quarta-feira, 10 de junho de 2015

Maria Barroso conta em livro como conseguiu o primeiro acordo de paz entre FRELIMO e RENAMO


07/03/2011

Maria Barroso, mulher do antigo Presidente Mário Soares, visitou Moçambique em 1991 e conseguiu um cessar-fogo para a zona de fronteira de Ressano Garcia, um facto que conta no livro "Viagem a Moçambique", a ser lançado quarta-feira.

Em declarações à Agência Lusa em Maputo, onde está para apresentar "Viagem a Moçambique", Maria Barroso lembrou hoje a visita aos campos de refugiados moçambicanos na África do Sul e os encontros com Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama, envolvidos numa guerra de 16 anos e que iria terminar apenas em outubro de 1992.

Tudo começou quando Maria Barroso conheceu o projeto "Masungulo", uma revista de informação para os refugiados moçambicanos que aos milhares tinham fugido da guerra entre FRELIMO e RENAMO e que viviam em condições difíceis na África do Sul, ajudados pelo padre Jean-Pierre Le Scour.


Jean-Pierre Le Scour, que na altura dirigia o Departamento dos Refugiados da Conferência Episcopal Sul-Africana, conta também a sua experiência no apoio aos moçambicanos no livro "Ao lado do rio Komati". Hoje, também à Lusa, disse que junto da fronteira estavam mais de 250 mil refugiados, sem comida e sem medicamentos.

Em junho de 1991, Maria Barroso, com o peso de ser mulher do Presidente da República de Portugal, visita os campos, emociona-se e chora, e promete ajuda (que viria ainda nesse ano).

Antes, em Maputo, reunira-se duas horas com o então Presidente Joaquim Chissano. "Disse-lhe que tinha a possibilidade de me encontrar com alguém da RENAMO e ele disse 'faça tudo quanto puder' (pela paz)".

No entanto, Maria Barroso não se encontrou com Afonso Dhlakama, líder da RENAMO, que viria a encontrar mais tarde no mesmo ano em Lisboa, exatamente na Presidência da República.

"Disse ao meu marido: ouvi dizer que vais receber o Dhlakama e se não te importas eu gostava de lhe dar uma palavrinha". Assim foi, falou com Afonso Dhlakama e marcou novo encontro para o dia seguinte.

"Tive uma discussão permanente com ele e a certa altura ele disse 'pronto, pronto (já estava farto da minha insistência), vou declarar unilateralmente Ressano Garcia uma zona de paz'".

Maria Barroso lembra que telefonou nesse mesmo dia a Joaquim Chissano a contar-lhe, e ele, disse hoje a também presidente da Fundação Pro Dignitate, garantiu que iria também mandar cessar a guerra na zona.

"Nós conseguimos que a primeira mancha de paz fosse Ressano Garcia", afirmou Maria Barroso.

"Quando hoje a comunidade Sant´Egídio, por quem tenho muita consideração, diz que foram só eles, nós fizemos modestamente uma pequena mancha de paz naquele sítio. Tivemos um papel, modesto embora, mas tivemos", disse Maria Barroso.

De resto, esse papel é reconhecido pelo cardeal de Maputo, D. Alexandre dos Santos, pelo antigo Presidente Joaquim Chissano e pelo líder do hoje maior partido da oposição RENAMO, Afonso Dhlakama, todos eles com testemunhos no livro.

A viagem a Moçambique daria também outros frutos. Em outubro, como conta no seu livro o ainda padre na África do Sul Jean-Pierre Le Scour, chegou um contentor cheio de livros e material escolar para os refugiados, e em dezembro dois aviões desembarcavam 8,5 toneladas de medicamentos em Maputo, destinadas a Ressano Garcia (a uma hora por estrada da capital). A paz total seria assinada em outubro do ano seguinte.

FP.

Lusa – 28.02.2011

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