quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O fenómeno “desespero” no discurso de Guebuza


by Matias De Jesus Júnior on Monday, 5 March 2012 at 12:11 ·


O Presidente da República Armando Guebuza esteve no chamado III Comité Central da Organização da Juventude Moçambicana (OJM- o braço juvenil do partido que tem estado no poder há mais de 37 anos, a Frelimo), onde proferiu um discurso quanto a nós desfasado se tivermos em conta a audiência – jovens. Tal como sabemos, não é o PR quem faz os discursos que são lidos pelo país a fora. São os assessores que trazem a sua visão que é reproduzida pelo PR. Raras vezes o PR fala em voz própria. Já tivemos oportunidade de ouvir o PR em várias circunstâncias, sendo nas presidências abertas um dos poucos fóruns onde Guebuza é o sujeito enunciador do seu próprio discurso. Isso porque neste fórum são levantadas questões de reacção imediatas, não existindo espaço para os assessores trazerem, a sua quanto a nós, estática e reprodutiva visão. A prova disso é que nas poucas vezes em que o PR falou em voz própria criou polémica porque disse o que pensava. Vamos a exemplos mais recente. Mas antes convém esclarecer que é convicção nossa de que o actual PR já deu provas mais do que suficientes da sua aversão à crítica.

No ano passado, na província de Tete Guebuza criou um discurso pessoal e resvalou em insultos. De lá saíram termos como “preguiçosos”, “tagarelas” para adjectivar aos que criticam a sua Governação. Neste ano em plena comemoração dos 50 anos do Movimento de libertação de Moçambique, Guebuza voltou a improvisar e regra geral entrou em insultos. Chamou até de “marginais” e desprovidos de “auto-estima” aos que criticam a sua Governação.

O pequeno exercício que acima fizemos vai nos ajudar a compreender o último discurso de Guebuza, sob as perspectivas de Michel Foucault (será o nosso principal ponto de referência) de condições de emergência do próprio discurso, o Campo de Memória e da presença, e lógica da diferença e a lógica da equivalência. Vamos cingir-nos a estes três itens que achamos suficientes para concluir se o discurso de Guebuza foi bom ou mau. Para tal vamos aqui colocar alguns excertos do discurso de Guebuza. Alguns excertos por uma questão de racionalização do espaço.

Eis a seguir:
  1. 1. Hoje, a esmagadora maioria dos integrantes da Geração da Viragem, a geração que, com o seu talento e mãos dextras, demonstra que a pobreza pode, está e vai ser vencida em Moçambique é também constituída por jovens, como os que estão filiados nesta organização da nossa gloriosa FRELIMO. São jovens que, inspirando-se nas vitórias do passado, se empenham em construir o bem-estar para o nosso maravilhoso Povo e para si próprios.
  2. 2. Desde a sua fundação, e ao longo destes anos todos, a OJM tem sido uma importante forja e fonte de quadros para a nossa gloriosa FRELIMO e para o Estado Moçambicano. Tem, sobretudo, sido o palco de preparação ideológica dos herdeiros da Geração do 25 de Setembro.
  3. 3. Os nossos jovens têm dado uma valiosa contribuição na organização, realização e participação em eventos de celebração destas cinco décadas de uma história de muitas honras e glórias. Estas celebrações estão a ter lugar em paralelo e como parte integrante da preparação do Décimo Congresso, evento a ter lugar em Pemba, de 23 a 28 de Setembro deste ano. Trata-se de uma preparação que comporta duas vertentes. Por um lado, temos o estudo das teses e, por outro, as eleições internas.
  4. 4. A juventude moçambicana enfrenta novos desafios e a OJM tem um papel de relevo a desempenhar, com serenidade, responsabilidade, maturidade e criatividade, para a sua superação. Vamos fazer referência a alguns desses desafios.

Os jovens que nasceram depois do hastear da nossa bandeira de liberdade, em 1975, não sentiram na carne a opressão que a dominação estrangeira infligia aos moçambicanos. Com a distância do tempo, alguns podem assumir que a independência chegaria a Moçambique, mais dia, menos dia, correndo, deste modo, o risco de desvalorizarem os indescritíveis sacrifícios consentidos pelo nosso Povo para a sua conquista. Podem até transformar-se em terreno fértil para o discurso que procura culpabilizar os libertadores da Pátria por terem ousado lutar e, sobretudo, por terem ousado derrotar uma formidável máquina de guerra colonial.
Os jovens que nasceram depois dos Acordos de Roma, de 1992, têm estado a desfrutar da Paz e reconciliação na Nação Moçambicana há 20 anos. Neste ambiente, podem assumir a paz como um dado adquirido e não darem o seu melhor para a consolidar, em cada palavra, em cada acto do seu dia-a-dia.
Em terceiro lugar, alguns dos jovens que se beneficiam dos avanços sociais e económicos na Nação Moçambicana podem não se recordar de olhar para traz para, com orgulho e sentimento de realização, identificarem as carências do passado que vencemos. Podem assim correr o risco de se concentrarem apenas nas dificuldades do presente e, pior ainda, ficarem à espera apenas de soluções de terceiros.
Com efeito, graças a esta nova realidade temos jovens que prosperam na área de consultoria e de recrutamento de mão-de-obra, bem assim como provedores de outros serviços sendo o fornecimento de alimentos, a recreação e lazer e a alfaiataria, higiene e limpeza exemplos dignos de realce.
  1. 5. Por exemplo, da entrega dos obreiros da nossa nacionalidade tiramos a lição de que ninguém empreende apenas a pensar em si. O Presidente Eduardo Mondlane não se engajou na luta apenas para libertar a sua aldeia de Nwajahane. Ele estava consciente de que libertando Moçambique libertaria a sua aldeia natal.

  1. 6. Reconhecemos os avanços que alcançamos na busca de soluções para a habitação e casa condigna, para o emprego e ocupação para os jovens e outras faixas etárias da sociedade moçambicana.
  2. 7. A OJM, a maior e mais antiga organização juvenil moçambicana, tem a nobre missão de mobilizar, enquadrar e orientar os jovens nesta missão de luta contra a pobreza.
  3. 8. Não é por acaso que em cada um de vós vemos a Seiva da Nação, como diria o saudoso Presidente Samora Machel. A seiva alimenta a planta. A seiva faz crescer e desenvolver a planta. É graças aos processos que a seiva induz que a planta dá flores e frutos”.
Van Dijk (2002) esclarece que mais do que qualquer outro, o discurso político incorpora a história e a estrutura do campo em que se inscreve. Discurso de acção, que tem por objectivo agir sobre a realidade social, ele é um elemento central nas lutas que os agentes políticos desenvolvem para manterem ou acederem a posições de poder. Ao mesmo tempo, porque a eficácia do discurso político depende em grande medida da legitimidade que lhe é reconhecida, é também discurso de legitimação. Foucault acrescenta afirmando que não basta discursar: é preciso que a audiência lhe leve a sério. E para tal, é preciso que o discurso não de convicções persuasivas, mas sim ideal (o que não trata de alucinações e inverdades).
A primeira parte do discurso refere-se a Geração da Viragem como talentosa e que acredita que a pobreza será vencida. Mas a geração da viragem é antes, a dos reprodutores do discurso dos progenitores da própria viragem. Nenhum jovem é da Geração da Viragem sem necessariamente ser da Frelimo (partimos do pressupostos de que esta nomenclatura passou de uma explicação dentro do partido e veio cá fora). Em que espaço poderemos colocar os que não se identificam com a viragem sendo eles talentosos e “acérrimos combatentes da pobreza”? Na verdade pretende-se aqui retirar a qualidade de talentoso e combatente da pobreza aos que não se viraram perante a viragem.
O segundo parágrafo faz referência à OJM como fonte IMPORTANTE de quadros para o Estado Moçambicano. Interessante! Sem necessariamente entrar para o debate da partidarização ou não das oportunidades que o Estado de todos Nós oferece, o excerto é por si elucidativo. Ou seja numa questão de carência a OJM é fonte primária. O discurso sairia com belo efeito se o cidadão Armando Guebuza fosse apenas presidente do partido. Mas é o Presidente da República. Presidente da juventude da Renamo, do MDM, do PIMO, do PT e por aí fora. O que dirão os outros jovens que não são do OJM e que aspiram entrar no Estado, em relação a si senhor Presidente? Aqui o Presidente revela-se a fonte da exclusão.
O terceiro parágrafo é mais elucidativo em relação ao verdadeiro papel a que o partido Frelimo relegou a juventude: a de organizadores e mobilizadores para eventos de natureza estranha à agenda real da juventude. Aliás não fique surpreendido senhor presidente com a proliferação de jovens “promotores de espectáculos e organizadores de Festas de Cervejas”. São resultado da concepção da juventude como angariadores de clientes e mobilizadores. Fica logo claro que a juventude não participou e nem participa na elaboração de política alguma.
Alongamos o quarto parágrafo propositadamente por uma questão de sequência e corpo discursivo. Vamos analisa-lo assim longo como está, para podermos entender o fenómeno Foucaultiano de lógica da diferença e da equivalência. Trata-se da lógica da sofisticação da construção de sentidos através da diferenciação para depois estabelecer possíveis equivalências. Ora vejamos: no quarto parágrafo (o longo), Guebuza de forma interessante divide os críticos ao seu regime em três gerações: a primeira é a dos que nasceram no período pós independência (esta geração tem como característica, segundo Guebuza, desvalorização do esforço dos combatentes). A segunda geração é a dos nasceram depois da guerra civil (esta geração, segundo Guebuza nada faz para manter o espírito da paz). A terceira e última é geração que segundo o discurso nasceu no período dos avanços sociais. Esta geração para Guebuza só reclama e quer soluções vindas de terceiros. Nota-se pois que Guebuza divide aqui para depois juntar todos num único saco de ingratos e críticos, criando assim um denominador comum ou equivalente, ou seja todos não respeitam a história feita pelos antigos combatentes (ele incluso). Só que Foucault fala de sofisticação das diferenças. É esta que trai Guebuza na sua perigosa generalização. A sofisticação tem a ver com elementos que visam melhorar a apreciação ou análise. Vamos recorrer a um exemplo clássico de explicação deste fenómeno: no processo da aprendizagem uma criança conhece o livro como um aglomerado de folhas agrafadas (com escrita ou não). Durante a sua convivência a criança vai aprendendo que nem tudo agrafado é livro. Existe o caderno, o bloco, uma ficha e por aí fora. Mas todos são folhas agrafadas. Ora Guebuza convencionou que os apóstolos da desgraça (marginais, tagarelas, intriguistas, desprovidos de auto-estima) são aqueles que o não querem ver no poder. Guebuza não foi diferenciando com o andar do tempo. Ou seja não compreendeu que os críticos podem ser até aqueles que não têm sede de poder, mas aqueles que querem ver as coisas a andar, o País a melhorar mesmo estando ele no poder. Não entendeu que há académicos que se estão nas tintas para os cargos ou tachos políticos, mas querem contribuir para o desenvolvimento do País. Para Guebuza todos eles são livros não havendo cadernos, blocos nem fichas.
Ainda no mesmo parágrafo, o longo, pode-se notar que a única marca que existe em termos de discurso político é a procura de legitimação e consolidação do poder, ao trazer insígnias de libertadores para criar medo e respeito. Termos como INDESCRITÍVEIS SACRIFÍCIOS, LIBERTADORES DA PÁTRIA, OUSADO LUTAR, OUSADO DERROTAR UMA FORMIDÁVEL MÁQUINA DE GUERRA COLONIAL são chamados a colação como tocha se legitimação de um direito para os que actualmente estão no poder. Nada mais clássico que o chamado acoplamento de acontecimentos. Na obra “Em defesa da sociedade”, Foucault (2000) descreve o seu método de “genealogia do poder”, como um acoplamento de acontecimentos eruditos e das memórias, permitindo a constituição de um saber histórico de luta com interpretação unitária e coerciva. Ou seja Guebuza e outros combatentes têm o direito de estar no poder e que qualquer exercício mental contrário a esta concepção será tido como de ingratidão e de perturbação mental e consequentemente digno de isolamento. Aliás o mesmo Foucault deixa isso muito claro quando diz que a “fabricação” de delinquentes ocorre com o aparente fracasso da inculcação de verdades contestadas. Trata-se de uma forma de punir o “infractor”.

No parágrafo cinco e oito estão presentes dos campos de memória e presença conjugados na intertextualidade. É nada mais nada menos que buscar citações e exemplos memoriais para legitimar o que se está a dizer. Samora e Mondlane constituem-se em presença e memória. Mas numa altura de dificuldades que também têm memórias por serem antigas a este chamamento a memória pode ser de “entretenimento” ou seja recorrentemente repetido para não falar do que a audiêncoa gostaria de ouvir. Os jovens (incluindo os da viragem da Frelimo) querem saber do emprego, da habitação e de oportunidades e não da história, pois já ouviram o suficiente sobre a história e de forma uníssona. Corre-se aqui o risco de um dia questionar-se a cansativa repetição.

No parágrafo sexto acontece o que vamos chamar de “cúmulo do não domínio da elaboração do discurso”. Acontece a auto-elevação do sujeito enunciante do discurso numa altura em os jovens questionam o que se está a ser feito em prol destes. Longe de se identificar com as dificuldades o Presidente eleva o “nada”. Vamos clarificar: está claro que não há obra digna do nome em prol da juventude, pelo que o recomendável seria é o “assujeitamento” defendido por Foucault, como a identificação do sujeito enunciante com o problema em análise. Longe disso, o Presidente fala de obra feita que na verdade é questionável.

No parágrafo sete é mesmo uma questão de inverdade e falta de conhecimento. A OJM não é a maior organização Juvenil de Moçambique. A organização com este título chama-se Conselho Nacional da Juventude onde a própria OJM está filiada e controla. A maior organização juvenil chama-se CNJ porque congrega teoricamente os jovens da Frelimo, Renamo, MDM, outros partidos e até apartidários.
Concluímos o presente “paper” com sérias dificuldades de encontrar as condições de emergência em que é produzido o discurso lido pelo PR. Isso porque entendemos as condições de emergência de discurso tal como define Céli Jardim Pinto em “elementos para uma análise de discurso político” como os fenómenos que permitem a existência de um determinado, ou seja o que faz com que um discurso tenha sentido e seja aplaudido num determinado fórum, tal como foi aplaudido o discurso de Guebuza. Há talvez hipóteses a serem levados em conta, como a instrução dos jovens da OJM, a forte carga ideológica e o seguidismo, a falta de cultura contestatária e por aí fora. Nesta desorganização discursiva toda, quem tem estado a ganhar espaço é o fenómeno desespero! Um desespero de descontrolo da situação política, explicado pelos recorrentes insultos e adjectivações e ameaças de isolamento. Sendo o PR o garante da estabilidade questionamos o que será de nós se o PR e seus assessores mostram desespero? Se Faucault diz que não basta apenas discursar, é preciso ser lavado a sério gostaríamos de alertar a assessoria do PR que há muitos que não levam a sério os discursos do Chefe do Estado, por razões que referimos anteriormente. É hora de mudança!

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