sábado, 5 de março de 2016

DE QUANDO ALGUNS USOS E COSTUMES NOSSOS SÃO AVILTANTES

E, tendes de cuidar da vossa obrigação (…), de não praticardes costumes detestáveis que se praticaram antes de vós”Lv 18:30
Muitos de nós temos vindo a acompanhar através dos meios de comunicação social, particularmente das Televisões, verdadeiras sessões de verbosidades vergonhosas e cenas obscenas entre familiares no decorrer de cerimónias fúnebres, e, nalguns casos chegando-se mesmo a vias de facto. As razões invocadas para tais comportamentos são invariavelmente o facto de as finadas terem vivido maritalmente sem que tenham sidolowoladas, (nãoloboladas como alguns “assimilados” teimam em escrever e pronunciar, pois lowoloe não lobolo, é um costume iminentemente aborígene da África, e como tal, Kakana não pode ser Cacana, e Wukanye não é Canhú e muito menosKanimamboequivale a Khanimambo). Nunca me imaginei nem por sonhos participar em discussões dessa natureza por achá-las assuntos sempre protagonizadas por gente sem educação, portanto destituída de bom senso, até ao dia em que a minha tia-avó Mariyana (tia do meu falecido pai), foi arrebatada pela inevitável e implacável Morte para o desconhecido e assustador Além aos 87 anos de idade, dos quais 57 viveu “maritalmente” com o meu tio-avô afim, com o qual teve onze filhos, 55 netos e noventa e três bisnetos. Paradoxalmente, (achará alguém), respirei de alívio, quando a triste notícia me chegou, pois já não era sem tempo tendo em conta o longo período de sofrimento a que a minha tia-avó se sujeitou. É que ela andou doente mais de três meses, vítima daquilo que parecia um simples abcesso no sovaco do braço esquerdo. Alguém teve a péssima ideia de que o melhor seria exprimir o maldito inchaço que no entanto nunca dava sinais duma pontinha de “amadurecimento”. Um velho Enfermeiro que sempre serviu de “médico da família”, aconselhou que seria melhor abrir o maldito tumor com bisturi. Só que do buraco feito, não logrou sair um fiozinho de pus que fosse senão uma horrível e dolorosa ferida. Foi assim que do sovaco, a dor subiu para o ouvido e deste para o resto da cabeça afectando completamente a vista, acabando por cegar a minha tia-avó, naquilo que um médicooncologista no seu diagnoseconcluíra tratar-se de “Sarcoma de partes moles”, que são tumores malignos que têm origem em todos os tecidos como músculos e gordura e que crescem e se desenvolvem em qualquer parte do corpo, desde cabeça e pescoço até tronco e órgãos internos, e que em Txi Txopi conhece-se por “Txi Thunya” o mesmo que “Txi Dlavi”. Mas como é costume, cá na nossa terra, toda a doença tem origem num “feitiço”. Depois de muitos dias de sofrimento, a minha tia-avó não resistiu às dores acabando por entregar involuntária e forçosamente a alma ao seu fornecedor. Toda a família respirou de alívio suspirando que “ela coitada foi descansar!”, pois não há doença mais dolorosa do que a longa que envolve toda a família. Decidiu-se que ela logicamente seria sepultada no local onde viveu mais de metade da sua vida na companhia dos seus. Só que, um velho tio da minha defunta tia-avó exigiu que em virtude do meu tio-avô afim não ter completado o montante exigido no lowolo, há mais de meio século, devia ser sepultada no cemitério onde jazem os pais dela a menos que o “marido”, ou os filhos ou ainda os netos completassem o resto do montante solicitado nessa altura do “lowolo”. Aquele caso insólito entre gente da minha terra, sobretudo da minha idade, desgastou a muitos de nós que tivemos de percorrer grandes distâncias para depois convivermos com um corpo quase decomposto durante cerca de vinte e quatro horas enquanto não se saía do imbróglio numa palhota sem mínimas condições de frio, mercê à observância de usos e costumes a todos os títulos degradantes, infamante e desonrosos. Acabou sendo sepultada no Cemitério do marido por decisão forçosa dos filhos. Mas já os pregos colocados nos sovacos e uma moeda de prata no umbigo da minha tia-avó, como forma de preservar o corpo da putrefacção, começavam a ficar engolidos pela dilatação. Todos nós tivemos de “fazer de tripas corações” como se costuma dizer, uma expressão popular de desabafo significando que devemos transformar as adversidades em forças.Como pararmos com certos abomináveis costume de castigar os cadáveres?
Kandiyane Wa Matuva Kandiya
nyangatane@gmail.com

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