segunda-feira, 14 de março de 2016

10 razões e 7 conjecturas sobre o discurso de JES – Faustino Mumbika

Luanda – O pronunciamento do Eng.º José Eduardo dos Santos nas vestes de Presidente do MPLA na sua reunião do Comité Central anunciou a retirada da vida política activa em 2018. Apesar de se assemelhar à novidade, não constitui novidade por isso não ser como tal, caso para ser considerado notícia, visto que já fez este tipo de afirmação ainda que com palavras diferentes, mas jogando na mesma direcção.

Fonte: Club-k.net
O que constitui novidade, caso de preocupação e de estudo da minha, são as motivações que estão na base desta jogada. Para registo deixo reflectidas 10 razões e 7 conjecturas:
1. Razão: Não há dúvidas de que pelos sinais que alguns pronunciamentos de destacados dirigentes do MPLA vão fazendo (os malogrados Wanhenga Xitu e Maria Mambo Café; os veteranos Lopo do Nascimento, Marcolino Moco; outros dirigentes como Rui Falcão, Isaac dos Anjos, Associação 27 de Maio, Garcia Miala, Kim Ribeiro etc.), indicia um ambiente interno de insatisfação que vai desgastando vertiginosamente a imagem e hoje já colocou a autoridade de JES no interior do Partido em causa;
2. Razão: o descrito no ponto anterior, adensa-se ainda mais, com a insatisfação generalizada que vai produzindo uma espécie de revolta incubada nos corações e mentes de todos os sectores sociais incluindo sobre tudo, as instituições do estado com destaque para a defesa, segurança e ordem pública, sem deixar de falar de sectores nevrálgicos como a saúde e a educação. Nos primeiros as constantes abaixo-assinado reclamando injustiças e nos segundos as constantes greves;
3. Razão: a gestão ruinosa imposta ao erário público durante décadas, que representa a causa principal da crise que a nossa economia hoje vive, que só a baixa do preço de petróleo veio destapar, colocou o País num rumo que se encaminha para a banca rota, caso não se registe a retoma da subida do preço do Barril de Petróleo no mercado Internacional;
4. Razão: a política de provimento dos cargos políticos da função pública na base da aplicação da teoria da cumplicidade, onde as pessoas ontem apeadas de altos cargos pelo Presidente muitos deles de forma humilhante porque denunciados publicamente como estando envolvidos em escândalos de desvios financeiros e em outros casos que incluem crimes de assassinatos ainda não esclarecidos mas que vão mudando de cargo em cargo como se no MPLA não existissem mais quadros competentes para não falar do País, demonstra claramente de que a moral pública quebrou no Governo;
5. Razão: a consolidação da conjuntura internacional desfavorável ao JES e seu regime, se olharmos para os casos da Venezuela, da Rússia ambos acossados pela baixa do preço do Petróleo aliada ao desgaste dos círculos de amizade no poder quer no Brasil, Portugal, Espanha etc;
6. Razão: a formação de um conglomerado de regimes políticos nos países da região onde Angola investiu avultadas somas produziu processos democráticos de conveniência e sucessões “Modelo” do tipo linhageira para cimentar a ideia simulada de estar-se diante de uma realidade que reflecte a cultura africana sendo disso exemplo os casos do Gabão, Guiné Equatorial, RDC, etc; o que tranquiliza JES;
7. Razão: a incapacidade da UA em assumir o seu papel incentivou a acção regional, no caso da SADC o que permitiu protagonismo de Angola e o respectivo reconhecimento como País líder nos processos de Pacificação da região, que pessoalmente prefiro tratar por processo de “Militarização da Paz na Região tendo em conta o modelo adoptado que assenta essencialmente na coerção o que faz JES sentir-se dentro do poder real, mesmo abandonando a Presidência de Angola;
8. Razão: a estagnação do processo de Reconciliação em Angola e o último pronunciamento do Vice-presidente em Representação do PR na Assembleia Nacional quando admitiu a incapacidade de o governo poder honrar o compromisso com os ex-militares das ex. ELNA, FALA, FAPLA e das FAA; aliados as ultimas tentativas de manifestações desse extracto social, impõem uma decisão;
9. Razão: A fraude eleitoral vivida nos três processos eleitorais já realizados no País, sendo a última de 2012, um caso de estudo a parte, por ter produzido matéria de prova suficiente que levou inclusive a UNITA a apresentar uma queixa-crime contra o Eng.º Eduardo dos Santos como actor deste crime de lês a pátria que subverteu a vontade do povo; sem deixar de destacar que as provas foram resultado manifesto de insatisfação nos círculos castrenses em que JES confiou para executar a fraude, ficando hoje como sinal de que os angolanos despertaram e que nem tudo será como JES quiser;
10. Razão: O facto de em 36 anos poder ter sido eleito apenas uma vez e na base de uma fraude que pode não se repetir com a mesma proeza atendendo a tomada de consciência dos angolanos no serviços antes utilizados por JES para as fraudes e a insatisfação generalizada;
As dez razões acima, permitem fazer 7 conjecturas seguintes:
1. Se a afirmação de JES é genuína: Neste caso, primeiro pode ser que convenceu-se de que já não tem forças psicomotoras suficiente para enfrentar os desafios e que estão criadas as condições para alguém com certeza o filho suceder-lhe;
2. Se a afirmação de JES é uma farsa: Neste caso, procura identificar o ponto de força capaz de lhe enfrentar internamente nas pretensões que tem acerca da sua sucessão, e uma vez detectado o alvo seria imediatamente removido da trajectória a seguir;
3. Se a afirmação de JES é patriota: Pretende dar espaço a uma nova fonte de pensamento e decisão, para facilitar o processo de democratização do País, por reconhecer e admitir ser impossível tal exercício partir de si;
4. Se a afirmação de JES é genuína: Peca por excesso ao ter arrastado o País para um beco cuja saída levará uns bons anos e que humanamente ele sabe que já não consegue tal desafio. Peca ainda por defeito, por ter colocado a riqueza do País nas mãos de um grupinho de pessoas que aprofundaram o pecado, colocando tal riqueza ao serviço de outras Nações, pior numa condição em que tal riqueza acabará abocanhada pelos Países onde se encontra alojada.
5. Se a afirmação de JES é estratégica: Do ponto de vista da competição política pelo poder, procura minimizar o desgaste do MPLA provocado pela Gestão de JES, ao criar uma pequena expectativa aos eleitores gerando a sensação de que o culpado está a retirar-se por tal feito, dar-se um benefício da dúvida ao MPLA e assim, livrar-se da culpa do MPLA poder ser fortemente penalizado nas eleições que se avizinham;
6. Se a afirmação de JES é ainda estratégica: Procura a manutenção do Poder político no círculo familiar, pois ao ter colocado a família no controlo da economia real, e deixado o estado numa situação caótica que pode se encaminhar para a banca rota, a crise que se agudizaria com a sua retirada, seria interpretada como consequência da sua ausência e eventualmente gerar um certo sentimento popular de arrependimento. Neste caso, uma indicação de um sucessor no caso filho, seria aplaudida largamente pela sociedade desatenta que infelizmente perfaz a maioria;
7. Se a afirmação de JES é realista: então fez uma retrospectiva e conseguiu finalmente perceber que em 36 anos como Presidente já disse tudo o que tinha a dizer e que os angolanos já não acreditam nele. Por isso o melhor é dar a nova geração a oportunidade de gerir seu próprio destino.

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