domingo, 23 de junho de 2013

Renamo regressa ao banditismo armado

Dois mortos e quatro feridos é o balanço de quatro ataques a viaturas desencadeados por homens armados da Renamo, na manhã da última sexta-feira, ao longo da Estrada Nacional Número 1
 (EN1), a cerca de 80 quilómetros da sede do posto administrativo de Muxungue, distrito de Chibabava, província de Sofala.
Na altura, foram incendiadas duas viaturas, sendo um camião e um veículo ligeiro, para além de outras danificadas.
Uma das vítimas mortais, um motorista, ficou carbonizada num camião cisterna, depois de ter sido ateado fogo pelos bandidos, enquanto a outra, um ajudante da mesma viatura, encontrou a morte, depois de ter sido baleado e queimado.
Em relação aos quatro feridos, dois eram ocupantes duma viatura de carga pertencente à empresa TCO e  os restantes eram ocupantes da camioneta incendiada.
Dois dos feridos encontram-se em estado grave e foram transferidos para o Hospital Central da Beira (HCB). Uma continua internada no Hospital Rural de Muxungue e outro recebeu tratamento ambulatório e regressou para casa.
Uma das vítimas de baleamento, Mónica Samuel Malate, em contacto com a nossa Reportagem, no Hospital Rural de Muxungue, contou que seguia viagem num camião que vinha atrás dum machimbombo. Chegados ao local do ataque, os homens armados abriram fogo contra o autocarro de passageiros, tendo danificado a parte das janelas do veículo. Depois, foi a vez da viatura onde ela se encontrava. O motorista saltou e pôs-se em fuga. 
"Quando o motorista saltou, fiquei sozinha. O carro despistou e foi chocar-se contra uma árvore, onde ficou imobilizado. Sai a correr e eles a dispararem. Fui atingida na testa. Cai numa mata e escondi-me. Momentos depois, levantei-me e comecei novamente a correr. Nessa altura, vinha outro terceiro carro, ao invés de continuarem a perseguir-me, voltaram as atenções para a viatura que vinha. Eu continuei a andar pela mata até que ouvi o ruído dum outro carro que ia em direcção ao rio Save, sai até à estrada e abri a minha capulana que já estava ensanguentada. Pararam para me socorrer. Eu disse-lhes que havia bandidos lá em frente. Foi quando o motorista virou o carro e levou-me ao hospital", disse Mónica Malate.
Informações em poder do nosso jornal indicam que os ataques aconteceram de forma sequenciada. O primeiro ocorreu por volta das cinco horas da manhã e o último aconteceu às 8 horas. A partir daquele momento, a circulação rodoviária de Muxungué para Save e vice-versa ficou condicionada. Só é possível durante o dia e acompanhada por escolta policial altamente equipada com viaturas e outro material de guerra. Esta medida visa garantir a segurança rodoviária e tem estado a provocar congestionamento nos dois lados extremos do troço, em Muxungué, e no rio Save.
Na manhã de ontem, cerca de 300 viaturas estavam estacionadas na sede do posto administrativo de Muxungué à espera da primeira escolta até ao rio Save. O mesmo acontecia do rio Save para Muxungué.
Entretanto, por volta das três horas de madrugada de sábado, a Policia da Republica de Moçambique (PRM), deteve um suposto espião da Renamo, enviado para reconhecer o Comando da Policia do posto administrativo de Muxungué. Informações em nosso poder indicam que o indivíduo foi capturado no recinto daquela unidade polícial, quando pretendia colher informações sobre o esquema do funcionamento do comando. A Policia está a trabalhar no sentido de apurar a veracidade dos factos e continuam investigações sobre a proveniência do cidadão.  
 
Doentes abandonam hospital
Durante a nossa presença em Muxungué, ficamos a saber que parte dos pacientes internados no Hospital Rural local, está a abandonar as enfermarias, dirigindo-se às respectivas casas, temendo uma acção dos bandidos. Um dos enfermeiros que trabalha naquela unidade sanitária, que entretanto pediu anonimato, disse que os doentes desaparecem sem dar satisfação. Quando são interpelados pelos funcionários do hospital, alegam preferir morrer em casa ao invés de serem assassinados na enfermaria. Aquela fonte explicou que quando é assim nada se pode fazer, porque é a vontade dos pacientes.
"Muitos estão a sair. Não informam que vão para casa. Saem um de cada vez. Quando passamos, na hora de medicação, notámos estas ausências. Quando perguntamos aos outros, dizem-nos que fugiram guerra. Lamentamos, porque eles vão sem medicamentos. Ao menos que nos informassem para entregarmos algumas doses para tomarem em casa”, disse o enfermeiro.  
Para além do hospital, situação similar regista-se nas escolas. Parte dos alunos já não vão à escola. Uns por conselhos dos próprios pais e encarregados de educação, outros porque simplesmente estão com medo de serem surpreendidos pelos homens armados na sala de aula. Apesar da aparente tranquilidade que se observa em Muxungué e a vontade dos professores continuarem firmes na sua tarefa de educar, as escolas estão vazias, facto que pode contribuir para o fraco aproveitamento pelágico no presente ano lectivo.
 
Muxungué em estranho silêncio
Muxungué ganhou outrora a fama de ser uma das zonas mais movimentadas. Primeiro, por ser habitada por cidadãos que constantemente emigram para a vizinha República da África de Sul, e segundo, por ser um local de comércio abundante. Os maiores produtores de ananás de primeira qualidade, ali se encontram. A bem pouco tempo, ali era paragem obrigatória para quem passasse pela EN1. O movimento estendia-se até ao período nocturno. Hoje virou um local pouco aprazível. A vida transformou-o num autêntico "inferno". Durante o dia, tudo parece normal, mas a partir das 19 horas, quando cai a noite, cai ali também um silêncio assustador. Cada um tenta estar ao lado da sua família, não vá o diabo tecê-las. Pelas ruas, apenas se vê o movimento de polícias e soldados a patrulhar a área.
Zacarias Joaquim, residente em Muxungué, disse ao nosso jornal que quando anoitece, as pessoas não podem fazer nada, senão ficar em casa atentos ao eventuais ataques dos bandidos. Mesmo o transporte de pessoas e bens de e para Muxungué já não acontece frequentemente. Isto, segundo ele retarda, o desenvolvimento da região. 
"Estávamos habituados a viajar a qualquer momento. Hoje tudo mudou. Para se chegar a esta zona, temos de depender da presença militar. Isso não ajuda, porque havemos de regredir, depois de  muito tempo de desenvolvimento. O Governo juntamente com a Renamo deve resolver definitivamente o problema. Não podemos deixar que isso continue a acontecer. As nossas crianças querem ir à escola, as pessoas querem trabalhar, mas com esses problemas não e possível", disse Zacarias Joaquim
Outra cidadã, Maria Francisca, comerciante e moradora em Muxungué referiu não ver a razão de o país voltar à guerra, numa altura em que estamos em paz há sensivelmente 21 anos. Na sua opinião, o diálogo é fundamental para ultrapassar o conflito.
"A guerra não ajuda, pelo contrário destrói  tudo o que  foi construído com muito sacrifício. Estamos a desenvolver, ao invés de pensarmos em guerra, a Renamo deve encontrar outra maneira de acabar com as diferenças. Nós estamos a fazer negócios. Veja que hoje não podemos ir para nenhuma parte à vontade. Durante a noite, as pessoas não podem conviver. É um cenário difícil, pior para os osso filhos que agora estão impossibilitados de frequentarem a escola", disse Maria Francisca.
 
Estou muito agastado
Ernesto Nantumbo, viajante, disse estar agastado com a situação, uma vez que “não queremos a guerra. Estou a viajar para Maputo. Pensei que estaria lá ontem (sexta feira última). Quando cheguei aqui por volta das 17 horas, disseram que não podíamos viajar porque só seria possível com escolta. Como era noite, dormimos aqui. Os nossos programas ficaram comprometidos. Não sabemos o que vai acontecer nos próximos dias. Sinceramente, as partes devem entender-se, porque quem sofre nisso, somos nós”.
 
Domingos Boaventura
mingooav@yahoo.com.br Este endereçod e email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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