quarta-feira, 30 de setembro de 2015

PORQUE NOS BATEMOS EM ÁFRICA - Por Neves Anacleto

Sabujice e Traição

Aí por 1912 a Alemanha teve a pretensão de apoderar-se dos
territórios portugueses, e o Conde de Bwlov, Ministro dos Estrangeiros alemão,
insistia com o Foreign Office para a repartição desses territórios em zonas de
influência da Inglaterra e da Alemanha.
Cientes dessas intenções, os democratas portugueses aproveitaram a
guerra de 1914-18 a fim de nela se imiscuírem para, na conferência da paz que
se seguisse, terem voz activa no arranjo final das decisões.
No parlamento, na imprensa e nas tribunas públicas, o governo de
então defendeu a nossa intenção nessa guerra.
No parlamento havia um grande grupo de deputados que eram oficiais
do exército e que defenderam a nossa entrada na guerra como um direito que
provinha dos interesses portugueses em jogo, e, honra a esses oficiais, todos
eles se ofereceram para combaterem nela e todos se bateram nas trincheiras da
Flandres, e aqui morreram muitos que se ofereceram para o combate.
No final, os nossos direitos foram mantidos e, na Sociedade das
Nações que se criou, tiveram os portugueses papel de relevo.
Afonso Costa foi eleito Presidente da Assembleia Geral da Sociedade
das nações, e o Portugal íntegro — Metrópole e o Ultramar — foi assegurado
pela honra e dignidade do Exército da República.
Depois do traiçoeiro golpe de 28 de Maio, toda a Nação, Metrópole e
Ultramar, ficou submetida à despótica tirania destruída em 25 de Abril último
O peso da ditadura surgida em 28 de Maio de 1926 caiu sobre todos
os portugueses quer fossem metropolitanos quer fossem do nosso ultramar.
E todos sofremos dolorosamente essa traição, e quando Salazar, em
nome dessa traição, elaborou o Acto Colonial, que transformava em colónias as
províncias ultramarinas, todos nós, os democratas, combatemos, na medida do
possível, a lei que nos dividia em colonizadores e colonizados.
A PRECIPITAÇÃO
Cunha Leal, talento dos mais lúcidos, insurgiu-se contra o nefando
Acto-Colonial, o que lhe valeu ver o seu lar invadido numa madrugada de
inverno, quando foi levado em pijama para a prisão da Pide (que então se
chamava a Polícia de Informação) e nesse mesmo dia foi conduzido à fronteira,
sendo assim expulso do país.
Com esta atitude contra Cunha Leal, o despótico Salazar quis mostrar
que nós, os democratas, só tínhamos os direitos que ele concedia
paternalmente aos nossos irmãos colonizados.
Mas a nossa identidade com estes não se quebrou, e sofremos o que
eles também sofreram.
O 25 de Abril libertou-nos a todos, metropolitanos e ultramarinos.
Mas nós, os metropolitanos, não aproveitámos a liberdade para nos
revoltarmos contra Portugal que não era culpado dos malefícios dum bando
sem amor pátrio; todavia alguns bandos de ultramarinos aproveitaram-se para
desferir golpes de morte contra Portugal, esquecendo-se daqueles que sempre
estiveram a seu lado e que sempre os trataram como irmãos.
Ora, nestes ultramarinos há que distinguir dois grupos: os negros,
aborígenes de África e os brancos, aborígenes da metrópole portuguesa.
Se alguns negros, por ambição despótica do mando, invocam a cor da
sua pele para repudiarem a sua qualidade de portugueses, isso representa
grave ingratidão que tem a aquiescência de quase o mundo inteiro ; mas que o
façam os aborígenes da metrópole, é uma traição que o mundo repele.
No programa da Revolução das Flores encontra-se o princípio da
liberdade individual e da liberdade de grupos:
Para estes foi estabelecido o princípio de auto-determinação, que
será aproveitado livremente segundo os ideais democráticos.
Segundo este princípio, os grupos têm a liberdade de escolher, por
eles próprios, a forma de governo que entenderem.
Nesta forma de governo não se exclui a aceitação da direcção
portuguesa; mas os grupos poderão escolher a Direcção que bem lhes
aprouver.
E não se exclui a Direcção portuguesa porque estamos convencidos
da existência de muitos negros, que por discernimento e afeição dela não
querem sair.
Ora isto é objecto de escolha, ou de opção, do somatório das
vontades individuais.
Foi por isto que a Junta de Salvação Nacional e a seguir o Presidente
Spínola, declararam que todos aqueles que pegaram em armas contra Portugal
e que se encontram refugiados em países estrangeiros, podiam livremente
regressar aos seus lares para, cada um, fazer a propaganda do seu ideário, em
vista ao referendum a realizar para escolha da Direcção que haveria de ser
instaurada.
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Assim, a livre escolha é que se chama pura democracia segundo os
cânones universalmente definidos.
Para isto seria necessário um cessar fogo de ambos os lados; e quer
a Junta de Salvação Nacional, quer o Governo Provisório, ordenaram que o
exército português ensarilhasse as suas armas.
Em resposta, os bandos guerrilheiros declararam e proclamaram que
não depunham as armas e que continuariam a luta até obterem a sua vitória
definitiva; isto é, a independência completa pela transmissão de poderes. E nas
suas farroncas exigiam a imediata entrega de poderes.
Esta atitude revela-nos duas coisas: o ávido desejo do Poder, e o
receio de que as populações não aceitem o seu domínio ambicioso.
Isto é já um motivo para que o governo português se acautele na
entrega dos selos do Estado a qualquer bando armado que não represente a
vontade geral do grupo.
Mas o Governo Provisório, que teve a pouca sorte de meter no seu
seio um homem comprometido com os bandos armados contra Portugal, deixou
que este se avistasse imediatamente com esses grupos. E tão comprometido o
dito ministro se encontrava, que acabada a primeira reunião desse governo o
Dr. Mário Soares imediatamente saiu dela para se meter num avião, posto à
sua ordem pelo Presidente Sengor, e para Dakar se dirigiu onde conferenciou
com este como intermediário desses bandos.
Quero dizer: antes da primeira reunião do Conselho de Ministros que
se efectuou logo a seguir à tomada de posse do Governo, já Mário Soares
andava em pulgas para mostrar aos seus aliados a sua missão cumprida.
Esta "missão cumprida" seriam as suas promessas aos bandos
guerrilheiros, as quais significavam mãos largas de quem não sentia ainda o
peso das responsabilidades.
Ora as responsabilidades é que constituem óbice à independência
imediata prometida e ratificada nos primeiros discursos do Dr. Mário Soares.
Na verdade, a engrenagem dum Estado amalgamado em estruturas
de 500 anos de existência, não pode ser entregue, de pé para a mão, a
pessoas absolutamente estranhas a essas estruturas.
Calcule-se o caos que não seria se de um momento para o outro o
ex-ajudante de enfermeiro Samora Machel e Marcelino dos Santos tomassem
conta do Estado de Moçambique ! ! !
O Dr. Mário Soares, brincando alegremente com coisas sérias, como
um menino com um novo brinquedo, levou o bando de guerrilheiros ,a pensar
que a transmissão de poderes estava segura e para já, como o dava a entender
a pressa com que o Governo Provisório lhes mandava o seu ministro dos
estrangeiros.
E para eles, essa pressa denunciava a aflição e o desespero em que
se encontrava o Governo Provisório para desfazer-se do fardo Colonial por
pressão das forças armadas que teriam feito a revolução para esse efeito
exclusivo.
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E tanto isto é assim que Samora Machel proclama que foram os
movimentos guerrilheiros que fizeram a Revolução das Flores.
Foi este convencimento feito certeza que levou a Frelimo a impor
condições como se estivesse a tratar com um exército vencido, em vez de
aceitar a posição de negociar em pé de igualdade, onde não haveria vencedor
nem vencido, como declarou o delegado da Junta de Salvação Nacional,
General Costa Gomes, quando veio a Lourenço Marques.
Pois esta posição correcta, de não haver vencedor ou vencido nas
negociações, foi repudiada pela Frelimo que quis tomar a posição vitoriosa
perante um exército vencido, e prometeu que a sua luta armada continuaria
enquanto o Governo Português não proclamasse a independência de
Moçambique.
E a verdade é que a Frelimo continuou a luta, chacinando diariamente
as pessoas que ao norte da Beira se atrevem a usar as estradas construídas
com muito custo para utilidade das respectivas populações. E a Frelimo já não
escolhe: chacina diariamente negros e brancos que se atrevam a usar essas
estradas, aproveitando-se desleal e desumanamente da circunstância do
Exército Português ter as suas armas ensarilhadas em cumprimento da palavra
honrada do povo português.
A circunstância da abstenção temporária da luta por parte do exército
português, conjugada com a acção desleal e criminosa da Frelimo nos seus
cruéis e desumanos ataques traiçoeiros, levou os espíritos débeis a julgar como
realidade a vitória irreversível desta, e por isso eles avançaram em audácia
demente nos seus ataques contra as pessoas, contra a honra destas, e contra
a liberdade de todos que não se degradaram ao ponto de dar vivas à Frelimo. E
agora, por aí andam à compita cada um pretendendo ser o que mais alto ergue
a disforme cabeça para que a Frelimo veja e lhe dê a compensação que julga
merecer, quando ela tomar conta do governo de Moçambique.
Neste esgar de traição e sabujice evidencia-se um punhado de
portugueses europeus que sobreleva em pujança o frémito em que vivem
alguns negros sequiosos da Frelimo por alma e coração.
Estes portugueses europeus são tão destemperadamente perigosos
que atacam por palavras orais e escritas, e até por omissões, todos aqueles
que resistem na sua portugalidade à demência, ao mesmo tempo que sublimam
as virtudes da Frelimo e dos seus componentes, sendo alguns elevados à
categoria de super-homens, senão de deuses.
Por toda a parte e de todos os lados se fala da Frelimo como salvador
das almas escravisadas, e até as meninas histéricas a invocam com a devoção
dos fanáticos de outro mito que é Fátima.
A FRELIMO
Mas o que é a Frelimo ?
A Frelimo é uma organização e, como tal, será aquilo que forem as
pessoas que a compõem. É uma organização paga pelo estrangeiro para
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atacar o domínio português em Moçambique. Os dirigentes da Frelimo vivem
bem, com todas as comodidades das pessoas bem instaladas na vida, e
deslocam-se de uma Nação para outra com a facilidade da abelha quando se
desloca de uma flor para outra flor em procura da matéria prima para fabricação
do mel.
Há uma dúzia de anos que estes nababos recebem de países estranhos
a Moçambique dinheiro para as suas vidas faustosas, e armas para espalharem
a morte nas terras moçambicanas. E não se cansam.
E não se cansam porque não são eles que gastam energias na luta e
sim aqueles que vão ficando pelo caminho, mortos ou estropiados.
E porque têm muito dinheiro, podem consumir este em armas
mortíferas e numa propaganda dimensionada ao mundo terráquio.
E tão densa é esta propaganda que transformou a mente de muitos
portugueses a tal ponto que estes chegam a inverter o sentido das coisas e dos
factos, pois chamam mentira à verdade, ou vice-versa.
Assim, eles atribuem a autoria das guerras coloniais à iniciativa
portuguesa e os seus panfletos clandestinos e os seus jornais murais nunca se
enfastiaram do Slogan: "Acabe-se com a guerra colonial."
Não obstante a minha aversão ao governo fascista eu não lia sem
vómitos um tal Slogan.
Com que direito se exigia a um tal governo que acabasse com uma
guerra da iniciativa dos outros ?
Mesmo neste momento que o governo saído da revolução satisfez
esse idiota e miserável Slogan, e para isso cruzou os braços, os guerrilheiros
continuam a assassinar inocentes como acabo de ler no Notícias, órgão
matutino da Frelimo, no momento em que escrevo — 21/6/74.
Agora, que o novo governo ensarilhou as armas, esses dementes
portugueses gritam-lhe: declare já a independência.
Claro que isto é impossível para um governo responsável, dada a
complexidade dos direitos e das obrigações que surgem dum tal acto.
No processo da descolonização só houve um governo que se
apressou na declaração da independência do povo colonizado, se bem que não
tão depressa como a exigem agora os neo-democratas portugueses: foi o
holandês.
Mas a precipitação da Holanda obrigou-a a pôr à ordem dos seus
naturais, navios e aviões, para o transporte rápido de 60 000 pessoas.
Quando três anos após a independência da Indonésia os jornalistas,
que visitaram Java, encontraram as ruínas da que fora uma cidade florescente.
O mesmo acontecerá a esta linda cidade de Lourenço Marques
quando os portugueses daqui saírem e entrar a Frelimo com o seu cortejo de
desatinos, de incompetências e de vaidades satisfeitas.
Isto não antevêem os neo-democratas que esperam com as suas
sabujices e traições ocuparem lugares de destaque que a Frelimo, por falta de
quadros e de gente capaz, lhes oferecerá.
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Por agora eles repetem a propaganda que a Frelimo faz, com o
dinheiro estrangeiro a que fica hipotecada, das suas virtudes e dos seus
encantos.
E a Frelimo fala de um programa que não tem e que ninguém viu, e
que todos os neo-democratas invocam como coisa certa e sabida.
Até os rapazinhos do liceu e os universitários invocam constantemente
o programa da Frelimo, e as mocinhas histéricas enroscam-se nas
pregas desse programa para gritarem : Viva a Frelimo !
Quando a revolução de 28 de Maio instalou no poder um grupo de
generais sem ideias e sem saberem o que fazer das rédeas do poder, surgiu a
necessidade de contrapor à desorientação alarmante a afirmação de que tudo
seguiria segundo o plano concebido e todos começaram a invocar o programa
do 28 de Maio.
E então todos falavam no programa do 28 de Maio como se tal
programa tivesse existido. E quando algum atrevido como eu então o era, pedia
para que lhe fosse mostrado esse programa todos os malandros em vez de o
mostrarem ameaçavam-nos com a polícia.
Agora os neo-democratas como outrora os fascistas do 28 de Maio,
falam-nos do programa da Frelimo.
Mostrem esse programa ! Vá !
Para obviar a esta pergunta, a "Voz de Moçambique", outro órgão da
Frelimo, prometeu publicá-lo segundo corria na cidade. E no dia em que
haveria de publicá-lo formaram-se bichas de grande extensão nos locais onde a
V. M. era posto à venda.
Meti-me na comprida bicha para comprar a V. M. e consegui o meu
objectivo. Adquiri um exemplar que tenho em meu poder.
Dos muitos milhares esgotados pela avidez popular eu tenho um.
Ao lê-lo verifiquei que a V. M. dava ao tão apregoado "Programa da
Frelimo" o nome de "Estatutos da Frelimo."
Com razão a V. M. não lhe deu o nome de programa, porque seria
vergonhoso que lhe desse tal nome.
Todavia os mocinhos e as mocinhas histéricas e ignorantes
continuam a chamar-lhe "Programa da Frelimo."
Na verdade aquilo nem é programa nem é Estatutos.
É um amalgamado de fracções de programa, de relatório e de
estatutos.
A confusão mental de tal documento seria o bastante para pôr fora de
combate qualquer grupo político, em qualquer parte do mundo, que o exibisse
em público como Programa ou como Estatutos.
Não renunciarei a publicar esse mostrengo quando o analizar ponto
por ponto em trabalho que com vagar publicarei.
Quero mostrar ao futuro a falta de independência mental de todos
aqueles que dão vivas à Frelimo. Os vivas à Frelimo ficarão como paradigma
da estupidez humana
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OS HOMENS DA FRELIMO
Em Lourenço Marques todos os jornais, menos O Diário, que
normalmente, por razões minhas, não leio, são órgãos da Frelimo ou como tais
se comportam.
A falta de imparcialidade que toda a gente, e com razão, atribuía aos
jornais do tempo dos governos fascistas, é agora mais vincada nos jornais
dirigidos pelos neo-democratas. Na minha velha luta contra o fascismo eu sofri
horrivelmente os efeitos da censura à imprensa. "O Jornal" que dirigi em 1936-
37 em Lourenço Marques, foi aniquilado pela censura. "O Jornal" foi proibido de
publicar os anúncios que algumas repartições públicas lhe enviavam ; e os
anúncios judiciais de que eu, como advogado, tinha de publicar nos jornais, fui
proibido de fazê-lo no meu próprio diário.
No entanto, num ou noutro dia eu conseguia habilidosamente inserir
alguma prosa que o olho policial de Salazar não consentiria ; mas agora, neste
regime de liberdade, eu não consigo que o "Notícias" ou a "Tribuna" publiquem
artigos meus que contrariem o espírito da Frelimo contra Portugal.
Os homens da Frelimo, quer os dirigentes desta quer os que a
defendem e se encontram ao seu serviço, são implacáveis : nada de permitir
que os seus contrários apresentem e defendam os seus pontos de vista.
Eles receberam ordens para nos mentalizarem no sentido de
aceitarmos o despotismo da Frelimo, e fazem-no extremisticamente : nada
contra a Frelimo ; tudo a favor da Frelimo.
Eis a razão porque tenho de usar o panfleto para defender uma
política de paz e harmonia entre brancos e negros.
Para esta política terei de combater erros e desmistificar os tabus.
No documento chamado Estatutos da Frelimo publicado na V. M., dizse
que um dos objectivos da Frelimo é a "Conquista da independência
imediata e total de Moçambique."
Para quê esta independência, e qual o seu conteúdo ?
Vamos admitir que esta independência se destina a dar ao povo
moçambicano a liberdade de se reger por ele próprio, escolhendo livremente os
órgãos da sua administração pública, sem a intervenção de estranhos.
Ora, a intervenção portuguesa não pode ser estranha a Moçambique,
não só pela sua presença de 500 anos, como porque aqui residem centenas de
milhares de portugueses que os arautos da independência dizem que eles
devem ficar e não saírem daqui.
Por outro lado existe toda uma estrutura secular instaurada pelos
portugueses, como são as cidades, as estradas, os portos, os caminhos de
ferro, onde eles deixaram o seu esforço, o seu carinho e o seu amor a esta
terra.
Como pode um povo que aqui viveu 500 anos, que aqui deixou os
seus mortos, a sua cultura, e a amizade pelos que com ele construíram tudo o
que foi acrescido a esta terra, sentir-se nela estranhos ?
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No entanto, o preceito transcrito inculca que o povo português
passará a ser um estranho como qualquer outro povo.
Estou convencido que esclarecidos imparcialmente todos os
moçambicanos, a maioria deles votaria uma independência com os portugueses,
corolário que também se tira do facto dos freliministas recusarem o
referendum que eles aceitariam da melhor vontade se tivessem a certeza de
que a grande maioria dos moçambicanos votaria na Frelimo.
Mas como poderá a Frelimo dotar Moçambique de uma independência
total sem os portugueses, já que ela se hipotecou previamente às
nações que lhe pagaram para guerrear Portugal ?
Então esses empréstimos, em dinheiro e em armamento, concedidos
durante 12 anos não se pagam ?
Onde está em qualquer parte do mundo, um esmoler tão desinteressado
que durante 12 anos espórtula quantias assombrosas sem querer o
seu reembolso ?
Para já diremos que nos poucos dias que precederam o encontro de
Mário Soares com Samora Machel em Lusaca, aqui se reuniram Kaunda,
Nyerere e Mobutu, dirigentes da Zâmbia, da Tanzânia e do Congo, para
estabelecerem o destino de Moçambique depois da independência.
Foi isto o que disseram todas as agências telegráficas e publicado
nos jornais.
O destino de Moçambique, depois da independência, não foi gizado
pela Frelimo, mas sim pelos três países mencionados que foram dos que
contribuíram com dinheiro para a vida e emprezas da mesma Frelimo.
Não é verdade que a Frelimo, ou os seus dirigentes, trabalhe para
uma independência, que de ante-mão se apresenta impossível.
Uma tal independência está previamente comprometida ; e tudo o que
esteja comprometido, não é independente.
O Dr. Mário Soares é homem comprometido com os movimentos
guerrilheiros, e por isso mesmo ele não goza de independência para
representar a parte contrária à Frelimo.
Foi um erro do Governo Provisório encarregá-lo de negociar aquilo
que ele se havia comprometido dar.
Este homem comprometido, compromete o Governo e o seu país ; ele
só pode ser favorável a quem se vinculou nas suas promessas.
Assim os homens da Frelimo não gozam de liberdade suficiente para
tornar Moçambique independente, porque eles se encontram vinculados aos
países que lhes pagaram as despesas de guerra e os têm sustentado; e nesses
países encontram-se principalmente, a Zâmbia, Tanzânia e Congo, que já
determinaram o destino que lhe darão, como já se disse anteriormente.
E esse destino desconhecem-no os povos de Moçambique que
seriam, assim, lançados no abismo do desconhecido.
E que capacidade têm os dirigentes da Frelimo para governar um
Estado e dirigirem uma Nação ?
Quando perguntaram a Samora Machel a razão porque Marcelino
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dos Santos estava ausente das conversações de Lusaca, respondeu que
Marcelino dos Santos estava ausente porque ele Samora se encontrava aí; pois
se Marcelino dos Santos estivesse presente teria ele de estar ausente.
Isto significa que os dois, Samora e Marcelino dos Santos, são os
principais dirigentes da Frelimo, e que se substituem um ao outro.
Pois Marcelino dos Santos, falando aos jornalistas em Dar-es-Salam,
declarou que quando a Frelimo tomar conta do poder, fechará o porto de
Lourenço Marques à África do Sul ; retirará desta os 100 mil trabalhadores
moçambicanos que trabalham nas minas deste país, e que a energia que
provirá de Cabora Bassa não alimentará a África do Sul.
Isto que disse Marcelino dos Santos, é o mesmo que dirá Samora
Machel porque ambos são a Frelimo.
É o programa desta. Cá está o programa que eu em vão procurara.
É impossível encontrar maior irresponsabilidade em qualquer homem
político em qualquer parte do mundo.
E são estes que querem governar Moçambique, e é isto a Frelimo a
que os mocinhos e as mocinhas, bem como os neo-democratas, dão vivas.
Sabido que a maior fonte de receitas de Moçambique são os portos e
caminhos de ferro, e que outra grande fonte de receita provém dos
trabalhadores que operam no Rand é inconcebível que a Frelimo pretenda
acabar com tais receitas. Mas não fica por aqui o belo programa : as receitas
que resultariam do tal fornecimento de energia de Cabora Bassa, que tanto
dinheiro e tanta boa vontade foram dispendidas para as obter, também não
entrarão nos cofres de Moçambique.
Em consequência, outra grande fonte de receita desaparecerá : a do
turismo.
E, porque a Frelimo pretende preparar guerrilhas contra a África do
Sul, passará Lourenço Marques a não exportar bananas para este país, nem
dele receber frutas, legumes, batatas e outras comodidades.
Por outro lado, os 100 mil trabalhadores das minas do Rand
regressarão às suas terras. E quem lhes dará trabalho depois ?
São 100 mil pessoas que emigraram por não terem trabalho nas suas
terras, e passarão a ficar nelas afogando a sua miséria, graças à Frelimo.
Não se pode vislumbrar maior irresponsabilidade em homens políticos
do que a que se constata nos homens da Frelimo.
Pobre Moçambique, pobres populações, o que vos espera.
O IMPÉRIO DA IMBECILIDADE
Desde que acabou a censura à Imprensa apareceu nas colunas dos
jornais a chusma dos plumistas.
Isto foi um bem para a revelação de muita imbecilidade que vivia
açaimada e que rebentava para vir à luz do dia.
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Uns apavorados com as incertezas que molestam todos, e que por
qualquer circunstância não podem escapar-se, procuram deter o êxodo, pelo
receio de ficarem sós, com insultos aos que partem, chamando-lhes covardes
em cartas que os jornais publicam.
No Notícias de 22-6-74, um destes plumistas fantasiava um amigo
que se vai, e a quem dirigia carta dizendo-lhe que a sua permanência aqui seria
uma lacuna que "dificilmente será preenchida", e isto devido a tratar-se de uma
pessoa "possuindo um bom carácter e de dotes de inteligência" que "muito
poderiam contribuir para o bem estar dos teus subordinados."
Depois segue a dar conselhos ao amigo de quem diz ser de "péssima
formação moral" e que o trabalho que o ocupava, e que lhe fora oferecido fizera
dele o "ser ignóbil que actualmente és."
E mais adiante : "pois, apesar de tudo, estou convencido que a tua
pavonice actual nada mais é que estupidez assente na totalidade do ditado
antigo e que em ti se adapta perfeitamente — Quem te mandou a ti sapateiro
tocar rabecão."
Os dislates continuam mas não podemos transcrevê-los na totalidade
porque teremos de ocupar-nos de outros "escritores."
Logo a seguir à carta citada vem outra, que embora razoavelmente
escrita, não deixa de revelar a irresponsabilidade do seu autor.
Depois de denunciar um membro do Fico à ira e révanche da massa
negra, refere-se à minoria que ficar subordinada ao poder negro, ou seja o da
Frelimo :
"Não tenham porém receio. A ninguém serão retirados os
seus haveres, ninguém irá ser perseguido, nem morto, nem
agredido, se a sua actuação, dentro da Sociedade
moçambicana, tiver sido e for a que é de exigir a qualquer
cidadão íntegro e consciente dos seus deveres como dos
seus direitos."
Este fala com segurança e dá a certeza do que pertence ao futuro.
Seria bom que se lembrasse da matança do Karume em Zanzibar ; da
expoliação e da expulsão dos indianos no Uganda, da expoliação dos
agricultores brancos do Quénia ; das matanças do Congo, etc.
Há ainda um que escreve para que seja feita uma lista dos nomes das
pessoas que partem.
Coitado ! Tomara ele que não faça parte de uma lista dos que ficam e
que mais tarde necessitem de regressar a Portugal ...
Outros preocupam-se muito com falsos e verdadeiros democratas,
convencidos de que eles é que são os verdadeiros se bem que os verdadeiros
nunca os tenham encontrado no caminho da luta pela democracia.
Os órgãos da Frelimo em Lourenço Marques estão cheios destes
novos pregadores que em tudo actuam como fascistas menos nos slogans
velhos e relhos que sem abuso os verdadeiros democratas usaram nos
momentos apropriados.
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Estes pregadores freliminos gritam que o fascismo não morreu, que é
necessário estar em guarda contra ele, mas pretendem instaurar um governo
tirânico, de partido único, para impedir que se oiça a voz da verdade,
precisamente nos moldes estabelecidos por Mussoline, por Hitler, por Salazar e
por Franco.
E sem vergonha de qualquer natureza explicam que a Frelimo, como
único representante do povo moçambicano, exclui qualquer outro agrupamento
político por ela representar a vontade deste mesmo povo. E ainda longe do
poder, já nos impõe esta falsa lógica, impedindo-nos de responder na imprensa
às suas daninhas mentiras e aos seus desconchavos de promoção do ódio
racial contra o homem branco. Veja-se como os jornais freliminos dão relevo a
grandes ou pequenos erros ou delitos dos homens brancos e como desculpam
ou ocultam os crimes dos negros.
Recentemente o "Diário" publicou a notícia do crime de dois ou três
malfeitores negros contra um casal de brancos, e uma filha destes, enquanto o
"Notícias" e a "Tribuna" ignoraram a existência do mesmo crime executado na
Namaacha.
Se há um conflito entre um negro e um branco estes dois jornais
freliminos relatam-no segundo o que lhes contou o negro sem ouvirem ou
procurarem ouvir o branco.
Pode ver-se, em toda a actuação destes jornais, desde que caíram
nas mãos de pessoas encarregadas de nos mentalizar, a sua nítida posição
contra o homem branco que sofre aí constantes ataques, directa ou
indirectamente, como opressores e exploradores do trabalho dos negros. A
população branca está sendo amarrada e desarmada para ficar inerme contra
eventuais crimes ou desatinos dos negros.
Devo declarar, que todas estas armadilhas contra os homens brancos
são manipuladas por indivíduos brancos que perderam toda a noção de uma
pátria que lhes deu origem e galgaram a barreira do equilíbrio do bom senso
que manda erigir a harmonia entre brancos e negros. Não são os negros em
geral que pretendem romper esta harmonia ; e quando algum destes aparece
enraivecido por lendas ancestrais é nos jornais frelimistas que encontra campo
para vazar o seu ódio e o seu despeito.
Nestes jornais tudo se faz para diminuir o homem branco e enaltecer
o negro.
Vejamos como se expressa o enviado do Notícias à conferência de
Lusaca.
"Samora Machel, que nos anteriores encontros com o Dr.
Mário Soares já se havia apresentado como um líder de
invulgar envergadura e homem despendendo enorme força
de carácter, com uma personalidade verdadeiramente
esmagadora, apresentou-se a todos os presentes como um
político experimentado, um estadista batido por anos de
combate, e estamos certos que, no fim de uma hora de
reunião nenhum dos jorna-
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listas presentes abandonou a State House sem estar
completamente rendido à evidência; Samora Machel é o
homem capaz de gerir os destinos de um país numa hora
crucial como a que Moçambique atravessa."
Depois disto, desta verdadeira masturbação intelectual, podemos
ajuizar não só as tendências de um tal jornal, como a mentalidade da coutada
nele instalada para nos mentalizar.
E que os coutos é que orientam o referido jornal basta percorrê-lo
diariamente e neles encontraremos os seus programas em caixa, como jóias
supremas a alimentar a avidez sequiosa dos leitores.
Está mesmo a ver-se o espanto do representante do Notícias ao ouvir
o que nunca lhe tinha sido permitido : a voz de um líder de invulgar
envergadura.
Aqui já ele começou sentindo acumular-se-lhe água na boca, como
sucede aos esfaimados perante a aparição de um bom naco de presunto.
Depois olhou para Samora, de cara emoldurada numa expressa
barba, e logo lhe ocorreu : que cara! Que carácter! Que forte carácter!
Já fora de si, olhou para Samora, que também olhou para ele. Assim
olhos nos olhos, o representante do Notícias baixou os dele, e pudicamente
monologou : que pessoa, que personalidade ! É verdadeiramente
esmagadora ! E como uma criança de dois anos que vê grande altura noutra
de dez, o correspondente do Notícias viu envergadura, enorme força de
carácter, força esmagadora, no ex ajudante de enfermeiro do Hospital Miguel
Bombarda.
E sempre batido pelos seus temores internos, concluiu : que grande
"estadista."
E virando os olhos para si mesmo viu que todos os presentes se
haviam rendido à evidência : "Samora Machel é o homem capaz de gerir os
destinos de um país numa hora crucial como a que Moçambique atravessa."
O que nos faz espécie é que em tão pouco tempo, no espaço de uma
hora, o jornalista tenha descoberto o ovo de Colombo : estava ali de carne e
osso, o grande estadista.
É necessário uma grande inteligência para descobrir, sob umas
barbas espessas, onde nem um piolho oculto poderia avistar-se, um grande
estadista.
Não seria bom aproveitá-lo para exercício do seu talento ?
Não haverá para aí uma Ilha onde este talento, perdido nas páginas
de um jornal de extensão limitada, possa ceder o seu enorme engenho à
humanidade sofredora ?
Não seria caso virgem. Já D. Quixote, para premiar os talentos do seu
escudeiro, Sancho Pança, lhe deu o governo da Ilha da Barataria, do qual este
se houve magnificamente, distribuindo justiça a quem a merecia.
— 12 —
São estas mentalidades ressequidas e tortuosas, todas elas
comprometidas por atitudes levianamente tomadas anteriormente, que foram
colocadas em pontos estratégicos para nos mentalizar.
Tais mentalidades enfermam de incapacidade crítica, pois não sabem
separar um acto isolado de uma corrente de pensamento ou dum sistema, e
confundem a mata com a árvore ou a parte com o todo.
Daí agarrarem-se a esta ou aquela frase de Samora Machel, proferida
intencionalmente para efeitos de propaganda, como sendo o sistema ou o
programa da Frelimo.
E quando os actos desta são cruéis, criminosos e desumanos,
estendem o pescoço para exclamarem que tais actos terão sido praticados por
elementos da D. G. S. ou por grupos do Eng. Jardim, ou por quaisquer outros
elementos reaccionários, embora a mesma Frelimo declare continuar a luta e
que não deporá as suas armas enquanto não for decretada a independência.
Eles não estarão convencidos do que afirmaram, mas acham ser
conveniente mentir não só para justificarem o seu desvio patriótico como para
convencerem a indefesa população branca a ter confiança na arma que a
liquidará.
Mentem ; mentem mais do que os fascistas e acusam estes (e nesta
acusação tem o meu apoio) de ocultar a verdade, de não deixarem que eles
houvessem conhecido os estadistas e a beleza do regime da Zâmbia, de onde
trazem lembranças de uma vida encantadora ; e tudo isto observado em
poucas horas.
A acusação estaria bem na minha boca que sempre me bati contra os
fascistas sem alguma vez adoptar as suas tácticas ; mas na boca dos neodemocratas
que pretendem a instauração do partido único ; que tolhem a
publicação de factos cruéis que se atribuem à Frelimo ; que iludem a população
branca garantindo-lhe uma tranquilidade que ninguém pode garantir, é vil
ofensa à consciência do português natural de Portugal.
Chegam a repudiar abertamente o referendum para escolha do
destino a dar a Moçambique, alegando que só a Frelimo representa o povo
moçambicano, porque se este povo não estivesse de alma e coração com ela,
a luta não poderia manter-se 10 anos sem o seu apoio.
Também o fascista Salazar, que tinha na sua secretária uma
fotografia de Mussoline para se inspirar, dominou o povo português durante
quarenta anos e poderia dizer, e certamente o disse, que se este povo não
estivesse de alma e coração com ele, ser-lhe-ia impossível aguentar-se no
poder durante tão longo tempo.
É uma afirmação fascista tanto do Salazar, como de Hitler, como de
Franco, como dos neo-democratas.
Todos fascistas no partido único ; na mentira, na ocultação da
verdade, no impedimento das vítimas se defenderem, na calúnia, no insulto, na
liquidação das liberdades de reunião, de greve, de pensamento escrito ou
falado, etc.
— 13 —
Quando os jornalistas dos órgãos freliminos "Tempo", "Notícias" e
"Tribuna" nos dizem que tudo estava em ordem e em beleza na Zâmbia, eu dirlhes-
ei que nos tribunais plenários que funcionavam em Lisboa e no Porto os
julgamentos não eram públicos, e todavia qualquer dos freliminos que passasse
junto dum desses tribunais poderia ver as suas portas abertas e um público
assistente que os enchia de lés a lés.
Simplesmente qualquer frelimino que lá quisesse entrar não poderia
fazê-lo por falta de lugar e à porta não poderia permanecer por ordem
expressa da polícia.
É que o público que diariamente enchia esses tribunais era a Pide, e
não havia espaço para mais ninguém.
E qualquer estrangeiro que fosse visitar Portugal encontrava sempre
um cicerone (Pide) que o conduzia da melhor vontade para os lugares não
proibidos. E se o estrangeiro quisesse lugares proibidos, também se lhe dava
um jeito ; o que acontecia era haver uma pequena demora para a transferência
de lugares, indo a Pide fazer de prisioneiros na cadeia.
É assim no fascismo ; é assim nos regimes de partido único ; é assim
na Zâmbia, onde os proficientes jornalistas laurentinos viram, todos, muito bem.
Nas eleições em que se candidatou o General Delgado, ficou a meu
cargo a vigilância da secção eleitoral n.° 1, no prédio dos bombeiros, onde hoje
está a construir-se o grande prédio do Montepio.
Às 15 horas fui expulso dessa secção de voto, por não ser eleitor; o
mesmo havia sucedido em outras secções aos Drs. Almeida Santos e Soares
de Melo, que também não eram eleitores. Tivemos essa novidade — não
sermos eleitores — quando nos apresentámos como assistentes, mas estes
meus amigos e outros amigos foram expulsos logo que entraram ; eu fui
expulso às 15 horas.
Ao ser expulso deixei um eleitor democrata a substituir-me com a
recomendação de que vigiasse bem a contagem de votos.
No dia seguinte dizia-me esse eleitor democrata, no café, na
presença de vários democratas : "na secção de voto onde eu estive não
houve roubalheira: posso garanti-lo".
Não pude manter-me sem o magoar um pouco, dizendo-lhe que eu
vira o roubo desde a porta, e a todos contei como fora efectuado o mesmo. O
nosso democrata ficou varado. Não tinha visto o roubo.
Ora, eu tinha passado na secção de voto onde está instalada a
universidade e vi Francisco Maria Martins abrir a urna, despejar os boletins de
voto e, do monte efectuado, foi tirando um a um esses boletins e dizia, sem
olhar para os mesmos : Delgado, Tomaz, Tomaz, Tomaz, Tomaz, Delgado . . .
e a operação continuava com um para Delgado e quatro para Tomaz.
Não me podendo conter gritei da porta : Olhem como aquele tipo faz
a contagem mesmo sem olhar para as listas.
Nisto, a polícia que estava na parte de dentro junto ao vão da
— 14 —
porta, correu como se fosse uma porta corrediça, dizendo-me : o Snr. não pode
manifestar-se.
Já me manifestei ; e nisto retirei-me com as pessoas que me
acompanhavam.
Dali seguimos para a Estação dos Bombeiros onde o arquiteto Soeiro
fazia a operação nos mesmos moldes postos em prática por Francisco Maria
Martins.
Mas o nosso democrata não tinha visto nada disto, e estava ali para
as curvas, afirmando que na secção de voto por ele vigiada não houvera
roubalheira.
Também os inteligentes enviados dos jornais laurentinos viram tudo
normal em Lusaca. De resto eles não queriam ver de outra maneira...
Mas se tais visitantes viram uma vida normal e progresso nessa terra,
deviam interrogar-se, e não se interrogaram : porque razão o Sr. Kaunda
instituiu o partido único dissolvendo o partido contrário à sua política pessoal e
meteu na cadeia os partidários do partido dissolvido?
Ora a coutada do Notícias não se interrogou, nem se interrogaram os
representantes do mais velho órgão da Frelimo — "O Tempo".
E não se interrogaram para não vacilarem no caminho que os tem
levado a sufocar a permanência da portugalidade que ainda aquece o coração
de muitos portugueses que querem ficar em Moçambique, em paz e harmonia
com os negros com quem desejam viver irmamente.
A intranquilidade e a ansiedade que esta mini-gente tem espalhado
sobre Moçambique levou o covarde europeu a dar vivas à Frelimo e tem
conduzido alguns negros a tomarem atitudes contra os brancos e que não
tomariam se não se sentissem desfavorecidos quando aqueles apresentassem
à Frelimo a sua folha de serviço.
Ainda hoje li no Notícias da Beira, outro órgão frelimino, uma
correspondência de Quelimane, da Delegação deste jornal, que é bem um
índice da covardia de que falo.
Essa correspondência relata que no dia 8 de Junho, domingo, um
camião caiu de uma ponte para o rio e nesta ficou com as rodas viradas para
cima. O chaufer e seu ajudante ficaram na cabine e aí morreram por não terem
conseguido abrir as portas do veículo.
Chamado o administrador, compareceu este que nada pode fazer,
pois o camião não era um brinquedo para ser levantado do rio com uma só
mão.
Só no dia seguinte o Administrador, certamente preparado agora com
os meios necessários para retirar o camião do fundo do rio, efectuou a
operação de retirada do veículo.
Agora os comentários do escriba :
"Dois corpos, de dois negros, por ali pernoitaram na
morte.
Talvez se fossem brancos ... tal não sucedesse, mas
isto não merece comentários."
— 15 —
O "escriba" não deu a notícia sem esse miserável comentário e talvez
a tivesse dado somente para o fazer, para poder apresentar a sua folha de
serviços à Frelimo. O que é que o autoriza a dizer que se os mortos fossem
brancos tal não sucederia ?
E são estes miseráveis que chamam covardes aos que temendo o
futuro incerto, procuram a metrópole onde julgam encontrar a vida mais segura.
Como poderia uma pessoa digna viver tranquila com um governo
caótico e tirânico de irresponsáveis sem estar sujeita à cavilosa delação dos
sabujos brancos que ficam, tendo em mira encher a pança à custa de uma vida
de falsos serviços ?
Não ! É necessário desmascarar estes tartufos !
Como estão a ver, a minha luta não é, nem nunca foi, contra os
negros. Ela foi e é contra os pulhas que não têm dignidade, nem escrúpulos
nem honra !
Na ânsia de apresentarem a sua folha de serviço eles são capazes de
todas as vilezas ; são capazes de denunciarem os outros brancos inocentes só
para gozarem pantagruelicamente o dia de hoje, na esperança de no dia
seguinte cometerem outra infâmia.
Basta o receio provocado por estes safados para que as pessoas
dignas sintam a necessidade de fugir para outras paragens.
É certo que na metrópole portuguesa há destes tipos ; mas aí haverá
tempo para encontros prolongados . . .
A LEALDADE NA VIDA PÚBLICA
O homem público, o que interfere e dirige, não na vida particular de
cada um, mas na vida e no interesse de todos, tem deveres para com as
pessoas que dirige, ou seja com o povo. Entre esses deveres destaca-se o da
lealdade para com a massa popular.
E ser leal ao povo é ser-lhe verdadeiro, franco e sincero, e ainda o de
defensor das pessoas e interesses do mesmo povo.
Quando Samora Machel e Joana Simião se dizem defensores do
povo de Moçambique e se expressam acerca deste como coisa possuída, a
expressão "meu povo" que ambos usam é uma deslealdade para com esse
mesmo povo.
Tal expressão indica uma relação entre o sujeito possuidor e a coisa
possuída, ou seja uma relação entre o Senhor, possuidor, e o povo, coisa
possuída. É uma relação entre o dono e o escravo.
Enquanto prometem defender o direito do povo pensam neste como
coisa possuída a quem esse direito é outorgado pelo Senhor, segundo a sua
vontade, o seu engenho e a sua medida, e não tem em mente um direito do
povo, criado por este mesmo. Isto é uma deslealdade.
Esta deslealdade é princípio da Frelimo porque o direito que ela tem
em mente é o que for estabelecido por ela mesma, e executado pelo seu órgão
único ou partido único, e não o direito criado e definido pelo povo.
— 16 —
Este o princípio defendido pela Frelimo, por Samora Machel e pelos
fascistas ou neo-democratas de Moçambique.
E tal princípio conduz à unidade política colmatada na pessoa do
chefe. O fascismo exige o chefe permanente e perpétuo que manda e ordena,
com exclusão de qualquer outra pessoa.
Assim compreende e quer a sub-gente que escrevinha nos jornais de
Lourenço Marques e no da Beira quando se referem ao Presidente.
Eles tratam Samora Machel por Presidente, como nos Estados
Unidos é tratado o chefe do Estado, e insultam-no de Estadista, epíteto que
mais ninguém no mundo se atreveria a aplicar-lhe
Não é o interesse do povo que Samora Machel tem na mente ; o que
nesta se encontra é a sofreguidão de poder que empolga e ensandece o exajudante
de enfermeiro do Hospital Miguel Bombarda.
Na entrevista que concedeu ao semanário "L'Express", revela-nos o
Notícias de 23-6-74, Samora Machel disse :
"Mário Soares pediu para que voltássemos a avistar-nos em
Julho, a fim de nos dar uma resposta do seu governo.
Escutá-lo-emos. Mas não a fim de nos dar a resposta do seu
governo.
Escutá-lo-emos. Mas não aceitaremos negociar senão os
mecanismos de transferência de soberania para a Frelimo."
Como se vê, o "estadista" não aceita discutir com o governo
português. Escuta o seu amigo Mário Soares, mas não para discutir propostas
do Governo português. Deste só aceita a entrega do poder para a Frelimo ; e
quando muito aceita uma falação sobre o mecanismo da transferência da
soberania para a Frelimo.
O que lhe importa a ele, o "estadista" da coutada do Notícias, o
interesse do povo moçambicano ?
O que ele quer é o Poder nas unhas.
Quanto à venda da energia de Cabora Bassa para a África do Sul,
que Marcelino dos Santos já afirmara que a Frelimo não a fará a este país, diz
o "estadista":
"Seremos livres para vender a energia a quem quisermos e
discutir com todos aqueles que a quiserem comprar. Não
forçamos a África do Sul a mudar de sistema, mas quem nos diz
que a África do Sul e a Rodésia continuarão a ser nesse
momento inimigos de Moçambique ?"
O "estadista" só não diz, como Marcelino dos Santos, que não
venderá a energia de Cabora Bassa à África do Sul porque espera, com a sua
ajuda, mudar imediatamente os destinos deste país.
— 17 —
Os seus olhares esmagadores não vêm que a mudança dos destinos
da África do Sul, se fosse possível, só se faria com muito sangue e ao fim
de muitos anos.
É que a África do Sul não se limitará a aparar os golpes ; ela desferirá
golpes de morte que os guerrilheiros da Frelimo não estão habituados a
sustentar.
Se os portugueses, em vez de se entreterem a roçagar as minas
traiçoeiras e a fazer de gatos aos ratos da Frelimo, atacassem os seus
santuários nos países que os guardavam e ajudavam, o decorrer da luta tinha
trazido outras consequências.
Mas aos governos fascistas portugueses faltava autoridade moral
para uma acção coerente e resoluta contra todos os culpados.
Se esses governos não tivessem cometido a traição de se manterem
no poder a todo o custo, sem quererem saber do interesse nacional, a acção
militar, sustentada pela acção política, tinha desfeito de início as investidas de
bandoleiros.
Mas que apoio poderia ter nos meios internacionais, depois da queda
de Hitler, o governo fascista de um país pequeno ?
Mas o traidor Salazar, o maior traidor de toda a história portuguesa,
desprezando o interesse nacional, manteve-se, pela violência, no poder para, a
certa altura, lançar para o ar a girândola :
SÓS, ORGULHOSAMENTE SÓS !
Foi este traidor que tornou possível a manutenção das guerrilhas, sem
ao menos ter a habilidade e a coragem de jogar uma cartada que nunca
poderia ter resultados mais desastrosos do que aqueles que vieram a verificarse.
Mesmo agora, com um governo democrata à frente dos negócios da
Nação, a forma de luta poderá modificar-se no caso dos guerrilheiros, em vez
de negociações sérias, leais e honestas, optarem pela luta.
E o grande "estadista" da Coutada do Notícias, parece querer brincar
com o fogo, entretendo-se a assassinar régulos e povo de Moçambique, como
se depreende da carta de Miguel Murupa publicada no Notícias da Beira de 24
de Julho de 1974.
Parece-nos por tudo isto errada a atitude do governo provisório,
consentindo negociar com indivíduos que não podem representar o povo de
Moçambique e que têm cometido muitos e graves crimes, e que perante o
mundo afirmem como se tivessem nas suas mãos um exército derrotado :
"Foi Portugal que pediu para se avistar connosco."
Esta posição em que nos colocou a diplomacia do comprometido Dr.
Mário Soares, é uma humilhação que nos faz corar de vergonha.
É necessário limparmos esta mancha, seguindo o caminho certo.
E o caminho certo é preparar-nos para a auto-determinação de
Moçambique, como consta do programa do Movimento de Salvação Nacional,
negociando com homens de Moçambique que aqui se encon-
— 18 —
tram e vivem, de categoria mental muito superior à do "estadista" da coutada
do Notícias.
Nós não devemos negociar os interesses de um povo com inimigos,
sobretudo quando temos pessoas amigas ou neutras com quem podemos
tratar.
Há negros, muitos negros em Moçambique, capazes de conduzir este
povo ao bom caminho e à sua emancipação.
Pela boca do General Costa Gomes, representante da Junta de
Salvação Nacional, foi dito que a Frelimo e todos os que nos têm guerreado
podem regressar a Moçambique para defenderem as suas ideias os seus
princípios políticos, e connosco preparar, em paz, a auto-determinação do povo
de Moçambique.
Depois disto o governo português desceu a procurar a Frelimo num
país estrangeiro e nosso inimigo, para lhe dizer que as portas estavam abertas
para de igual para igual, num clima de paz, onde não figurasse a imagem de
vencedor ou de vencido, a fim de estabelecermos a autodeterminação, seguida
daquilo que o povo livremente escolher quanto à forma de governo e
estruturação da nova Nação.
E o que respondeu a Frelimo ?
Respondeu que não quer conversas com o governo português a não
ser para receber deste os mecanismos de transferência de soberania.
E mais : exige que o governo português declare já a independência
de Moçambique.
Esta resposta, além de atentatória da dignidade de um governo
responsável, implica a exigência de uma traição aos soldados negros que
confiaram na lealdade portuguesa, aos cidadãos negros que desde longa data
têm servido Portugal e Moçambique, e sobretudo uma traição à grande massa
do povo que não compartilha dos feios ou obscuros sentimentos frelimistas a
soldo de países estrangeiros.
Há ainda os estropiados e a memória dos mortos por efeito dos
criminosos atentados da Frelimo, que é necessário respeitar.
A nossa dignidade ordena-nos consideração e respeito por aqueles
que não nos feriram nem nos ofenderam, e será com estes que nós teremos
que negociar.
Seria uma traição a estes se os entregássemos à tirania da Frelimo,
grupo sem respeito pela humanidade e pelos princípios da liberdade
democrática.
E tanto isto é verdade que a Frelimo se recusa à experiência de um
homem um voto, princípio que ela e os estados negros conhecidos defendem
encarniçadamente para aplicar aos outros.
Para os da Frelimo e para todos os Frelimistas, como os neo--
democratas ou fascistas, o princípio de um homem um voto tem agora de ser:
todos os votos para um homem.
Todos os votos para um homem ; para o Fiirer; para o Duce, para o
estadista da coutada do Notícias.
— 19 —
Em nome dos princípios sagrados da democracia nós portugueses
temos de oferecer a todos os moçambicanos o direito de escolha, razão porque
a Frelimo tem de ser excluída do nosso pacto com o povo moçambicano.
Entretanto a Frelimo ataca as populações indefesas e espalha sob a
terra que calcamos os pérfidos engenhos de morte. O exército terá então de
combater como declarou o General Costa Gomes ; mas ao desensarilhar as
armas terá consigo o povo e não faltarão os voluntários para devolver à sua
proveniência as armas que apreender.
Penetraremos nos santuários dos criminosos e aí os liquidaremos
sem que a justa voz internacional nos magoe, e desprezaremos a voz irracional
de um mundo de loucos. Mas estes loucos não se batem : o que estes querem
e sempre quiseram é que os outros se batam por eles.
O que seria de Moçambique se o governo de Portugal entregasse o
poder aos incapazes e mal intencionados da Frelimo ?
Em síntese poderemos desenhar o que aconteceria.
As receitas dos Portos e Caminhos de Ferro, que são as mais
vultuosas de Moçambique, desapareceriam.
As receitas dos trabalhadores das minas do Rand, deixariam de
existir.
As receitas do turismo, quase totalmente da África do Sul e o restante
de navios que deixariam de frequentar o Porto de Lourenço Marques, também
desapareceriam.
As três maiores fontes de receita para Moçambique secar-se--iam,
com a agravante do regresso de 100 mil homens que ficariam sem trabalho.
Cá está o programa, o grande programa da Frelimo, que todos os
pobres de espírito e os mal intencionados apregoam.
Não terão estas pessoas pudor ou vergonha que os faça corar, por
apregoarem a bondade de um governo de ignorantes que não têm a mais
pequena ideia do que sejam as necessidades de Moçambique ?
Agora ajunte-se ao corte das referidas receitas o de outras que serão
eliminadas, como as do chá, que desaparecerão em virtude das empresas
respectivas não comportarem o aumento de salários, e ver-se-á desenhado um
quadro de carência e de miséria que faria mergulhar todo o povo moçambicano
no abismo.
Esclareça-se ainda que o encerramento do Porto de Lourenço
Marques é uma das grandes medidas que a África do Sul pode tomar, em
retaliação contra Moçambique, e que é precisamente o programa que a Frelimo
porá em prática ! ! !
Ora, a África do Sul não necessita do Porto de Lourenço Marques
para escoar os seus produtos, pois pode o escoamento deles ser feito pelo
Porto de Durban.
Não quero dizer que o escoamento por este Porto seja o mais
conveniente para a África do Sul quanto aos produtos do Sudeste Africano ;
mas pode muito bem fazê-lo por ele.
— 20 —
Para um escoamento mais económico dos produtos do Sudeste
Africano do que o do Porto de Durban, tem a África do Sul, desde há muitos
anos, o projecto de um Porto a sul da Svvazilandia e que só não está de todo
completo devido a ameaças veladas ou declaradas do Governo Português de
retirar-lhe a mão de obra para as minas do Rand desde que ela cesse o tráfego
pelo Porto de Lourenço Marques.
Portugal tem actuado deste modo por haver a clara consciência de
que a cessação do tráfego dos produtos do Sudeste Africano pelo Porto de
Lourenço Marques seria um golpe de morte para Moçambique.
Pois é este golpe de morte que a Frelimo oferece como coisa certa ao
povo de Moçambique !
É legítimo agora perguntar se este golpe de morte é inconsciente por
desconhecimento absoluto dos problemas vitais de Moçambique, ou é
consciente e deliberadamente para reduzir à miséria o povo deste Estado?
Que respondam a coutada do Notícias e todos os frelimistas, incluindo
os fascistas ou neo-democratas, que afirmam ter o "Presidente" ou o
"Estadista" da coutada, conhecimento profundo dos problemas profundos de
Moçambique e que ele é o homem capaz de governar Moçambique na hora
conturbada que este atravessa.
Ora, o homem político que pretenda imiscuir-se na administração
política deve ser leal para o conjunto dos cidadãos, sem os iludir ou induzi-los
em graves erros, e os dirigentes da Frelimo não só não se preocupam com
essa lealdade como ainda pretendem levar o povo de Moçambique a envolverse
em guerra de guerrilhas, ou guerra de qualquer outra modalidade, contra
a África do Sul.
A este respeito, além de outras afirmações de compromisso, Samora
declarou a "L'Express" :
... "mas quem nos diz que a África do Sul e a Rodésia
continuarão a ser nesse momento inimigos de Moçambique"?
Será necessário explicar o significado desta expressão ?
Como se vê, o Estadista não se cansa de guerras. E porquê ? Porque
não é ele que se bate. Ele vive calmamente em Dar-es-Salam e passeia por
Lusaca, Londres ou Paris, e recebe o dinheiro de potências estrangeiras para
uma vida de regalo. Vida de regalo para ele e para os seus comparsas.
Samora Machel tem confiança nos sabujos e nos traidores que lhe
preparam o ambiente para ser recebido como o grande Elias.
Nos jornais frelimistas eles esgrimem com a mentira e a calúnia
explorando os baixos instintos humanos, e abusam da ignorância do povo.
O jornal "Notícias" que hoje 25-6-74 me chegou às mãos repete o seu
conteúdo diário de ataques à administração portuguesa e os apelos aos
baixos instintos dos ignorantes.
Com o título "A verdadeira face do colonialismo", o jornal descreve
pela pena de um dos seus redactores, ou colaborador assistente, a vida triste
de um homem que, de empregos vários aqui e na
— 21 —
África do Sul, atinge a situação presente de alimentar-se do que consegue
extrair das latas do lixo.
A situação desse homem que pode resultar da maneira como ele
próprio se conduz na vida, é a situação de muitas outras pessoas na Europa ou
na Ásia, nada tem a ver com o colonialismo mas que o repórter do Notícias, e
que este acolhe, como diariamente faz com outros escritos, apresenta como
sendo a verdadeira face do colonialismo.
Se o repórter não sabe, e o Notícias ignora, que em todo o mundo se
verificam casos semelhantes ao exemplificado nesse escrito, é porque não
estão à altura de escrever num jornal, nem o Notícias está na posição de ser
órgão de responsabilidade e de informação para com os seus leitores.
E se não é por ignorância que confundem os casos que surgem em
todas as situações e em todas as latitudes e longitudes, com os casos
específicos do colonialismo, então não pode excluir-se a sua má fé
incompatível com a obrigação de apresentarem a verdade aos seus leitores.
No mesmo jornal e ao lado do artigo — reportagem a que acabámos
de aludir — aparece outro do mesmo género, e este com a sugestão de
gravuras, intitulado "Império Agrícola do Maputo", em que a maldade, a
ignorância, a mentira e a falta de escrúpulos, aparelha com o antecedente.
Entre dois artigos — reportagem aludidos — destaca-se o artigo
doutrinário de um dos corifeus do Notícias, intitulado "orgulhemo-nos da nossa
História", com a prosápia de nos ensinar a evolução histórica de Moçambique.
Deste professor de História transcrevo do referido artigo o seguinte :
"Os portugueses quando desembarcaram em Moçambique
encontraram reinos políticos e economicamente organizados."
Grande historiador... e não nos fala das cidades, das estradas, dos
portos, dos monumentos e dos palácios que os portugueses encontraram
nesses reinos.
Simples esquecimento. Mas o historiador irá, certamente, reparar esse
lapso, apresentando-nos a lista e o programa de todas as obras de arte
existentes em tais reinos "políticos e economicamente organizados."
Cá os esperamos. Todos nós o esperamos ...
E tudo isto para atacar o "colonialismo", o grande monstro contra o
qual se afadigam no combate como D. Quixote contra moinhos de vento.
Mas a loucura do nobre manchego aplacava-se com o bom senso de
Sancho Pança, e a destes iconoclastados do monstro não encontra sossego
na razão.
Todo este desaforo diário tem a finalidade de destruir tudo o que
fizeram os portugueses durante 500 anos que os econoclastas do "monstro"
apresentam como uma infâmia descarregada sobre as populações nativas que,
doridas por ela, hão-de necessariamente pretender ressarcir-se em ódio contra
os descendentes dos primeiros colonizadores.
— 22 —
É a desarmonia, a luta, o ódio crescente que esta escumalha da
imprensa pretende desenvolver entre negros e brancos.
Note-se que a escola do ódio contra o homem branco não é dirigida
pelo homem negro, mas sim por brancos que perderam a dignidade dos seres
humanos que pretendem e defendem a harmonia entre as raças.
Se esta escola triunfasse seria o caos e a desordem no mundo.
Se esta escola triunfasse, o homem branco ver-se-ia na necessidade
de confinar-se na Europa, e daqui principiar uma luta contra tudo que não fosse
europeu, expulsando dela todas as pessoas de cor e fazendo refluir para a
África todos os africanos, incluindo mais de 20 milhões de negros que hoje são
naturais da América do Norte.
Haveria então uma total separação, um verdadeiro apartheid.
Para evitar isto é urgente barrar o caminho aos transviados de má
índole que abjuraram hoje de uma pátria e que amanhã abjurariam daquela que
os acolhesse.
A RAZÃO DO PRESENTE PANFLETO
Imediatamente a seguir ao 25 de Abril vislumbrei que a incompreensão,
ignorância, a inveja, os desejos refreados e a ambição desmedida de
pequenos seres humanos, sairiam dos seus calços, e apressei-me a escrever
na imprensa o que me parecia conveniente em benefício da harmonia social.
Aproveitando-me da liberdade de imprensa que a Junta de Salvação
Nacional havia proclamado, escrevi umas linhas para A Tribuna que, embora
retardando a sua publicação, as deu, finalmente a lume.
Em artigos de tamanho limitado eu pretendia doutrinar, diariamente,
os princípios da democracia em liberdade.
Logo que saiu o primeiro artigo enviei outro, e passados três ou
quatro dias, ainda não tinha vindo à luz nas colunas do jornal.
Aborrecido por ver este jornal cheio de prosa sem nexo, sem ideias e
sem interesse público, atribuí a falta da publicação da minha humilde prosa ao
facto de se encontrarem ainda à frente deste órgão da imprensa, elementos do
regime fascista deposto.
Aproveitei a circunstância de ver publicada em A Tribuna uma carta
torpe, acompanhada da fotografia do seu autor, escrevi uma carta ao seu
director, na qual pedia a devolução do meu manuscrito, ao mesmo tempo que
solicitava a publicação da referida carta onde apelava para a realização de um
inquérito sobre os factos apontados na carta torpe que não deveria ter sido
publicada em jornal responsável.
Entretanto, os elementos fascistas saíram de A Tribuna, e pelas
pessoas que àquelas sucederam foi-nos devolvida não só o original da carta
como a fotocópia do artigo que não foi publicado.
A porta de A Tribuna ficou-nos assim, vedada ; mas com a saída dos
elementos do regime fascista do Notícias, pretendi colaborar neste jornal em
defesa dos princípios proclamados pela Junta de Salvação
— 23 —
Nacional, e ao seu novo director apresentei um pequeno artigo que também
não foi publicado.
Só me apercebi, poucos dias depois, da razão deste jornal me fechar
também a porta.
E esta razão encontra-se na sua orientação anti-portuguesa e prófrelimista.
A defesa do homem branco, a defesa dos portugueses, a defesa da
verdade e da harmonia entre brancos e negros fora agora impedida nos jornais
de Lourenço Marques como sucede actualmente no Notícias da Beira.
Hoje somente os ataques a Portugal e aos portugueses, quer de uma
forma clara e aberta, quer sob a forma de ataque ao colonialismo, são
permitidos, nesta imprensa.
Foi por isto que resolvi publicar o presente panfleto em defesa dos
portugueses e da harmonia entre brancos e negros, que será seguido por
outros com o mesmo fim, enquanto eu tiver forças para isso.
COMO SE DEVE AGIR
A massa populacional que alimenta com o seu dinheiro a imprensa
frelimista sente na sua alma a grande dor de se ver aí amesquinhada e
torturada pelas mentiras nela publicadas, sem poder desafrontar-se.
Como reagir então ?
Não comprando essa imprensa.
Todavia essa massa não tem outra imprensa para satisfazer o hábito
de tomar conhecimento do que vai pelo mundo : mas tal hábito pode remediarse
parcialmente se for adoptada a táctica que os democratas adoptaram em
relação ao jornal "O Século."
Na revolução de Fevereiro de 1927, "O Século" atacou-nos, insultounos
e caluniou-nos durante os dias da revolução.
Chegou a inventar a história de havermos hasteado uma bandeira
negra que nunca existiu e que não podia ter qualquer significado. Mas foi certo
que a invenção da bandeira negra perturbou emocionalmente grande parte da
população.
Na derrota, "O Século", o jornal de maior circulação então no país,
não nos poupou.
Nós não tínhamos defesa contra as infâmias de "O Século" ; e por isto
arranjamos comissões que deveriam multiplicar-se em cadeia para instar os
democratas para que não comprassem este jornal ; e nos lugares onde não
pudesse evitar-se a sua leitura por força do hábito, deveria o jornal ser
comprado por uma só pessoa em cada dez, e o comprador facilitaria a sua
leitura aos 9 restantes.
Nos primeiros tempos pareceu-nos que a nossa acção não produzia o
efeito desejado ; mas as comissões multiplicaram-se qual bola de neve e
passados 6 meses já principiava a notar-se eficácia na boicotagem, e "O
Século" passou do jornal de maior expansão em Portugal a uma folheca sem
leitores para o manter.
— 24 —
A empresa de O Século arruinou-se e há cerca de um ano teve de
alienar o torpe jornal que dava um prejuízo arruinador.
Façam agora os verdadeiros democratas o mesmo aos jornais
frelimistas, e por este meio deixarão de sentir vómitos ao mesmo tempo que
prestarão um belo serviço a brancos e negros.
Todos à uma : o boicote a esta imprensa !
MUITO GRAVE
Toda a imprensa frelimista é inimiga dos portugueses e de Portugal.
Não importa o desmentido a esta afirmação, pois todas as pessoas que tenham
os miolos no seu lugar sabem que esta afirmação é verdadeira. É uma
imprensa caluniosa e sem escrúpulos ; basta ler os muitos desmentidos que
aparecem das vítimas das suas calúnias.
A falta de escrúpulos é tão clara e evidente que ela, essa imprensa e
os seus colaboradores, se encarniça contra o fascismo quando toda ela e todos
eles são autênticos fascistas.
Todos os estados negros, que se criaram após a grande guerra,
admitem a existência de um só partido — o único —, que é a característica
principal do fascismo.
Esta imprensa e os neo-democratas defendem para Moçambique a
existência de um só partido : a Frelimo.
Esta imprensa e os neo-democratas defendem a política de um
homem, um voto ; mas todos eles querem : todos os votos para um só ; o
partido único.
Eles apregoam a necessidade do diálogo, mas fecham-nos a porta
para dialogarmos na imprensa.
Todos eles querem impor-nos Samora Machel, ornando de qualidades
que não tem o ex-ajudante de enfermeiro, como fizeram os Nazis que
vestiram de galas o cabo Hitler:
Eles dizem que 10 ou 12 anos de guerra provam que a Frelimo tem o
apoio de todos os moçambicanos, pois se não tivesse esse apoio não poderia a
mesma Frelimo manter-se em luta durante tanto tempo.
Trata-se de um argumento puramente fascista para impedir a prova
por um referendum.
Se o argumento fosse válido o fascismo ficava justificado, pois
Mussolini, Hitler, Franco e Salazar diriam, e disseram, que estiveram no poder
durante muito tempo porque o povo assim o quis.
Mas os transviados, que perderam toda a noção da vergonha e da
dignidade, gritam contra o referendum, gritam contra a livre manifestação da
vontade popular, porque, fizeram os cálculos e sabem que esta não os
favorece.
Quem assim comete o crime de sofisticar a verdade e a realidade
para impor um governo que seria a desgraça de todos os moçambicanos,
brancos e negros, está apto para cometer todos os crimes.
— 25 —
Está apto para trair ; está apto para assassinar, está apto para matar
e fugir; está apto para incendiar e atribuir aos outros a autoria do incêndio.
Assim fizeram os Hitlerianos, incendiando o parlamento alemão, para
a seguir lançarem a vaga do genocídio contra os comunistas a quem atribuíram
a autoria do incêndio.
Ainda as labaredas do parlamento alemão não haviam sido extintas já
milhares de comunistas haviam sido chacinados.
Em toda a parte os fascistas simulam ataques dos adversários para
lançarem sobre estes as turbas ensandecidas.
Na noite de 23 de Junho rebentou uma granada que danificou o
automóvel do frelimista Dr. Pereira Leite.
No dia seguinte o "Notícias" relatava, sob o título de "Acto de
Terrorismo" dizendo :
"Tratou-se de verdadeiro acto de terrorismo que, desta vez,
ninguém poderá pretender atribuir à Frelimo mas antes a um
"aviso" das forças reaccionárias que são hoje o inimigo número
um do povo moçambicano."
No dia seguinte, o mesmo órgão da Frelimo, num cabeçalho a
vermelho e a três colunas, relatava outro atentado nos termos seguintes :
"Pelo seu Trabalho Em Defesa do Povo Moçambicano,, —
Nosso camarada Guilherme S. Pereira agredido por
desconhecidos
"Aquele nosso camarada foi posteriormente encontrado, pelas 23 h
40, sobre o passeio, no cruzamento das Avenidas Manuel de Arriaga e Afonso
de Albuquerque, por António José Gomes que casualmente passava naquele
local.
Este, auxiliado por Tito António Gomes Soares, Abel Lourenço e
António Monteiro Martins, transportou Guilherme da Silva Pereira ao Hospital
onde, depois de assistido, ficou em observação."
DOIS TELEFONEMAS
"Pouco depois das 23,15 horas, a nossa Redacção foi prevenida,
telefonicamente, pelo Snr. Mário Silva, que um grupo de três indivíduos
agredira um outro, que ia entrar no seu automóvel, na esquina das Avenidas 24
de Julho e Anchieta.
O informador acrescentou que supunha ter a vítima sido transportada
ao hospital, pois fora metida num automóvel particular.
Logo a seguir, outro telefonema, este anónimo, dava-nos a conhecer
que "o jornalista Guilherme da Silva Pereira já havia pago o seu trabalho de
defesa do povo moçambicano."
O teor do primeiro telefonema dando conta do lugar da agressão e do
hipotético transporte para o hospital, conjugado com o local onde
— 26 —
foi encontrado o nosso camarada, faz admitir que os agressores o teriam
conduzido para outro sítio, talvez não contentes com a primeira agressão,
tendo-o depois abandonado, onde foi encontrado."
"O NOSSO APELO"
Em pouco mais de 24 horas, quatro elementos deste jornal foram alvo
de agressões, ao fim e ao cabo, por motivos semelhantes já que a preocupação
de quem trabalha nesta casa é o de informar, esclarecendo e sempre que
necessário, formando também conscientes da obrigação e da responsabilidade
que nos cabe, no caminho para a paz que todos devemos desejar.
Infelizmente parece haver quem não queira compreender e julgue que
num mundo onde cada vez mais se procura a fraternidade e o diálogo entre
homens, só a violência pode imperar.
Não foi para isso que o movimento de 25 de Abril (sem derrame de
sangue, salvo o provocado pela Pide/D.G.S.) restituiu ao povo português a
liberdade que alguns nunca haviam possuído. E aqueles que continuam a
preferir a violência têm que ser detectados e entregues às autoridades, como
criminosos de delito comum.
Para esses não poderá de facto haver liberdade, pois ela não cabe
naqueles que preferem a violência e albergam o ódio.
O nosso apelo, pois, às entidades responsáveis pela governação no
sentido que sejam tomadas as indispensáveis medidas de protecção para uma
população que, acima de tudo, seja qual for a cor, deseja, na sua grande
maioria, paz, amor e fraternidade.
Há que actuar com energia para impedir que o inimigo comum
consiga a desunião que, pelos vistos, pretende alcançar, mesmo à força."
Assim falou o órgão da Frelimo, "Notícias" nos dias 24 e 25 de Junho.
Mas logo no dia 27 do mesmo mês, o referido órgão da Frelimo, apresentou na
sua primeira página o seguinte :
Barbaramente agredida a esposa do Dr. Sousa Leite.
"Ontem, cerca das 23 horas, foi barbaramente agredida por dois
indivíduos brancos, a esposa do Dr. Sousa Leite, advogado de Lourenço
Marques, presentemente ligado ao corpo jurídico que tem estado a proceder a
investigações sobre os crimes cometidos pela ex-Pide/D.G.S. e dirigente da
Associação do Pessoal do Instituto de Crédito, que presentemente efectua um
movimento que pretende a demissão da administração do I. C. M."
COMO OCORREU A AGRESSÃO
"A esposa do Dr. Sousa Leite encontrava-se no escritório do seu
marido, onde ultimamente têm pernoitado, quando bateram à porta. Por estar já
deitada e recear abrir a porta, perguntou quem era e o que pretendiam, a que
lhe foi respondido que tinham uns documentos muito importantes para entregar
ao advogado, documentos esses que deveriam forçosamente ser entregues
naquela altura.
— 27 —
Ao abrir a porta a senhora foi imediatamente agredida na fronte,
sendo seguidamente espancada pelos dois indivíduos, que a deixaram
prostrada e que, antes de se retirarem deixaram como último aviso a seguinte
frase : diz ao teu marido que comece a ter juízo."
SOCORRO PRESTADO
"Tendo conseguido descer e tomado um taxi, foi transportada ao
hospital, onde recebeu tratamento às inúmeras escoriações que apresentava
na cabeça, tronco e braços."
O quadro aí fica : mal pintado. É um quadro irreconhecível. O pintor
da coutada é muito mau artista. É um quadro irreal ; ninguém o pode tomar por
verdadeiro.
E se desta vez não apareceu um desmentido, terá sido, assim o
supomos, por a Senhora, aí referida, ter ficado enojada de uma tal imprensa, e,
por esta razão, repelir todo o contacto com ela.
Agora voltemos ao dramático crime cometido contra o jornalista
Guilherme da Silva Pereira cujo cadáver andou a ser passeado por três
assassinos, já que não eram da Frelimo, do ângulo da Avenida Manuel da
Arriaga e da Avenida Afonso de Albuquerque para o ângulo da Avenida 24 de
Julho com a Anchieta, e vice versa, e daquele primeiro ângulo transportado
para o hospital por vários indivíduos.
Aqui já mete muita gente : há várias testemunhas.
Pois agora, que há várias testemunhas, eu vou dar a desagradável
notícia :
É mentira! ninguém agrediu o Sr. Guilherme da Silva Pereira.
É mentira ! ! !
Trata-se de uma ignóbil mentira do órgão da Frelimo para criar no
povo a convicção da existência de grupos armados, dos reaccionários, para
impedirem a defesa do povo soberano de Moçambique.
E é para acirrar os ânimos de pretos contra brancos que o órgão da
Frelimo fabricou vis mentiras, indo ao ponto de escrever :
"E aqueles que continuarem a preferir a violência têm que
ser detetados e entregues às autoridades, como criminosos de
delito comum."
Realmente nota-se a falta de autoridade.
Se a houvesse, já estes jornais freliminos teriam sido detectados por
ela.
Entremos agora na apreciação do atentado contra o Dr. Pereira Leite.
Este tem, na verdade, concitado contra si a má vontade geral das
pessoas não frelimistas, e se esta má vontade se volveu em ódio nalguns
espíritos, não foi com base em tal ódio que foi praticado o atentado.
É visível para toda a gente que com o atentado não se pretendeu
liquidar, ou até molestar, a pessoa física do Dr. Pereira Leite. Ele mesmo o
reconheceu imediatamente.
— 28 —
Na verdade a explosão de uma granada ofensiva não acarreta perigo
para a pessoa colocada a 10 metros de distância do ponto da sua rebentação ;
e os autores do atentado tiveram o cuidado de ligar à espoleta da granada,
fixada em determinado ponto, um fio com mais de 10 metros de comprimento
fixado ao automóvel.
Desta maneira, a explosão dar-se-ia depois do automóvel haver -se
distanciado 10 metros ou mais da referida granada.
Se a armadilha não era para matar, não se aceita que fosse para
brincar, porque com coisas destas ninguém quer brincadeiras.
O acto, teve qualquer fim. E qual seria este ?
Necessariamente o fim teria de ser o de propaganda.
Ora a Frelimo não andava a caminho de Moscou ou de Pequim
somente para se adestrar no manejo de armas de fogo ; ela aí receberia, mais
do que a aprendizagem dos manejos de armas de fogo, o manejo da arma
psicológica.
E no caso de que aqui tratamos, o efeito psicológico dar-se-ia sobre o
Dr. Pereira Leite que mais se vincularia à Frelimo e mais se distanciaria dos
adversários desta, e sobre a massa do povo ignorante, que culpando estes,
avolumaria contra eles a sua má vontade, quiçá o seu ódio.
Assim, só a Frelimo teria interesse no atentado ao Dr. Pereira Leite,
sem qualquer participação deste, para o convencer da maldade dos adversários
daquela o que não se daria se ele conhecesse a proveniência dos autores do
atentado.
Assim quando o órgão frelimista sacode a água do capote da Frelimo
dizendo :
"Desta vez ninguém poderá pretender atribuir à Frelimo" o
acto terrorista, eu levanto-me para afirmar: eu penso que foram os frelimistas
os seus autores porque foi um acto conveniente à Frelimo, e porque, tratandose
de um acto fascista, está o mesmo inserido nos seus métodos e na sua
orgânica.
É necessário não esquecer o atentado contra Guilherme da Silva
Pereira, o qual não existiu como é do conhecimento de muitas pessoas, sem
que o Notícias tenha publicado, com os mesmos caracteres vermelhos, ou de
qualquer outra cor, um desmentido para que os seus milhares de leitores
deixassem de manter-se no ódio criado pelas falsidades que publicou sobre o
assunto.
Mas se muitas pessoas conhecem a verdade, há milhares delas que a
ignoram, e é para manter esta ignorância que o fascista órgão da Frelimo
passou uma esponja sobre o caso e sem pôr os seus leitores ao corrente das
melhoras de Guilherme da Silva Pereira depois da grave doença que teria sido
produzida pelas muitas pancadas que o deixaram em coma ...
É assim o fascismo ; é assim a Frelimo ; é assim a sua imprensa. Por
isso eu grito como tenho gritado há 50 anos.
Abaixo o fascismo.! Viva a Democracia !
— 29 —
ARTIGOS QUE A IMPRENSA FASCISTA RECUSOU PUBLICAR
A seguir inserem-se os artigos que a imprensa fascista, órgão da
Frelimo, recusou publicar.
Todavia, o primeiro foi publicado em A Tribuna ; mas como neste
artigo não veio publicada a sua parte final, esta foi inserida no segundo artigo
que o mesmo jornal não quis nas suas colunas razão porque o mesmo se
transcreve agora.
PRIMEIRO ARTIGO
A NOSSA VIDA E O NOSSO FUTURO (1)
Fui o primeiro homem que a ditadura Salazariana arremessou para
mais longe da Metrópole : para Moçambique.
Até então os inconformistas eram deportados para Angola.
Vim num barco somente ocupado por deportados, quatrocentos e tal
ficaram em Luanda e nesta cidade fiquei preso enquanto se esperava outro
barco que me trouxesse para aqui.
Em Lourenço Marques fiquei e aqui casei e aqui me nasceu o
primeiro filho.
Durante os quarenta anos que aqui vivi afeiçoei-me de tal modo a
esta terra e a esta cidade que os portugueses fizeram, que nela vejo a mais
linda cidade do mundo. Não há outra igual.
Foram os portugueses que a construíram pelas suas mãos, pelos
seus cérebros e com a sua alma. Houve também braços aborígenes a construíla,
mas estes não a amalgamaram com o seu espírito nem com o seu coração.
Na concepção marxista da vida esta terra é dos portugueses porque a
terra é de quem a trabalha.
Quando os portugueses a ocuparam ela era "res nulius" porque
ninguém a habitava. Só depois da ocupação pelos portugueses é que os
aborígenes começaram a aparecer e foram chegando cada vez mais atraídos
pelas facilidades de vida que os portugueses lhe concediam, de pontos
distantes e dispersos.
Assim sucedeu nos diversos locais de Moçambique até se formar o
grande país que hoje existe.
Criámos amor à terra e aos aborígenes como nenhuma outra nação
colonizadora criou.
Durante muito tempo fomos escarnecidos pelas potêcias colonizadoras
pela importância social que os portugueses concediam aos negros,
Africanos e Indianos faziam parte da nossa vida social e política, sendo alguns
professores, magistrados, funcionários públicos graduados, deputados e até
ministros. Isto significa que Portugal era de todos e para todos.
— 30 —
Ainda em 1924, no tempo da República, o Governo de Álvaro de
Castro teve de reagir energicamente quando o governo inglês pretendeu pôr
embaraços ao recebimento do Dr. Alberto Xavier, como director-Geral da
Fazenda Pública de Portugal, por ser indiano.
Foram meus condiscípulos universitários muitos negros africanos e
indianos e todos nos tratávamos com igual camaradagem.
Mário Domingues, então jornalista da "Batalha" era meu amigo e João
de Castro, negro de S. Tomé e deputado em representação desta ilha, tomava
diariamente café comigo.
Os portugueses foram assim sempre e por isso considerávamos o
território de África e da índia como fazendo parte da nossa Nação, e os seus
naturais como cidadãos portugueses, nossos irmãos.
Foi em virtude desse sentimento que a República quis bater-se e
bateu-se mesmo, na Primeira Grande Guerra contra potências que cobiçavam
os territórios africanos que faziam parte integrante da Nação Portuguesa.
Mas sucedeu que um indivíduo que tinha o nome de António de
Oliveira Salazar se apoderou do Governo de Portugal e escravizou todo o povo
português do continente europeu e do ultramar. Durante quase cincoenta anos
todos os portugueses sem distinção de cor ou raça ficaram reduzidos a
autênticos párias.
Quando Cunha Leal como administrador do Banco de Angola,
pretendeu que a metrópole olhasse com inteligência os problemas ultramarinos
foi demitido e expulso do País. Tal indivíduo, dito Salazar, proibia que se
pretendesse fazer progredir o ultramar. Aqui, como na Metrópole, as pessoas
não tinham o direito de intervir na administração pública. Elas não podiam
escolher os seus representantes para a vida municipal, nem para o Conselho
Legislativo e ainda, quando mais tarde ele se viu forçado a arranjar um
parlamento, elas não podiam escolher os seus representantes à Assembleia
Nacional.
Isto fez com que os naturais ou residentes nas colónias se sentissem
desligados da Pátria-Mãe.
Quando Marcelo Caetano sucedeu no poder ao homem mais
pernicioso de toda a história de Portugal, não teve a coragem de desfazer-se do
passado de que ele fora em parte cúmplice e vítima, por pressão de um
mentecapto que fora o criado mais servil e abjecto do desaparecido tirano, e
resolveu proclamar a política da continuidade.
Numa carta que eu então escrevi a um amigo íntimo de Marcelo
Caetano, a qual lhe foi mostrada por aquele, mencionava eu então o erro de
uma tal política, e da necessidade que havia de ele se desfazer do imbecil que
teimava em declarar que o seu perdido senhor tinha sido o maior talento dos
últimos 200 anos.
Liberto o país do odiado tirano, o povo aclamava Marcelo Caetano por
onde este passava ; e na referida carta dizia eu que as aclamações do povo
não eram para ele Marcelo que este desconhecia dantes mas sim por se ver
livre do seu pernicioso inimigo. E acrescentava : o povo
— 31 —
aclamaria quem quer que fosse que tivesse tomado o lugar do seu pior inimigo,
na esperança de que o sucessor seria sempre, de qualquer modo menos mau
do que ele fora.
Marcelo, que lera a minha carta que nem sequer lhe fora dirigida, não
a tomou em consideração e antes seguiu a política de continuidade, de
inspiração do insignificante serventuário que os portugueses tiveram de
suportar longamente por imposição do patrão dele.
Independentemente dos crimes e dos desacertos do Santa Comba,
bastaria a humilhação feita ao povo português de o fazer aceitar como seu
representante máximo o cortador de fitas para justificar uma sublevação
nacional.
Todavia Marcelo Caetano, seguindo a política de continuidade,
mantinha essa humilhação, não fazia mais do que justificar, redobradamente a
sublevação.
SEGUNDO ARTIGO
A NOSSA VIDA E NOSSO FUTURO(2)
No meu artigo do dia 21 do corrente não veio publicado, sem culpa
deste jornal, a sua parte final que ora se transcreve :
"Esta veio de Lisboa, (sublevação) da metrópole portuguesa,
para a qual portugueses de todas as partes apelavam.
E quanto aos povos africanos e aos portugueses residentes
em terras d'África, foi esta a última vez que puderam pôr as suas
esperanças em Lisboa.
Daqui em diante, os seus anseios de liberdade e do seu
viver com direitos, não poderão ser mitigados com a esperança
na capital portuguesa.
E porquê ? Eu explico.
Porque até aqui os desatinos e desmandos das autoridades locais ou
das autoridades metropolitanas, que violassem os direitos moçambicanos ou
somente os especiais dos aborígenes, eram criticados e combatido por todos
os espíritos livres, o que sucedeu no caso das deportações para S. Tomé, no
caso da obrigatoriedade da cultura do algodão e em muitos outros quanto a
negros ; e no caso das limitações industriais quanto a negros e brancos.
Sobre direitos políticos todos sofremos : brancos e negros.
Mas todos esperávamos aqui que Lisboa libertasse a metrópole da
tirania fascista para que aqui nos libertássemos também dela e assim sucedeu.
A liberdade inundou todos os corações ; de brancos e negros.
Asseguro, pelo meu conhecimento pessoal, que os metropolitanos e
que na metrópole residem, são mais receptivos à violação dos direitos da
massa branca. E isto por suporem eles que a massa negra vive mais
desprotegida que a branca.
— 32 —
Tudo o que se disser contra isto não representa a verdade.
Lembro-me que um dia, quando eu era aluno da Faculdade de Direito
de Lisboa, fui assistir a um comício de jovens literatos contra os bonzos da
literatura, e vi levantar-se a assistência, gritando freneticamente contra um
brincalhão que fez um atchim quando apareceu no palco o meu amigo Mário
Domingues que era um dos oradores por parte dos novos.
O caso toma grande relevo quando se comparar esta atitude a favor
de um negro com as gargalhadas que a multidão soltava quando jovens
oradores brancos eram assobiados e varados por apartes, alguns até
insolentes.
A população portuguesa sempre teve um carinho especial pelos
nossos compatriotas negros.
Quando a Dr. Joana Semião repete a sua qualidade de negra para
mostrar que não usufruía os iguais direitos concedidos aos brancos, não é
exacta.
Mesmo quando ela diz que não foi aceite em certo colégio por ser
negra, deveria primeiro ter averiguado se nesse colégio entrava toda e qualquer
branca.
A descriminação que ela encontrou nesse colégio era a mesma que
encontraria uma rapariga branca que não fizesse parte da categoria social
desejável nesse colégio.
Também aqui se fala muito na cidade do caniço existente nos
arredores de Lourenço Marques como sendo um produto de discriminação por
parte do homem branco o que representa a desvirtuação da realidade.
A cidade do caniço aqui, chama-se bairro da lata em Lisboa, onde
existem vários bairros destes, os quais existem da mesma maneira em
Londres, em Paris, e em todas as cidades do mundo, e não deixarão de existir
em Lourenço Marques quando esta cidade for governada pelo homem negro.
Pois bem : quando este governar Moçambique sucederá o mesmo
que tem sucedido em todos os Estados negros : a eliminação da liberdade
individual.
Todos os governantes negros têm a mentalidade fascista, como a
tinha Salazar, nenhum deles consente o diálogo ; nenhum deles permite a
formação de partidos políticos, pois todos eles instituíram o partido único.
E quando isso suceder aqui, deixará de existir Lisboa como esperança
de resgate para brancos ou para pretos.
Carta à Tribuna
SENHOR DIRECTOR DE A TRIBUNA
No maré - magnum de preocupações e inconsciência que se seguiu à
revolução de 25 de Abril tive eu a estulta pretensão de lançar um raio de luz
que conduzisse os espíritos preocupados, à calma e consequentemente a um
bom entendimento entre todas as etnias que povoam o
— 33 —
território de Moçambique. E para isso propus-me escrever uma série de
artigos e à falta de uma boa imprensa escolhi a Tribuna para publicá-los.
O primeiro artigo que para esse jornal enviei foi publicado com
bastante atrazo devido à falta de espaço segundo aí me informaram.
O segundo que para aí enviei há mais de uma semana e que deveria
ser publicado imediatamente para que os leitores seguissem a sequência do
meu pensamento, ainda não foi publicado.
Por falta de espaço ?
Não aceito esta desculpa já que a Tribuna aparece recheada de prosa
desconexa, impertinente, perigosa, insolente, provocadora, e contrária ao
espírito da revolução.
Para prova do que digo basta citar a carta de José Baltazar da Costa
Changanga, emoldurada com o seu retrato. Na verdade trata-se de uma carta
raivosa, que apela para uma reivindita selvagem nos torpes factos que revela,
além de denotar a irresponsabilidade do seu autor.
Os factos macabros revelados na referida carta são de pôr os cabelos
em pé às pessoas, por mais calmas que elas sejam.
São verdadeiros esses factos ?
Não nos parece que o sejam, pois a falta de sincronização entre o
tempo indicado na carta e o tempo em que foram revelados por outras pessoas,
conduz-nos a crer na efabulação de fantasias para desacreditar o homem
português que, para o autor dela, é sempre o mesmo, quer seja democrata
quer seja fascista.
No entanto o referido Changonga, que se proclama o primeiro que
começou a revolução de Tete, razão porque foi preso, não menciona quaisquer
maus tratos que lhe hajam sido feitos.
Ainda o mesmo Changonga fala da República Democrática entre 1917
e 1928, o que mostra a sua irresponsabilidade naquilo que diz e escreve.
Foi pois à carta de um irresponsável que a "A Tribuna" deu o seu
espaço para não poder inserir nas suas colunas o pequeno artigo que para
publicar lhe enviei ; e isto obriga-me a pedir a V. Exa. o original que mandei
para ser publicado pois não desejo tomar o lugar aos irresponsáveis que em A
Tribuna procuram instaurar o caos e a desgraça humana.
Mas senão desejo aproveitar-me mais de A Tribuna pretendo que
nela seja publicada esta carta que dirige um apelo à autoridade portuguesa se
é que ela existe, mas que deveria ainda existir por todas as razões e mais uma.
APELO
Apelo para que a autoridade faça imediatamente um inquérito sobre
os factos mencionados na carta do Changonga, levando-o urgentemente aos
locais onde nela se indica terem sido praticados ; E que o Changonga seja
acompanhado por brancos partidários da Frelimo, com a jornalista Maria do
Céu, e negros também partidários da Frelimo, e
— 34 —
que aí, com a presença de agentes da autoridade, se proceda a rigorosas
investigações, para, concluídas estas, se proceder contra os autores, dos
crimes que se houverem por verificados ou contra o Changonga onde ele não
fizer essa prova.
Mas que isto seja tão depressa quanto possível a fim de evitar-se a
fabricação de provas falsas.
Também o Changonga deve explicar a razão por que, tendo sido
preso pelo facto gravíssimo de haver sido o primeiro que começou a revolução
de Tete, ainda tem unhas.
E isto é de admirar já que o Changonga diz que os administrativos
enforcavam os "pretos, dependurando-os do tecto" "enterravam vivos os presos
no calabouço" e "mandavam destapar o caixão e davam bofetadas nas faces
do cadáver."
E quanto à Pide diz o Changonga que os seus agentes "começavam
a amputar ao preso dedo por dedo, mãos, pés, olhos, até à morte."
É pois, pertinente a pergunta : porque é que o Changonga ainda tem
unhas ?
Que sujestão ou peita empregou para que a Pide o deixasse com
unhas ?
A Pide nunca praticou uma boa acção gratuitamente. O que foi que o
Changonga entregou à Pide para conservar incólume o seu físico durante os
seus três anos de prisão ? Tudo isto tem que ser averiguado para castigo dos
autores dos repugnantes crimes apontados, ou para castigar o Changonga se
ele não provar a realidade desses crimes.
Lourenço Marques, 27-5-74
Neves Anacleto
Artigo entregue ao Notícias
SUPREMA TRISTEZA
Os jornais de 26 de Abril de 1974 publicavam a proclamação da
Junta de Salvação Nacional na qual se dizia que esta assumia, perante o país,
o compromisso de
"Garantir a sobrevivência da Nação como pátria soberana,
no seu todo pluricontinental."
Todavia, no dia 16 de Maio do corrente, os mesmos jornais publicavam
o discurso proferido pelo General Spínola no acto da sua investidura
como Chefe do Estado, no qual foi afirmado que
"o destino do Ultramar Português terá de ser democraticamente
decidido por todos aqueles que àquela terra
chamam sua. Haverá que deixar-lhes inteira liberdade de
decisão."
— 35 —
É evidente o desacordo entre a sobrevivência da Nação como pátria
soberana, no seu todo piuricontinental, com a de consentir que a sobrevivência
com uma das partes do todo dependa da exclusiva vontade desta.
A diferença entre a garantia dada pela Junta Nacional de Salvação
Pública e a declaração de livre escolha de uma das partes, foi gerada pelas
manifestações de vontade dos homens que emergiram no tablado político nos
vinte dias que mediaram entre a primeira e a segunda declaração.
Todavia o Chefe do Estado convidou os bandos de guerrilheiros a
entrarem livremente em território português para estruturarem os seus partidos
políticos e prepararem a consciência dos cidadãos para uma independência
sem pressões acrescentando ainda que o seu regresso para uma actividade
livremente desenvolvida "será a prova cabal do seu idealismo e o mais útil
contributo para o pleno esclarecimento e a perfeita consciencialização dos
povos africanos, em ordem a uma opção final conscientemente promovida e
escrupulosamente respeitada."
Tudo isto se disse na admissão de que os guerrilheiros actuavam por
força de um idealismo isento de ambições pessoais em favor dos povos que
diziam representar.
Mas que tal idealismo não existia provaram-no os guerrilheiros com a
resposta que deram ao generoso oferecimento
Todos eles responderam que queriam a entrega total e imediata sem
condições, o que representava pura e simplesmente a rendição de um exército
que se conserva em armas sem ser vencido
Embora a resposta dos guerrilheiros fosse a prova claríssima de que
não os animava um ideal puro a favor dos povos que eles diziam oprimidos
mas sim a ambição incontida e desvairada do poder pessoal, portugueses
houve que aplaudiram a sua atitude e com esta se identificaram pelas formas
mais variadas e inconscientes.
Refluindo ao seu antigo e dezacisado Slogan de "acabe-se com a
guerra" esses portugueses repetiram-no agora, o que pressionou o nosso
governo a ordenar que as nossas tropas ensarilhassem as armas, não obstante
esses guerrilheiros gritarem alto e em bom som que os seus ataques
prosseguiriam enquanto a rendição não fosse mais real do que a própria
realidade.
E contra um exército de braços cruzados os guerrilheiros desferem os
seus golpes que não ocultam e antes os proclamam, e que muitos portugueses
atribuem a entidades imaginárias no intuito evidente de justificarem a sua
defecção de amor pátrio.
O pior de tudo isto foi o ambiente criado no meio governamental
português por aqueles que estavam previamente comprometidos com os
dirigentes dos movimentos de guerrilheiros, o que levou esses meios ao ponto
inacreditável de descerem à imploração de tréguas. E foi assim que vimos sair
da primeira sessão do Governo Provisório, directamente
— 36 —
para Dacar, o nosso ministro dos negócios externos num avião inimigo que cá
fora já o esperava para o efeito pré-combinado.
Ao mesmo tempo eram enviados emissários para toda a parte onde
quer que se encontrassem os chefes das guerrilhas, e não faltariam sondagens
aos governos que sustentavam e sustentam clara e abertamente as guerrilhas
contra a autoridade portuguesa.
A profundidade a que descemos explica que os ditadores do Congo,
da Tanzânia e da Zâmbia tenham reunido em Lusaca para escolherem o
destino a dar aos nossos territórios de Angola e Moçambique. São pois estes
ditadores que dispõem do futuro de Angola e de Moçambique, e não o povo
angolano ou o povo moçambicano, cuja livre escolha lhes é assim roubada.
Mas que chefes guerrilheiros são estes que depõem nas mãos de
estrangeiros os destinos dos povos que dizem representar ?
Quanto aos da Frelimo, que é o que mais interessa ao povo de
Moçambique, falaremos no próximo artigo.
Neves Anacleto
ÚLTIMA HORA
SINTOMÁTICO
O presente trabalho já estava na tipografia quando, em 3-7-74, o
grupo fascista que se intitula democratas de Moçambique publicou no Notícias
a sua Folha Informativa n.° 35, e nela se diz :
"a Frente Nacional de Libertação de Moçambique (Frelimo)
afirmava muito antes de se terem verificado quaisquer actos de
terrorismo fascista ou atentados no seu órgão oficial — a Voz da
Revolução — Janeiro a Abril de 1974.
"Devemos no entanto estar particularmente atentos
à multiplicação de crimes contra a população africana e
europeia que os colonialistas vão procurar atribuir à
Frelimo como já tentaram anteriormente.
E os fascistas continuam na sua folha informativa :
.. ou terá a Frelimo nas suas fileiras videntes que tão certeiramente
adivinham as intenções dos elementos reaccionários que
tentam sabotar o trabalho levado a cabo depois de 25 de Abril com
vista à Paz" ?
Se tem videntes, a Frelimo ? Pois claro que tem. Antes do 25 de Abril já esses
videntes falavam nos vários atentados que se dariam.
Isto só de videntes... Videntes à Dr. Goebels.
O nazi Dr. Goebels adivinhava os atentados a grande distância.
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Não houve no mundo uma máquina como a do Dr. Goebels. É agora a Frelimo
que está na posse dessa máquina. Muito antes dos atentados se realizarem já a
Frelimo como o Dr. Goebels da propaganda nazi, os tem no seu programa.
Quem ligou a granada explosiva ao automóvel do Dr. Pereira Leite?
Digam quem foi, senhores fascistas . . .
Digam . .. pois, já que todo o povo ficou a saber, pela vossa
confissão, a proveniência da granada.
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