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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Moçambique, terra queimada (i)

Escrito por Jorge Pereira Jardim


Preâmbulo liceal

Natural de Lisboa, Jorge Pereira Jardim chegou a ser denominado o “Lawrence de África”. De facto, aprendeu, durante 22 anos, a “sentir e pensar Moçambique” segundo as mais variadas facetas da sua admirável personalidade, entre as quais se contam a de agrónomo, soldado e diplomata, assim como a de jornalista, piloto aviador e pára-quedista. É hoje, pelo menos para as novas gerações, uma figura praticamente desconhecida em Portugal, quanto mais não seja por ter denunciado em Moçambique, Terra Queimada, os aspectos e os acontecimentos mais sinistros que deram lugar, por via do “processo revolucionário” do pós-25 de Abril de 74, à tão propalada e propagandeada descolonização “exemplar”.

Não admira, pois, que na altura tenha sido apresentado na imprensa nacional e internacional como um homem altamente perigoso, tendo inclusivamente, qual animal a abater, sido perseguido em Portugal sob as instruções de Costa Gomes, mais particularmente em Lisboa, de onde, refugiado na embaixada do Malawi, ensaia uma das mais espectaculares fugas cujo relato, feito pelo próprio, o Liceu não deixará, certamente, de assinalar e dar a conhecer.

Além disso, Jorge Jardim foi também colaborador íntimo de Salazar, mantendo, com aprovação e conhecimento de causa do estadista português, cordiais relações no contexto da África Austral, nomeadamente com o presidente Hastings Kamuzu Banda, do Malawi (1966-1994), e com Kenneth David Kaunda, primeiro presidente da Zâmbia (1964-1991). Não deixa, portanto, de ser pertinente e altamente esclarecedora a liberdade de movimentos com que Jorge Jardim actuaria e realizaria a sua missão no sentido de encontrar uma solução política para a província de Moçambique, conforme, aliás, testemunha o Programa de Lusaka (nascido a 12 de Setembro de 1973) que Jardim tão cuidadosamente tratara de conceber em colaboração com os presidentes da Zâmbia e do Malawi. O autor de Moçambique, Terra Queimada, desconstrói assim, por inteiro, a tese do imobilismo que os historiadores de ontem e de hoje vêm falsamente construindo em torno da política nacional e ultramarina de Oliveira Salazar.

De facto, quem deseje compreender o plano premeditado de feição marxista e revolucionária que incendiou o Ultramar português, deve, antes de mais, começar por valorizar os testemunhos directos e de boa-fé de todos os que procuraram, sincera e patrioticamente, encontrar os meios de salvaguardar a Comunidade Lusíada firmada na unidade supra-nacional dos povos de língua e de cultura portuguesa. Ora, Jorge Jardim foi um desses patriotas cuja missão de outrora esclarece e contribui muito mais para a compreensão de um ciclo histórico do que as dezenas ou as centenas de teses universitárias já ideologicamente condicionadas pela historiografia oficial. E tanto assim é que os livros, especialmente os que revelem conteúdo idêntico ao de Jorge Jardim, já praticamente não se encontram à venda nos supermercados livreiros, como seria de esperar.

Mas há, felizmente, quem ainda os tenha. A verdade, contudo, não tem pressa, se bem que já tarde em vir. Em todo o caso, contribuiremos aqui com a divulgação de algumas passagens de Moçambique, Terra Queimada, título, aliás, que desmente logo à partida não ter sido a revolução comunista de 74 tão incruenta e sanguinária como políticos, jornalistas e universitários pretendem fazer crer perante um povo politicamente refém do socialismo triunfante.

Miguel Bruno Duarte


As todos os que morreram por Moçambique
A queimada africana é imparável e assustadora.

Começa no capim seco que arde em altas labaredas. Corre veloz quando o vento sopra em seu favor. Domina os tandos e assalta as florestas, galgando a encosta das montanhas.

A queimada, esse festival africano do fogo, prolonga-se durante dias e chega a durar semanas.

Vista de longe, pela noite, engana facilmente os olhos pouco afeitos em reconhecê-la. Toma contornos aparentes de grande cidade e parece pontuar sobre a terra a presença civilizadora do homem.

Na verdade, porém, é quase sempre consequência de descuido ou fruto de hábitos ancestrais mantidos em tradição milenária.

É bela na sua corrida infatigável. É terrível na força que desencadeia.

As árvores torcem-se, os animais fogem quanto podem e o fumo eleva-se em barreira que tolda a vista e sufoca a garganta.

Mas por muito que alastre e por mais alto que se erga, acaba sempre por extinguir-se. Os homens é que raro sabem como dominá-la.

Só os mais velhos, donos da Ciência aprendida no mato, a encaram sem temor. Esses sabem que a queimada tem força que não dura. Brilha e queima, mas apaga-se.

Depois, surgem mais fecundas as machambas naquela terra que oculta tesouros. O capim tenro nasce viçoso quando as cinzas se dispersam ao primeiro golpe de vento e regressa nova vida no ciclo infindável que prossegue. Até as árvores rejuvenescem libertas dos ramos secos e inúteis que o fogo carbonizou.

É assim. Foi sempre assim. E continuará a ser sempre assim a grande queimada africana.

Só há perigo e se joga o drama, quando homens que vêm de longe (e por isso se consideram mais civilizados) ateiam o fogo para desvendarem a selva que desconhecem ou para se protegerem dos medos que os assaltam.

No reflectir nocturno dos olhos da gazela julgam adivinhar a proximidade agressiva do leão. Fazem crepitar o lume, que não dominam, e depois assustam-se quando a África lhes responde com a força mágica que desencadearam.

Então, até a terra arde.

Julgando tudo saberem, só por nada terem aprendido, esses homens sem cor assistem impotentes à destruição que provocaram. Não acertam em entender de que lado está o vento e tudo tentam explicar, desculpando-se confusamente para fugirem apressados do braseiro.

Atrás deles deixam a terra queimada e abandonam as vítimas inocentes que a surpresa apanhou desprevenidas.

Essa grande queimada, feita fora do tempo, nada tem de africana mesmo quando em África a ateiam. Dessa, até os sábios velhos do mato têm medo. Essa queima as raízes, faz arder a terra e não permite que o capim espontâneo volte a brotar.

Quem ali viveu intensamente longos anos, a ali deixou a alma presa ao feitiço que inegavelmente existe, não pode esquecer a imagem dessa grande queimada de descolonização que não foi mais do que fogo posto por mãos ignorantes e criminosas. Mãos de gente que não pertencia à África.

Mas as dores tiveram de ser sofridas, sem culpa, pelos africanos de todas as raças atingidas pela mais monstruosa traição que naquelas terras se conheceu.

Essa queimada, desencadeada por incendiários, também acabará por apagar-se.

Na história que os velhos irão repetir, em torno da fogueira que em cada noite se renova, ficará apenas a lembrança dessa horrível tragédia.

Lição para todos à custa do sofrimento de tantos. Lição para os jovens aprenderem e para os filhos deles ensinarem.

Os velhos, os jovens e os filhos que haverão de nascer, têm de recordar (para que isso não possa voltar a acontecer) que os homens que atiçaram essa queimada não tinham cor que os distinguisse. Mas sempre repetirão que não eram homens de África.

Dispersas as cinzas, reparadas as destruições e revolvida a terra queimada, nela voltará a reverdecer a vida que nem os séculos puderam abafar. Os homens serão capazes de encontrar a felicidade que ambicionavam. Em novos horizontes, em novas fórmulas de convívio e sempre no autêntico estilo africano. Mesmo sobre as ruínas. Mesmo sobre a terra queimada.

O chão fecundo, as florestas centenárias, os rios sem margens e o oceano de mil cores esperarão amorosamente as gentes que se foram para que de novo venham unir-se às gentes que ficaram.

E todos juntos reconstruirão a África Nova.

Creio que assim haverá de ser, sem que ninguém atente na cor da pele para melhor se ver a cor da alma.

Em África tudo tem cor mas nada tem uma só cor. Nem os rios, nem as montanhas, nem o mar, nem os animais da selva, nem as terras e nem os homens.

Só o céu conserva sempre o mesmo azul ainda quando nuvens passageiras o ocultem.

Para esse insondável infinito se erguem os olhos esperançados, buscando nele alívio para o drama deixado por homens que de África nada sabiam.

Homens que fizeram de Moçambique a terra queimada que tardará anos em voltar a ser fecunda.

Homens que a África terá de esquecer para, depois, lhes poder perdoar.


Todos têm o direito de saber

Não foram poucas as vezes em que, ao longo dos anos, muitos insistiram comigo para que publicasse as minhas "memórias".

Penso que tais solicitações, amigas ou curiosas, resultavam, sobretudo, do conhecimento impreciso sobre missões que desempenhei com certa auréola de aventureirismo triunfante.

Nunca me aprestei a satisfazer aquele interesse que tinha de aceitar ser justificado pelas referências surgidas quanto à minha presença nos acontecimentos do Congo (hoje Zaire) em 1959 e 1960, à participação que tive na guerra de Angola, às deslocações a Goa antes e depois da ocupação indiana, às tentativas de aproximação com Moscovo e Peking, à intervenção activa nas operações em Moçambique, à ligação com os acontecimentos decorrentes da declaração da independência rodesiana (com as minhas qualificadas visitas a Ian Smith, Verwoerd e Vorster), aos contactos de alto nível com o Malawi, a Zâmbia e outros países africanos, bem como aos esforços realizados para entravar, ou combater, a agressividade da Tanzânia.

Conhecia-se, por outro lado, a minha íntima relação com o Presidente Salazar que me confiara tarefas melindrosas e supunha-se a existência de "segredos de Estado" cuidadosamente protegidos, em que me pertenceria a aliciante missão de "agente especial".

Furtei-me sempre a divulgar as minhas recordações e consegui, mesmo, iludir a insistência incómoda dos meios de informação internacionais que me dispensavam interesse partilhado por alguns orgãos da imprensa portuguesa.

(...) Ocorreram entretanto, acontecimentos dramáticos na vida nacional que me forçaram a rever aquela firme determinação que tinha mantido contra todas as solicitações.

Por tal forma as realidades têm aparecido distorcidas, e de tal modo tem alastrado a poluição informativa, que entendi ser menos próprio conservar silêncio só pela comodidade de não provocar novas reacções por parte daqueles para quem a revelação da verdade possa tornar-se desagradável, acrescendo desse modo os riscos que tenho tido de enfrentar.

Aconteceu, ainda, que as poucas tentativas que realizei para repor a exactidão dos factos depararam com estranha muralha de silêncio na "livre" imprensa portuguesa das mais diversas tendências, para já não falar na comprometida indiferença dos departamentos oficiais.

Confrontei, pois, em sério exame de consciência, a admissível obrigação de guardar segredo daquilo que conheço, com o dever moral, imperioso, de revelar o que a maioria ainda hoje ignora e todos têm, hoje, o direito de saber.

Feita a minha opção, com a serenidade que tenho conseguido manter nestes dois anos em que tantas perseguições sofri, não me foi fácil estabelecer critérios quanto à forma de apresentar mais convenientemente os assuntos.

Nunca pensei ser tão absorvente e tão moroso, o trabalho de ordenar, seleccionar e utilizar os papéis acumulados em tantos anos. Tive mesmo de me isolar em lugar tranquilo para conseguir levar a cabo essa tarefa e para que o resultado pudesse ser honesto e apresentar alguma utilidade.

No meio de tudo isto até aconteceu que vulgares ladrões me roubaram, por duas vezes, documentos e rascunhos, tentando a habitual "chantage" acompanhada das clássicas ameaças. Claro que se acobertaram sob a capa de intenções políticas e certamente que não foi a primeira vez, como também não será a última, em que a política serviu de capa a ladrões.

Mas quem não teve medo das emboscadas no mato, não se iria impressionar com a hipótese de enfrentar gatunos na volta de qualquer esquina.

O certo é que em nada me prejudicaram porque os documentos já estavam prudentemente microfilmados, a bom recato, e, por isso, posso agora reproduzi-los. Quanto aos "segredos" que pensassem descobrir irão encontrá-los, divulgados, nos livros que publicarei.

Na imagem: Jorge Jardim

Refiro este incidente porque ele mais me determinou a revelar a verdade que, afinal, parece serem muitos a recear. Não tive dificuldades em identificar a origem do roubo e isso veio libertar-me de algumas limitações que sobre mim poderiam pesar.

Na impossibilidade de tudo condensar num único livro, e de neste seguir ordem cronológica em que os assuntos se encavalitariam, preferi agrupar estas revelações numa curta série editorial em que os problemas possam individualizar-se melhor, com mais claro seguimento.

Dei compreensível prioridade ao caso da descolonização de Moçambique a que este primeiro livro é dedicado.

(...) Neste quadro se inserem muitos aspectos inéditos da vida nacional em que projecta a figura de estadista de Salazar que a mediocridade e o ódio, tentam hoje denegrir. A sua esclarecida visão dos problemas e a capacidade para se adaptar às realidades, creio que ficarão patentes, destruindo a tese do imobilismo atrofiador que em seu torno se procurou tecer.

Admito que nessa análise me possa influenciar a devotada admiração que a Salazar dediquei e se forjou ao longo de mais de vinte anos de estreita colaboração de que nasceu uma íntima amizade. Mas os documentos e testemunhos que possuo, julgo serem objectivamente irrespondíveis e reflectem a sua verdadeira imagem humana e política.

Tudo será publicado a seu tempo. E sem tardança.

Para já, ocupar-me-ei, neste livro, do triste e covarde abandono de Moçambique (in Moçambique, Terra Queimada, Editorial Intervenção, 1976, pp. 11-20).

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