sábado, 5 de março de 2016

Daqui a pouco… nenhum elefante!

O mundo assinalou semana transacta o Dia Internacional da Fauna Bravia. O que deveria ser uma ocasião festiva revelou-se, afinal de contas, um momento de profunda tristeza… afinal, o próprio homem está a exterminar a fauna; está a interromper o curso natural da vida!
O lema escolhido “O Desafio da Conservação, Olhando para o Futuro da Fauna Bravia em Moçambique” é sintomático. Os números não mentem. Estamos cada vez mais pobres… Moçambique, a título de exemplo, tinha, há alguns poucos anos, mais de 40 mil elefantes. Hoje aqueles bonacheirões paquidérmicos, não passam de 10 mil… Rinocerontes então, nicles!
Mas quem fala de elefantes, rinocerontes fala de javalis, macacos, impalas, gnus ou outros animais bravios que são alvo da caça furtiva. Muitas razões podem ser convocadas para justificar a depredação mas um facto comum salta a vista: A prosperidade crescente na Ásia agravou o problema da caça furtiva. Por causa dela a demanda de marfim, chifres de rinocerontes e partes do corpo dos tigres está crescendo. Na China, por exemplo, acredita-se que os ossos e os órgãos genitais do tigre aumentem a potência. Por isso, são utilizados frequentemente na medicina chinesa. Além disso, a demanda de carne e pele de tigre também está a crescer nos países emergentes da Ásia.
Se é verdade que não temos tigres, também é verdade que daqui a meia dúzia de anos não teremos elefantes nem mesmo nos jardins zoológicos. A ganância é tanta que, pelos números, se atingiu a média de 8 elefantes abatidos por dia. É muita coisa. O comércio de marfim e cornos de rinoceronte é grande apesar de os principais países envolvidos – entenda-se países onde há muita actividade de caça ilegal - no comércio de marfim terem-se comprometido a criminalizar o tráfico de animais selvagens, a coordenar as suas acções e a desencorajar o consumo, numa cimeira sobre a protecção dos elefantes no Botswana. Representantes dos países afectados acordaram 14 "medidas de urgência" para acabar com a matança em África. Moçambique é um dos países afectados pela caça furtiva.
Entre as medidas aprovadas na cimeira de Gaborone está o reforço das penas contra os caçadores furtivos e traficantes de marfim. Em Moçambique, os números mais recentes apontam para que todos os dias sejam mortos 5 a 8 elefantes por caçadores furtivos. As contagens aéreas que foram feitas na reserva do Niassa em 2011 e estatísticas internacionais dizem que terá sido o pico em termos de abate de elefantes. Só na reserva do Niassa estima-se que estavam a ser abatidos mais de mil e 500 elefantes por ano. Portanto, o número é bastante elevado. As regiões mais afectadas são o Norte de Moçambique, onde estão as maiores populações de elefantes do país, fundamentalmente nas províncias do Niassa, Cabo Delgado, com alguma referência a Tete, no centro do país.
Os abates seguem, apesar de no último semestre do ano passado, 36 cidadãos moçambicanos terem sido abatidos na África do Sul durante a caça furtiva de rinocerontes e elefantes. O número é revelador. A coisa está mesmo preta… De facto o comportamento predador aumentou muito nos últimos 50 a 60 anos. As consequências são desastrosas: o ecossistema “floresta tropical” com o seu equilíbrio natural é destruído completamente. Quando, por exemplo, predadores faltam na cadeia alimentar, a presa reproduz-se tanto mais. Por causo disto a presa da presa torna-se cada vez mais escassa e a espiral fatal continua. Se os animais são capturados, já não podem contribuir para a reprodução da espécie, crias podem morrer de fome, porque já não são abastecidas de comida ou elas são vendidas a traficantes de animais. Assim, as populações no estado selvagem não têm possibilidades de se reproduzir. Isto conduz inevitavelmente à extinção de populações inteiras e finalmente à extinção de toda a espécie. A consequência é uma perda drástica da biodiversidade.
Mais uma consequência da caça furtiva comercial é que certas funções ecológicas já não podem ser cumpridas quando certas espécies faltam no ecossistema. Assim, muitos animais que são responsáveis pela disseminação de sementes tendem a desaparecer. Muitas plantas estão especializadas nisso e têm desenvolvido as suas sementes ao longo da evolução de tal forma que só possam ser disseminadas efectivamente por animais. As sementes ou são comidas por animais e difundidas através do excremento ou elas ficam na pele do animal e são disseminadas assim. A longo prazo, a caça furtiva de animais significa a extinção das espécies vegetais afectadas e assim, mais uma vez, a destruição do equilíbrio ecológico de todas as florestas. Como as florestas tropicais dão um contributo especialmente grande para a produção de oxigénio e para a absorção de dióxido de carbono na Terra, a extinção de vastas áreas de floresta também têm consequências para o nosso clima a longo prazo.
Em 1973, a “Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestre Ameaçadas de Extinção” (Convenção de Washington, em inglês: Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora (CITES)) foi assinada. Até hoje 176 Estados aderiram ao acordo. A meta da convenção é o controlo e a regulamentação do comércio internacional, que representa um dos perigos principais para os efectivos de animais e plantas selvagens. Neste contexto, “comércio” significa qualquer transporte para além das fronteiras, independente da razão para este transporte. As espécies ameaçadas estão listadas na Convenção de Washington em três anexos, segundo o grau da sua vulnerabilidade. Aplicam-se a elas diferentes níveis de restrições comerciais. Estes anexos são actualizados a cada dois anos.
Pelo menos isto é a teoria – a prática, é outra história!

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