteína associada à regulação do pigmento que dá cor ao cabelo e à pele, a famosa melanina. Esta molécula é produzida pelos melanócitos, células que se encontram na pele e nos folículos capilares. Os melanócitos armazenam a melanina em pequenos pacotes, que são enviados para as outras células da pele e para as células que vão formar o cabelo, dando-lhes cor (o cabelo é composto por células mortas ricas em queratina).
Mas por alguma razão, os folículos deixam de produzir melanina e surgem os cabelos grisalhos. A razão do fenómeno é desconhecida, mas o gene IRF4 terá um papel determinante. Estudar este gene “pode ser um bom modelo para compreender aspectos da biologia do envelhecimento”, explicou Andrés Ruiz-Linares, líder do estudo, do University College, citado no mesmo comunicado. “Compreender este mecanismo poderá ser importante para desenvolver formas de adiar o aparecimento dos cabelos grisalhos.”
A equipa associou 16 genes às várias características físicas enumeradas acima. Há dez novidades. Por exemplo, o gene EDAR está ligado à densidade da barba, a monocelha foi associada ao gene PAX3 e o gene PRSS53 influencia o encaracolamento do cabelo.
“A enzima [produzida a partir] do gene PRSS53 actua na parte do folículo capilar que dá forma à fibra de cabelo que está a crescer. A nova variante [deste gene] descoberta, associada a cabelos lisos das pessoas do Leste asiático e dos nativos americanos, corrobora a ideia de que a forma do cabelo é uma selecção [evolutiva] recente na família humana”, explicou Desmond Tobin, da Universidade de Bradford (no Reino Unido), também da equipa.
Mas ainda está por se descobrir como é que a actividade daqueles genes dá origem às formas e às cores que vemos quando nos vemos ao espelho, explica Kaustubh Adhikari: “É pouco provável que os genes que identificámos funcionem isoladamente, terão um papel em conjunto com muitos outros factores que ainda estão por identificar.”

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