quinta-feira, 24 de março de 2016

Activismo irresponsavel?


Contra essa acusacao de activismo irresponsavel, partilho aqui um texto, da autoria do Forum Mulher, que subscrevo na integra:
O incidente de violência policial que culminou com a
detenção de 5 activistas, no dia 18 de Março, Sexta-feira,
trouxe a nu os preconceitos contra a igualdade de direitos
das mulheres e o estigma em relação às activistas de
direitos humanos. Foi grave. Grave e revelador de que
Moçambique, que “vende” uma fachada de democracia
e equidade de género, na realidade trata as mulheres e
as meninas como categorias a serem controladas, e os
seus corpos, como territórios a serem vigiados.
Antes de mais, houve uma insistência da polícia em
considerar que eram as activistas de raça branca que lideravam
a acção de rua. Tanto assim, que duas das que
foram detidas e algemadas eram brancas e estrangeiras.
Em seguida, na esquadra, elas foram apresentadas aos
jornalistas como as “mandantes” de toda a acção.
No contexto de Moçambique, isso é sintomático da pretensão
de atribuir o protagonismo e as reivindicações os
direitos humanos das mulheres e crianças a influências
do estrangeiro, tentando passar a imagem de que nós,
os africanos, vivíamos felizes e contentes antes de vir
o Ocidente impor as suas “modas”. É a tal famosa “mão
estranha”, várias vezes invocada nos últimos anos para
desqualificar demandas e lutas por direitos.
Confirmando isto, duas das activistas detidas, de raça
negra, foram chamadas à parte e perguntaram-lhes porque
seguiam as estrangeiras, que só queriam destruir a
“nossa cultura”.
Para além disso, o comportamento dos polícias foi insultuoso
a todos os níveis. A uma das activistas, de 60 anos,
foi-lhe dito que deveria era ir para a machamba. Foram
tratadas como menores e incapazes mentais, a quem
todo o pessoal da esquadra achou por bem ir fazer sermões.
Houve também um excesso de uso de força, desde algemar
as detidas até à presença de tanques militares e
cães polícias no local da acção.
Este triste episódio confirma o que se vem dizendo há
vários anos. A igualdade das mulheres e os direitos das
mulheres e crianças em Moçambique ainda não é uma
realidade. As pessoas que reivindicam direitos fazem-no
no exercício dos seus direitos de cidadania e são um valioso
contributo para o aprofundamento da democracia.
Muito mal estamos nós se é a polícia que decide quem
pode ou não fazer ouvir as suas vozes.
E uma última palavra. As crianças podem ser menores
de idade, mas são cidadãos e cidadãs de pleno direito. E
ninguém, nem os pais, nem a escola, podem retirar-lhes
os direitos que lhes são consagrados pela Constituição e
por toda a legislação moçambicana.

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